Don't seek
1 Capítulo único
Sabem qual a sensação de ser temido? Se souber, é ainda melhor do que pensam. É uma sensação revigorante e ótima! Como se você fosse a criatura mais forte da existência. O grande topo da cadeia alimentar!
Nenhum ser mortal já chegou a conversar diretamente comigo... Descobririam que sou uma criatura carismática. E convenhamos. Nós, "lendas" urbanas, adoramos um pouco de atenção. Ultimamente eu tenho recebido bastante dessa atenção nas mídias e na sociedade moderna, com jogos toscos, mitos contados e fotos editadas de possíveis vítimas minhas. Isso certamente é uma vantagem para mim. Pois depois dessa onda de "Slender isso e Slender aquilo", as pessoas pararam de acreditar. E ficaram cada vez mais vulneráveis.
Mas acho melhor eu ir direto ao ponto... Pois não creio que eu precise me apresentar.
Era pôr-do-sol naquele dia do começo do outono, em uma taiga próxima a uma cidade pequena no Canadá. Muitas pessoas se acumulavam para a celebração do festival do outono, com muitas aboboras e frutos da colheita sazonal. Aquilo tudo era uma perturbação enorme para minha vida útil...
Tantas pessoas vulneráveis. Tão chato...
Eu estava a fim de me divertir, mas como uma pessoa culta. Gosto de dar uma prova de adrenalina às minhas vitimas antes do cruel final. Considero isso um presente para elas, já que a maioria nunca viveu uma verdadeira aventura. Ou devo dizer desventura.
No começo da noite, os pequeninos canadenses começaram com um festival de fogos de artifício. E argh... Como eu odeio a luminosidade! Acabei por adentrar a taiga e...
Dei de cara com uma cabana de madeira simples, como se fosse a casa de um lenhador. O mais estranho era que ela nunca esteve ali, em todos esses anos que eu estive na floresta. E também não tinha nenhum sinal de tecnologia ou vida.
A curiosidade foi tamanha para eu adentrar rapidamente a casa e apagar as tochas que iluminavam o interior da tal.
Olhei para os lados e tudo que eu conseguira ver eram desenhos na parede, de um liquido vermelho fluorescente.
"Você também cairá" — dizia a frase no centro da cabana.
Limitei-me a dar uma risada e ajeitar minha gravata vermelha. Andei calmamente em direção à porta da frente, agora que não conseguia mais ouvir o barulho ensurdecedor dos fogos. Quando sai da porta para fora, pude perceber as tochas e velas da casa voltando a se acender, com um crepitar doce e calmo, como se o próprio paraíso tivesse descido sua essência naquele fogo.
Puxei garras para fora das costas de meu terno, e as usei para andar quase no topo das árvores, como uma aranha escondida na noite.
Tinha alguém ali, brincando comigo. Mas estranhei por não ter conseguido sentir sua presença...
Encontrei, no topo de um pinheiro, uma pequena folha de papel, com desenhos de árvores e um esboço de minha forma padrão, como minhas vítimas costumam fazer. Mas naquele, tinha mais uma frase escrita com liquido vermelho fluorescente no verso, dizendo "você caminha ao julgamento".
Agarrei o papel com certa fúria e indignação. Seja lá quem era o idiota. Ele me conhecia bem. Conhecia minhas manias. Conhecia meu padrão.
Mas... Era um mortal?
Desci rapidamente da árvore, com um salto completamente silencioso. Segui correndo em direção à cidade. Mas quando cheguei lá... Não tinha mais nada além de um descampado escuro, iluminado apenas pela fatia da lua que escapava de trás das densas nuvens que cobriam o céu naquela noite. Minha primeira reação ante aquilo foi olhar desesperadamente para trás e, de onde eu saíra floresta havia uma tocha acesa, com sua haste feia de prata.
Tratei de apagar a tocha, pois a luminosidade começara a escurecer minha visão mais rápido que o esperado. A mesma se reacendeu com a mesma velocidade com a que eu a apaguei.
Pela primeira vez... Comecei a sentir o que minhas vítimas sentiam. Perseguição, paranóia. Por séculos eu fui especialista em causar isso. Uma floresta, um povoado. Tudo sempre foi muito fácil.
Olhei para os lados, apavorado, e mais me vi novamente no meio da floresta, onde por todos os lados mais e mais tochas de prata se acendiam, com fogos de tons de azul à tons de vermelho, ainda com o mesmo crepitar angelical que ouvi na cabana.
Tentei correr, mas me via em círculos, passando pela mesma tocha amarela dezenas de vezes, então cai de joelhos, tentando enxergar algo na claridade forte que vinha a minha frente.
"O julgamento havia chegado" a mensagem dissera.
Eu entrei em pânico. Tentei gritar apenas para lembrar que boca eu não tinha e que olhos eu nunca teria para chorar.
Em um lampejo, voltei para a floresta, estava na frente do capô enfumaçado de um carro aparentemente quebrado. Tinha uma lanterna em mãos e um celular fora de área em cima do motor superaquecido.
Andei indignado em direção à floresta. A mesma floresta que passei a temer, mas não conseguia me impedir de entrar.
Logo de começo encontrei uma folha de papel rabiscada na maior árvore da taiga.
Um homem de terno, sem face, com minhas árvores em volta.
Engoli seco quando li no verso da folha:
"Não procure"
Minha visão escureceu e olhei novamente para o lado para ver uma nova mensagem escrita na parede de toras de madeira da cabana.
"Sua maldição terá um fim" — consegui ler na parede para me ver no centro da cidadezinha canadense.
Olhei para baixo. Eu vestia roupas normais e tinha mãos normais. Respirava ofegante, com adrenalina nas veias, correndo pelas ruas desertas de um bairro perto da taiga. Os postes oscilavam sua iluminação, e os carros estavam parados, abandonados no meio da rua. Eu corria em direção à floresta, com a sensação de algo me perseguindo, me caçando, apenas com uma risada irônica soando pelos prédios.
Quando entrei na floresta, tirei a mochila das costas e a coloquei atrapalhadamente no chão, tirando de dentro dela várias folhas de caderno rabiscadas e desenhadas. Comecei a prega-las nas árvores, apenas com uma lanterna em mãos.
Ouvi um guincho vindo da cidade, apenas para entender que devia começar a correr novamente.
Era o fim da noite quando eu alcancei uma cabana de madeira simples no meio da floresta, e quando olhei para a entrada...
Eu estava lá. Digo... Eu, de terno, gravata e tudo mais.
Ele se aproximou em lampejos e ficou cara-a-cara comigo quando ouvi um chiado irritante, como aqueles de televisão fora de ar.
"Você pagará..."
Foi a ultima mensagem que li naquela noite, de volta ao meu corpo natural, e ajoelhado no assoalho de madeira da cabana, com o liquido vermelho manchando minhas mãos.
Me vi novamente no chão da cabana de madeira, agora não haviam mais frases nas paredes, apenas manchas aleatórias brilhando de vermelho vivo em forma de árvores e uma runa maia de exorcismo no centro.
Quando voltei a enxergar, estava em uma casa de campo, com dois andares e pintura rustica com detalhes azuis.
Eu conhecia aquela casa... E isso me assustava, combinado com tudo que estava acontecendo.
Eu olhei para baixo e me deparei novamente com um corpo diferente. Dessa vez, uma garotinha vestida com pijamas.
Subi as escadas para o segundo andar e chamei por meu irmão. Meu coração acelerou quando abri a porta de seu quarto e percebi que ele não estava lá. Mas quando acendi as luzes, vi um vulto de terno preto no canto do quarto, pisquei e ele havia sumido.
Meu irmão gritou no andar de baixo, dizendo que havia chegado, então desci rapidamente e lhe dei um abraço com os olhos fechados. Quando eu os abri novamente, estava deitada na cama com sangue escorrendo de meu pescoço e uma criatura de terno preto me observando, sentado na beirada da cama.
Levantei-me, ainda no assoalho da cabana de madeira. Olhei a única tocha acesa no centro da cabana que crepitava um fogo amarelo e intenso.
Olhei para cima e me limitei a rir e ajeitar minha gravata vermelha.
Então Deus irá agora julgar o seu demônio favorito?
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