Don't forget about us
2 Parte 1 - Capítulo 1 "Silly Girl"
Notas iniciais
"[...] Tenho tentado não me meter em problemas, mas eu tenho uma guerra em minha mente..."
— Lana del Rey, Ride
RACHEL
Por mais estranho que parecesse, eu não estava tão desesperada quanto achei que fosse ficar. Pensava que o quanto mais perto do passado eu estaria, o nervosismo se mostraria mais e mais presente; as pernas prontas para enfraquecerem, os tremores se intensificarem, as batidas do coração soarem como tambores. Mas nada disso aconteceu.
Bem, isso até pouco tempo.
Estar de volta é apavorante — não havia dúvidas —, porém, eu não esperava que estivesse assinando a minha própria sentença de morte. Relutantemente, eu fui trazida para o lugar onde se iniciou o meu declínio. Tudo começara aqui, há mais ou menos um ano, meu mundo virou de cabeça para baixo num piscar de olhos. Passei de um adolescente normal, boba e apaixonada, para uma megera difamada.
No caminho para a escola, não consigo, nem por um minuto sequer, parar de pensar em como as coisas devem estar nesta cidade. O que não tem sido diferente dos últimos meses; as malditas sessões de terapia não ajudam em nada. Sinceramente, elas só me fazem dar conta do quanto eu sou infeliz e que nada parece poder sofrer mudanças. Pelo menos não em breve.
Annabeth, Thalia... Charlie... O que poderia ter acontecido com eles? Não, Rachel, você precisa superar isso — repreendo a mim mesma. É claro que, em algum momento, eu irei reencontrá-los, e isso vai ser péssimo. É desnecessário sofrer antes do tempo.
Charles não dará a mínima para você, penso. Eu não ligo, ele não poderá me machucar; ranjo os dentes em desaprovação à droga do meu subconsciente que parece ter prazer em trazer as piores coisas à tona. Não mais.
Papai permanece calado enquanto dirige, o que é um bônus. Já é o bastante ter me arrastado de volta à Nova Iorque com a desculpa de que será melhor para mim. Mas eu não caio nessa, sei muito bem que ele só nos trouxe de volta porque precisa representar uma família perfeita para a sociedade. O grande Mr. Dare não pode correr o risco de vazar nos jornais que sua querida filha é mentalmente retardada.
Aumento o volume do rádio afim de me livrar dos pensamentos.
***
“Às vezes, não sei como, sinto que me desligo do mundo.
É uma sensação estranha e com poucas palavras para descrever. Num minuto antes, consigo sentir a presença de tudo ao meu redor: a sala repleta de mesas e cadeiras, o chão sobre meus pés, a lâmpada desligada sobre a minha cabeça, correntes de ar vindo das janelas, o trabalho incansável dos meus pulmões, o coração bombardeando sangue em todas as direções; no minuto seguinte, o chão não é mais sólido, tudo parece ter deixado de existir. Sinto apenas as minhas mãos moverem enquanto uma aquarela de lindas cores toma forma diante dos meus olhos.
Não sei bem o que eu estava pintando, tinha começado a mover o pincel e logo deixei-me levar através dos movimentos. Eu estava desligada de tudo, a não ser da tinta e do instrumento. A aula havia acabado há algum tempo, estava sozinha na sala vazia. Annabeth e Thalia estão na mesma turma de História neste momento, o que me deixou à vontade para pintar.
Deve ter sido o silêncio dominante, ou a forte sintonia e concentração com a tela à minha frente, que me fez praticamente pular quando uma voz grossa e bastante máscula soou atrás de mim, vindo da porta da sala.
— Com licença, a Srta. Anderson está? — viro-me desconsertada e encontro um garoto com papéis nas mãos e uma mochila presa a um dos ombros. A jaqueta do time da escola era destacada logo de cara, eu reconhecia, mas apenas de rosto. Devia ser bem popular.
— N... não. — apresso-me para organizar meus materiais. Isso que dar fazer qualquer coisa na escola, Rachel: não existe privacidade. Constato isso no momento em que o garoto se aproxima. O olhar fixo na minha tela inacabada.
— Uau. Isso é lindo. Você que criou? — ele pergunta. O interesse é evidente em sua voz.
Ao olhar novamente para o meu trabalho, me dou conta do que eu estava desenhando, a mim mesma. Uma espécie de autorretrato. Meu rosto, os traços grandes e disformes, proporções irreais, olhos grandes e cristalinos. O que deveria ser meu cabelo é simplesmente uma massa vermelha e enorme que parece prestes a me engolir.
É, até que estava legalzinho. Sorrio para mim mesma.
— Sim. — respondo num sussurro.
— Isso está maravilhoso — o garoto agora me encara. Olhos fixos nos meus. — Desculpe por tê-la assustado. — ele sorri de lado.
Aceno com um movimento de cabeça. Volto a guardar as coisas na mochila. — Não precisa ir. Eu não vou ficar aqui, estou atrás da professora Anderson.
— Não tem problema, eu já estava de saída. — dou de ombros.
Levanto os olhos para encontrá-lo me encarando, a expressão de dúvida, uma pequena ruga se formando em sua testa. Parecia vasculhar algo em sua mente. Começo a ficar constrangida, estávamos muito perto um do outro, seu olhar não desgruda de mim. Receio que tenha corado, pois ele sorri de leve, e aí que eu percebo que ele é bem bonito.
— Nós já nos conhecemos? Tenho a sensação de que já te vi em algum lugar — ele pergunta.
— Acho que não.
— Tem certeza... ah, espera. Você é da turma de sociologia do Sr. Morrison?
Ele está certo, estamos na mesma turma de sociologia. Lembro-me dele. Um garoto bastante popular da escola, jogador do time futebol, excelente aluno, queridinho dos professores... — Sim, isso. Você é Charl...
— Charles Beckendorf, muito prazer — ele me oferece um aperto de mãos.
— Rachel — sorrio. Charles Beckendorf parecia mais um homem do que um garoto. Seu porte físico era de causar inveja em qualquer garoto da escola. A pele é negra, os olhos castanhos, o cabelo cortado estilo militar. — Bem, eu preciso ir...
— O.k., eu te acompanho.
Não respondi. Charles e eu andamos até o meu armário. Conversamos muito pouco; ele me perguntou sobre pintar, onde eu morava, do que eu gostava. Admito que ele sabia conduzir uma boa conversa. Nos despedimos quando o sinal tocou e ele tinha treino.
— Bom, até mais. Te vejo na próxima aula de sociologia. — ele sorriu e se afastou. Logo foi engolido por vários outros garotos, provavelmente seus amigos da equipe. Charles me olhou mais vez e acenou em despedida.”
***
Sou liberta do angustiante lapso de memória quando a voz do meu pai, firme e autoritária, ecoa em minha cabeça. Concentro o olhar para frente, não querendo olhar em sua direção. — Você está bem? — ele pergunta em meio a minha frustração. Dou de ombros. Não estava interessada em discutir outra vez, além do mais, não iria adiantar.
Solto um suspiro. Ele jamais poderá me entender; jamais entenderá o que se passou. Nem mesmo se importa. Faz tudo em prol de um modelo executivo perfeito, marido perfeito, pai perfeito. Mas isso não passa de uma imagem para a sociedade. O grande Mr. Dare não dá a mínima para a família.
— Rachel... — ele resmunga, há cansaço em sua voz, mas também há arrogância, intolerância, superioridade. Algo embrulha em meu estômago. — Não fique com essa cara. Sabe que eu estou fazendo isso para o seu bem. Dr. Blackely garantiu que voltar seria a melhor solução para você...
— Quis dizer que seria melhor para você — bufei. — Nada nessa bosta de viagem vai me ajudar!
— Por favor, querida...
— Não, pai! Será que você não consegue ver? Eu não sou uma garota maluca, depressiva ou doente; eu sou completamente normal! Eu... eu tive alguns problemas no ano passado. Mas isso é super comum para adolescentes da minha idade. Por que você não consegue ver isso? Por que você não consegue me ver?
Isso é absurdamente ridículo. Eu só precisava ir para um lugar onde eu pudesse esquecer tudo e todos que me machucaram. Esquecer tudo o que sofri. Mas não. O que eu consegui? Consegui oito horas por semana com um velho ignorante e rabugento forçando-me a aceitar uma doença que não tenho, pais negligentes se lamentando por terem errado comigo, nenhuma vida social, e o pior, a lembrança constante da maior decepção que já tive.
E agora as coisas estavam prestes a afundar de vez.
Chegávamos perto da escola, eu reconhecia alguns dos prédios ao redor. Grandes árvores balançavam com o vento nos dois lados da rua. Vários garotos e garotas, estudantes, surgiram seguindo na mesma direção que o nosso carro.
— Eu estou pensando em você. Te trouxe até aqui para ajudar — Papai para o carro, me apresso em sair dali o mais rápido possível. É engraçado, pois vou estar em um lugar muito pior. Ele passa as mãos sobre o seu cabelo, curto, ralo, quase laranja. — Eu conversei com os pais de Annabeth Chase...
Meu coração gela instantaneamente.
— Você o...
— ... e também com a família daquele garoto, Charles Beckendorf — seus olhos me encontram. — Enfrentar tudo isso de uma só vez será muito melhor.
Lágrimas piscam no canto dos meus olhos. Isso não pode estar acontecendo.
— Como você pôde fazer isso? Qual o seu problema?! — algo fino e insuportável arranha minha garganta. A raiva e o medo competem para quem consegue estourar meus pulmões mais rápido. Eu não quero me aproximar deles novamente. Eles me odeiam, eu os odeio. Isso só pode ser um pesadelo. — Eu não deveria estar aqui! Eu queria ficar o mais longe possível dessas pessoas! Por que fez isso comigo?
— Rachel, — sua mão tocou minhas costas quando abri a porta. — confie em mim.
Voltei para encará-lo. Seus olhos castanho-escuros jaziam no mesmo estado que me lembro desde criança. Frios, impenetráveis, vazios. Ele continuou e proferiu uma das maiores mentiras que eu, estupidamente, já cheguei a acreditar um dia. — Vai dar tudo certo.
Cerro os dentes e cuspo as palavras diante dele. — Eu odeio você — Saio do carro o mais rápido possível, batendo a porta com força. Odeio a mim mesma, odeio a minha vida.
PERCY
Eu não fazia ideia de que eu era um grande cavalheiro. É sério, eu poderia receber um prêmio por tratar tão bem as damas. E embora eu não lembre de ter chegado a me incomodar com isso algum dia, não foi nenhuma surpresa para mim descobrir que eu era um enorme imbecil. Resumindo: eu nunca soube ao certo até que ponto meu cavalheirismo iria, a não ser por agora.
Atravesso os corredores da escola, abarrotado de pessoas, em busca de Annabeth, meu vício particular. Era amedrontador, e ao mesmo tempo, eufórico, o jeito que eu me sentia ao lado dela. Parecia que estar perto daqueles olhos tempestuosos, da sua boca doce e irresistível, causava um efeito dominante em todo o meu organismo. Eu simplesmente não aguentava ficar longe por muito tempo. Era como crack, ou outra droga do tipo, era loucura total.
E foi assim, nesse estado de contemplação por minha namorada superquente, que eu acabei esbarrando numa garota de mais ou menos um metro e meio, derrubando-a no chão. Uau, Percy. Você é nota dez! Babaca. — xingo mentalmente várias vezes enquanto me abaixo para ajudar a garota que, acidentalmente, eu mandei ir sentir o chão.
— Você está bem? — pergunto. Como se isso fosse adiantar em algo.
— Merda — ouço-a resmungar quando sacode as roupas. No momento em que seus olhos encontram os meus, percebo que eles estão injetados de sangue; ela chorara há pouco tempo. Isso meio que atiça a minha curiosidade.
— Sinto muito, eu não sei para onde estava olhando... me desculpe.
— Não. Está tudo bem — sua expressão muda. Ela respira fundo e põe um pequeno sorriso no canto dos lábios. — Eu estou bem.
Ela tinha os olhos verdes, como os meus, porém, não rebeldes e agitados, e sim, calmos... serenos. — Tem certeza? Você não... sei lá, precisa de ajuda ou algo assim? — pergunto receoso.
Aproximo minha mão para o seu rosto e, com o polegar, enxugo uma lágrima insistente de sua bochecha esquerda. Me arrependo logo em seguida. Sinto seu corpo estremecer, ela recua do meu toque. — Desculpe — murmuro.
A garota sorri de verdade agora, suas sardas aparecem quando o faz; pequenas manchas vermelho-laranja quase imperceptíveis. Me dou conta de que também estou sorrindo, pois ela me fez pensar em Annabeth. — Acidentes acontecem — disse apenas. Confirmo balançado a cabeça de leve. A garota examina um papel sobre seus livros e solta o ar dos pulmões.
— Bem, até mais — passa por mim.
Não sei bem o porquê, ou que merda deu em mim, mas decido segui-la pelos corredores. — Ei, espera... qual o seu nome? — seus olhos me encaram confusos. Engulo seco. —Você é nova aqui?
Ela parece ponderar por um tempo se deve responder ou não. Por fim, fala: — Não exatamente. Eu me chamo Rachel, Rachel Dare.
Rachel Dare tem cabelos longos, ruivos e enrolados, sardas pelo rosto e braços, feições bem pequenas. — Prazer em conhecê-la, Rachel Dare. Eu sou Percy, Percy Jackson — lhe ofereço um aperto de mãos.
Ela observou os próprios dedos assim que nos soltamos. Havia algo de diferente nela, eu percebia isso. Ao mesmo tempo, ela parecia estar tentando trazer Annabeth para os meus pensamentos a cada segundo, aquela garota do olhar cinza inquieto me deixou contagiado desde a primeira vez que a vi. Annie... A saudade se faz presente. Preciso estar perto dela.
— Está é a minha sala — Rachel capta minha atenção com o som da sua voz; pequena, como tudo nela, porém, de algum jeito, firme. Não percebi que tínhamos andado tanto, e então o lugar onde nos esbarramos já não podia ser mais visto.
— Oh, certo. Desculpe mais uma vez — a garota de cabelos vermelhos parecia alheia à minha presença, seus olhos astutos moviam-se de um lado para o outro em torno de nós. Tudo indicava que ela procurava por algo. Ou talvez se escondia. — Esperando por alguém? — não consigo segurar minha maldita língua.
Rachel me encara. Sua expressão indecifrável, o canto do lábio superior erguido enquanto pensava. Poderia não gostar que a fizessem muitas perguntas. — Até mais, Percy Jackson.
Ela sorri e vira-se entrando na sala.
Encontro Annabeth no segundo período de aula. Os últimos minutos antes disso foram extremamente tediosos e agonizantes. Entro na sala de Matemática e praticamente pulo em seus braços, roubando-lhe um beijo que evapora o ar dos nossos pulmões. O doce gosto dos seus lábios é o bastante para me fazer ir ao paraíso. Não querendo separar nossas bocas, porém, o ar tendo se feito necessário, afasto a cabeça um pouco para trás e deposito vários beijos em seu nariz, bochecha testa.
Annabeth começa a rir. Sua risada se inicia lenta e num tom de sussurro, vai aumentando em poucos segundos, e no final ela está gargalhando. Tipo, tendo um ataque de risos. — Dá para parar? — resmungo desconsertado.
— O que foi isso? — ela sorri mais ainda. Não consigo evitar e me junto a ela. Nossa, como eu a amo. — Percy, você sabe que metade da sala está nos encarando nesse momento?
Olho de soslaio para os lados e percebo vários olhares em cima de nós. Franzo a testa e volto para Annabeth. Tento parecer o mais indiferente possível. Ficando vermelho em 3, 2, 1... — E daí? Eu te amo, deixe-os saberem disso.
Annabeth sorri e me beija. Outra vez, mais uma. E outra. — Você também faz ideia de que está encharcado de suor? — ela debocha e sorri novamente. Tenho vontade gritar que isso por não aguentar o tempo passar para poder vê-la. Dou de ombros.
— Eu... tive Educação Física no primeiro horário.
— Tá bom, Perseus. Acredito em você.
— O.k., Annie. Chega de rir — me aproximo do seu rosto e a beijo.
— Tudo b-bem... — ela se afasta. — Agora sai de perto. Você está nojento.
Encaro-a por alguns segundos. Ela é surpreendentemente linda. A garota mais linda que existe nesse mundo, e eu a amo. Seu cabelo estava posto no ombro direito, tive vontade de deitar ali, mas me contive, os absurdamente encantadores brilhavam sobre o sol ainda forte de fim do verão; a pele exposta era convidativa, eu sabia o quão macia também era, e isso me deixava acordado em todos os sentidos.
— Não vou conseguir prestar atenção na aula se você continuar me encarando desse jeito — ela resmunga de um jeito só eu consigo ouvir.
— Bem, pare de ser tão atraente. Você está me desconcentrando — brinco.
Ela sorri e se volta para mim. — Está dizendo que me deseja, cabeça de alga?
Quase engasgo com sua pergunta. — M-mas ér, hum... Mas é claro que sim. Isso não é óbvio?
— Você sabe o que eu quero dizer. E me refiro àquele outro tipo desejo.
— Quer mesmo falar disso aqui? — faço uma careta de desconforto. — Estamos no meio da aula de cálculo...
— Percy, responda — ela me corta.
Ok., eu nunca havia ligado muito para sexo. Eu sabia que era algo que vinha ligado a gostar de alguém, de ser íntimo de alguém, talvez até dissesse a respeito do amor. Nunca achei que eu fosse desejar alguém tão cedo, ou até mesmo chegar a sonhar com isso. Mas com Annabeth tudo era diferente, tudo era mais intenso, à flor da pele. Eu a queria, e não era de agora. Porém, independentemente, eu jamais poderia pedir algo assim; chegava a soar ridículo só de imaginar tais palavras sendo ditas por mim. Você quer transar comigo? Parecia o passaporte perfeito para um pé na bunda.
Lutei contra todo o meu subconsciente, que me dizia para não responder ou mudar de assunto, e confessei. — Mas é claro, Annie. Eu não paro de pensar em você tem dias... — meu rosto ganha o mesmo tom de cor de um tomate. Ela sorri e desvia o rosto, isso denunciava sua timidez. — Ontem, quando nós estávamos nos beijando, as coisas eram de tamanha intensidade que eu achei que fosse acontecer naquele momento. Nunca tinha ficado tão nervoso em toda a minha vida.
— Eu também não paro de pensar em você, Percy — seu olhar me prende. — Não fique tão nervoso. Quando chegar a hora... Bem, eu deixarei que fique bem claro.
Pelo silêncio que se instala em seguida, entendo que a conversa está encerrada. Passo o braço ao redor do seu corpo e fito o quadro. Faço o meu melhor e fecho os olhos, já que seria impossível prestar atenção na aula agora.
ANNABETH
Fico feliz quando chega a hora do intervalo, talvez isso possa me distrair do turbilhão de pensamentos que congestionam meu cérebro. A sensação ruim ainda não se separava do meu peito, a qual extraí de um pesadelo esta manhã. Luke. Fazia quase uma semana sem que eu tivesse notícias suas. Agora tudo faz com que eu volte a pensar nele, e estou muito preocupada.
Em parte, porque ele não atende meus telefonemas, não checa seus e-mails, muito menos a merda do facebook. Mas também por ele não saber nada sobre Percy e eu. Isso tem me dado nos nervos, pois receio qual será a sua reação. Não quero que se afaste, ele é o meu melhor amigo, é muito importante para mim.
E como se tudo isso não bastasse, Charles Beckendorf continua me dando olhares. Eu não sabia o que fazer. Percy poderia estar bem ao meu lado, mas Charles continuaria a me intimar, e em algum momento Percy desconfiaria, eu não poderia esconder essa história por muito tempo. Ele saberá de tudo o que aconteceu, e mais uma vez, receio qual será a sua reação.
— Só vai comer isso? — Percy volta com o seu lanche e olha feio para o meu prato. Uma maça intacta e mais nada. Dou de ombros.
Forço um sorriso fraco e Percy senta ao meu lado. Virando-se de frente para mim, ele passa os braços ao redor do meu corpo e sussurra em meu ouvido. — Eu te amo, sabia? Muito. — Fico boba. Percy deita sua cabeça em meu ombro e parece pronto para tirar um cochilo. Acho que posso aproveitar da sua companhia e relaxar um pouco.
— Cara, vocês precisam mesmo serem tão melosos? — Thalia resmunga sentando-se do outro lado da mesa. Leo e Jason chegam logo depois.
Percy tenta respondê-la, mas sua voz sai sonolenta e um pouco abafada por causa do meu cabelo. Tem como ele ser mais fofo? — Lia, quando você arranjar um namorado eu vou te atazanar eternamente — brinco, taco nela uma das batatas fritas do Percy sem que ele veja.
— Pois pode esperar sentada — ela retruca e rouba uma batata do meu namorado, jogando em mim em seguida. Daí começamos uma verdadeira guerra. Isso até Percy perceber se irritar o que contribui para o aumento de risadas na mesa. Tirando Jason, que ultimamente tem andando tão fechado que às vezes não me dou conta da sua presença.
— Qual o problema de vocês?! Isso é comida! — Percy faz bico.
— Desculpa, amor. Eu te arranjo outra batata — ele pondera no assunto e decide não ligar. Me beija uma vez, bem demorado, antes de voltar para o meu ombro.
— Arrumem um quarto — Leo assobia.
Me permito sorrir da piada. Eu não acho que vá demorar tanto para que eu e Percy façamos sexo. Tenho desejado isso há algum tempo, e sei que ele também. Eu o amo, é irreversível, então por que esperar? Sei que deverá ser especial, eu farei de tudo para que seja inesquecível, farei de tudo para que não seja como da última vez.
— Oi, pessoal — a voz de Piper faz com que eu salte dos pensamentos e volte à realidade. Olho para Jason, seus olhos foram ao encontro dela de imediato, a expressão instável, as veias da garganta prestes a arrebentarem. Piper se senta à minha direita, os olhos fixos no seu prato repleto de frutas e grãos.
— Até quando você vai continuar me ignorando? — Jason ergue a voz mais que o de costume.
Piper levanta seus olhos para encará-lo. Posso ver o desespero naquelas duas pérolas carameladas. Em Jason, em consigo ver o medo, a raiva, a frustração. O que diabos aconteceu entre eles? Piper engole seco e volta a baixar a cabeça. Jason cerra os punhos sobre a mesa, os nós dos dedos estão feridos em carne viva.
— Foda-se essa merda — ele cospe as palavras ao se levantar e sair da mesa. Ouço um leve gemido vindo de Piper. Todos permanecem calados. Ninguém se atreve a dizer uma palavra. Percy se conserta e volta a sua posição normal.
— Piper... — Leo começa. — Por favor, di...
— Desculpem-me, pessoal. — ela se levanta e vai embora.
Thalia e eu fomos para a minha casa depois da escola. Tentamos bolar uma hipótese do que poderá ter acontecido entre Piper e Jason, mas não obtivemos sucesso. Nada parecia fazer muito sentido, apenas que eles terminaram por algum motivo bastante forte. Algo que Piper ainda não criara coragem para nos contar.
— Então... Você e o Percy? — Thalia pergunta após um longo momento de silêncio. Estávamos deitadas em minha cama, uma em direção contrária à outra. O cheiro do couro das botas de Thalia invadiam minhas narinas sem pedir permissão. — É para valer?
— Com toda a certeza, Lia — um sorriso me escapa. — Eu o amo como nunca amei ninguém antes.
— O.k., Bella Swan, não precisa de todo esse drama — jogo uma almofada nela. Thalia desvia. — Fico feliz por você. Por vocês, quero dizer. O Percy é um cara legal.
— Obrigada.
— Só... você sabe, não deixe que ele saia da linha. Se eu souber que aprontou algo, ele vai se ver comigo.
— Claro, mãezinha — sorrio imitando seu tom de voz. — Mas o Percy não é assim. Ele não poderia me machucar. E mesmo se fizesse, nada chegaria perto do que Charles fez — dou um longo suspiro
— Você ainda não superou isso?
— Não é questão de superar — dou de ombros. — Sei lá, eu só não consigo esquecer.
— Entendo.
— Enfim, não quero falar sobre isso — vasculho minha mente por algum assunto que possa substituir o do momento. — Como andam as coisas em casa?
— Nada muito diferente do que o de costume. A não ser por Jason, que passou de adolescente apaixonado para um socador de paredes. Consigo ouvir seus golpes do meu quarto.
— Queria entender de uma vez o que aconteceu.
— Bem, isso é o de menos. Há algo muito pior que eu preciso te contar.
— O que você quer dizer? — a curiosidade em minha voz me faz soar como uma garotinha.
Thalia se preparava para falar quando a campainha toca. — Só um minuto.
Desço as escadas numa velocidade incomum. Meu pai estava no escritório, duvido que ouviria algo do lado fora. Mamãe ainda não tinha chegado trabalho. O que deixava a mim a Thalia praticamente sozinhas. Abro a porta sem consultar o olho mágico e o vento gelado da noite me invade no mesmo instante. Foi como se tivessem me sacudido enquanto eu girava num carrossel. Deixei a mão pender ao lado do corpo, não consegui pensar em muita coisa, apenas continuei ali, encarando o sorridente garoto loiro parado em minha porta.
— Luke?
Ele abre um sorriso de orelha a orelha e me envolve num abraço apertado, substituindo o frio pelo calor do seu corpo — Annie... Quanta saudade! — ele sussurra em minha orelha. Depois do que pareceu ser uma eternidade, ou talvez não tenha demorado nem mesmo um segundo, consigo me libertar do meu torpor. Meus braços se fecham em torno de sua cintura, um sorriso toma o meu rosto.
— Luke!
Fale com o autor