Don't Stop Dreamin'
31 River
Notas iniciais
– Quer que eu vá com você? — perguntou Viviane se levantando.
— Não precisa, Vivi. — respondeu a loira.
— Ah, mas isso não foi uma pergunta. Vamos! Além do mais, o Juca já me ligou sete vezes hoje. — disse a morena lembrando-se das chamadas não atendidas em seu número. — Não que eu tenha atendido... — sussurrou para si mesma.
— Tá. — concordou Bia, dando-se por vencida. As duas se despediram das outras e avisaram Carol que já estavam indo. E assim pegaram um ônibus de volta para o Raio de Luz.
***
— Quer conversar sobre o que tá acontecendo? — perguntou Vivi à amiga quando encontraram um espaço vazio no ônibus, o que não era provável já que todos os assentos estavam ocupados. Decidiram ficar de pé mesmo. Enquanto caminhavam do shopping até o ponto de ônibus, Vivi percebera o quão Beatriz estava distante. E não saber o que se passava na cabeça da loira, a intrigava.
— Não sei. — respondeu a menina fitando o chão sujo. Fecho os olhos e suspirou. Viviane a encarou interrogativa, mas viu que a mesma não iria falar nada. Bia era assim: escondi tudo para si e arrancar algum segredo dela não era nada fácil. Conhecia sua melhor amiga. Porém, se preocupava com ela.
— Eu estou aqui para o que você precisar, Bia! — disse abraçando esta de lado. A loira apoiou a cabeça no ombro de Vivi e fechou os olhos adormecendo. A morena riu. "Mas como essa menina gosta de uma soneca, viu?", pensou.
Alguns quarteirões dali...
Tomas observava a movimentação da cidade pela janela da sala do pequeno apartamento em que estava "hospedado". Os carros pareciam riscos em movimento para ele.
Ouviu a porta de entrada se abrir. Era Julia, uma amiga de seu falecido pai adotivo. Estava morando temporariamente com a mulher. Esta era assistente social e prometera arranjar um novo lar de adoção para o jovem.
— Oi, Tom! — ela cumprimentou sorrindo. Ele retribuiu o gesto sem dizer nada. — Trouxe um lanchinho! — completou. O moreno então percebeu a sacola de papel na mão da moça.
— Obrigada. — ele agradeceu. Se levantou do sofá e caminhou até o balcão da cozinha. Abriu a caixa improvisada do 'fast food' e tirou o hambúrguer de queijo cheddar. Deu uma mordida enorme como se nunca tivesse comido um daquele. — Está ótimo!
— Que bom! — disse Julia pegando o seu sanduíche, seguindo com as batatas fritas e os sachês de ketchup. Observou Tomas por um segundo. Ele era órfão. Nascera órfão. E há duas semanas perdera o pai adotivo. A mulher trabalhava há anos como assistente social e já lhe dara com vários órfãos. Mas Tomas não era como os outros. Ele estava perdido. Ela queria ajudá-lo a se encontrar. A viver.
— Encontrei um bom orfanato. O melhor da região. Ligarei para a diretora hoje à noite. Torça para que tenha uma vaga! — ela disse empolgada. Tomas sorriu antes de colocar uma batata na boca.
No shopping...
— Credo, Dani! Estúpida! — xingou Teca empurrando a amiga. Esta acabara de lhe dizer que Fábio era um estrangeiro que não deveria estar em sua sala e que queria que ele não tivesse nascido. — O que ele te fez?
— Nada. — respondeu a mais nova debochada. Teca revirou os olhos. Odiava quando julgavam alguém sem conhecer. — Nem sei porquê você tá tão nervosinha! Há duas horas atrás você nem sabia que ele existia e, agora, fica defendendo ele!
— Acontece que você sabe muito bem que eu não gosto de quando você julga os outros! — disse Teca intrigada.
— Sabe o que eu acho? — Dani se colocou na frente da amiga a impedindo de continuar andando. Elas caminhavam até o chafariz, onde estavam as outras garotas. — Eu acho que você está tão desesperada por um relacionamento que está se jogando pra qualquer um! — provocou. Teca bufou.
— Isso não é verdade!
— Claro que é! Desde que a gente brincou de salada mista na escola você está assim! Meu Deus Teca! O Carlos é horroroso! Sorte a sua que ele não quis te beijar e... — Dani fez uma pausa e encarou a amiga. Carlos era um aluno do nono ano, a turma de Ana. E Teca gostava do garoto. — Você quer fazer ciúmes?
— Me poupe! Me poupe desses seus comentários fúteis e inúteis! — gritou Teca irritada. Deixou Dani para trás e seguiu para o banheiro. A amiga revirou os olhos.
— Afs! — resmungou a mesma indo na direção das outras garotas. Estas conversavam sobre coisas aleatórias e Daniela entrou no assunto.
***
Bia e Vivi haviam chego há alguns minutos. A morena estava na sala com o namorado e Beatriz no quarto. Havia acabado de sair do banho e procurava por uma camiseta limpa e o macaquinho azul do uniforme do orfanato no guarda-roupas. A segunda era uma peça nova que chegara há cinco dias. Não usara, então decidiu experimentar.
Quando encontrou, dirigiu-se até a cama e jogou os trajes no colchão. Desenrolou-se da toalha e se vestiu. Prefiriu deixar o cabelo molhado para secar naturalmente.
Arrumou seus travesseiros e almofadas na cabeceira da cama deixando-os confortáveis para que pudesse descansar as costas. Pegou um gibi qualquer da 'Capitã Frenética' na mochila para ler. Mesmo com o passar dos anos ela continuou a ser fã da série de revistas em quadrinhos.
Sentou-se na cama esticando as pernas. Abriu o exemplar de número 20 e se deparou com algo que não esperava. Um envelope branco fechado. "Para Bia". Não tinha um remetente. Revirou os olhos e o colocou no criado mudo achando que pudesse ser uma brincadeira dos meninos.
Contudo, a curiosidade aumentou e a loira resolveu abrir a carta. Havia uma outra folha. Era uma página arrancada de caderno dobrada várias vezes. Abriu.
" Meu orgulho, meu ego, minhas necessidades e meu jeito egoísta fizeram uma mulher boa e forte como você sair da minha vida. Agora nunca, nunca conseguirei limpar a bagunça em que eu fiz e me assombra sempre que fecho meus olhos.
Apesar de doer, serei o primeiro a dizer que estava errado. Sei que provavelmente estou muito atrasado para tentar me desculpar pelos meus erros, mas espero que me perdoe.
Ass.: Adimirador Secreto"
A letra era bonita, curva e legível. Beatriz releu o texto para ter certeza de que não estava imaginando coisas. Decifrou. Era a letra de uma das músicas que ela mais considerava cliché, When I Was Your Man do Bruno Mars. Alguém havia feito aquilo para irritá-la?
Releu e releu. "Adimirador Secreto". Arregalou os olhos. Talvez fosse uma brincadeira dos meninos mesmo. Ou talvez não. "Me perdoe". Nada.
Levantou-se bruscamente da cama com a carta. Largou o gibi e o envelope no colchão. Deixou o quarto apressada e desceu as escadas da mesma forma. Correu até o quarto masculino para tirar satisfações com os garotos.
— Quem fez isso?! — gritou entrando no lugar sem bater assustando os garotos. Neco pulou na cama.
— AAAHHH!!!! — gritou. Bia o encarou. Ele a observava apavorado.
— QUEM FEZ ISSO?! — gritou a loira outra vez. Os meninos se entreolharam confusos.
— Do que você está falando, Bia? — perguntou Mosca. Este estava sentado em sua cama.
— Disso! — ela respondeu mostrando a folha para os meninos. — Eu achei essa carta na minha cama. Quero saber quem foi o patético que escreveu isso!
— O que tá escrito? — perguntou Thiago curioso.
— A letra de When I Was Your Man. — um olhar se direcionou à menina. Um olhar suspeito. — Quem foi? — perguntou outra vez e os meninos deram ombros.
— Bem, eu acho que não foi ninguém daqui. — disse Duda assustando a menina quando pulava da cama. — E acho que você não deve acusar alguém sem provas!
— Vá te catar, Eduardo! — retrucou a loira.
— Vai ver foi aquele seu amiguinho, né? — ele provoucou. Bia sabia que ele falava de Janjão.
— Talvez seja ele mesmo! E espero que seja! Algum problema? — provocou de volta e Eduardo a encarou sem resposta. A loira sorriu vitoriosa. — Eu vou encontrar quem fez isso. E aí de vocês se isso for uma brincadeira! — ameaçou se voltando para os meninos em geral. Deixou o quarto da mesma forma que entrou.
— Quem fez isso? — perguntou Mosca seriamente. — Não precisa ter vergonha.
— Eu não fui! — disse Thiago. — A Bia não faz o meu tipo.
— Eu também não! — disse Binho.
— Nem olhem pra mim. Eu namoro! — alegou Rafa.
De qualquer forma, o admirador estava entre eles. E ele estava particularmente gostando de ter deixado a loira curiosa. E irritada.
Continua...
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