Dores de Cabeça das 5:16 A.M.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Lia por prazer, amor. Ler era algo tão enraizado em si, que era como roer as unhas ou arrancar fios de cabelo com cachos mal-formados em momentos de distração e impaciência. Era como passear a ponta dos dedos pelos próprios lábios, ressecados e feridos, ou como comer algo apenas por estar entediada.
Em resumo, ler era de sua natureza. Contudo, estava torturando-a.
Ele fora embora há 52 horas e alguns minutos, e desde então, não dormia direito. Não chorara, não sofrera, nem ao menos sentira sua falta. O erro, o algo que a fazia destoar de seus padrões não era que ele fora embora, e sim que ela se encontrou infeliz. Inclusive, a infelicidade ocorria há bastante tempo (chegara antes mesmo do namoradinho), e era quebrada, apenas, por segundos de animação que lhe surgiam. E a ida do tal namoradinho fizera com que percebesse.
Não lia nada que a fazia feliz, realmente, há meses. Seus momentos de felicidade eram tão raros que nem se lembrava do último. Ah, e essa felicidade da qual falava, não era a felicidade corriqueira, e sim aqueles momentos belos em que nada, absolutamente nada, te impede de alegrar-se por completo, por alguns momentos. Sua respiração falha, e nem o calor mais insuportável, som mais incômodo ou dor mais persistente é capaz de nublar a sensação.
É a mais pura e bela felicidade.
E, quando ela a sentiu novamente, depois de tanto tempo, tudo passou. As constantes dores nos ombros e pescoço graças ao quão estava eternamente tensa, a tontura devido ao insuportável, porém necessário, ventilador que mirava seu rosto, a maneira incômoda como não conseguia parar de pensar em como seu melhor amigo vinha tratando-lhe de maneira assustadoramente carinhosa, a maldita dor de cabeça devido à falta de sono, e, principalmente, como nunca mais escrevera sobre a felicidade.
Deveria fazer mais isso. Uma ou outra fanfiction, talvez. Era assim que se alegrava, em maioria, não é? Também poderia recorrer às poesias, mas nunca tivera muito jeito para a coisa. Não era seu estilo e, definitivamente, não era um ser capaz de escrever em rima, prosa, ou seja o que for.
Contudo, passara tanto tempo longe de tais momentos de pura felicidade, que se esqueceu do primordial: não abuse. Lera demais, emocionara-se demais de uma só vez e, agora, recebia seu revés. Tudo sumia, cada um de seus sofrimentos e incômodos, por um instante, até que todas as suas mazelas retornavam, lentamente.
A tensão em seus ombros formava-se novamente. O ventilador, maldito ventilador, voltava a incomodar, tonteando-a. Voltava a pensar no amigo, que outrora ela tentara ajudar a ficar com outra, e, principalmente, o que mais a incomodou, foi o tempo que fazia que já não escrevia nada.
Quase em desespero, pois o ar parecia se recusar a entrar sem que usasse de uma força descomunal, buscou o Word, e escreveu algumas palavras, tentando aquietar sua mente.
“E então, ela começou a chorar, pois a felicidade em seu peito já não se contentava em fazer com que mal conseguisse respirar e o sorriso já deixava de ser necessário, pois ele já se fazia onipresente em sua mente e seu coração. Tais lágrimas, que vieram subitamente, se foram da mesma forma, já que percebeu que tal felicidade nunca mais existira em sua vida, somente nos infinitos livros e textos que lia. E calou-se, não mais sorrindo, não mais feliz, apenas com a sensação de que estava sendo sufocada. E assim ficou, até a próxima leitura.”
E, sem chorar, percebeu que era assim que estava por dentro.
Fale com o autor