Don't Stop Dreamin'
29 "Dia das Garotas" parte III - Explicação por emoção
Notas iniciais
No banheiro...
Mili já havia trocado de roupa. Substituíra o vestido por uma camisa social de manga três por quatro branca estampada com laços azuis claro e uma macacão azul marinho que comprara naquele mesmo dia. Agradeceu à Deus por ter escolhido usar uma sapatilha preta naquele dia. Prendeu o cabelo, antes solto, em um rabo-de-cavalo.
— Uau! — exclamou Pata ao ver a amiga. Riu com a própria brincadeira. Mili não aguentou e fez o mesmo. Porém, parou ao se lembrar das coisas que dissera à Bia.
— Será que a Bia tá bem? — perguntou à amiga. Pata deu ombros. Não sabia o que se passava pela cabeça de Beatriz, mas concordava com a acusação da mesma em relação à Marian.
— Ela tinha razão. — disse enquanto ajeitava os cachos observando seu reflexo no espelho. Mili a encarou confusa. — Sobre a Marian.
— Você acha? Por que a Marian faria isso?
— Não quero dizer ao que ela fez hoje. Ela sempre aprontou. Você nunca percebeu isso. — disse se virando para Mili.
— Não Pata. Eu conheço a Marian.
— Ou acha que conhece. — Pata percebeu como aquilo entristeceu a garota. — Mas então... Ontem a gente não conversou... Por que você estava... hum... abalada? — a pergunta deixou Mili em choque. Não se lembrava que Pata queria conversar com ela e que queria desabafar.
— Hum... Pata... — pensou no que diria. A morena era sua melhor amiga não achava certo esconder alguma coisa dela. — Seu irmão... ele... terminou com a Janu.
— Terminou? Estranho ele não me contou nada. — Pata hesitou. — Ele te contou?
— Sim.
— E você sabe o motivo?
— Sim.
— Que é... — incentivou. Mili engoliu seco antes de responder.
— Por minha causa.
— O quê? Como assim?
Mili decidiu contar à Pata tudo o que havia acontecido entre ela e Mosca. Contou sobre o primeiro beijo, as tardes no hospital e a noite anterior, porém, omitiu a parte que Mosca contara sobre a ligação de Janu.
— Quer dizer que você beijou meu irmão e por isso vocês discutiram naquele dia que resultou no acidente dele? — perguntou Pata confusa. Mili olhou ao seu redor para ter certeza de que estavam sozinhas.
— Não. Pata, ele namorava a Janu e eu não queria ser a outra da história. — afirmou. Pata hesitou. Tento absorver todas as informações de forma nítida.
— E agora vocês podem ficar juntos, né? — disse Pata com um sorriso esperançoso no rosto.
— Não sei.
— Como não sabe, Mili?
— É complicado de explicar...
— Mili...
— Eu queria tanto que as coisas fossem mais fáceis! — disse a menina se jogando nos braços da amiga a abraçando. Pata deu-lhe o ombro para que pudesse chorar. Lembrar-se de tudo o que estava acontecendo em sua vida a deixava com o coração apertado. Talvez chorar pudesse aliviar a dor. Talvez.
***
— Bia! Bia espera! — gritava Ana enquanto corria junto de Vivi atrás da loira. Estavam correndo há alguns minutos já que Beatriz estava bem mais a frente das duas e dava passos largos.
— Bia! — gritou mais uma vez. Bia parou. Esperou até que Vivi e a ruiva a alcançassem.
— Vamos... conversar... — pediu a morena com a respiração ofegante. Colocou a mão no peito e percebeu que o coração batia rápido demais. Não estava acostumada a correr daquele jeito. Nem nas aulas de educação física da escola. Passou a mão pelo cabelo para garantir que não estava descabelada.
— Não quero conversar. — disse a loira friamente. Observou as amigas tentando se recompor e revirou os olhos. Pensou em se virar e continuar andando. As lágrimas estavam quase "pulando" para fora de seus olhos contra sua vontade.
— Por fa... favor... Bi... Bia. — disse Ana. Bia balançou a cabeça negando o pedido. Ana bufou.
— Eu quero ficar sozinha agora. Mais tarde a gente conversa, pode ser? — propôs e as duas assentiram. — Ótimo!
— Pra... onde você vai? — perguntou Vivi preocupada.
— Tomar um ar. Não precisam me esperar. Podem ir embora quando quiserem. — avisou se virando e retornando a seu caminho. Vivi e Ana se entreolharam. Faltavam quinze minutos pro filme começar e elas ainda tinham que atravessar o shopping inteiro. Observaram Bia se afastar. Então, puseram-se a correr até o cinema.
Levaram uns dez minutos até chegarem lá. As outras meninas as esperavam eufóricas na porta do local. Já haviam comprado as pipocas e os refrigerantes.
— Cadê a Bia? — perguntou Carol. A preocupação era claramente exposta em seu rosto.
— Foi tomar um ar. — respondeu Vivi depois de finalmente conseguir recuperar a respiração.
— Meninas, eu...- dizia a diretora quando Pata a interrompeu.
— Carol, ela sempre faz isso! — disse a morena. Não era mentira. Bia costumava sair do Orfanato quando estava muito irritada e tardava a voltar.
— Não meninas... — a moça nunca percebia os sumiços da menina. Na maioria das vezes estava sempre na diretoria, mas quando saia de lá não se deparava com a loira. Agora sabia o motivo.
— Fugir dos próprios problemas. — disse Cris aprofundando a fala da amiga.
— Bem a cara dela... — provocou Leticia. Para a sorte da morena apenas Marian escutou. A mesma riu disfarçadamente. Após mais alguns minutos, as meninas conseguiram convencer Carol de que Bia ficaria bem e entraram na sala de cinema.
Num lugar perto dali...
Bia se sentara no banco da praça da frente do shopping. Deixara as lágrimas finalmente sairem de seus olhos. Já não bastava pensar em Eduardo. Agora, uma de suas melhores amigas havia a chamado se criança. Estava com raiva da morena e também arrependida por tratar Carol da forma como havia a tratado naquela tarde. Imaginava o castigo que receberia. Mas, acima de tudo, sentia ódio de Marian e Leticia. Escondeu o rosto atrás das mãos.
— Bem, da primeira vez que eu te encontrei você estava zangada; agora você está chorando. Quando eu vou te encontrar sorrindo? — disse Janjão se aproximando. Bia riu discretamente com a brincadeira.
— O que aconteceu? — ele perguntou. Beatriz levantou o rosto para encará-lo. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. — Foi o Eduardo? Porque se foi eu vou lá, agora, dar uma surra nele!
— Não. Ele não fez nada. Bem, não exatamente. — ela respondeu confusa com as próprias palavras.
— Como assim?
— Eu brigue com a Mili. — revelou fitando o chão.
— A Mili?
— É. A Marian derrubou milkshake nela. Eu sei que foi de propósito, mas a Mili insisti em acreditar que não! — disse. Encostou as costas no banco.
— Eu não vou com a cara delas, mas tem certeza disso? — perguntou Janjão. O mesmo, de vez wm quando, mexia nos cordões de sua blusa.
— Você nem conhece elas! Pare de opinar! — ela disse batendo de leve em seu ombro. Os dois riram. — E o que o senhor faz por aqui? — perguntou. Janjão deu ombros.
— Minha mãe tá cuidando da filha de uma amiga dela. — hesitou por um instante pensando em quem seria capaz de fazer alguma amizade com sua mãe. — Ela tinha que comprar umas coisas e a menina queria comer um lanche do BK. É muito mimada. — ele disse enquanto observava o céu.
— João! João! — chamou uma garotinha se aproximando dos dois. Tinha a pele negra e cabelos crespos. Era magra e usava um vestido florido que ressaltava a cor da pele. Aparentava ter pouco mais que seis anos de idade.
— Eu já disse pra você me chamar de Janjão, Teresa! — reclamou o menino direcionando o olhar para a criança parada em sua frente. A mesma parecia esperar uma resposta. — O que é?! — ele gritou impaciente fazendo-a pular para trás. Bia observava os dois segurando o riso. " Janjão seria um péssimo pai", pensou. Após analisar aquilo, repreendeu si mesma mentalmente por ter parado para pensar naquilo. "Mas e daí? Eu não tenho nada a ver com isso!"
— Sua mãe está chamando! — avisou Teresa cruzando os braços.
— Tá, tá! Fala pra ela que eu já vou! — ele disse e a pequenina seguiu na direção da mãe do menino. Sussurrou algo em seu ouvido. Poucos minutos depois, a mãe de Janjão foi até os dois.
— João Pedro! — ela disse o puxando pela orelha.
— Que é? — reclamou ele mais uma vezes tentando tirar os dedos da mãe que apertavam com força a orelha.
— Quer dizer que você acha que pode ficar aqui paparicando sua namorada quando eu te chamo? — gritou a mulher.
— O quê?! — o garoto não sabia exatamente o que a mãe estava falando. Não quando uma dor pairava no lado esquerdo de seu rosto. — A Bia não é minha namorada! É só uma amiga! — disse corrigindo a mãe.
— Não interessa! Vamos embora! — ela disse o puxando dali. Antes que fosse completamente arrastado dali, sussurrou "Depois a gente se fala" para a loira que ainda estava sentada no banco. A menina assentiu. Se segurou para tentar conter o riso.
No orfanato...
Thiago e Binho já haviam pego o "mini-detector de paixões" com Samuca no dia anterior e recebido as instruções de como a engenhoca deveria funcionar.
Desciam as escadas cochichando quando chamaram a atenção dos outros meninos. Samuca, principalmente, estava curioso para saber como fora a "apresentação" dos dois na escola.
— O que vocês tanto cochicham? — perguntou Mosca que estava sentado no sofá mexendo no celular. O braço enfaixado ainda doía quando o movia.
— Nada. — disse Thiago. Ele realmente não esperava aquela pergunta.
— Sei... — disse Mosca, desconfiado.
— Como foi a apresentação ontem? — foi a vez de Samuca perguntar. Era uma de suas melhores invenções. Teria de ter orgulho. Thiago e Binho se entreolharam. Um esperava que o outro o tirasse daquela situação.
— Fo-oi... Apresentação? Que apresentação? — disse Thiago se fazendo confuso.
— Da redação do projeto da escola... — lembrou Samuca.
— Ah sim... Essa apresentação. — disse Thiago. — Conta pra ele Binho! — exclamou afinal o amigo quem inventara aquela mentira, não ele.
— Foi bem legal. A professora deu... a máxima pra gente. — disse o mesmo. O nerd assentiu convencido. A dupla suspirou aliviada por ter se livrado daquela enrascada.
Continua...
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