Notas iniciais
Advinhem quem voltou? Isso mesmo! A doida no Nyah Música: Tears in Heaven - Eric Clapton

—Molly, você está apaixonada por ele -a mulher na minha frente repetiu pela milésima vez

—Não, eu não estou. Ele é só meu amigo -retruquei, voltando a encostar meu tronco no encosto da cadeira

—Molly, sou sua médica desde que você tinha treze anos. Eu te conheço o suficiente para saber esse tipo de coisa sobre você

—E o que você sugere que eu faça?

—Antes de qualquer, tente descobrir os sentimentos que ele tem por você. Aí sim, será mais fácil para você se abrir

—Mas, estamos falando de Sherlock Holmes. Ele não demostra seus sentimentos

—Nunca? Isso é impossível -ela suspirou levemente e deu um sorriso simpático -Bem, o nosso tempo acabou. Pense no que eu te disse

Nós duas nos levantamos, nos despedimos e eu sai do consultório. Por mais que odiasse admitir, eu me sentia muito bem ao sair da terapia

Coloquei meus fones de ouvido, botei no aleatório e comecei a caminhar em direção à minha casa

Quando cheguei em casa, meus pais não estavam. Minha mãe deveria estar na escola em que ela trabalha e o meu pai deveria estar gerenciando umas das obras perto de casa

A primeira coisa que fiz foi tomar um banho trocar de roupa. Apesar de ser outono estava um calor que, para londrinos, era um pesadelo

Quando eu estava descendo as escadas, rumo à cozinha, meu celular tocou. Era á minha mãe

A ligação estava péssima. Não entendi quase nada que ela dizia

As únicas palavras que eu entendi foram: acidente, pai, Barts, agora

No automático, peguei a minha bolsa no sofá e fui para o hospital

Meu pai sofreu um acidente? Céus, meu pai sofreu um acidente

Eu sabia exatamente onde era o hospital

Quando cheguei, fui direto para recepção

—Ian Hooper -informei

O recepcionista digitou algo no computador e olhou para mim

—Ele está em cirurgia. A senhorita vai ter que esperar aqui

Assenti e sentei em um dos bancos desconfortáveis do lugar

—Molly, querida -a voz da minha mãe, apesar de baixa, retumbou no lugar

Levantei da cadeira e a abracei

—O que aconteceu? -perguntei

—Acidente na obra. Um dos vergalhões se soltou e... -seu tom de voz foi ficando cada vez mais baixo até sumir por completo

Parecia que alguém havia dado um soco no meu estômago

Eu abracei minha barriga, inclinei meu tronco para frente e comecei a chorar

Minha mãe colocou a mão no meu ombro em um gesto confortante. Eu tinha certeza que ela estava chorando também

***

Conforme o tempo passava, eu ia ficando cada vez com mais sono

—Molly -minha mãe me chamou, depois de um tempo com a cabeça apoiada no seu ombro -Melhor eu te levar para casa

—Não precisa. Eu estou bem

—Precisa sim, você está morta de sono. E além do mais, amanhã tem aula

Nós duas levantamos e fomos da direção do estacionamento

—Você acha que o papai vai ficar bem?

—Seu pai é duro na queda. Duvido que ele deixe se abalar por isso

—Acho que você está certa

Nós duas entramos no carro e, não falamos nada no curto trajeto

Quando chegamos em casa, demorei um pouco para sair do carro

—Hey, vai ficar tudo bem. Seu pai vai ficar bem

—Eu sei, mas...

—Mas nada, mocinha. Agora eu quero que você vá tomar um banho e depois vá dormir

—Sim, senhora

Saí do carro e entrei em casa

Meu pai vai ficar bem

Tomei outro banho, coloquei o meu pijama e deitei na cama

Meu pai vai ficar bem

Dormi quase que instantaneamente

Tive um pesadelo

Eu estava na obra no meu pai. As pessoas pareciam não me ver. Eu vi meu pai conversando com um dos pedreiros

O vergalhão estava se soltando. Quando eu tentei gritar, mas voz não saia. Quando eu tentei correr até ele, minhas pernas não se moviam

O vergalhão começou a cair e eu a gritar. Eu acordei antes que meu pai fosse atingido

Faltava meia hora para que o despertador tocasse

Eu sabia que não conseguiria dormir de novo

Fui até o banheiro, tomei banho para tirar o suor causado pelo banho, coloquei uma roupa e fui tomar café

Era tão estranho estar sozinha nesse momento

Por estar pronta antes da hora necessária, fiquei esperando o tempo passar na cadeira que ficava na minha varanda

Minha mãe não havia mandado mensagem ou ligado para dar notícias. Como era proibido usar celular no hospital, resolvi esperar ela entrar em contato

***

Não vi Sherlock chegando. Só percebi sua presença quando ele tossiu.

Eu dei um pulo pelo susto e ele deu um sorriso

—Você não vai para escola? -perguntou

—Eu acho que está cedo demais. Vou chegar lá mais cedo sem propósito

—Mas, você vai ter que ficar esperando de qualquer jeito. Qual a diferença de esperar aqui e lá?

Ele estava certo. Aparentemente não havia diferença

—E... eu soube do seu pai, vi na televisão. Espero que ele melhore

—Obrigada

—Melhor... irmos. Já está quase na hora da aula

Nós dois levantamos e começamos a caminhar em direção ao nosso destino

***

—Você está bem? -perguntou ele

Não

—Confesso que já estive melhor

Silêncio

—Olha, eu não sou bom com palavras então eu realmente espero que isso faça com que você melhore

Ele me abraçou. Era a primeira vez que tínhamos esse tipo de contato

Suas mãos envolviam minha cintura e as minhas estavam posicionadas em seus ombros. Não sei quando tempo ficamos assim, mas, para mim, não importava

—Obrigada -murmurei quando o abraço se desfez

Ele não parecia saber o que responder então apenas indicou para que continuássemos andando

Quando chegamos na escola, ainda faltavam dez minutos para que a aula começasse, mesmo assim a maioria dos alunos já se encontrava na sala de aula

Nós nos sentamos na última carteira, atrás de duas cadeiras vazias destinadas à John e Mary, quando esses chegassem

Quando olhei para Sherlock, o mesmo estava colocando seus fones de ouvido a ajustando o seu celular

—Não me olhe assim. Você sabe que eu não preciso prestar atenção e, obviamente, o professor não vai notar

—Está certo -me ajeitei na cadeira e olhei para frente

Não muito tempo depois John e Mary chegaram seguidos pelo professor

Eles sentaram em seus respectivos lugares e a aula começou

A primeira meia hora de aula foi marcada pela troca de bilhetes entre Mary e eu, John quase dormindo e Sherlock escutando música, até que o meu nome foi ouvido nos alto falantes que a escola tinha. Eu estava sendo chamada na diretoria e precisava guardar o material

Aquilo não era bom

Murmurei um "depois nos falamos" para Mary e sai da sala

Os passos que dava em direção ao meu destino eram rápidos e largos. Eu estava mais nervosa do que eu pensava

Antes de entrar bati na porta e só a abri depois de ouvir o "entre" vindo de dentro

Minha mãe estava lá. Chorando. Pálida. Angustiada

Aquilo só significava uma coisa

As lágrimas desciam pelo meu rosto contra a minha vontade

—Eu sinto muito, querida. Ele não resistiu

Então era isso. Meu pai se foi

Notas finais
Sabem... meu aniversário é só em agosto, mas seria um ótimo presente se vocês comentassem