Dorian Gray - My Sweet Demon
1 Desejo Nobre
Notas iniciais
Viajamos naquele carro por duas longas horas sem que ele me dissesse sequer uma Palavra. Dorian era extremamente frio quando queria, e às vezes seu olhar gélido me dava medo. Mas eu tentava controlar meu pavor, diante dele, pois não queria parecer frágil diante de seu julgamento, pois sabia que ele apreciaria isso. Ele depositou seus olhos negros sobre mim algumas vezes enquanto fumava seu cigarro, deixando que a fumaça tomasse conta do interior do automóvel. Dorian era muito desagradável, o que me levava e questionar os motivos por meus pais desejarem que eu me casasse com ele. É claro que a resposta para tal pergunta estava na falência de minha família. Como eu era a filha mais velha, fui vendida pelo meu próprio pai, para quitar as dividas que ele acumulou quando perdeu seu patrimônio. Para reaver nossa residência, meu pai pediu um empréstimo ao senhor Gray, que de inicio me pareceu muito gentil ao ceder uma boa quantia para ajudar nossa família, mas minha opinião sobre ele mudou quando descobri o que ele realmente pretendia ganhar com aquilo. Seu desejo não tinha nada de nobre, Dorian apenas desejava tomar uma esposa jovem e bonita para si, e expor a mesma para seus amigos velhos, burocratas ingleses.
Não tive muita escolha a não ser aceitar o que meu pai me impôs, afinal, alguém deveria pagar pela “gentileza” do senhor Gray, e eu não permitia que fosse minha jovem irmã de apenas quinze anos, como meu pai sugeriu. Causava-me repulsa saber que nosso pai estava tão desesperado a manter sua pose e seu bom nome diante da sociedade inglesa, que venderia qualquer uma de suas filhas para um estranho que lhe oferecesse uma boa quantia. Odiei meu pai por tal atitude, mas compreendia que ele não estava disposto a deixar sua família ser excluída e humilhada a um nível social mais baixo.
Confesso que a boa aparência, e a beleza do senhor Gray despertava parte do meu interesse, e eu esperava realmente que isso fosse o suficiente para que nosso noivado fosse um sucesso. Mas sua falta de gentileza e sua arrogância me causavam náuseas. Não entendia como um homem tão requintado e inteligente podia ser tão machista e desagradável, principalmente com as mulheres.
_Ainda pretende continuar com seus estudos depois do casamento Hillena? _perguntou ele com o rosto entre a fumaça do cigarro.
_Sim senhor Gray! _respondi tentando ser agradável. _Acho que uma moça deve ser bem instruída para não ser enganada pela vida...
_Uma moça bem casada não tem a necessidade de entender das coisas da vida... _ele tragou seu cigarro após seu comentário dispensável.
_Acha que um homem pode responder sempre pelos atos de sua esposa senhor Gray? _meu orgulho me impedia de me calar diante de tanto machismo.
_Não é pra isso que serve o casamento?
_Creio que casamento seja muito mais do que um negócio senhor Gray... _tentei ficar calma e não me exaltar.
_E o que mais significa o casamento pra voce Hillena? _disse sendo um pouco sínico.
_Amor talvez... _o encarei.
_Acha mesmo que existe amor que parta de um homem que toma uma mulher como sua esposa, e depois se deita com outra? _ele apertou seus olhos.
_Nem todos os homens são tão canalhas senhor Gray.
_Conhece todos os homens? _ele sorriu com ar sarcástico.
_Acredito com base em meu próprio pai... _franzi minha testa.
_Acha mesmo que ele tenha sido fiel a sua esposa a vida toda? _disse tragando seu cigarro e voltando o rosto para a janela, mas mantendo os olhos em mim.
_De qualquer maneira senhor Gray. _resolvi mudar de assunto antes que o mandasse para o inferno. _Respondendo sua pergunta anterior, eu acho que uma dama merece mais do que uma vida de submissão ao esposo.
_E espera que eu pague por este capricho seu? _mais uma alfinetada machista.
_Se não for de seu agrado meu senhor, eu proponho que permita que eu mesma trabalhe para pagar por minha instrução...
_Quem daria emprego a uma moça tão jovem, sem nenhuma experiência?
_Eu darei um jeito... Acho que os homens deveriam dar mais espaço as mulheres, assim elas teriam mais oportunidades e não dependeriam tanto de seu precioso dinheiro...
_Não creio que uma mulher deva receber nada que ela não possa usar a noite para seu marido! _ele me olhou com um olhar insinuante olhando para meu decote.
_Uma pena que pense assim... _virei o rosto olhando pela janela e respirando fundo, contando até dez.
Notei através do canto de meu olho que Dorian continuou me observando com um olhar analítico, enquanto sorria com o canto da boca com um ar devidamente insuportável. Depois disso ele voltou a olhar através da sua janela, e terminou de tragar seu cigarro desagradável. Quando chegamos finalmente a nosso destino, Dorian apanhou uma bengala que costumava usar, mesmo sem aparentar necessitar de tal objeto para caminhar, e desceu do veiculo colocando um chapéu e em seguida se virando para me ajudar a descer. Ele estendeu sua mão, bancando o cavalheiro, o que não me convencia, já que tudo que partia de Dorian Gray vinha repleto de segundas intenções. Desci do carro, e me pus a admirar a enorme mansão a minha frente. Enganchei meu braço ao braço dele, e juntos seguimos até a casa. Passamos pela entrada, após a porta ser aberta por um dos empregados e nos dirigimos por um longo corredor. Dorian se afastou de mim, e esperou que eu o seguisse. Adentrei a sala ainda maior do que eu esperava, vendo o segundo andar onde avistei um belo piano de calda.
_Gosta? _sua voz veio do canto atrás da porta de vidro.
_É um belo instrumento... Pena não saber tocar!
_Talvez depois de nos casarmos, eu perca algum tempo lhe ensinando... _ele se aproximou segurando duas taças pequenas de vinho. _Vai gostar de tocá-lo! _seu olhar desceu novamente aos meus seios me causando certo desconforto.
Apanhei a taça de suas mãos depois passei por ele me afastando tentando evitar a proximidade. Não queria lhe dar nenhum direito antes do casamento. Dorian Gray só teria seus privilégios comigo depois que nossa união fosse devidamente concretizada. Antes disso, aquele homem não me tocaria em hipótese alguma, não enquanto eu pudesse evitar. Achava terrível que uma mulher tivesse que se deitar com um homem que não amasse, já deveria ser desconfortável se ver nua diante dos olhos de um homem, quanto mais de um que não nutrisse tal sentimento romântico. Causava-me certo desconforto pensar que o primeiro homem que me tocaria intimamente seria justo alguém como Dorian Gray. Ouvi falar de suas inúmeras conquistas, e nenhuma delas parece ter conquistado um espaço sequer memorável na lembrança do senhor Gray. Dei de ombros com tais pensamentos depois deixei a taça de vinho sobre uma mesa sem sequer beber uma gota do recipiente e andei em direção a uma parede vazia.
_Havia um quadro aqui? _me virei o encarando.
_Sim... _ele largou sua taça e logo fechou a cara ficando extremamente sério e andou até mim olhando para a parede. _Um retrato.
_De quem? _perguntei curiosa.
_Meu. _ele voltou o rosto para mim me encarando profundamente daquele jeito assustador.
Baixei o rosto tentando evitar seu olhar, que me causava arrepios. Ele por sua vez passou por mim, e andou em direção a escada. Do terceiro degrau ele disse se virando e me olhando com um sorriso distante:
_Venha...
O encarei e então dei alguns passos na sua direção e subi os degraus ficando um pouco atrás dele. Dorian queria me mostrar a casa aonde eu viria a morar futuramente. Acho que ele queria que eu não me sentisse tão desconfortável quando entrasse naquela residência após o casamento. Ou talvez quisesse apenas passar mais tempo comigo, para me analisar detalhadamente longe dos olhos de meu pai. O que era mais provável.
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