Dores de Cabeça

1 Balada de um homem comum


Como se eu caminhasse a passos trôpegos

por uma rua reta sentido beira-mar;

vendo todos, sombras estáticas e inclassificáveis,

perdendo o sentido idiossincrático de uma rua.

Rua incolor essa, como uma peça, em que o autor

não se entrega,

e deixa tudo por isso mesmo,

como um desejo mal-feito, como uma arte invalida.

.

O tempo que resta para eu trocar de rua é

todo o tempo que me resta.

Tempo curto esse que me deram,

o tempo de uma caminhada, na direita ou na esquerda,

acompanhado ou sozinho, só nunca inerte.

Sombras comuns projetam-se na parede, a

minha sombra e das demais;

o tempo caminha com as sombras.

.

Passa o ônibus, vazio, com pressa;

uma alma olha para fora do ônibus e enxerga

um caminhar cambaleante entre todos,

algo de semelhante há entre todos.

.

Vejo incerteza no meus passos.

Olhe todos como estão.

Não produzimos o arco, não produzimos o chão,

mas eles estão lá;

caminhamos sobre eles, tateamos quando está escuro.

A rua que suporta meus passos, por mais destrambelhados,

é a rua em que caminhamos.

Siga a rua, é só o que nos dizem.