Dorian Gray - My Sweet Demon
19 O Retrato de Dorian Gray
Notas iniciais
Os dias foram se passando, até se transformarem em meses e cada vez mais Dorian parecia tenso e preocupado com seus problemas particulares, sobre os quais ele não se abria comigo. Mas mesmo assim, às vezes ele insistia em expor suas declarações como se quisesse me preparar para alguma coisa. Acabava por sua vez transferindo toda sua agonia para mim, pois eu não agüentava mais ver meu marido naquele estado de culpa constante como se estivesse me privando de alguma coisa, ou me causando algum mal terrível. Decidi que já era hora de por um fim aquilo.
_Estava pensando! _disse enquanto o via se vestir. _Talvez fosse uma boa idéia, fazer uma visita a igreja! Faria-lhe bem conversar um pouco com o padre...
_Com o padre? _ele disse com um ar curioso. _Porque falar com um padre poderia me causar algum bem? _disse ajeitando a gola de sua camisa diante ao espelho.
_Eu fiz uma visita a ele certa vez, antes de nos casarmos para aliviar um pouco minhas preocupações, e devo dizer que foi bastante útil! _sorri me aproximando.
_Não acho que vá me ajudar... _continuou sério.
_Não custa tentar não acha? _disse tocando os punhos de sua camisa ajudando-a fechar os botões da mesma. _Mal não fará!
_Já estive com um padre antes, e acredite. _ele me olhou. _Não ajudou.
_Não seja tão descrente! Faça por mim! Senti-me muito bem depois que conversei com o padre Adamsky!
_Adamsky? Tal nome me soa familiar...
_Engraçado! Por que ele também já ouviu falar do seu! _sorri e franzi minha testa lembrando parcialmente da conversa que tive com o padre. _Aliás, ele também citou outro nome conhecido. _recordei que Adamsky citou o nome de Lord Wotton.
Teria sido neste dia então que eu ouvira falar de tal homem, mas apenas recordava tal fato naquele momento. Também havia outro nome, mas eu não conseguia me lembrar. Continuei ajudando meu marido com suas vestes, enquanto conversávamos.
_Então é mais um motivo para não ir vê-lo. _ele se olhou novamente no espelho. _Qualquer um que me conheça, provavelmente não se empenhará muito a me ajudar...
_Não creio que ele o conheça, mas sim outro homem com o mesmo nome!
_Em Londres? _ele riu. _Duvido muito!
_Irá vê-lo?
_Posso pensar no assunto?
_Se me prometer que realmente levará em consideração meu pedido!
_Prometo! _ele segurou minha mão e beijou-a.
POVS HENRY WOTTON
Sentia-me extremamente melancólico cada vez que adentrava naquela casa imensa e solitária. Sentia uma falta terrível de minha falecida esposa Victoria, assim como de minha filha Emily a quem deixei na America, para regressar a Londres. Decidi subir até meus aposentos, que ainda guardava a mesma aparência dos dias que vivi com minha esposa, o que me causava um vazio profundo em todo meu ser. Acabei por me dedicar à procura de qualquer coisa que me deixasse mais próximo dela, e de Emily. Encontrei uma caixa pequena cujo interior continha algumas fotos velhas, as quais eu fiz questão de deixar naquela casa quando parti junto de Emily. Sentei-me em uma poltrona velha no canto do cômodo e me pus a observar tais lembranças. Vendo algumas fotos de minha pequena filha, com apenas poucos anos de vida, já correndo pelo pátio de nossa casa. Em outras, sua mãe em toda sua gloria quando nos casamos. Eu mesmo sequer me reconhecia vendo tais fotografias. Meu rosto agora não continha sequer um único traço daquele jovem estampado no retrato. O que me fez pensar em Dorian, que mesmo depois de tanto tempo ter se passado, ele ainda mantinha a mesma expressão jovial em sua face. Voltei a analisar as fotos em minhas mãos e por incrível coincidência, lá estava ele, o próprio Dorian Gray, em pé entre mim e o estimado Basílio Hallward. Logo atrás de nós um belo e esplendoroso quadro pintado pelo próprio Basil por meses antes de entregar a Dorian como presente no dia de seu aniversario de vinte e três anos. A imagem estampada naquele retrato era de Dorian, com toda sua juventude encantadora, nos dias em que chegou a Londres. Oh, eu podia me lembrar claramente daquele dia. Um menino que lembrava pouco mais que um adolescente perdido entre o que queria descobrir e o que ainda sequer imaginava. Lembrei-me do quanto me sentia atraído por aquele garoto, querendo mostrar a ele todas as coisas que ele poderia possuir já que tinha as únicas coisas importantes para se ter, beleza e sua juventude.
Essas lembranças causaram-me um arrepio quando recordei da imagem de Dorian, diante de mim há poucos meses. Simplesmente ele não aparentava sequer um único sinal de tempo em seu rosto. Nenhuma marca nenhuma cicatriz, nenhuma expressão que deixasse evidente toda a vida que levou. Não era deveras possível que tal homem ainda mantivesse a mesma face juvenil depois de tantos anos. Tão pouco diante de todas as coisas que viu e fez ao longo da vida. Dorian ia contra a natureza, e aquilo era inaceitável.
_Como é possível? _me perguntei analisando tal fotografia.
De repente algo se fez presente em minha mente, me levando anos antes do momento em que me encontrava, assim esclarecendo algumas coisas que eu jamais parei antes para me perguntar.
FLASHBACK ON
Finalmente Basil teria chegado ao fim de sua grande obra que tanto Dorian quanto eu, já estávamos ansiosos por ver. Basil jamais até aquele momento havia permitido que nenhum de nós o visse antes de seu ultimo toque. Basil era deveras ciumento com seu trabalho, o que era incompreensível para mim, já que se tratava apenas de um simples quadro. Quando fiquei diante de tal retrato, pude admirar de fato todo o talento de meu amigo pintor. Ele teria conseguido retratar com detalhes toda a beleza e graça de Dorian naquele quadro.
_Maravilho Basil, certamente é seu melhor trabalho! _disse olhando os traços perfeitos.
Dorian aproximou-se de seu retrato e apenas o analisou em silencio por longos segundos.
_Ora diga alguma coisa Dorian! _me manifestei. _Vai ferir os sentimentos de Basil!
_É assim que eu sou? _disse o garoto visivelmente encantado consigo mesmo. _É tão real...
_Na verdade é melhor do que a realidade, já que ele será sempre assim. _o encarei. _Você por outro lado, envelhecerá e terá o rosto marcado pelo tempo. Mas este quadro será sempre... Belo e intocável!
_Algumas coisas são preciosas por não serem duradouras! _disse Basil com seu ar poético.
_Besteira! _resmunguei andando até a mesa de bebidas. _Envelhecemos e ficamos marcados por rugas e expressões horríveis porque os deuses são egoístas e odiosos.
_É terrível! _disse Dorian tocando seu rosto no retrato. _Se ao menos pudesse ser diferente, e este retrato envelhecesse em vez de mim.
_Enquanto você desfruta de uma vida cheia de paixões e prazeres. Sem acabar com nenhuma marca? _perguntei ao me sentar. _O que daria em troca disso?
_Talvez eu vendesse minha própria alma por tal chance! _respondeu o garoto olhando fixamente para a pintura.
_Teria coragem de vender sua alma? Com todos aqueles rituais, conjurações intermináveis, pentágonos de fogo, bebendo sangue de virgens! Trocaria mesmo a sua alma Dorian? _disse enquanto estendia uma pétala de rosa vermelha sobre a chama de uma vela. _Trocaria? _fitei-lhe a face.
_Sim! _disse ele com voz firme ao me olhar.
FLASHBACK OFF
_Céus! _finalmente pude entender...
Como pude ignorar tais lembranças?
POVs DORIAN
Fazia frio naquela noite, e as colchas e lençóis não pareciam ser o suficiente para aquecer. Revirava-me sem parar sobre a cama, e sem conseguir ter um sono tranqüilo. Algo me atormentava por demasiado naqueles sonhos terrivelmente reais. Levantei-me colocando meus pés no chão gelado, sentindo o frio atravessar minha espinha. Olhei para a cama e não vi Hillena sobre ela. Levantei-me devagar e andei até a porta logo saindo por ela. Segui rumo ao andar superior onde ficava o sótão, e encontrei as grades abertas, e a porta do cômodo destrancada. Quando entrei avistei uma moça com os cabelos molhados, soltos cheios de pedaços de coisas que pareciam algas presas nos fios. Aproximei-me vendo-a vestida com um vestido claro, de um azul céu com mangas brancas. O vestido estava imundo, e pingava água por todo chão de madeira. A mesma estava diante de um retrato, e o olhava fixamente. Não via seu rosto, mas sabia quem era.
_Sibyl? _perguntei dando alguns passos.
_Como pode Dorian? _dizia ela sem se virar.
_Sinto muito Sibyl.
_Eu amava você... _dizia ela em voz suave.
_Eu não queria, eu nunca...
_A culpa foi sua... Somente sua.
_Me perdoe Sibyl...
_Você é uma desgraça Dorian...
_Não diga isso... _eu toquei seu ombro.
_Você é a morte! _seu rosto estava frio e cheio de rancor quando se virou para fitar-me. _Tudo em que você toca morre... Matou sua mãe... A mim, Basil. E vai matá-la também... _ela se aproximava de mim.
_Não... _sacudi meu rosto. _Não, eu a amo... Jamais a machucaria... Eu a amo.
_Você me amava também... _sua voz me deixava zonzo.
_Não... _me afastei e acabei caindo sobre uma pilha de caixas.
Quando voltei a olhar para Sibyl ela já não estava mais lá. Procurei ao redor, mas não a encontrei então me levantei novamente e andei em direção a meu retrato. Parei diante dele, e ele estava exatamente como na primeira vez que o vi. Mas ele me encarava, e então algo foi dito.
_Olhe pra você. Sua alma é podre. Ela fede...
_Não... Não... Eu posso ser curado. Eu mudei. _eu dizia a mim mesmo.
_Você jamais mudará... Você destrói tudo que toca.
_É diferente agora, precisa acreditar...
_Você acredita que exista perdão para todas as coisas que fez?
_Por ela...
_Ela não pode salvá-lo. Ninguém pode...
_Mas eu a amo...
_Vai matá-la... Como sempre faz. De um jeito ou de outro. Ela morrerá. E você será o único culpado...
_Não... _meus olhos estavam cheios d’água. _Não é verdade, não pode ser verdade...
_Dorian? _de repente ouvi a voz de Hillena. Virei-me e a vi em pé diante da porta. _Querido! O que faz aqui em cima? _disse ela com sua voz doce e seu olhar gentil.
_Dorian... Dorian... _dizia aquela voz terrível.
_Dorian! _disse Hillena. _Vamos Dorian!
_Dorian... _comecei a me sentir tonto então levei minhas mãos a cabeça.
_Não... Não, não, não... Vá embora. _eu dizia fechando meus olhos. _Me deixe em paz, vai embora... Deixe-me...
_Dorian? _disse Hillena.
Abri meus olhos e me vi deitado sobre a cama, com metade do corpo descoberto, e suando frio. Eu tremia, e meus olhos não conseguiam ficar fixos em um único ponto. Eu estava chorando, e Hillena estava ao meu lado, segurando-me.
_Dorian, você estava tendo um pesadelo. _eu a olhei.
_Ele tinha razão... _disse agarrando minhas mãos nela.
_Quem?
_Kelso...
_Quem é Kelso? _ela retirava meus cabelos do meu rosto.
_Meu avô... _disse enquanto lembrava-me das surras que aquele velho me dava quando ainda era um menino. _Ele tinha razão, eu sou a morte...
_Dorian! _ela franziu sua testa. _Não diga isso...
_É uma parte de mim Hillena, que transforma todo amor em morte.
_Ele estava errado... Deveria ser uma pessoa muito cruel para dizer tais coisas... _ele me tocou carinhosamente. _Não deveria acreditar nisso... Vamos acalme-se... _ela me abraçou firme.
_Ela morreu por minha causa... _disse ao deitar meu rosto sobre o colo de Hillena e agarrando minhas mãos em suas pernas.
_Sibyl? _ela disse para minha surpresa.
_Minha mãe... _e olhei sem entender como ela poderia saber de Sibyl. _Ela morreu quando nasci. Foi minha culpa...
_Não, não foi... Você é parte dela, e ela ainda vive em você... _ela tentava a todo custo me acalmar.
_Como posso pedir perdão? Se nem ao menos posso me perdoar? _disse olhando para os lençóis. _Não há esperança pra mim... Não há esperança...
_Dorian! _Hillena me abraçou forte e encostou seu rosto ao meu depois de beijar minha face molhada pelas lagrimas. _Isso vai passar, acalme-se... Eu estou aqui e não irei a lugar algum... Eu te amo!
_Não deveria... _olhei em seus olhos tentando permanecer acordado. _Eu sou o mal Hillena...
_Pare... Não diga mais nada, está sob o efeito do sono, apenas durma!
_Eu preciso te contar... _me sentia fraco. _Preciso que saiba o que eu sou.
_Descanse meu amor... Amanha conversaremos, apenas descanse... _enquanto suas mãos acariciavam meu rosto, eu me deixava levar pelo sono e o cansaço e acabei adormecendo sem lhe dizer a verdade sobre mim...
POVs HILLENA
Céus! O que estava acontecendo com Dorian? Todo aquele pavor, e aquela culpa em seus olhos. Jamais soube nada sobre seu passado, e de repente sentia que tudo estava vindo à tona mesmo contra a vontade dele. Além de Sibyl Vane, agora recebia a noticia pelos próprios lábios de Dorian que ele havia perdido sua mãe para a morte. Não precisei de muitas explicações para entender que seu avô o teria responsabilizado pela perda da filha. Por algum motivo, tal homem poderia ter castigado Dorian sabe lá por quanto tempo o condenando por ter nascido. Como poderia alguém ser tão mal com o próprio neto, lhe fazendo acreditar em tais coisas? Em parte eu começava a entender por que Dorian agia do modo que agia. Era evidente que teve uma infância terrível, convivendo com um avô cruel e vingativo. Céus! Como eu quis livrar meu marido de toda aquela dor, mesmo que pra isso eu tivesse que tomá-la inteira para mim. Eu não poderia permitir que nada o machucasse daquele jeito outra vez. Precisava protegê-lo de seus pensamentos negativos. Dorian precisava se perdoar... Eu jamais o abandonaria. Jamais...
Notas finais
OBS: Algumas falas deste capitulo foram tiradas com base no filme O RETRATO DE DORIAN GRAY, (a cena do quadro, conversa com Henry e Basil) e as falas de Dorian quando desperta de seu pesadelo terrível foram citadas no filme. O restante foi tudo tirado da minha cabecinha! A propósito, foi exatamente isso que aconteceu no filme (Dorian vender sua alma para ser sempre jovem).
Fale com o autor