Dor de Cabeça

1 Capítulo 1: Dor de Cabeça


Era inverno em Ionia. O céu estava nublado. E os ventos fortes balançavam as altas árvores ao redor do templo da Ordem das Sombras.

Zed estava parado em frente a uma das janelas do longo corredor, olhando pensativo para o céu. Já fazia alguns dias desde que ele não tinha visto Syndra, embora ela não fosse de visitar frequentemente a Ordem das Sombras. Ele não conseguia afastar ela de seus pensamentos por mais que se esforçasse, o que já estava o deixando ainda mais mal-humorado.

Mais tarde, Zed decidiu ir para a fortaleza de Fae’lor, onde Syndra havia feito a sua prisão de moradia. Assim que chegou lá, chamou por ela diversas vezes pelos corredores, porém, sem obter uma resposta, ele se concentrou em seguir os rastros da magia negra que emanava dela. Caminhou cada vez mais para os fundos do templo, somente parando em frente a uma grande porta de madeira com gravuras em dourado. Apesar de hesitante, ele estendeu os braços e empurrou a porta pesada. Revelou-se uma intensa escuridão salpicada de estrelas brilhando sobre o piso da longa escadaria que contornava toda a parede do imenso salão oval sendo iluminado pelas fortes chamas da lareira crepitando, exalando no ar a fumaça clara com odor de incenso se espalhando pelos livros abarrotados nas altas prateleiras daquela incomum biblioteca subterrânea.

Zed jamais tinha visto algo tão grandioso em toda a sua vida. Ele deu alguns passos e tocou no corrimão enquanto os seus olhos percorriam por cada detalhe daquele lugar, até que encontrou nos últimos degraus um elmo negro, ou talvez uma coroa, de altos e retorcidos chifres separados por uma gema ametista, e ao lado, estava o corpo de Syndra, dormindo sentada com a cabeça encostada na parede. Rapidamente, através das técnicas das sombras, Zed se aproximou e ajoelhou em frente a Syndra.

— Ei, você está bem?

A voz de Zed fez o corpo de Syndra estremecer ao acordar.

— Ssh... –ela estendeu o braço para colocar a ponta dos dedos na máscara de ferro, de modo que, ele se calasse. –Pare de gritar. A minha cabeça parece que vai explodir só de te ouvir respirar.

Em silencio, Zed observou atentamente Syndra. Ela parecia tão cansada... A pele do rosto dela estava levemente avermelhada entre o nariz e as bochechas. Os lábios pálidos entreabertos denunciavam a sua respiração curta e ofegante.

— Syndra.

— O que? Por que está me olhando assim?

— Me deixe tocar seu rosto por um momento.

— Hã?

O homem retirou a luva da mão direita e tocou no rosto da jovem, sentindo a pele dela extremamente quente.

— Você está com febre. – avisou. – Vem, –segurou o fino pulso, o puxando em sua direção. – eu vou te levar para o seu quarto.

— Não. –recuou, se encolhendo ainda mais contra a parede. –Eu não quero. Tem muito barulho lá em cima. Não aguento mais ficar lá com aqueles pássaros irritantes... –sua voz sumiu enquanto bocejava. –Também tem toda aquela água e... O vento...

Sonolenta, Syndra voltou a bocejar. Mas ela não continuou a falar. Os seus olhos pesavam cada vez que piscava. Sem perceber, ela encostou a cabeça na parede e adormeceu.

Zed permaneceu ali parado, pensativo. Sabia que não conseguiria convencê-la de ir para o quarto. E levá-la a força não parecia ser uma boa ideia. Portanto, ele se deu por vencido soltando um longo suspiro.

— Tsc! Você só me dá trabalho.

Resmungou enquanto se levantava. Ele subiu os degraus da escadaria, caminhou pelo corredor abrindo todas as portas, vasculhando os cômodos a procura de um futon, travesseiro e cobertor.

— Como alguém consegue viver sozinho em um lugar desse tamanho? – se perguntou, incomodado com o espaço.

Essa não era a primeira vez que Zed estava ali, no entanto, não tinha ido além do salão principal e do único quarto habitável, o que sempre tornava aquele lugar um completo mistério.

Quando encontrou o que precisava, ele retornou para a biblioteca. Colocou o futon no chão em frente ao sofá perto da lareira, depois jogou o travesseiro e o coberto. Por fim, ele pegou a jovem desacordada nos braços e a carregou até o futon, a deitando cuidadosamente antes de cobrir o corpo com a coberta.

O jeito como Syndra dormia tão profundamente preocupava Zed. Não conseguia deixar de pensar que, se outra pessoa estivesse ali no seu lugar, ela poderia estar em perigo agora. Só que Zed não gostava de ter que cuidar de alguém. Devido a alguns acontecimentos no passado com Khada Jhin, ele não tinha uma lembrança muito boa de como era lidar com enfermos. Odiava se sentir incapaz, de estar segurando tão firme a vida de alguém, que no segundo seguinte poderia escapar de suas mãos.

Outra vez, Zed tocou no rosto de Syndra, sentindo a pele estar mais quente.

— O que eu faço com você?

Arrastado dos seus pensamentos, de volta para a realidade, ele estranhou a variedade de livros abertos perto do sofá, amontoados um por cima do outro. Não conseguia imaginar com o que Syndra poderia estar tão obcecada. Curioso, ele pegou o livro mais próximo, percorrendo a ponta dos dedos por cada linha no papel envelhecido, lendo atentamente todos os sintomas que indicavam a morte de um mago por poderes elevados.

Zed sentiu o seu sangue gelar. Associava constantemente todas as informações coincidirem com o atual estado de Syndra. Rapidamente, ele fechou o livro e seus olhos se moveram em direção à maga. Ela não estava realmente morrendo, ou estava? Aquilo era só uma coincidência. Pelo menos, tentava se convencer disso. Ele se concentrou, pensando em como poderia ajudá-la. Lembrou-se de anos atrás, quando o seu antigo e falecido mestre Kusho havia lhe dito sobre uma erva capaz de curar qualquer doença. Foi então que Zed sabia exatamente onde deveria ir: para a mágica e verdejante floresta em Navori.

A fronteira entre o reino material e espiritual era muito forte em Ionia. O seu solo sagrado muitas vezes fornecia a sua energia para as plantas e árvores ajudarem aqueles que habitavam ali.

E como era o esperado, não demorou muito para Zed encontrar a erva e retornar para o templo. Assim que preparou um chá, levou para Syndra, dessa vez, sentada no chão da biblioteca, adormecida com a cabeça apoiada nos braços em cima do assento do sofá.

— Ei, acorda. Levanta, garota.

Após Zed chamar algumas vezes, Syndra abriu os olhos piscando excessivamente, tentando se acostumar com a claridade. Enquanto ela despertava, ele reparou nas manchas escuras abaixo dos olhos dela, disputando espaço com as veias esverdeadas aparentes ao redor.

— Você está horrível.

— Não enche... – retrucou desanimada. – O que é isso? – perguntou olhando para a xícara.

— Chá. Vai te fazer melhor.

Syndra pegou a xícara e tomou um gole do líquido, logo, se engasgando ao sentir o amargor impregnar na boca.

— Isso aqui está horrível!

— Eu disse que ia te deixar melhor, não que era bom.

Zed se sentou no sofá, inclinando-se para trás, apoiando as costas no encosto.

— Aproposito, – cruzou os braços. – sobre o livro ali em cima. – Tem algo que queira me contar?

— Eu estou resfriada, Zed. Não estou morrendo. – ela o interrompeu, se adiantando em responder à pergunta que ele faria. – Esses livros estão parados aí há anos. Não tem por que se preocupar.

— Não estou preocupado.

— Claro que não. – a voz dela saiu em tom de escárnio ao colocar o braço em cima do acento do sofá para apoiar o rosto na palma da mão. – Então me diz, por que você ainda está aqui?

Houve um breve silencio entre eles. Porque ele nunca admitiria para ela que se importava. Portanto, ele apenas virou o rosto para o outro lado, desviando a sua atenção dela.

Syndra sorriu. Gostava de ver como Zed reagia as suas provocações, pois o tempo todo ele ficava com aquela expressão séria no rosto. Conseguir desalinhar os chakras do imponente Mestre das Sombras se tornou o seu maior entretenimento. Porém, o sorriso em seus lábios desapareceu após se sentir novamente cansada. Ela colocou a mão esquerda acima dos seios e se concentrou em respirar fundo.

— O que foi?

— Não. Nada. – mentiu, abaixando os olhos. – Já que você decidiu ficar aqui, por que não aproveita e descansa um pouco também? Você não precisa ficar tão sério me vigiando o tempo todo. Eu só... – sua boca se abriu emitindo um longo bocejo. – Só preciso dormir mais um pouquinho.

De repente, um arrepio irradiou por todo o corpo de Zed no momento em que Syndra deitou a cabeça sobre a calça em sua coxa. Envergonhado, Zed ficou ali, estático. Depois ele prendeu a respiração e tentou afundar ainda mais as costas no encosto do sofá, na tentativa inútil de se afastar de Syndra. Seu coração batia tão rápido! Que ele temia que ela pudesse se incomodar com o barulho. No entanto, ele logo percebeu como ela estava extremamente quieta. Então, ele soltou devagar o ar preso nos pulmões e se encurvou, vendo que ela tinha adormecido em seu colo.

Há muito tempo, Zed se fechou para não ter que sentir mais nada por alguém, só que Syndra, de alguma forma, destravou o seu coração. Ele não sabia dizer quando foi que começou a se permitir nutrir algo por ela. Mas, naquele instante, ele sentiu uma vontade enorme de tocá-la. E enquanto se perguntava o porquê, sem perceber, os seus dedos já deslizavam por entre os longos fios do cabelo branco dela.

— Eu não consigo descansar, Syndra. Você sabe disso. Estou sempre acordado quando você está indefesa.

Notas finais
Mais uma fic pronta! Algum comentário ou critica?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!