Notas iniciais
Dessa vez eu acho que fui eu quem foi meio sacana por saber o que minha amiga oculta ia pedir antes de ela efetivamente pedir e ainda nossa, que prompt legal!!!, mas eu ainda não induzi tão abertamente quanto você, moça Thams. (e asgdyuasgds segunda vez seguida que te pego e segunda vez seguida que tu me dá um prompt difícil). Espero que goste... Só antes da história: IA = inteligência artificial Also, ficou gigante, mas eu não acho certo dividir em capítulos.

“Você chegou a considerar voltar um dia?”

Tom focou-se nos ramos de lavanda que se ocupava em amarrar juntos para deixar para secar, evitando qualquer contato visual com Helga, como sempre fazia quando ela – ou qualquer pessoa – entrava naquele assunto. Preferia fingir-se de desentendido ou dar um jeito de puxar qualquer outro assunto sempre que alguém comentava sobre a possibilidade de ele voltar a trabalhar.

“Eu vou voltar, por isso estou ficando acordado até as quatro da manhã quase todos os dias,” o homem disse, sorrindo de leve. Bom, aquilo não era exatamente uma mentira.

“Toda essa sua tese é para você poder dar aula.” Helga suspirou, pendurando um maço de lavanda em uma linha que havia pendurado no meio de sua estufa. “Estou falando de realmente-“

“Voltar a ter um consultório?” ele perguntou, encolhendo os ombros. “Eu nunca tive um de verdade, você sabe disso. Eu não sirvo pra isso, Helga.”

“Ellen me disse o contrário.”

“Ellen gosta de exagerar nisso,” ele falou, rindo fraco. “Eu não quero voltar. Quero dar aula... Passei esses últimos anos estudando para preencher o tempo, talvez possa usar isso em uma sala de aula. Não preciso chegar perto de pacientes de novo.”

“Quem ouve você falando assim, acha que é um homem extremamente amargurado,” a mulher falou. “E, antes que você venha com um ‘talvez eu seja mesmo’, você não é.”

Tinha que confiar em Helga nisso, afinal, nunca sabia como podia se classificar: alguém amargurado com a vida ou apenas alguém que não conseguia achar vontade nenhuma para fazer algo decente? De qualquer forma, a única certeza que tinha, no momento, era que não queria ter que entrar em outro consultório ou hospital de novo, não como médico, não depois de toda a confusão que conseguira arranjar para si por causa de uma paciente. Se não fosse a pressão que aquele diploma em sua parede parecia causar, Tom Riddle já teria abandonado tudo e ido viver em algum canto bem longe da cidade, apenas ele e as plantas que aprendera a gostar com a ajuda de Helga.

Helga Hufflepuff morava no mesmo prédio que o seu e havia transformado a sua sacada em uma bela estufa cheia de plantas. Ele a conheceu, no entanto, no jardim do prédio, depois que sua psicóloga pediu para que ele saísse um pouco de dentro de casa. O resultado foi ficar sentado em um banco de acrílico no meio de um jardim extremamente artificial, enquanto via a então desconhecida vizinha andar por ali e reclamar de como aquilo estava errado. Ele lhe contou sobre o jardim da casa de sua mãe, no interior de Yorkshire, e ela lhe contou sobre o jardim improvisado que criara em seu apartamento. A partir dali, Helga tomou como objetivo ensiná-lo sobre tudo aquilo e já fazia mais ou menos dois anos desde que começaram.

“E como vai a tese?”

“Chata,” disse Riddle, amarrando mais alguns ramos de lavanda. “Não sei por que diabos eu decidi escrever praticamente um livro sobre os benefícios da substituição de órgãos transplantados por próteses sintéticas. Eu nem gosto de cirurgia...”

“Já pensou em largar essa idéia e tentar outra?” perguntou Hufflepuff.

“Sim, mas seria jogar quase um ano de trabalho no lixo.” O homem suspirou, apoiando-se melhor na mesa enquanto observava o resto dos prédios pelos vidros da sacada. “A verdade é que eu não sei mais o que fazer, Helga.”

“Você vai descobrir,” a mulher falou e ele pôde ver pelo reflexo no vidro que ela estava sorrindo de leve. “Aliás, posso lhe pedir um favor?”

“Claro.”

“Tenho uma amiga que voltou para casa faz pouco tempo e queria entregar algumas coisas para ela,” disse Helga. “Mas essa semana tenho muito mais coisa do que consigo cuidar para fazer... Será que poderia passar lá por mim? Sei que vou lá assim que puder, mas queria deixar essas coisas com ela o mais rápido possível.”

“Okay...” disse Tom, virando e vendo a mulher sorrir ainda mais largo. Nunca sabia se devia se sentir animado ou apreensivo com aqueles sorrisos de Hufflepuff.

***

Agora Tom entendia a razão de Helga não poder simplesmente pegar o trem até a parada mais próxima da casa de sua amiga para entregar aquela caixa que ele agora carregava. Era longe... E, por longe, ele queria dizer que era fora dos limites de Londres, onde já quase nem dava para ver mais as luzes da cidade ao longe e tudo o que havia em volta eram campos e alguns bosques. Mas era bonito, o fazia se lembrar da casa de seus pais.

Depois de se explicar para o interfone – ele podia jurar que aqueles aplicativos de inteligência artificial estavam ficando cada vez mais petulantes -, agora estava parado no hall de entrada, esperando para que a tal Rowena aparecesse.

“Você realmente não podia simplesmente deixar a entrega na entrada?” perguntou a voz masculina que falara com ele no interfone, surgindo de certo e algum alto-falante bem escondido por ali.

“Helga pediu para que eu a entregasse, não que eu a deixasse na porta,” disse Tom, olhando em volta. O lugar era bem bonito, com janelas grandes e tudo muito espaçoso. “Caso contrário ela poderia mandar por correio.”

“Já está aqui dentro, pode deixá-la sobre a mesa e ir-“

“Pode deixar, Warlock.”

Riddle parou de tentar achar os alto-falantes e virou-se para ver uma mulher parada ao lado de uma das portas que davam para o corredor. Ela lhe parecia familiar, apesar de não conseguir especificar de onde podia conhecê-la, e manteve uma expressão impassível no rosto a medida que se aproximava.

“Obrigada,” ela falou, sorrindo minimamente, enquanto pegava a caixa que ele trazia. “Aceita um café? É um bom caminho de volta a Londres...”

“Não quero incomodar, Srta...?”

“Oh, Helga...” ela murmurou, abrindo a caixinha e tirando de dentro alguns frasquinhos cheios do que parecia ser óleos e os segurando com cuidado com as mãos enluvadas. “Ravenclaw, Rowena Ravenclaw.”

“Srta. Ravenclaw... Espera.” O homem franziu o cenho, observando a outra com cuidado. “A Rowena Ravenclaw da derme artificial para próteses?”

“Isso,” a mulher falou, parecendo ficar séria de novo. “Venha logo, não quero que acabe dormindo enquanto dirige de volta.”

É, sabia da onde conhecia o rosto dela agora. Já vira aquela mulher em diversas revistas científicas nos últimos anos. Sempre que falavam sobre próteses e substituição de qualquer parte do corpo por algo sintético, o nome de Rowena Ravenclaw era citado. Já havia perdido a conta de quantas vezes que lera sobre ela graças à sua tese.

E agora estava na casa dela, sentado na mesa da cozinha enquanto ela lhe entregava uma xícara de café.

“É bonito aqui,” disse, sentindo-se mais acanhado do que de costume agora que sabia quem ela era. “Me lembra a minha casa. Digo, a casa dos meus pais.”

“O senhor não é de Londres?” ela perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto ele negava com a cabeça. “Bem que achei seu sotaque diferente.”

“A julgar pelo sotaque, você também não é.”

“Não, Escócia. E você?”

“East Yorkshire,” ele respondeu, sorrindo. “Como veio parar aqui?”

“Vim estudar e acabei ficando,” a mulher explicou. “E você?”

“A mesma coisa.”

Rowena preparou uma xícara de café para si mesma e sentou-se de frente para ele, bebericando com calma enquanto o olhava, como se esperasse que ele fizesse algo.

“Você chamou o seu IA de Warlock,” disse Riddle, tentando de alguma forma quebrar aquele silêncio que o estava deixando levemente desconfortável. Ficar em um lugar mais isolado sem ninguém por perto a não ser uma mulher geralmente o deixava assim. “Posso perguntar por qu-?”

“Porque esse é o meu nome,” disse a voz masculina do IA outra vez, parecendo quase irritada.

“Warlock, por favor.” A mulher riu. “É um apelido. O nome de verdade é A.I.R.LOCK, mas achei mais legal chamá-lo de Warlock.”

“Já pensei em instalar um desses no meu apartamento em uma época,” murmurou Riddle, afundando um pouco na cadeira enquanto bebia mais um gole do café. Quando se tratava de equipamentos para manter um lugar seguro e, literalmente, criar um refúgio para alguém, um A.I.R.LOCK era um dos melhores que havia no mercado. Mas, na época, não conseguia confiar nem mesmo em inteligências artificiais e acabou recorrendo às boas e velhas fechaduras e alarmes normais.

“Por que não o fez?”

“Não confiava,” ele falou.

“Eles são muito efetivos, posso lhe garantir isso,” disse Rowena.

“Eu sei disso, só... Não confiava em qualquer outra coisa que falasse ou pensasse por si só, eu acho.” O homem encolheu os ombros. “Mas passou. E hoje em dia não preciso de um.”

“Posso lhe garantir que um A.I.R.LOCK nunca iria lhe machucar,” disse Ravenclaw. “Quando os programei, fiz questão de deixar isso bem claro.”

“Quando os programou? Até faz parecer que você-“ ele começou a falar, rindo, mas logo parou. “Você que criou o sistema deles?”

“Sim... Faz tempo, na verdade. Warlock foi o original, mas depois consegui reproduzi-lo e patentear.”

“Isso é... Bem incrível,” o homem murmurou.

“Ouviu isso, Warlock? O Sr. Riddle o acha bem incrível.”

“Acho que ele estava falando de você,” disse o IA.

“Como sabe o meu nome?” perguntou Riddle, antes de erguer a cabeça como se aquilo fosse fazer ser possível ver com quem falava. “Na verdade, você também é bem incrível.”

“Você disse ao Warlock quando entrou,” a mulher explicou. “Thomas Felix Riddle, amigo de Helga Hufflepuff e doutor em Medicina. Só por curiosidade, ela o mandou para tentar dar uma olhada em mim?”

“O que? Não.” Tom franziu o cenho. “Acho que ela só queria que te entregasse tudo isso mais rápido. Além de tudo, eu nem exerço mais.”

“Ora, por que não?”

“Quis parar,” o homem mentiu, antes de afastar a xícara de si e sorrir fraco. “Eu devia ir. É quase uma viagem de volta.”

“Verdade.” Rowena se levantou, pegando as xícaras e levando-as até a pia, antes de acompanhar Riddle para fora da cozinha, parecendo sempre apoiar uma mão na parede enquanto andava. “Obrigado por ter vindo. Sei que Helga está bem ocupada ultimamente, caso contrário ela teria aparecido aqui faz duas semanas, de acordo com o que ela me disse ainda hoje.”

“A preocupação de Helga para com os outros é incrível,” disse Tom, parando na porta depois de a mulher a abrir. “Ela parece se preocupar bastante com você.”

“Amizades de longa data fazem isso.” Ravenclaw sorriu, encolhendo os ombros, antes de esticar uma mão para apertar a dele. “Bom, foi um prazer conhecê-lo e, de novo, muito obrigada, Sr. Riddle.”

“O prazer foi meu.” O homem, apertando a mão enluvada dela. “Boa noite, Srta. Ravenclaw.”

***

“Eu disse que seria bom sair e assistir algo, não disse?” perguntou Ellen Campbell, sorrindo enquanto se levantava do sofá e ia até a cozinha para pegar mais um pote de pipoca.

“Nós não saímos de verdade,” disse Charles, esticando-se para olhar a esposa.

“Tom saiu,” ela falou, apontando para o outro homem que estava sentado no canto do sofá. “E acho que todos concordam que uma maratona de Senhor dos Anéis equivale a uma saída.”

“Se bem que nossa maratona parece que vai acabar agora que o primeiro filme acabou,” disse Tom, rindo enquanto via os créditos subirem na tela na parede da sala dos amigos.

“Você é a única pessoa que consegue assistir O Silmarillion sem dormir, Tom, desculpe.” Charles encolheu os ombros, antes de esticar uma mão para puxar a esposa para o sofá novamente.

“Cuidado!” Ellen riu, aninhando-se ao lado do marido. “O que vem agora?”

“O Hobbit,” disse Riddle.

“Adoro aqueles efeitos antigos.” Charles riu. “Aquele anão escocês-“

“Dain Ironfoot.”

“Dain Irontooth, isso ai, Tom. Adoro o anão de puro CGI.”

“Mas era ótimo para a época... Quero dizer, talvez Dain tenha ficado meio exagerado, mas tem muitos efeitos bons. Gollum e Smaug estão ótimos,” disse Tom, vendo Ellen enfiando o pote de pipoca no colo do amigo para poder selecionar o filme certo na tela. “Ah! Esqueci de falar... Ellen, sabe quem conheci esses dias?”

“Quem?”

“Rowena Ravenclaw.”

“Como é?” A mulher arregalou os olhos, endireitando-se no sofá. “Quando? Por que não me falou antes?”

“Eu esqueci, desculpe.” Ridde esticou-se para pegar algumas pipocas. “Ahm... Uns três dias atrás?”

“Três dias?” Ellen franziu as sobrancelhas e torceu o nariz do jeito que ela fazia quando ficava confusa. “Como diabos você conseguiu encontrar Rowena Ravenclaw faz três dias se ela ficou sumida por... Quanto tempo, Charles?”

“Em primeiro lugar, nem sei de quem vocês estão falando, querida.”

“A mulher que criou a pele para próteses.”

“Ah, acho que faz uns seis meses? Ou mais?” perguntou Charles.

“Isso. Ela ficou sumida por um tempão...” disse Ellen. “Tirou licença da faculdade e do hospital no início do ano passado, se não me engano, mas parou de dar notícias faz uns seis meses. Ninguém de lá sabe o que deu dela.”

“Bom... Ela está muito bem na casa dela.” Tom franziu o cenho, tentando se lembrar de qualquer coisa que pudesse indicar que Ravenclaw poderia estar escondendo algo. “Por que ela pediu licença?”

“Se não me engano, ela havia ido para zona de guerra ou coisa parecida,” a mulher explicou. “Talvez ela estivesse procurando amostra para testar a derme artificial? Quero dizer, guerra tem pessoas mutiladas e pessoas recém machucadas tendem a querer testar mais coisas do que aquelas que já estão acostumadas com uma prótese normal.”

“E por que ela sumiu...?”

“Ninguém sabe, Tom,” ela falou, pegando uma pipoca e jogando no amigo. “Olha, eu adoraria ficar conversando, mas tem mais seis filmes de três horas cada um para ver...”

“A gente vai terminar daqui três dias,” resmungou Charles.

“Vamos ver então quem agüenta por mais tempo acordado,” disse Ellen.

“A resposta é óbvia: Tom.”

***

Ficar parado na sacada-jardim de Helga havia se tornado uma das coisas que Tom mais gostava de fazer. A sua própria sacada estava longe de se tornar o que a de Hufflepuff era, por isso volte meia acabava ali... Pelo menos a mulher não parecia se incomodar com isso.

“Helga?” ele chamou enquanto deixava um dedo alisar a folha de uma das flores dali. “Posso perguntar uma coisa?”

“Claro,” disse a mulher, que estava regando algumas gardênias.

“É sobre a sua amiga, Rowena,” disse Riddle. “Ahm... O que houve com ela? Você mandou vários óleos e tinturas... E... Bom, eu comentei com uma amiga sobre ela e ela ficou bem surpresa de saber que alguém tinha visto Rowena Ravenclaw por ai.”

Quando percebeu que o silêncio de Hufflepuff estava durando mais tempo do que o necessário, o homem ergueu o rosto para ver a mulher evitando o olhar enquanto mantinha os olhos fixos nas plantas.

“Rowena sofreu com algumas coisas nos últimos tempos,” disse Helga. “Ela está levando um tempo para se recuperar e quer ficar longe do trabalho e essas coisas para conseguir uma recuperação melhor.”

“Entendo.”

“É sério-“

“Helga, eu entendo,” o homem sorriu de leve. “Eu fiz a mesma coisa, não fiz?”

“Fez,” Hufflepuff murmurou, olhando-o por um tempo. “Como ela estava?”

“Parecia bem? Ficamos conversando por um tempinho sobre o IA dela... Não sabia que ela havia criado o sistema A.I.R.LOCK.”

“Se duvidar, tem muita coisa por ai que Rowena criou e ninguém sabe.” Helga riu baixinho. “Então ela conversou com você?”

“Uhum... Ela parece meio séria e tudo mais, mas acho que estou acostumado com isso? Quero dizer, vivi por muitos anos com o Sr. Thomas Riddle.” O homem encolheu os ombros. “Isso nos dá bastante conhecimento nessa área.”

***

Talvez devesse ter dito que seu encontro com Rowena Ravenclaw fora muito rápido e nenhum dos dois tiveram muito sobre o que falar, pois, assim, não estaria ali de novo. Não que não gostasse de estar ali – era um lugar bonito e com certeza a Srta. Ravenclaw tinha muitas coisas interessantes sobre o que falar -, mas sentia que não era muito bem vindo. Aquela casa era um refúgio, toda a atmosfera dali indicava isso, e Tom sentia como se estivesse invadindo aquele refúgio quando colocava os pés ali.

“Acho que pode dizer à Helga que já tenho tinturas suficientes para um ano aqui,” disse Ravenclaw, rindo baixo enquanto vasculhava a caixa que Hufflepuff havia pedido para ele trazer naquele dia. “Ela não precisa incomodá-lo com isso.”

“Não é um incômodo,” disse Tom, encolhendo os ombros enquanto olhava as fotografias que adornavam as paredes do hall, todas com belas paisagens de puro verde. “Escócia?” perguntou, apontando para um dos quadros.

“Sim,” disse Rowena, sorrindo enquanto se aproximava da foto que ele indicara. “É mais bonito ao vivo.”

“Não duvido disso.” O homem sorriu enquanto a observava. Apesar de parecer tão séria, quando um sorrisinho menor aparecia em seu rosto, ele chegava a combinar com Ravenclaw. “Sabe, uma amiga minha a conhece, Srta. Ravenclaw.”

“Como é?”

“Quero dizer, ela trabalhou com você? Acho que foi isso... Ellen Campbell, ela é enfermeira,” ele explicou.

“Oh.”

Certo, a mudança no rosto da mulher foi bem clara: o sorriso desaparecera e ela pareceu ficar mais tensa, cruzando os braços na frente do corpo e se afastando um pouquinho.

“Srta. Ravenclaw, está tudo bem?” perguntou Riddle, afastando-se um pouco para dar a ela mais espaço, já que parecia que era isso que ela queria.

“Claro,” ela falou, antes de inspirar fundo e começar a andar na direção da porta com passos rápidos. “Acho que o senhor devia ir, não quero fazer com que perca mui-“

Antes que terminasse de falar, Rowena perdeu o ar por um segundo durante o qual pareceu tropeçar em algo e acabou indo parar no chão, xingando baixinho. O homem arregalou os olhos e, quando percebeu, já estava ao lado dela.

“Se machucou?” perguntou, abaixando-se ao lado da mulher e apoiando-a com as mãos para ajudá-la a se levantar enquanto ela continuava xingando e parecendo realmente irritada pelo tombo. “Hey, essas coisas acontecem, não é como se eu ou... ou Warlock fossemos espalhar por ai que você levou um tom-“

“Não devia acontecer,” ela falou por entre os dentes e só então Riddle percebeu que os olhos dela pareciam estar mais brilhantes que o normal. Será que ela havia se machucado mesmo ou tudo aquilo era por raiva de ter caído? “Não teria acontecido se não fosse essa merda de perna!” ela falou, chutando a perna esquerda com o pé direito. “Stercore,” a mulher murmurou, agarrando-se mais às roupas dele para conseguir ficar de pé. “A falta de sensibilidade dessa droga está irritando cada vez mais.”

Enquanto olhava a mulher continuar xingando, tudo o que Tom pôde fazer foi apoiá-la melhor e levá-la para onde parecia ser a sala para ela se sentar. Rowena parecia estar falando sozinha agora e foi só quando ela arrancou o próprio sapato que Riddle realmente entendeu o que estava acontecendo ali.

O pé esquerdo de Ravenclaw era todo feito de metal. Era uma boa prótese, de certo feita sobre medida para ela, e completamente delicada, apesar de estar em um ângulo ligeiramente esquisito. Tom se perguntava até onde ela ia, já que a calça da mulher cobria tudo acima do tornozelo.

“Você luxou ele,” o homem falou, quase sem perceber e só então se perguntando se era possível luxar parte de uma prótese. “Quero dizer, a articulação do tornozelo saiu do lugar.”

“Não me diga,” Rowena resmungou enquanto passava os dedos pelo ponto onde as superfícies de metal se desencontravam.

“Posso?” Tom pediu, indicando o pé dela. A mulher franziu o cenho por um momento, mas assentiu com a cabeça. “Tem sensibilidade?”

“Profunda, sim.”

“Então vai doer um pouco, desculpe,” Riddle falou, segurando a perna dela com uma mão e o pé, com a outra, antes de empurrar o pé de Rowena na direção contrária ao ângulo esquisito, o que resultou em o que parecia um grito contido da mulher e a mão dela agarrando com força o seu ombro. “Desculpe.”

Ravenclaw ficou em silêncio por um tempo, respirando profundamente enquanto continuava com os dedos apertando o ombro do outro. Depois de alguns minutos, a mulher o soltou e pareceu relaxar um pouco, mexendo devagar o pé.

“Obrigada,” ela murmurou. “Eu tenho que aprender a andar mais devagar com essa coisa.”

“Na verdade, é só questão de você se acostumar com ela e aí pode sair correndo por ai até,” disse Tom, sorrindo de leve, mas logo sumiu com o sorriso ao ver o olhar sério que ela lançara. “Você está fazendo fisioterapia, não está?”

“Ela devia,” disse a voz de Warlock, que, até então, ficara bem quietinha.

“Não comece, Warlock,” a mulher falou, franzindo o cenho. “Já estou conseguindo andar, isso já é suficiente. O resto da fisio eu faço por conta própria.”

“Sim, mas-“

“Não preciso de mais gente sabendo disso.” Ela apontou para a própria perna.

“Srta. Ravenclaw, isso é normal hoje em dia-“

“Não, não é normal,” ela falou, ficando ainda mais séria. “Faz quanto tempo que você não entra em um hospital, Sr. Riddle? Já entrou em uma ala de amputados? Já viu os visitantes, como eles olham para esses pacientes? São cheios de pena quando está faltando um pedaço de algum membro, mas quando se trata de um amputado com uma prótese dessas, eles parecem ficar até com... com nojo. É ridículo, eu sei, mas eu realmente não preciso que fiquem me considerando algum tipo de ameaça por ter quase metade do corpo substituído por metal.”

“Como é?” perguntou Riddle, arregalando os olhos. “Não é só a sua perna?”

“Acha que eu andaria assim se fosse apenas a minha perna?” ela perguntou, erguendo as mãos enluvadas e apontando para a gola alta do suéter.

“Onde mais? Quero dizer, não precisa dizer se não quiser, mas eu não... Não vou sair por ai espalhando nada, prometo.”

Rowena o encarou por um longo momento, antes de tirar as luvas. Uma mão dela era completamente de metal e, na outra, os dedos anelar e mindinho eram próteses.

“Perna esquerda, braço direito, dois dedos da mão esquerda, ombro direito, as últimas costelas do lado esquerdo e parte do quadril direito,” ela falou baixinho. “Sem contar algumas placas de titânio por conta de fraturas na tíbia e fêmur direito, úmero esquerdo e mandíbula.”

“O que diabos aconteceu com você?” perguntou Riddle, sem nem perceber.

“Guerra,” a mulher respondeu com prontidão.

O homem a observou, antes de esticar as mãos para a dela, esperando para ver se ela se afastava para então segurá-la. Era uma prótese bonita, delicada e bem feita. O metal alternava com o que parecia ser algum tipo de cobertura de algum material meio transparente através do qual dava para ver pequenas linhas azuis luminosas que pareciam quase imitar vasos e nervos. Mas ainda não parecia completa... Bom, ele nunca realmente vira alguém com uma prótese como aquela, mas parecia um pouco complicado usar uma mão sem ter uma superfície mais aderente. Talvez fosse até por causa disso que Rowena usava as luvas de couro: mais atrito, menos coisas escorregando por entre os dedos.

“Você tem uma nociocepção mais profunda nelas... E propriocepção?” perguntou Riddle.

“Não, ainda não consegui instalar isso,” disse Rowena.

“E, desculpe a curiosidade, por que não colocou a derme que você mesma criou?”

“Porque... Porque ela ainda não foi testada em humanos,” a mulher murmurou. “Quero dizer, os testes começaram a ser feitos, mas eu tive que interromper quando fui para o campo de guerra.”

“O que iria alterar nas próteses se você a instalasse aqui?”

“É como se fosse uma camada fina de pele por cima de tudo isso,” ela explicou. “Um tipo de... De gelatina? Algo assim.”

“Mas não iria fazer mal a você, iria?”

“Não.”

“Então por que não tenta?” perguntou Riddle, sorrindo de leve. “Quero dizer, se não vai machucar e não vai te fazer mal... Não custa tentar.”

“Pode levar meses para adaptar essas próteses pra isso.”

“E...?”

A mulher observou Tom com o rosto sério, antes de suspirar e sacudir a cabeça.

“Por que quer que eu faça isso?” ela perguntou.

“Porque, se der certo, vai melhorar a sua vida?” Riddle encolheu os ombros.

“E por que você quer que eu melhore a minha vida? Afinal, o senhor nem me conhece direito.”

“Porque não faz bem para ninguém ficar isolado desse jeito,” ele falou, sorrindo fraco. “Sei do que estou falando quando o assunto é isolamento.”

***

Tom ainda não sabia como havia conseguido aquilo, mas o acordo que fecharam fora relativamente simples: Rowena trabalharia em adaptar as próteses de reserva que tinha para terem mais sensibilidade profunda e para terem a derme artificial que ela criara. Nesse meio tempo, Riddle a ajudaria com algum tipo de fisioterapia para ela ao menos não se machucar enquanto voltava a fazer atividades normais do dia a dia – coisa que, depois, descobriu que acontecia bastante.

Talvez o maior problema fora o fato de que Ravenclaw simplesmente abandonara todo e qualquer tipo de tratamento depois que se viu capaz de andar e mexer as mãos com um pouco mais de facilidade. Dessa forma, as habilidades dela pareciam ter se limitado ao que ela havia aprendido com alguns poucos meses de fisioterapia. Isso, sem contar outras partes do tratamento nas quais Tom ainda não tinha muita coragem de tocar, como algum tipo de acompanhamento psicológico para alguém que sobrevivera a uma guerra e saíra naquele estado.

Mas, de um modo geral, o tempo que passava com Rowena era bom e tranqüilo. A maior parte do tempo era preenchida com exercícios que pudessem ajudar a mulher a se ajustar melhor às suas próteses, levando em conta as limitações delas. Quando não estavam fazendo isso, acabavam apenas conversando sobre os mais diversos assuntos: Ravenclaw lhe explicava como foi que criara Warlock e falava sobre a Escócia, enquanto Riddle contava sobre o seu pequeno jardim na sacada e sobre o jardim de sua mãe em East Yorkshire, e assim as conversas seguiam.

“Então fazem onze anos que você não trabalha como médico,” disse Rowena enquanto se sentava no chão de sua sala, um tanto ofegante depois dos dois ficarem correndo ao redor da casa – ela caíra apenas uma vez, o que era bom. “O que fez nesse meio tempo?”

“Meus pais tem vários imóveis para alugar por Londres, então eu cuido deles,” ele explicou. “Ajudo eles com isso... Agora estou tentando trabalhar em uma tese de mestrado, mas não está saindo exatamente como eu esperava.”

“Já pensou em fazer outra coisa?”

“Já, mas... Nessa altura das coisas, acho melhor só... Continuar na minha? Sei lá.”

“E o que você já pensou em fazer?”

“É meio bobo,” disse Tom, rindo fraco. “Mas queria estudar Arte. É meio o que eu sempre quis, eu acho.”

“E como diabos foi parar na Medicina?” perguntou Rowena, arqueando uma sobrancelha.

“Ah, sabe... Aquela história de ‘você nunca vai ficar entediado com Medicina’.” O homem encolheu os ombros. “Acho que acabei lá por causa disso.”

“E você ficou entediado?”

“Acho que sim. E cansado... Mas continuei indo, até que chegou em um ponto que não consegui mais,” ele explicou, sorrindo fraco. “Eu acho que exige muito, não sei. Não é o tipo de coisa para o qual estou preparado e isso me cansa demais. Só de pensar em voltar eu já fico com vontade de me esconder em casa e não sair mais.”

“Mas você está aqui,” disse Ravenclaw. “Isso é algo dessa sua área.”

“Não é a mesma coisa,” ele murmurou.

“Como assim?”

“Não sei,” disse Riddle, baixinho. “Só sei que não é.”

***

Tom tinha que agradecer por aquelas próteses serem resistente a água e coisas parecidas, pois a bagunça que estava Rowena naquele momento era algo incrível. As mãos dela estavam completamente sujas de tinta, assim como boa parte de suas roupas.

A idéia inicial era dar um pincel à mulher e deixar que ela treinasse movimentos finos com as mãos, mas aquilo acabou em uma bagunça generalizada. Por sorte, estavam do lado de fora da casa, fazendo com que as únicas coisas sujas fossem eles e a grama.

Mas era divertido fazer aquilo, ficar sem compromisso rolando na grama e sujando-se cada vez mais com tinta e terra enquanto ouvia Rowena rir. Tom percebera que gostava de ver a mulher sorrindo ou rindo, era bom ver que ela estava menos séria e menos rígida consigo mesmo. Aquilo até a ajudava a lidar melhor com as próteses.

“Você, senhor, faz bagunça demais,” disse Ravenclaw, sentando-se na grama ao lado de um Tom que tinha tinta até nos cabelos.

“Com licença, mas acho que boa parte disso.” Ele indicou o próprio rosto e cabelos. “Foi obra sua, moça.”

“Porque você me instigou!”

“Eu coloquei um pincel na sua mão, só isso,” o homem falou, erguendo as mãos como se indicasse que não tinha culpa alguma ali.

“Sei.” Rowena estreitou os olhos, mas acabou rindo, antes de puxar as mangas do suéter até os cotovelos.

Tom não pôde deixar de se surpreender com aquilo. Apesar de ficarem mais familiarizados um com o outro, Ravenclaw ainda era bastante reservada quando se tratava de mostrar as suas próteses e estava sempre usando roupas compridas, apesar de ter deixado de lado as luvas e as botas quando ele estava por perto. Dessa forma, o fato da mulher ter deixado o braço exposto até o cotovelo era um bom avanço, de certa forma.

“Posso ver?” o homem perguntou, um tanto hesitante, e indicou o braço dela.

Rowena encarou o próprio braço, antes de estendê-lo para Tom. Era, de certa forma, bonito, mas ele entendia a vontade dela de escondê-lo.

“É muito bem feito,” murmurou, sorrindo fraco enquanto erguia o olhar para a mulher.

“Nem todo mundo pensa isso quando vê,” ela falou.

“Pessoas podem ser meio ignorantes quando vêem marcas de algum machucado ou doença. Ou você aprende a lidar com isso ou os esconde muito bem... Acho que a segunda opção é a mais usada, apesar de a primeira ser a mais saudável.”

“O que você faria?”

“Eu esconderia,” ele falou, suspirando fraco. “É meio hipócrita da minha parte tentar fazer você se acostumar com isso sendo que eu faria o contrário, mas... Você é mais forte que eu, Srta. Ravenclaw, e consegue lidar bem melhor com algo assim. Além disso, acho que quero que você aprenda a gostar de você do jeito que é agora porque... porque eu iria querer fazer isso comigo mesmo e não conseguiria. Então, pelo menos alguém por quem me importo conseguiria ser mais tranqüilo com isso.”

“Por que acha que eu sou assim tão forte?” Rowena perguntou baixinho, inclinando a cabeça para olhá-lo melhor.

“Você não é a única pessoa que esconde algo por debaixo das mangas, Srta. Ravenclaw,” disse Tom, sorrindo fraco. “Mas é a única daqui que teve coragem de mostrar.”

A mulher ficou em silêncio por um longo momento, antes de suspirar e esticar-se melhor ali, como se estivesse se espreguiçando.

“Acho que depois de toda essa bagunça, nós podemos parar de usar ‘senhor’ e ‘senhorita’, Tom.”

***

Rowena aguentara os três filmes d’O Senhor dos Anéis, apesar de já ser quase de madrugada quando O Retorno do Rei terminou. Tom já nem sabia se aquelas sessões de fisioterapia eram realmente o que prometiam ser ou se tudo se tornara apenas uma desculpa para passarem tempo juntos, conversando e fazendo um monte de coisas alheias juntos... Como fazer maratonas de filmes que quase fazia com que eles caíssem de sono depois de algumas horas.

“Quais são os outros?” perguntou Rowena, esticando-se no sofá.

“Os três filmes d’O Hobbit e O Silmarillion.”

“Sempre quis ler O Silmarillion,” ela falou. “Não sei por que nunca consegui.”

“Você precisa estar no espírito pra ler ele, eu acho,” disse Tom, afundando-se mais no sofá e entre as cobertas que ela lhe emprestara. “Mas é bonito.”

“Só sei que são várias histórias...”

“É,” o homem falou. “Acho que uma das minhas favoritas é a do nascimento dos elfos...”

“Mesmo? Como é?”

“Bom, basicamente o deus maior da Terra-Média, Eru, criou os elfos e os deixou dormindo até que chegasse a hora de eles virem ao mundo,” Riddle explicou, sorrindo de leve enquanto olhava a mulher. “Quando chegou a hora, eles ‘emergiram’ de um lago e a primeira coisa que viram foram as estrelas, porque naquela época ainda não havia sol e a única luz que iluminava a Terra-Média era a luz das estrelas. E os elfos passaram a amar as estrelas por causa disso... Vários deles tiveram medo de ir para Valinor porque tinham medo de deixar as estrelas e é por isso também que eles reverenciam tanto Varda, ou Elbereth, a valar das estrelas.”

“É bonito,” murmurou Rowena.

Os dois ficaram em silêncio, apenas olhando os créditos subirem na tela, antes de esta desligar. Tom observou a mulher espreguiçar-se de novo, as mangas da camisa novamente erguendo e deixando mais a mostra de seus braços. Ela realmente estava mais confortável com isso.

“Rowena?” ele chamou baixinho, antes de sentar-se melhor no sofá e se aproximar dela. “Lembra que eu disse... sobre... ah.” O homem suspirou, soltando os botões da manga de sua camisa e esticando o braço para ela ver. “É bem menor que o seu, claro... Por isso que digo que você é mais forte.”

Ravenclaw franziu o cenho e se sentou, aproximando-se dele enquanto deixava os dedos se aproximarem do pulso do homem, contornando a cicatriz que havia ali.

“Foi por isso que parou de trabalhar?” perguntou Rowena.

“Na verdade, isso aconteceu pelo motivo de eu ter parado de trabalhar.”

“O que houve?”

“Tinha uma paciente... Atendi ela uma vez na emergência. Era uma sutura, ela dizia que tinha batido a cabeça e só depois ela disse que na verdade o irmão batera nela e deu naquele corte,” ele explicou. “Ela vivia aparecendo lá: cortes, hematomas, dores, coisas assim. No começo, era sempre, depois ela começou a aparecer mais quando eu estava de plantão. Eu achei estranho, mas fazer o que? Ela era uma paciente e eu era um médico, eu tinha que tratá-la, não tinha coragem de pedir para outra pessoa fazer isso... Achava que seria maldade, não sei.”

“Você sabe que o código de ética-“

“Eu sei, mas eu achava errado. De qualquer forma... Um dia eu sai com alguns colegas – eu não gostava muito, mas naquele dia eu decidi ir junto sabe-se lá porque – e... Eu não lembro direito,” ele murmurou, sentindo o coração acelerar e adquirir aquele ritmo errático que tanto odiava. “Só lembro que quando acordei, ou pelo menos quando me dei conta de tudo, eu estava na cama com essa moça e... É. Eu entrei em desespero. Não lembrava de ter bebido o suficiente para fazer algo que não lembrasse e foi só depois que eu percebi que ela de certo havia me encontrado por lá e... Sabe, colocado algo na minha bebida?”

“E levou você pra cama com ela,” disse Ravenclaw.

“É. E eu sei que é algo meio bobo até, mas eu fiquei bem mal depois disso e fiquei com medo de ir trabalhar e encontrar ela. E esse medo do trabalho virou medo de simplesmente sair de casa,” o homem explicou. Nem sabia o quanto de esforço devia estar fazendo para tentar manter a voz firme – já havia falhado nisso – e não chorar, o que era um problema que sempre o assolava quando falava daquele incidente. “Chegou um dia que eu só quis... Largar mão de tudo? Aí deu nisso,” ele falou, indicando os próprios pulsos.

A mulher permaneceu em silêncio, antes de apoiar as mãos sobre a dele e apertar ali de leve.

“Não é algo bobo,” Rowena murmurou. “É válido você ter ficado assustado. É válido ter ficado tão mal depois... “Foi por isso que chegou a cogitar instalar um A.I.R.LOCK em casa?” O homem concordou com a cabeça. “Tem flashbacks?”

“Sim,” ele respondeu. “É uma merda.”

“É, eu sei.”

“Desculpe,” Riddle sussurrou.

“Pelo que exatamente?”

“Não sei...”

Os dois ficaram em silêncio, até que Ravenclaw voltou a se ajeitar no sofá, deitando-se e puxando Tom para deitar junto e ajeitando a coberta sobre eles. Aquilo era estranho... Riddle nunca fora uma pessoa que se sentisse muito confortável com proximidade, mas ali fora quase natural deitar e quase se aninhar à Rowena.

“Está tarde demais para pegar a estrada,” ela falou. “Me diz... O que mais tem de interessante n’O Silmarillion?”

***

Uma coisa era estudar alguma doença, outra era ver alguém com aquela doença, mas ainda pior era ver alguém conhecido sofrendo por aquela doença que você leu em um livro. Fora essa sensação estranha e quase sufocante que Tom Riddle sentiu ao ver Rowena encolhida em um canto do sofá um dia, depois de entrar na casa dela com a permissão de Warlock.

“Tira ela, por favor,” ela pediu ao vê-lo, sacudindo de leve o joelho esquerdo que abraçava contra o peito. “Eu já tentei, mas não consegui me concentrar.”

“O que aconteceu?” o homem perguntou, indo até ela e esticando as mãos para que ela lhe mostrasse a perna.

Ravenclaw gemeu baixinho, antes de esticar a perna. A prótese parecia estar em ordem, não havia nenhuma articulação fora do lugar.

“Rowena,” ele chamou baixinho. “Não é a prótese.”

“Claro que é! Deve estar fora do lugar ou com algum curto circuito, como aquele dia que torci o pé,” ela resmungou e xingou baixinho no que parecia ser latim.

“Você já sentiu isso antes?”

“S-Sim... Uns cinco meses atrás, se não me engano.”

“Row,” Tom chamou, não sabendo da onde exatamente tirara o apelido. “É dor fantasma.”

A mulher o encarou por um tempo, mordendo o lábio inferior, antes de rir. Tom tentava pensar com o máximo de clareza possível enquanto puxava a bolsa que trazia consigo e a vasculhava, mas isso parecia incrivelmente difícil cada vez que olhava para a mulher e a via se encolhendo mais e mais no sofá.

“O que você quer?”

“Remédios para dor.”

“Lá em cima tem. Warlock te ajuda.”

Seguiu as instruções de Warlock até chegar no que parecia ser o quarto de Rowena para poder vasculhar por uma das gavetas até achar os remédios que queria. Quando voltou, passou antes na cozinha para pegar um copo d’água.

“O que é isso?” perguntou Ravenclaw, fazendo uma careta para os comprimidos que ele lhe entregara.

“Praticamente morfina.”

“Da outra vez passou sozinho,” ela murmurou. “Talvez-“

“Talvez você fique morrendo de dor até passar? Não.” O homem arqueou uma sobrancelha enquanto a olhava. “O certo seria levar você para um hospital, mas se você já teve isso antes e, pelo jeito não foi, só posso acreditar que você não gosta de hospitais.”

“Ora, você não é tão cego quanto dá a entender, Tom,” Rowena falou, sorrindo fraco, antes de suspirar e tomar os comprimidos. “Pronto. Feliz?”

“Sim. Espere ai.”

Tom se levantou e foi até a cozinha. Com a ajuda de Warlock – estava começando a agradecer a presença dele naquela casa – deu um jeito de fazer algumas compressas quentes com toalhas molhadas.

“O pior é que nem posso pedir pra você cortar fora o que ta doendo,” Rowena resmungou quando ele voltou. “A coisa que ta doendo nem existe mais.”

“Que merda, não?” perguntou Riddle, erguendo a calça da mulher até acima do joelho, onde ficava a junção da prótese com a coxa.

“Uma grande merda.”

O homem enrolou algumas toalhas quentes ao redor da coxa de Rowena até envolver toda a superfície da junção. Quando terminou, sentou-se no chão ao lado da mulher e pegou uma das cartelas que encontrara em sua bolsa, destacando um comprimido e entregando-o à mulher.

“Outro?”

“Sim.”

“Mas-“

“Rowena, por favor,” ele pediu, antes de ver Ravenclaw suspirar e engolir o remédio. “Obrigado.”

Voltou a se levantar e agora indo se sentar no sofá, colocando as pernas da mulher em seu colo e levando as mãos até onde havia colocado as toalhas, apertando de leve e passando a alterar a pressão dos dedos ali com uma massagem.

“Hey,” ele chamou baixinho, sorrindo fraco para ela. “Vai ficar tudo bem.”

“Você que manda...” a mulher murmurou, suspirando e afundando um pouco mais entre as almofadas. “Você me deu coisa pra dormir?”

“Desculpe,” Riddle respondeu. “Mas vai ajudar você a relaxar.”

“Por que você anda com remédio pra dormir na bolsa?”

“Eles também servem para acalmar ataques de pânico.” Tom sorriu sem graça, vendo a mulher levantar as sobrancelhas em compreensão.

O homem continuou com a massagem enquanto observava Rowena parecer ir relaxando mais e mais até pegar no sono. E continuou ali até as toalhas esfriarem e ter que levantar para esquentá-las outra vez. Fez isso por mais duas trocas de compressas, até seus dedos implorarem para ele parar um pouco. Era para ser uma pausa momentânea quando se levantou e foi se sentar no chão ao lado da mulher, apoiando-se no sofá e esticando uma mão para segurar a dela.

“Vai ficar tudo bem,” murmurou, sorrindo fraco e sentindo os olhos arderem por motivo algum enquanto deitava a cabeça no sofá e acabava pegando no sono também.

***

Rowena sumiu por quase uma semana em meados de Junho, depois de quase três meses com Tom a acompanhando e um mês depois do episódio da dor fantasma. Sua primeira reação, depois de não conseguir entrar em contato com a mulher por dois dias e ser espantado por um Warlock irritado quando foi até a casa dela, foi procurar Helga, que apenas lhe disse para ficar calmo. O que não ajudou muito... Sua ansiedade pareceu voltar por alguns dias, obrigando-o a tomar várias xícaras dos chás de Hufflepuff para conseguir dormir ou, de vez em quando, algum remédio.

Foi só depois de uma semana que, ao chegar em casa depois de passar o dia correndo de um lado para o outro com clientes de seus pais, viu um email novo em sua caixa de entrada. De Rowena. Pedindo para que ele fosse até a sua casa.

Dessa vez Warlock foi mais simpático, deixando-o entrar e dizendo para ele subir até o quarto de Ravenclaw, onde a encontrou sentada na cama, entretida em acariciar a coberta felpuda que a cobria.

“Venha cá,” ela pediu, acenando para ele se aproximar.

“Está tudo bem?” ele perguntou, indo até a cama devagar e se sentando ao lado da mulher.

Rowena assentiu, antes de endireitar-se e esticar uma mão para tocar os cabelos dele. Tudo o que Riddle pôde fazer foi franziu o cenho, tentando entender o que diabos estava acontecendo, enquanto deixava que os dedos da mulher se embrenhassem pelos seus cabelos e os bagunçassem. Aquilo parecia a entreter bastante, já que um pequeno sorriso curvava os cantos de seus lábios.

“Aquela vez que pintamos seu cabelo ficou assim, só que cheio de tinta,” ela falou, rindo baixinho. “E quando você acorda também fica assim. É bonito.”

“Obrigado...?”

A mão de Rowena desceu de seus cabelos para o seu rosto, mas pareceu hesitar por um momento, antes de tocar-lhe a maçã do rosto e deslizar os dedos até a sua mandíbula e, depois, até os seus lábios, contornando-os com calma.

“Row, o que está acontecendo?”

“O primeiro teste em humanos da derme artificial foi feito,” ela falou, sorrindo de lado.

“Mesmo?” O homem sorriu largo. “E o que deu? Já deu algum resultado?”

“Olha, posso dizer que sim e está sendo um resultado muito bom,” Rowena falou, rindo. “Quero dizer, seus cachos são bem mais fofos ao toque e você cora muito fácil, dá pra sentir até no toque.”

O homem abriu a boca para falar algo, antes de arregalar os olhos e afastar-se um pouco. Só agora percebera que Ravenclaw o tocava com a mão prostética. Estava tão acostumada a vê-la e a senti-la quando faziam exercícios de fisioterapia que nem percebera a diferença, apesar de agora perceber que havia uma fina camada de algo que parecia ter mais aderência que o metal puro.

Afastando-se um pouco, Riddle ergueu as mãos para segurar a de Rowena, mas parou a centímetros desta, apenas a olhando e sorrindo bobamente. Quando deixou os dedos tocarem as pontas dos dedos da mulher, mal encostava na superfície destes enquanto os arrastava até a palma da mão dela. Mas, a julgar pelo sorriso que se alargava no rosto de Ravenclaw, ela ainda estava sentindo o toque mesmo que este fosse incrivelmente leve. O homem riu, segurando a mão dela e a puxando para um abraço.

“Obrigada.” Ele a ouviu murmurando e apenas riu.

“Todo o trabalho foi seu, moça,” o homem falou, antes de se afastar um pouco e a encarar. “Parabéns.”

***

A brincadeira agora era testar a sensibilidade que a invenção de Rowena proporcionava aos membros prostético. Isso incluía uma Rowena Ravenclaw de shorts e regata para deixar a maior parte das próteses expostas e um Tom Riddle testando todo tipo de sensibilidade possível: pequenas cutucadas com agulhas, algodão, penas, coisas ásperas, coisas quentes... Tudo parecia em ordem, apesar de, pela primeira vez em meses, Ravenclaw parecer um tanto constrangida.

“Parece que está tudo em ordem,” disse Tom, sorrindo enquanto deixava de lado uma pena que usara para fazer cócegas na mulher. “Quero dizer, claro que é bom ir repetindo isso, mas por hora está tudo bem... Você conseguiu sentir tudo.”

“É,” ela murmurou, sorrindo fraco e encolhendo os ombros enquanto puxava o casaco que deixara pendurado no lado da cama.

O homem a observou por um momento, sorrindo bobo enquanto o fazia. Era incrível a evolução de Rowena nos últimos meses, além de que achava engraçado o sentimento bobo que sentia por saber que ele ajudara naquilo. Abençoado fosse o dia em que Helga pedira para ele levar aquela caixinha para a amiga.

“Posso... Experimentar uma coisa?” Riddle pediu quase sem perceber, poucos segundos depois de uma idéia aparecer em sua mente.

“Pode.”

Tom esticou uma mão para segurar a de Rowena e puxá-la para si com calma. Acariciou-a com calma com o polegar, sentindo o rosto esquentar um pouco enquanto dizia a si mesmo que provavelmente faria besteira, mas, mesmo assim, inclinou-se até conseguir tocar o dorso da mão prostética com os lábios em um beijo leve que, depois, pressionou um pouco mais. Ficou sentindo a superfície fria contra os próprios lábios por um momento, antes de se afastar, sentindo-se corar ainda mais.

“Eu-“ o homem murmurou. É, havia sido uma idéia idiota e agora não conseguia achar coragem para olhar a amiga. “Desculpe. Eu devia... Deixar você descansar? É.”

Quando ergueu os olhos para a mulher, esta ainda o encarava com uma expressão que, no momento, ele não conseguiu distinguir. Provavelmente o julgando pela ação inesperada.

“Boa noite, Row,” murmurou, antes de sair o mais rápido possível, com um Warlock perguntado o que diabos havia acontecido.

***

Tom havia tido a brilhante idéia de tirar Rowena de casa, mesmo que essa saída consistisse em ir apenas um dos parques mais próximos – fora de Londres ainda, o que significava menos gente e mais verde -, mas isso não parecera dar muito certo.

Ravenclaw voltou para casa mais quieta do que o normal e com o casaco fechado até o pescoço. No meio do passeio, alguns homens que também andavam pelo parque deram viram quando a mulher se distraiu por um momento e tirou o casaco por conta do calor. A reação deles à prótese foi instantânea: caretas de desgosto e murmúrios baixos entre si, o que não passou despercebido por Rowena, que logo se enfiou debaixo do casaco outra vez e, mesmo com todos os esforços de Tom, não abriu mais nenhum sorriso depois daquilo.

Agora estavam na casa dela outra vez e tudo o que Riddle conseguia fazer era contar histórias idiotas sobre quaisquer coisas para tentar fazê-la sorrir um pouco, mas nada adiantava.

“Você sabe que eles são idiotas por fazerem aquilo, certo?” ele finalmente perguntou, suspirando fraco e vendo a mulher bufar baixinho. “Rowena, não tem nada de errado com uma prótese... Você sofreu um acidente e só quis seguir a vida da maneira mais parecida com antes que fosse possível.”

“De novo, você é médico, já viu coisas piores.”

O homem suspirou, passando uma mão pelos cabelos enquanto olhava.

“Verdade, já vi coisas piores.” Ele encolheu os ombros, antes de se aproximar, sentando-se mais perto da mulher no sofá. “Na verdade, você é uma das coisas mais bonitas que eu já vi.”

“Ah, por favor—“

“Só estou falando a verdade.”

“Eu realmente não preciso que você fale essas coisas porque sente pena de mim,” ela falou.

“Eu não sinto pena de você, eu sinto orgulho,” disse Tom, esticando uma mão para segurar a de Rowena, que pareceu congelar na hora. O homem a olhou por um momento, como se dissesse que não iria machucá-la, antes de tirar a luva dela. “Em primeiro lugar, isso aqui por si só é bonito. É uma das próteses mais bonitas que eu já vi, mais bem feita. Posso tirar o seu casaco?”

A mulher o encarou por um longo momento, antes de ela mesma fazer o que ele havia pedido. Tom sorriu de leve, segurando a mão dela de novo e deixando os próprios dedos acariciá-la com calma.

“Mas ainda acho que as próteses bonitas não são nada perto de você, moça,” disse Riddle, sorrindo meio sem graça. “E isso... Estamos só falando de beleza física. Não estou falando de o quanto você é incrível por ser inteligente e por ser uma boa companhia, o que também pesa muito.”

Tom soltou a mão de Ravenclaw e levou os dedos até o rosto dela, contornando as feições dela devagar, antes de descê-los até a mandíbula dela e, então o pescoço, sempre devagar e leve, esperando um momento até que percebesse que ela não iria se afastar para continuar.

“Posso te mostrar o quanto você é bonita?” ele perguntou enquanto deixava os dedos se enroscarem um pouco em uma mecha de cabelos escuros que caía por sobre o ombro dela.

A mulher ficou em silêncio por um longo momento, antes de assentir com a cabeça.

Fora uma cena meio estranha e Tom só podia esperar que Warlock não ficasse espiando enquanto ele despia peça por peça da roupa de Rowena, o mais devagar possível. Era engraçado como as próteses pareciam incrivelmente naturais aos seus olhos. Não era algo que lhe saltava como uma diferença gritante e muito menos algo que diminuísse a beleza de Ravenclaw.

Infelizmente (ou felizmente? Ainda não decidira), Rowena pareceu decidir não ser a única a acabar nua ali, já que na metade do caminho as mãos dela encontraram as suas roupas e, quando se deram conta, a bagunça de roupas no chão incluía peças dos dois. Mas, o mais estranho, era que aquilo parecia incrivelmente natural e calmo: não parecia ser estranho ficar nu na frente de Ravenclaw enquanto deslizava as mãos pelo corpo dela como se quisesse decorar cada relevo ou curva, ou quando perdia algum tempo com diferentes tipos de toque tanto na pele quanto nas próteses, vendo de vez em quando a mulher rir ou suspirar ou encolher-se com um arrepio,

Rowena fazia o mesmo com ele e, de início, seu coração acelerou mais do que o necessário e não de um jeito muito bom, mas ela pareceu perceber isso e seu ritmo ficou mais lento e o toque, mais leve. Até que aquele bolo em sua garganta e leve vontade de se encolher a cada toque – afinal, era uma mulher o tocando e fazia anos que não sentia isso, da última vez não fora nada bom – foram sumindo e o que sobrou foi o coração batendo mais forte, mas agora parecia algo bom. Até mesmo quando os dedos de Ravenclaw encontraram as suas cicatrizes o máximo que fez foi prender a respiração por um segundo e então suspirar quase aliviado ao ver que o toque dela chegava a ser confortável.

A melhor parte de tudo isso, no entanto, foi abraçá-la. Era um abraço confortável no qual conseguia se afundar enquanto sentia os dedos de Rowena desenharem em suas costas padrões que ainda tentava decifrar.

O sol sumiu do lado de fora e todo o lugar ficou afundado no breu, mas, ainda assim, parecia que nenhum dos dois tinha coragem de se afastar. Era bom, era confortável, era acolhedor. Parecia haver ali uma intimidade ali que Tom não conseguia realmente explicar.

“Eu já disse que falo russo?” perguntou Riddle em um certo momento, depois de o sol já ter ido embora fazia tempo.

“Acho que não,” murmurou Rowena. “Já me falou de literatura russa... E da Rússia em si... Mas não sabia que falava.”

“Acho que nos acostumamos a não contar isso para todo mundo por causa da guerra,” murmurou Tom. “Nem todo mundo consegue aceitar que se pode querer aprender uma língua estar do lado do inimigo.”

“A Rússia é neutra.”

“Eu sei, mas ainda tem gente que acredita que eles são comunistas que comem criancinhas no meio do mato.” O homem riu baixo. “Mas é, eu falo russo...”

“Como aprendeu?”

“Meu pai e colégio,” ele explicou. “É uma língua bonita.”

“Parece difícil.”

“É um pouco, mas a beleza supera. Sabe... Russo é engraçado: ele parece frio e um pouco rude no início, mas depois se torna quente e confortável. É bom falar russo, a pronuncia te dá uma sensação boa e ele parece vir do fundo,” disse Tom, sorrindo bobamente. “Me lembra um pouco você... E é belo. Como você.”

“Esse,” começou Ravenclaw, sorrindo fraco. “Foi o flerte mais estranho que já recebi, ser comparada à um idioma.”

“Bom, é um idioma bonit-“

“Não disse que não gostei, rapaz.” A mulher sorriu de lado, aninhando-se um pouco mais contra ele. “Fale algo em russo para eu ver como é?”

“Ty otchen krasivaya, moya dorogaya,” Tom murmurou, sorrindo de leve.

“Tradução?”

“Você é muito bonita, minha querida.”

Rowena sorriu, apertando mais os lábios um contra o outro. O homem ergueu uma mão, tocando de leve o lado do rosto dela por um momento, antes de respirar fundo e aproximar-se, pressionando os lábios contra os dela e ainda sentindo o sorriso dela ali. Pouco depois, sentiu a mão de Ravenclaw que estava em suas costas subir para a sua nuca e puxou-o mais para si, aprofundando o beijo com calma. Apesar de um pouco acanhado por parte dos dois, era um beijo calmo, assim como os toques nos corpos um do outro.

“I ya tebya lyublyu,” o homem sussurrou quando afastou-se alguns centímetros para respirar.

Rowena apenas sorriu e o beijou de novo.

***

Rowena Ravenclaw era linda e Tom começou a se perguntar se era normal querer observá-la tanto durante aquela noite – só conseguia se lembrar dos elfos das histórias d’O Silmarillion e o fascínio deles por estrelas -, mas era inevitável.

Primeiro observara a imagem de Rowena, usando as mãos para o auxiliar nisso enquanto tentava conhecer e decorar, na medida do possível, cada pinta, cada relevo por sobre os ossos, cada contraste entre as próteses e a pele, cada movimento causado pela respiração ou batida de coração que conseguia sentir com as pontas dos dedos.

Depois, observara detalhes: as pintinhas em forma de constelação que ela tinha atrás da orelha, os olhos que brilhavam feito estrelas, o jeito como ela parecia corar levemente de vez em quando, os cachos escuros que volte meia caiam-lhe sobre o rosto, o formato dos lábios dela e como eles ficavam entreabertos, o gosto e a sensação dos beijos, a diferença entre a textura da pele dela e a superfície das próteses, os padrões que ela desenhava em sua pele, o tom dos suspiros...

Por último descobrira que era interessante observar as reações dela também. Era estranhamente bom ouvir um suspiro quando falava algo ou vê-la fechar os olhos enquanto ele acariciava o seu rosto. Gostava de sentir a alteração na respiração e nos batimentos dela quando se beijavam e achou interessante perceber como a pele de Ravenclaw parecia se arrepiar inteira e o corpo dela arqueava-se de encontro aos seus lábios enquanto ele descia beijos por onde quer que alcançasse. Achou curioso como gostara de sentir os dedos dela em seus cabelos, puxando-o mais contra si quando ele lhe beijava as coxas e a virilha, assim como achou curioso o quanto de força Rowena tinha nas mãos quando afundava as unhas em suas costas quando o abraçava e o prendia com as pernas, e o jeito como o corpo dela praticamente se contorcia cada vez que tocava atrás dos joelhos dela – até mesmo na prótese. Os gemidos também eram bons de serem ouvidos, junto com os arfares e as respirações aceleradas que se confundiam: já não sabia se era ele ou ela quem estava mais ofegante.

Por fim, havia outros pequenos detalhes a se observar: como parecia que não havia espaço algum entre eles para o ar fresco se embrenhar, a sensação de ter os cabelos de Rowena grudados em seus braços e costas, o movimento de sobe e desce do peito dela, o sorriso meio torto da mulher e a sensação engraçada do beijo mais desastrado que já dera e que acertara a bochecha dela ao invés de os lábios. A calma e o cansaço gostoso que invadiram o seu corpo também eram interessantes, assim como a respiração calma de Ravenclaw e, então, o sono tranqüilo que veio depois, enquanto ainda sentia a pele – a verdadeira e a artificial – de Rowena contra a sua, ainda enroscado no abraço dela.

***

“Helga disse que eu devia mandá-los para alguma galeria,” disse Riddle, guiando Rowena por dentro de seu apartamento, até a sala que lhe servia de estúdio. “Mas eu achei que seria melhor ver com você primeiro.”

“As telas são suas, Tom, você não precisa ver comigo.” A mulher riu enquanto se esquivava de pisar em uma mancha de tinta ainda molhada no chão.

“Na verdade, preciso.”

Ravenclaw abriu a boca para retrucar, mas permaneceu daquele jeito, boquiaberta, enquanto olhava a tela que ele havia acabado de virar para ela ver.

Era uma pintura relativamente grande e quem estava ali, nua e sentada meio de costas, mas com os braços e pernas bem a mostras, era a própria Rowena Ravenclaw. O fundo branco deixava ainda mais intenso o contraste contra os cabelos escuros e longos dela e com as próteses cinzentas com as veias azuladas quase brilhantes por baixo. Era bonito e, para algo mostrando alguém como ela, incrivelmente delicado. O metal parecia tão suave quanto a carne e a pele dos membros normais.

“Eu não... Quero dizer, ele é seu,” disse Tom, mantendo-se um pouco afastado, antes de finalmente se aproximar da mulher. “Pode fazer o que quiser com ele. Pode... Guardar ou vender ou até destruir.”

“Destruir?” Rowena virou o rosto para olhá-lo, arregalando os olhos. “Mas isso é lindo, Tom!”

“Bom.” O homem sorriu fraco. “A modelo é quem deixa ele assim.”

Ravenclaw olhou o quadro e suspirou baixinho, antes de olhá-lo de novo e erguer uma mão para tocar-lhe o rosto. Deixou a mão ir até a nuca e puxá-lo mais para baixo para beijá-lo com calma.

“É lindo,” ela murmurou. “Obrigada.”

“Eu disse.” Tom sorriu, apoiando a testa na dela. “Ty otchen krasivaya, moya dorogaya.”

Notas finais
Algumas muitas explicações: 1) Eu não especifiquei em que futuro que acontece a história, então fica a cargo de vocês. As únicas coisas é que a) a medicina ainda não é magia e b) tem uma guerra rolando, só isso que quis deixar específico; 2) A.I.R.LOCK: Eu não sou o moço Tommy Riddle que sabe fazer anagramas legais então ficou uma coisa bem ridícula, mas é algo tipo Artificial Intelligence for Refuge and Lock In, basicamente uma IA pra proteger uma casa de alguém que quer sumir do mundo. E ficou ridícula porque queria algo que lembrasse Warlock, o nome do cavalo da Rowena nos headcanons da Thams (que finalmente ganhou voz humana pra poder encher o saco do Tom); 3) O Silmarillion: eu to lendo agora e tenho uma enorme necessidade de ver o Tom contando as histórias pra Row, shame on me... E eu sou otimista e imagino que algum dia no futuro vai ter um filme ou curtas desse livro e espero que não seja o Peter Jackson dirigindo (oi, Thams); 4) Nociocepção: parte da sensibilidade que carrega a dor; 5) Propriocepção: parte da sensibilidade que ajuda um membro ou o corpo inteiro a se localizar no espaço, dá noção de distância, equilíbrio, etc; 6) Derme: parte da pele que tem as terminações nervosas; 7) Dor fantasma: é uma dor fdp que dá em alguns amputados porque as terminações nervosas do coto amputado continuam crescendo e fibrosando ou algo assim e dá a sensação de dor naquele membro que não está mais lá. Não tem um tratamento específico e algumas pessoas nem consideram algo patológico e sim um evento que pode muito bem ocorrer (também existe a sensação de membro fantasma, que é a sensação de ainda ter o membro amputado); 8) Basicamente, as partes de prótese da Row são: a) braço direito até o ombro (pense Edward Elric), b) perna esquerda até acima do joelho (pense Edward Elric de novo), c) dedos anelar e mindinho da mão esquerda, d) parte do quadril direito (ela de certo perdeu parte do osso + pele que não rolava fazer enxerto?), e) escápula direita, f) as últimas três costelas do lado direito. E, como Row disse, sem contar um monte de placas de titânio por causa de fraturas (eu não resisti e coloquei na mandíbula também, porque sim, porque até hoje eu fico tentando sentir a minha placa na mandíbula q) 9) Ya tebya lyublyu: eu te amo, não que você precise de notas para esclarecer isso, Thams; Peço desculpas pelo smut muito bleh, moça Thams, é por isso que eu peço sua ajuda pra escrever eles pra fics. Bom, acho que é isso? Reviews são lindos, como sempre :33
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!