Dopping Oliver X Explicações
4 Capítulo 3 - Salve Khepra!
Notas iniciais
Capitulo 3 – Salve Khepra!
— Não! – Gritei com todo a minha força, mas o que na verdade acabou soando bem fraco.
Cai sentado no sofá no instante seguinte, atônito. Demorou cerca de um minuto para que eu assimilasse que estava em casa, sentado em meu sofá com meu pai caído sobre a mesa de vidro da sala. Seu ronco inundava meus ouvidos, despertando-me cada vez mais do choque. Um instante atrás eu estava entre garras e faróis e, agora, de volta a minha sala.
Ofeguei duas, três, quatro vezes. Olhei para minha mão, onde o escaravelho de marfim repousava trêmulo devido a minha falta de controle emocional. Senti um incomodo na barriga e quando ergui minha blusa, dei-me de cara com o papel de parede arrancado.
— Tudo bem... – Murmurei ao me levantar.
Subi as escadas correndo. Me deparei com o armário devidamente parado em seu lugar, cujas roupas estavam nas prateleiras, diferente de como eu as havia deixado antes de fugir. Atirei-as no chão agressivamente e arranquei os suportes de madeira até alcançar o fundo do armário.
Ele estava lá, intacto, com o pedaço que estava em minha mão ainda preso em sua estrutura. Se o papel estava em minha mão, como poderia fazer parte do fundo do armário? Procurei a mesma saliência e o puxei com tudo, retirando-o para fora. Uma tontura afetou minha cabeça imediatamente; Não havia nada ali. Nenhuma palavra, nenhum desenho em vermelho.
No entanto eu ainda preservava em minhas mãos a réplica idêntica dos desenhos que estiveram ali antes. Céus! Não consegui descrever a confusão que me apoderava. Estaria eu morto? Vivo? Louco? Seria fácil dizer que talvez eu tivesse cochilado no sofá e sonhado com a morte de Charlie, minha tarde no penhasco de Summerfall, a visita dos policiais cães-demônios-seja-lá-o-que e, após tudo isso, simplesmente acordasse. Mas ninguém acordava com objetos dos sonhos nas mãos! Enfiei o papel de parede e o escaravelho de marfim na mochila e sai.
Não olhei para trás enquanto rumava para a escola. Revi, durante minha ida, todas as coisas que me chamaram a atenção durante o “sonhorreal”. Sim, comecei a chamar o que aconteceu comigo de sonhorreal, uma mistura de sonho com surreal. Embora os dois significassem praticamente a mesma coisa, um sonho não trazia objetos para a realidade. No surrealismo sim. Ou melhor, no sonhorreal sim.
Era a mesma velhinha atravessando a rua com o semáforo verde, o idêntico vendedor de pipocas discutindo com dois moleques de rua que suplicavam por alimento, o mesmo policial que parecia um apresentador de televisão famoso rodeado por duas mulheres e também o mesmo ciclista que concertava sua correia fora do lugar. Eu vi tudo isso no meu sonhorreal antes de chegar à escola... E agora eu via de novo.
Eu sabia o que ia acontecer. Eu sabia o instante certo que o semáforo fecharia novamente e o tempo que eu perderia ali. Sabia também que se eu atravessasse a rua mesmo assim, como eu fazia novamente enquanto pensava isso, eu entraria antes que os portões da escola começassem a fechar e então eu não levaria a bronca que levei no sonhorreal por chegar atrasado.
E não é que eu estava certo? Consegui entrar nos portões da escola antes que o zelador viesse fechá-los. Percorri a distância da entrada até minha sala com rapidez e vontade, respirando feito uma locomotiva para controlar minha ansiedade que tentava, a qualquer custo, saltar de mim e correr mais rápido, se é que isso fosse possível. As pessoas, as paredes azul-marinho com verde água, as portas... Tudo passava por mim como um borrão.
Escancarei a porta da sala de aula. No sonhorreal eu entrei timidamente e esperei até o final da aula que o sinal me libertasse, mas se eu tinha a imoral certeza de que meu dia se repetiria como no sonhorreal, eu precisava conferir algo antes de tudo. Necessitei constar com meus próprios olhos minhas expectativas... E foi exatamente isso que aconteceu quando me deparei de frente com Charlie.
O garoto estava vivo, respirando e usando as mesmas roupas do meu sonhorreal. Aliás, tudo ali era idêntico. Estava tudo acontecendo de novo...
— Meu Deus... – Murmurei ao aproximar-me de Charlie.
Ele estava paquerando uma das garotas mais bonitas da sala como eu imaginava. Ergui a mão e toquei seu ombro, atraindo a atenção dos dois que, confusos, resumiram-se apenas em me olhar. Eu, Oliver, nunca tinha dirigido uma palavra para qualquer um dos meus colegas... Havia aprendido a falar só quando me perguntassem algo.
— Você está vivo. – Murmurei.
— O que!? – Questionou o garoto.
Charlie afastou minha mão com um tapão.
— Desculpe. – Eu disse e acrescentei, com um tom meio débil. – Eu precisava ver se era real.
Ele estava vivo. Essa afirmação se repetiu em minha cabeça até que o fardo de sua morte do sonhorreal desaparecesse. Eu não era mais um assassino! Mas, ainda sim, o papel de parede na minha mochila não encontrava uma explicação. Afastei-me dos dois.
— Desculpe... – Pedi mais uma vez ao perceber que todos me olhavam.
Acho que corei, mas antes que qualquer um pudesse perceber, eu já havia deixado a sala de aula. Desfilei em passos pesados até o banheiro masculino. O segundo sinal ecoou por toda a escola, avisando que a aula começaria em breve. Os corredores foram desocupados e a conversa infernal cessou, dando espaço que eu precisava parar chegar logo ao meu destino.
Abri a porta do banheiro. Como não havia ninguém, fechei-a e parei diante da pia e do espelho. Abri a torneira para mergulhar minha mão na água e levei-a até meu rosto, a fim de acalmar meus pensamentos que trepidavam feito uma britadeira. Apoiei minhas mãos nas laterais da pia branca e abaixei a cabeça, respirando fundo.
Concentrei-me apenas no som da água caindo.
— Isso não está acontecendo comigo...
Depositei a mochila no chão, abri e recolhi o papel de parede. Estiquei-o diante de meus olhos, curioso. Obriguei-me a analisar todos os detalhes como se meus olhos fossem uma máquina fotográfica. Toda a vez que eu fitava o imenso escaravelho meu coração dava uma palpitada. Afinal, o que era real? O que era sonho?
Ouvi um borbulhar da privada, mas não dei atenção. Imaginei o que significavam aqueles símbolos... Não eram egípcios, mas mesmo assim o Anúbis e o escaravelho representavam o império mouro das múmias. Deitei o mapa no chão e comecei a admirá-lo de perto, aproximando bem o rosto. Percebi que logo que no centro do escaravelho mestre havia um espaço exatamente igual ao do “totem” que eu havia encontrado. Apanhei o escaravelho de marfim e coloquei-o exatamente no espaço, medindo-o visualmente.
Os traços de cinco dos triângulos abaixo do desenho foram apagados pelo tempo. Ao que parecia, se eu os reforçasse, talvez pudesse enxergar ao menos uma palavra. Ri comigo mesmo enquanto passava a caneta sobre os espaços. Aonde eu queria chegar? Não havia nada de útil naquele pedaço de papel de parede velho. Mas eu queria que fosse... Queria que minha vida pudesse mudar... Queria algo diferente que não se resumisse ao maldito cotidiano.
Quando terminei tal qual foi a minha surpresa ao perceber que os traços que faltavam formavam uma palavra.
— K...
Forcei a visão.
— Khepra.
Lembrei das aulas de história, as únicas que realmente me interessavam na escola. Khepra era o deus egípcio que movia o sol.
Levantei assustado quando a porta do banheiro abriu e Charlie entrou acompanhado de seus três amigos. “Céus” pensei estupefato, “Será possível que nunca me verei livre dele?”. Não, infelizmente esse tipo de traste simplesmente nunca vai embora. Charlie parou de rir e olhou primeiro para mim, depois para o papel de parede no chão.
Larguei a caneta que segurava na mão.
— O que você está fazendo? – Perguntou ele. – Que coisa mais... Estranha!
— Eu...
Não encontrei uma resposta lógica, por isso me contentei em ficar no sucinto silêncio.
— Olha, monstro – Ele disse com uma expressão maliciosa. Era óbvio que toda a escola estaria sabendo que eu era um garoto maluco viciado em seitas demoníacas até o final do dia. – Eu nunca pensei que você pudesse ser mais... Deturpado, mas... Depois disso...
Os três garotos atrás dele se entreolharam. E um deles falou:
— Ele é louco!
“Okay, isso não fazia parte do Sonhorreal... Então não sei o que vai acontecer.” Pensei ao fazer menção de pegar os pertences e sair do banheiro, mas Charlie retirou um canivete do bolso. Isso, definitivamente, foi assustador. Senti um frio na barriga e, por um milésimo de segundo, desejei que o sonhorreal fosse verdade e aquele doente estivesse morto. Eu estava sozinho mais uma vez... Os únicos presentes de minha morte eram as três portas das três divisórias do banheiro e as duas pias.
As pichações nas paredes nunca contariam minha história se eu morresse naquele instante. Eu via, nos olhos do pequeno maníaco, o que ele pretendia.
— O que você vai fazer? – Perguntou um dos garotos. Seu nome era Norbit e tinha os cabelos dourados.
— O que você acha? Roger, fecha a porta!
O garoto gorducho de cabelos negros obedeceu, colocando o pé em frente a porta para trancá-la e estacionando todo o seu peso obeso defronte a passagem. Nem se eu tivesse um guincho conseguiria tirá-lo dali.
Medo. Eu senti muito medo... Um medo indescritível. Medo da maldade humana. Até Deus desconhecia até aonde chegava a mentalidade de suas crias.
— Me deixe ir. – Pedi.
Agradeci por minha voz ter soado firme e forte, apesar do meu interior tremer. Eu era maior, mais forte, mas estava sozinho.
— Qual é, Oliver... Eu sempre quis um momento a sós com você. Nunca gostei do seu jeito, dessa sua cara... Estúpida. – Retrucou Charlie sorrindo feito um maníaco. – E quem vai duvidar de mim se você aparecer cortado? Olhe para isso...
E gesticulou para o chão.
— Vão pensar que você pirou e resolveu se matar.
— Charlie... Não vamos exagerar. – Disse Norbit.
— Fica quieto, seu bosta! Se der mais um pio você também vira fatia!
Norbit engoliu sua língua e logo se apossou de sua pose machona. Eu não queria morrer... Muito menos ser cortado. Arregacei as mangas de meu casaco e deixei os punhos à vista, mostrando para ele que eu não recuaria. Claro que, se eu tivesse a oportunidade, preferiria mil vezes sair correndo. Mas enquanto eu estivesse preso em um banheiro frio, fedido e escuro, eu não tinha escolha.
Gotas de suor escorriam de minha testa e pingavam em minhas vestes. Eu precisava ser esperto a ponto de virar o jogo. Minha mãe sempre me dizia: Os fortes lutam com a inteligência.
— Acha que eu tenho mesmo medo de você, Charlie? – Questionei num tom ameaçador.
Ergui a cabeça para aproveitar a luz amarelada proveniente do teto, que projetava uma sombra frágil sobre meus olhos arredios.
— Quantas vezes acha que já sonhei que o matava?
Claro que já imaginei a morte dele em dezenas de vezes em minha imaginação, mas nenhuma nunca fora tão palpável como o sonhorreal. E em pensar que eu me senti com certo remorso.
Chutei o cesto de lixo ao meu lado até os pés dele. Charlie recuou um pouco, receoso. O plano funcionava a primeira vista.
— Depois que eu arrancar todos os seus dentes e fatiar sua língua com esse seu canivete, nenhuma palavra podre vai sair mais dessa sua boca idiota! – Rugi, mais alto.
Charlie manteve-se firme por fora, mas eu vi o quanto ele tremeu por dentro. Seus amigos sentiram o receio.
— O que? Acha que eu vou cair nessa? – Questionou ele rindo desdenhoso ao procurar apoio em seus amigos.
— Vai amarelar diante desse retardado, Charlie? – Foi à vez de Norbit dar sua revanche.
Charlie trincou os dentes de irritação com o comentário. Quando sua atenção voltou para mim, tive certeza de que meu plano havia escoado água a abaixo. Minha mão não estava tão certa afinal... O garoto ergueu o canivete e correu em minha direção, desferindo um corte no ar tão rápido quanto pude esquivar por completo.
— Tome isso, seu imbecil! – Tachou ele enfurecido.
Eu afastei meu corpo, mas meu braço ficou no caminho. Senti a lâmina queimando minha carne por segundos... Grunhi de dor e segurei meu ferimento. Tentei inutilmente estancar o pequeno corte de dez centímetros que, apesar de não parecer muito assustador, doía muito.
Charlie riu, exaltando a si mesmo e ao seu orgulho banal. Meu medo surgia em meu rosto tão rápido quanto a água que transbordava da pia e inundava o chão, molhando meu papel de parede e os meus calçados. Uma gota vermelha escorreu entre meus dedos e pingou sobre o escaravelho de marfim, acabando por mesclar-se com a água em seguida.
Eu não soube explicar como tudo o que se sucedeu foi possível, mas aconteceu... De verdade. Subitamente a lâmpada sobre as nossas cabeças começou a piscar ferinamente, como dezenas de abelhas atiçadas ao redor de uma colméia. Olhei para cima e depois para a outra gota de sangue que despencava de meu braço e misturava-se a primeira.
Uma rajada poderosa de vento estilhaçou o vidro da janelinha atrás de mim e espalhou os farelos em cima de todos os presentes. Charles recuou assustado e Roger soltou um gritinho, atrapalhando-se com suas próprias pernas antes de abrir a porta e sair correndo.
As outras três torneiras ligaram-se sozinhas e os outros dois amigos de Charles deixaram o recinto aos gritos.
Uma terceira gota desprendeu de meu pulso e nesse instante eu senti um puxão, como se todo o ar de meu corpo fosse arrancado de meus pulmões e jogado para fora. Grunhi, sem conseguir respirar por dois segundos, mas isso acabou tão logo quanto veio. O vento, as torneiras e os vasos, esqueci de acrescentar que eles também jogavam água para fora, cessaram suas atividades.
Apenas a lâmpada continuou...
Btzz... BzzBtzz...
Charlie jazia imóvel e pálido. Seus braços e pernas tremiam e eu juro que só não ri de sua cara, porque eu estava tão pasmo quanto ele. Olhei para o chão a tempo de presenciar o fenômeno: A pequena criaturinha desprendia-se do marfim da mesma forma que alguém fazia ao emergir da água. Sim, ela ficou de pé, sobre duas de suas seis patas, e esticou seu corpo negro de brilho esverdeado.
Era um escaravelho. Metade de seu corpinho de inseto estava submerso na água. Ele ergueu uma das patas para o alto, mais precisamente em direção a Charlie, e disse com uma voz masculina tão clara e serena, com um sotaque meio arrastado e estalado:
— Zuo Kamn tutan Khepra! – E, em seguida, acrescentou em nossa língua: — Ajoelhem-se perante Khepra!
Charlie soltou um gemido. Seus olhos ficaram brancos e este desmaiou, caindo feito um saco de batatas no chão. Eu senti algo estranho... Uma força formigante que desprendeu de meu estômago, subiu pela minha garganta e estacionou em minha boca; Eu comecei a rir. Ri como nunca em minha vida... Ri tanto que comecei a lacrimejar.
— Qual é a graça, seu humano bastardo! – Xingou-me o escaravelho pondo as mãos na cintura. – Passou-se o tempo em que podíamos contar com uma reverência e um sacrifício!
— Isso não pode estar acontecendo... – Murmurei comigo mesmo ao secar as lágrimas. Até a dor de meu braço desapareceu. – Eu estou tendo outro sonhorreal...
Entretanto meu momento de incredulidade cessou quando o alerta de incêndio do colégio tocou. Provavelmente um dos amigos de Charlie havia disparado o alarme. Eu tinha que fugir antes que a noticia corresse... Não sei como arranjei forças dentro de mim para agir, mas eu agarrei o escaravelho com uma mão e peguei o papel de parede e o escaravelho de marfim com a outra. Joguei os pertences dentro da mochila, fechei e coloquei-a sobre o ombro, continuando a segurar firmemente a criaturinha que rugia abafadamente entre meus dedos.
E corri, misturando-me aos alunos que saiam aos gritos da sala de aula.
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