― Ju, você acredita nessas histórias de doppelgänger?

Juliana riu da pergunta de Fábio, ocupada demais batucando uma caneta qualquer em seu caderno para poder olhá-lo.

― Eu não acredito em nenhuma dessas coisas. Por que está me perguntando isso do nada?

― Por nada. É só que do nada veio essa coisa na minha cabeça. Eu devo ter lido alguma coisa na internet e me esquecido.

O silêncio dominou a sala de estar de Fábio novamente, cada um ocupado demais estudando a matéria para a prova de Biologia. O tic tac do relógio de parede era irritante.

― E você? ― Juliana se manifestou.

― Eu o quê?

― Você acredita que você possa ter uma exata réplica andando por aí e bagunçando a sua vida?

― Não sei, na verdade... ― Ele coçou a nuca com a extremidade com borracha do lápis. ― Não acho que a gente deva ser descrente de tudo nesse mundo. Eu acho que pode existir, sim.

― Você acredita em tudo fácil demais. ― A garota deu um sorrisinho de deboche. ― É só ver um filme de terror qualquer que você já fica impressionado e acredita que as coisas podem acontecer na vida real. Eu só acredito nas coisas se eu ver.

― Eu nunca vi nada, graças a Deus... Mas eu acredito mesmo assim.

Juliana não respondeu e os dois amigos voltaram a prestar atenção em seus respectivos cadernos. O tic tac do relógio e o rabiscar dos lápis nas folhas eram irritantes.

― O que você faria caso encontrasse um suposto doppelgänger seu?

― Ah, sei lá, Ju. Correria pra bem longe, talvez? ― ele supôs ― Mas seria muito difícil alguma criatura sobrenatural querer tomar o meu lugar. Eu não sou lá a pessoa mais significante do mundo.

― A simplicidade é o que mais encanta. Ter uma vida comum e insignificante deve ser algo de valor, pra quem é incapaz de sequer poder se comunicar com outras pessoas.

― Deixa eu ver... colocou essa frase em alguma das fanfics de Diários de um Vampiro que você escreve?

Ela deu um sorriso de quem se agrada com algo que foi dito e, mais uma vez, eles ficaram quietos. Biologia nunca tinha sido uma matéria interessante. O tic tac do relógio, o rabiscar dos lápis nas folhas e o trovão frequente de uma chuva próxima eram irritantes.

― Você entendeu a questão quatorze, Fábio? Eu não consigo achar a resposta dela.

― Eu coloquei nela que um exemplo de doença genética é a Síndrome de Down, pela trissomia do cromossomo vinte e um.

― Obrigada. Eu não me lembro da professora explicar sobre isso ― ela justificou.

― Mas ela não explicou, estava naquela folha que ela nos entregou para ler e depois recolheu de volta. Normal se esquecer. Inclusive, você sabe me dizer se aquela dissertação da professora de portu...-

O toque do telefone de Juliana interrompeu os dizeres de Fábio e a menina não atendeu a ligação, desligando-a.

― A minha mãe me disse que me daria um toque quando precisasse que eu voltasse para casa. Ela vai para a academia e quer que eu esteja lá ― ela explicou, já juntando seus materiais escolares em sua mochila. ― Eu vou aproveitar que ainda não está chovendo e vou correr pra lá.

Fábio levou a amiga até a porta e ela se despediu dele com um beijo no rosto, o que ele achou engraçado. Ela nunca havia lhe dado beijinhos no rosto.

Sem Juliana em sua casa, o rapaz desistiu dos estudos e resolveu gastar o seu precioso tempo surfando nas redes sociais de seu telefone. A chuva forte começou a cair não muito depois, tão forte que Fábio quase não ouviu o barulho do interfone de sua casa. Pela câmera de segurança ele viu que Juliana havia voltado e não demorou a abrir o portão.

A menina atravessou a garagem coberta e Fábio não demorou para abrir a porta de entrada com uma toalha em mãos.

― Me desculpe pelo atraso absurdo! O meu celular desapareceu do nada e eu passei um tempão procurando por ele. Não achei em lugar algum e resolvi vir mesmo assim.

O maior levantou uma sobrancelha com a justificativa de Ju. Ela não era boa mentirosa e nunca conseguia disfarçar o riso quando brincava com algo, mas ela parecia séria enquanto tentava ajeitar os cachos com a toalha.

Parando para pensar, quem escrevia fanfics de Diários de um Vampiro era a Talita. Juliana escrevia sobre Friends. E ela detestava quando as pessoas próximas não se lembravam de coisas que ela considerava importantes na vida dela. E, justo naquele momento, Fábio teve a recordação de que Juliana também não gostava de filmes de terror porque não conseguia dormir de noite. Ela nem sequer gostava de mencionar esses assuntos porque se intimidava facilmente.

A coisa que estava com ele quinze minutos atrás não era Juliana.

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