Dorgas e Dominós
22 Capítulo 22 - Leoncitus Maximus
Notas iniciais
Era um dia lindo e heterosexual, do jeitinho que Deus gostava. Nesse dia perfeito e maravilhoso, estava eu, Luizinha Azul, em um encontro triplo com o meu namorado e as minhas amigas do coração. Todo mundo namorava um com o outro, eu namorava o Renrique, a Christina namorava o Hanrique, a Sidney namorava o Jão, e é claro que todo mundo era hétero também, porque garotas heterosexuais namoram garotos heterosexuais. Sério, se o cara de quem gosto sequer respirar perto de um outro homem eu termino com ele.
A casa da família Sal era bem bonita e o quarto dos gêmeos era bem grande. O único problema era que ele estava cheio de gnomos que o Renrique roubou do jardim do filho bastardo do Seu Benedito Aviário.
Eu e as garotas estavamos nesse quarto, assistindo Shrek 2 (o melhor filme da história do cinema) na televisão que ficava na parede.
Na verdade, as únicas pessoas que realmente estavam assistindo Shrek eram a Sidney e o Jão, porque eles são meio bobinhos. Uma vez, a gente tava roubando o lanche de uma viada da nossa turma escondido e a Sidney ficou cantando a música do Chiquinho Gavião.
Mas enfim, os dois estavam distraídos vendo a porra do filme do Shrek e eu e a Christina estavamos beijando os nossos namorados porque, caso não tenha percebido, nós somos heterosexuais, mas aí a fada madrinha do filme cantou I Need a Hero e a Sidney começou a chorar, estragando completamente o clima.
Christina, a mascadora de chicletes compulsiva, abriu um trident sabor melancia quadrada e colocou na boca. Eu revirei os olhos e peguei meu querido celular.
Os chatos dos meus pais tinham me mandado uma mensagem.
filha, a sua irmã ressuscitou e veio aqui em casa, você precisa voltar
PUTA QUE PARIU! Como eu odiava a Blergh.
Primeiro ela havia morrido (o cara que era pra ela assassinar decidiu assassinar ela também) e agora ela havia retornado do mundo dos mortos pra encher o saco de todo mundo com a sua doença mental.
AQUELA PALHAÇA!
“O que foi?” Perguntou Renrique.
“A ridícula da minha meia-irmã desmorreu e agora eu preciso voltar para casa. O quê que eu faço?”
“Você devia tornar a vida de todo mundo um inferno.” Sugeriu ele.
“Boa ideia.” O Renrique sempre dava ótimos conselhos.
“Como é que uma pessoa desmorre?” Perguntou Hanrique.
“Sei lá. não sei.”
“O diabo deve ter se cansado de ter ela no seu harém, aí ele a vomitou pra cá pra gente ficar com ela.” Disse Christina.
“Vou chamar um táxi.” Resmunguei. “A gente se vê amanhã.”
Fiquei pensando na Blair durante o caminho para casa e senti tanta raiva que os meus olhos mudaram de cor para um azul brilhante, a cor da homofobia. Fiquei pensando sobre como todos os homosexuais, bisexuais e transexuais são escória. Isso mudou alguma coisa em mim, percebi que o meu corpo estava estranho.
A HOMOFOBIA ME DEU SUPERPODERES.
Tamara e Thomas foram em direção à escola, mas antes que pudessem passar pelo portão alguém puxou suas mochilas.
"Aonde pensam que vão seus bostas?" Perguntou Luíza. "Vocês me devem dinheiro."
"Ah, tá bom..." Resmungaram os dois pegando o dinheiro do bolso e dando ele nas mãos da garota.
"Se vocês aprontarem comigo mais uma vez eu e as minhas amigas vamos fazer vocês pagarem."
Christina fez contato visual rapidamente com o irmão mas seu olhar logo retornou para o celular. A outra menina, a Sidney, estava distraída cutucando um sapo que trotava perto deles.
"Sapinho gostosinho..." Disse ela.
"Sidney, tem como você, por favor, PARAR de estragar o momento?" Reclamou Luíza.
"Vai assediar a mongolóide da sua irmã, Luíza!" Respondeu Tamara, empurrando ela e andando para frente.
"Vai se foder, desgraçada!"
Thomas seguiu a amiga para dentro da grande escola. Infelizmente, a hora de inventar fanfic de Menino Maluquinho havia acabado.
Tamara atravessou o arco da entrada e saiu correndo para o banheiro. Thomas seguiu ela até lá e depois fechou a porta.
“Tom, você fica de olho aí e não deixa ninguém entrar, viu?”
“Tá bom.”
A menina pegou um batom vermelho do bolso, que inclusive era proibido na escola, e usou ele para desenhar um pentagrama no chão. Com um pedaço de vidro saído do estojo com tema de minecraft ela cortou a mão e pingou o sangue no desenho.
Uma puta fumaça cor de berinjela começou a sair do pentagrama e de dele veio uma criatura loira dos olhos azuis que não parecia nem homem nem mulher.
A criatura tossiu. “Ai, que porra é essa, amiguinhos? Eu tava tomando um skol com os meus parças e vocês me invocam desse jeito!”
Tamara sorriu. “Eu tava procurando você!”
“Ah, tá bom. E qual é o seu nome, garota?”
“Tamara.”
“Eu sou Leoncitus Maximus, o demônio do caos, mas você pode me chamar só de Leoncito.”
“Prazer.” Disse ela mordendo o lábio.
“Mas então, o quê que você quer comigo?”
“Bem…”
Thomas ficou tão chocado vendo um demônio de verdade diante de seus olhos que até esqueceu de prestar atenção na porta então, bem na hora que a amiga ia responder, uma garota de cabelos rosa entrou.
“Ei, mas que diabos?”
Leoncito deu uma olhada nela e a reconheceu imediatamente. “Oi, Susana Vidas-Mortas.”
“Você conhece ela?”
Susana viu que sujou pra ela e deu o fora dali.
“EI, VOLTA AQUI!” Chamou Tamara, correndo atrás dela.
Nesse exato momento, o sinal tocou e a menina perdeu a outra na multidão de alunas.
“Puta que pariu, mano. E agora, o que a gente faz, Thomas?”
“Limpa essa porra do chão e segue com a vida.”
“Mas eu não falei pro Leoncito o que eu queria fazer com ele.”
“E o que você queria fazer com ele?”
Tamara fez um gesto obsceno.
“OK, CHEGA, EU VOU PRA SALA DE AULA!”
“Deixa de ser dramático, Tom.”
“Cansei de você.”
Susana Vidas-Mortas foi toda feliz para a escola porque a terapia vocal dela estava dando certo e a sua voz estava ficando super feminina.
“...mas aí o filho da puta do Jefferson Cruzadas não quis jogar roblox comigo e eu disse pra ele se foder e que ele era um babaca homofóbico.”
“Por que você ainda joga com o Jefferson, Loreta? Ele é um maluco psicopata.” Disse Ngela.
Ngela costumava ter o cabelo bem longo, ele chegava até a bunda, mas aí ela cortou e deixou curtinho pra ficar tomboy. Quando você é passável você pode ser quão masculina você quiser e ninguém liga.
“Ele é um maluco psicopata sim, mas eu me divirto jogando roblox com ele e é isso. Você tem que respeitar as pessoas com transtorno de personalidade antissocial.”
Susana não gostava do Jefferson Cruzadas porque ele era hetero e ela tinha preconceito com heteros.
“Vocês querem parar de falar nesse homem, toda hora ele faz uma postagem no twitter chamando as pessoas de futricados e retardados.”
“Ele é um homem problemático.”
A menina revirou os olhos e continuou a ouvir Rockfeller Street versão Nightcore no seu mp3, mas aí bateu uma dor de barriga do capeta nela.
“Ahh, com licença! Eu vou ao banheiro.”
Ela saiu correndo pelos corredores cor-de-rosa do colégio do incesto. A porta do banheiro estava fechada, o que era muito suspeito, mas ela a abriu, com medo de que talvez tivessem duas minas trepando lá dentro.
Mas não, eram só duas garotas e um demônio.
Espera, o quê?
Era um demônio muito sexy que disse: “Oi, Susana Vidas-Mortas.”
Puta que pariu, ela já tinha visto ele antes no Inferno. Ele era um dos filhos do Senhor Satã.
As duas garotas cujo nome Susana não sabia olharam para ela e, de repente, a vontade de ir ao banheiro passou e Susie meteu o pé dali, saindo correndo até a sala de aula, bem na hora que o sinal tocou.
Assim que Susana chegou na sala a Blair colocou o pé pra ela tropeçar e ela caiu.
“Bom dia, sapatão!” Disse Blair.
Susana não entendia porque aquela menina fazia bullying com ela considerando que fora ela quem a ajudou a voltar para o seu corpo físico quando ainda era uma alma flutuante. Devia ser influência da meia-irmã, a homofóbica, transfóbica, lesbofóbica da Luíza Blue.
Ela então se sentou na carteira e respirou fundo, sentindo o seu ódio contra heteros aumentar. Seu olhos mudaram levemente de cor quando fez isso. Estranho.
A professora Maria Tapioca carregando várias folhas de papel e entregou elas para todos os alunos. Eram sobre o show de talentos que iria acontecer daqui há alguns meses.
Todo ano, as escolas da cidade competem no show de talentos. O problema era que eles ainda estavam tentando encontrar um lugar para o show acontecer visto que o Country Club das Formigas Asmáticas haviam fechado poucos dias atrás.
Susana olhou para a folha de papel pensando no que ela e suas namoradas poderiam fazer. Elas certamente sabiam dançar, então talvez poderiam fazer uma coreografia para o show de talentos e tal.
Blair também queria participar do show. Isso seria um problema...
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