Don't Need a Love Potion
39 O fantasma do passado de Summer ganha vida-Parte 1
Notas iniciais
-Ah, sim. Eu me lembro desse dia... –Ouvi uma voz masculina atrás de mim, me causando um sobressalto- Eu disse a ela pra não abrir a caixa, mas ela é garota. E garotas são muito curiosas...
Me virei pra ver o dono daquela voz e quase tive um ataque cardíaco. Era o garoto da pintura, com certeza, mas ele parecia mais moderno. Usava umas roupas estilo surfwear, o cabelo loiro arrumado em um topete, óculos Ray-Ban e um sorriso que me fazia lembrar um ator de Hollywood.
-Quem é você? –Perguntei meio assustada.
-Ora, então não me reconheceu, maninha?
Aquele “maninha”... Eu só conhecia uma pessoa que falava assim, mas ele estava bem longe. Então quem mais me chamaria assim?
Foi aí que minha ficha caiu...
-Você é... Eros? –Arregalei os olhos.
-Nossa, tava demorando, hein? –Meu irmão imortal tirou o Ray-Ban e pude ver seus olhos, iguais aos de Seth: metamorfos. Uma hora eram da cor do mar, outra hora eram escuros como o interior de uma caverna. Já vi agora de quem Seth puxara os olhos –e não só os olhos. Os olhos, o sorriso, a atitude, tudo- Eu sou Lorde Eros, deus do amor e, secundariamente, do sexo, mas vamos deixar isso pra lá... Não vou ficar poluindo sua mente, querida irmã.
-Eu já sabia disso... –Ri meio sem jeito. Quer dizer, eu sabia que meu irmão era o deus do sexo –por que você acha que quando uma coisa é meio indecente o pessoal diz que é erótica? –, mas uma coisa é você ouvir falar por outra pessoa, outra completamente diferente é você ouvir isso do próprio deus –e consequentemente, seu irmão mais velho- Quem é a garota na pintura com você?
-Ela é minha esposa. Psique. Uma deusa menor, como eu. A personificação da alma humana... –Eros olhava o retrato com uma paixão incontida- Mamãe nunca gostou muito dela, até que mandou Psique ir até o Mundo Inferior buscar a maleta de maquiagem dela com Lady Perséfone, mas o que ela não sabia era que minha mãe enfeitiçara a maleta, para que quando um mortal a abrisse, caísse em sono eterno. Cheguei a tempo e retirei o feitiço de Psique. Foi então que, depois de uma reunião com Vovô Zeus, minha mãe consentiu meu casamento com Psique e a admissão dela como uma deusa.
-Uau... –Murmurei. Eu já tinha ouvido a história de Eros e Psique. Era quase trágica, mas o bom é que depois, tudo acabou bem- Mas sem querer parecer chata, o que tá fazendo aqui?
-Aqui também é minha ilha de veraneio, sabia? –Meu irmão sentou na cama queen-size do meu quarto –como foi que eu vi esse quarto gigante e não vi aquela cama?– e colocou os óculos escuros na gola da camiseta branca- Quando eu não estou flechando corações eu venho aqui, dou uma respirada. Acho que tenho mais tempo de folga por que sou um deus menor...
-Eu não acho que você seja considerado um deus menor... –Ri meio nervosa enquanto me sentava no chão- Você tem uma das histórias de amor mais lindas que eu já vi... Tirando a história da mamãe com Adônis e a história de Jack Dawson e Rose Dewitt...
-Pois é... Se a mamãe não tivesse inspirado o Sr. Cameron a fazer uma história de amor, o Titanic não seria o mesmo... –Eros olhou o vazio, com um olhar sonhador- Claro que eu dei uma ajudinha também, não é?
-Enfim, estamos nos desviando do assunto. –Disse tentando não parecer grosseira- O que você veio fazer aqui?
-Na real? –Ele me olhou, sentada no chão, esperando pacientemente uma resposta- Ok, mamãe mandou vir aqui pra ficar de olho em vocês. Pronto falei...
-Sério? E porquê?
-Ela acha que lá fora tem algo perigoso demais pra vocês enfrentarem... –Eros tirou algo das costas dele –que percebi, depois do susto que tomei, que era uma flecha– e começou a testar a pontinha- O que eu disse pra ela que era perda de tempo, já que vocês todos são semideuses vacinados e grandinhos, que já sabem se defender. Mas sabe, mamãe é psicótica demais com os filhos dela. Devia ver a cena que ela fez quando soube que Silena morreu... –Tanto eu quanto ele mordemos o lábio. Ele devia conhecer nossa irmã e com certeza lamentou a morte dela- Ela vai tentar investigar alguma coisa que possa ajudá-los...
-Mas não é proibido os deuses ajudarem seus filhos?
-Não se for indiretamente. –Eros atirou preguiçosamente a flecha em seus dedos, e ela foi fincar na mureta da sacada- Por isso ela vai falar com Lorde Hades. Se for uma criatura infernal será fácil lidar com ela, vocês têm o filho de Hades pra despachar o monstrengo de volta para o Mundo Inferior, mas vai ser complicado se for outro monstro.
-Eu sei que não vai nos ajudar...
-É, mas soube que você trouxe duas Caçadoras de Ártemis com você, e eu estou aqui pra ajudá-las. Temos que ter todo o treinamento necessário. –Eros se levantou da minha cama e saia pela porta.
-Não vá enfeitiçar elas. –O parei antes de sumir pela porta- Elas são...
-Eu sei, Caçadoras de Ártemis. –Eros sorriu- Não se preocupe. Não vou machucá-las como eu fiz da última vez... –Ele já ia saindo antes de eu puxá-lo.
-Como assim? Da última vez?
-Como você sabe, minha irmã, Thalia se apaixonou por alguém que acabou se tornando mau e Angelina viu seu amado morrer. Pensarei duas vezes antes de flechá-las novamente, se bem que agora elas estão sob proteção de Lady Ártemis... –Eros se soltou do meu aperto- A gente se vê, maninha... –Ele começou a sumir em luz. Fechei os olhos imediatamente pra não correr o risco de ser queimada.
Depois de um minuto silencioso eu aproveitei pra testar minha cama nova. Eros a fez parecer tão macia... E era mesmo. Eu quase me afundei no colchão. Ria comigo mesma enquanto ouvia uma voz cantar na sacada ao lado da minha. Hipnótica, sedutora... Eu me sentia puxada na direção daquela música. Eu podia entender algumas palavras daquela canção, já que o português era muito parecido com o espanhol.
Você diz que não me ama
Você diz que não me quer...
O resto era cantarolado, mas algumas outras palavras escapavam: Você finge que me odeia, mas no fundo paga pau... Eu podia até rir, mas de repente eu estava reconhecendo aquela voz que cantava bem do meu lado. Ai, meu Zeus, que seja qualquer um, menos quem eu tô pensando que é...
Estava pertinho da mureta da sacada, pronta a olhar para o lado e ver o cantor misterioso. E minhas sinistras suspeitas estavam certas...
-Ah, oi Isa... –Alex acenou alegremente da sacada dele, bem ao lado da minha- Não sabia que ia ser minha vizinha de quarto...
-O que era isso que estava cantando?
-Ah, é uma música brasileira... –Alex colocou as pernas dele pra fora da mureta e se sentou na divisa das nossas sacadas- Eu aprendi português por um tempo. Claro que a dislexia não ajudava, mas eu consegui aprender alguma coisa.
Aquilo me surpreendeu. Eu nunca soube que Alex sabia português. Também, fiquei longe dele por tanto tempo que eu simplesmente ignorava tudo o que dizia a respeito dele.
-E quando aprendeu a cantar?
-Eu sempre cantei, Isa, esqueceu?
-Ah, é... –Outra coisa que eu também esqueci sobre Alex: Ele também cantava, mas ele costumava cantar quando estava sozinho ou triste –eu só soube disso depois que Percy, Annabeth e Thalia entraram na minha escola. Aliás, foi Percy quem me contou isso. Uma vez, indo para meu treinamento na arena com Clarisse, passei pelo chalé de Zeus e ouvi alguém cantar, mas eu achava que era loucura minha. No princípio pensei que fosse uma ninfa ou até Thalia, mas nem Thally ou as ninfas do acampamento não tinham uma voz tão grave assim. Uma voz que me dava um frio no estômago toda vez que eu ouvia, que me arrepiava quando ela era ecoada tão perto de mim...- Acho que você pode ser protegido de Lorde Apolo. Sabe, por que ele é o deus da música e você canta muito bem e... –Ai, Tártaro! Comecei a ficar vermelha. Droga...
-Eu também acho isso. Mas ainda assim prefiro os meus poderes de filho legítimo de Zeus. –Alex levantou o braço e o ar começou a se encher de ozônio. Um raio do tamanho de uma das gêmeas de Hefesto estava nas mãos dele- Se eu puder derrotar monstros com uma nota não acessível no mundo natural bem aguda, talvez eu deixe os raios de lado...
-Mas aí não seria a mesma coisa. Você já se acostumou com seus raios... –Sorri enquanto olhava Alex tão perto de mim. Vi que ele tinha uma corrente no pescoço dele que não tinha reparado antes. E preso a corrente estava Destemido em forma de broche de raio. Alex percebeu que eu estava olhando a corrente dele e deu um sorriso.
-Eu prendi meu broche na corrente também. É mais prático. –Deu de ombros enquanto minha mão voava pro meu colar, onde Proibida descansava como pingente- Tá funcionando bem pra você, achei que podia funcionar pra mim também...
-O que você acha que tem aqui na ilha? –Perguntei depois de um longo minuto silencioso- O que está guardando o arco de Ártemis e que matou as ninfas da minha mãe?
-Eu não sei Isa... Mas... –Ele pulou pra minha sacada e me abraçou de lado- Embora seja difícil pra admitir pra mim mesmo... Eu tô com medo...
-O Destemido com medo? –Ri enquanto Alex olhava pra mim. Pela primeira vez não me senti nervosa enquanto ele me segurava. Me senti segura, tranquila. Mais tranquila desde que saímos de Long Island- Pensei que fosse o cara que ria da cara do medo.
-É, eu sei. Mas não estou com medo por mim... Estou com medo por você... –Aquilo me congelara. Ele estava com medo... Por mim?- Você é muito corajosa, tenho que reconhecer isso, mas nossa missão é perigosa demais... E também, acabei de ter sua amizade de volta e eu não quero te perder... –Vi ele morder o lábio antes de recostar sua testa na minha.
-Amizade bem estranha a nossa...
-Como assim? –Ele me olhou e fez uma cara de inocente.
-Ah, você sabe. Uma hora estamos numa boa, aí você me beija, eu fico com raiva, nós brigamos e ficamos longe. Daí um monstro aparece querendo me matar, você me salva e nós voltamos a nos falar. –Falava apressada, só dando o resumo direto, por que se eu fosse me demorar nos detalhes eu com certeza gaguejaria.
-Pelo que eu saiba, essa parte de um monstro te atacar e eu te salvar só aconteceu uma vez... –Alex riu, ainda abraçado em mim- Escuta, você disse que fica com raiva quando eu te beijo, né?
Ai meus deuses, o que eu digo?
-É mais ou menos...
-Então será que você vai ficar com raiva de mim se eu te beijar agora? –Detalhe: Ele me disse isso sussurrando no meu ouvido. Eu podia sentir seus lábios tremendo no lóbulo da minha orelha, me fazendo tremer também.
-Talvez não...
Não sei se foi por eu estar nos domínios da minha mãe –imagine um lugar que irradie amor por todo o canto–, se foi por que estávamos tão próximos assim, eu sinceramente não sei. Eu já não sentia mais aquela vontade de fugir dele, como há alguns meses eu provavelmente teria feito.
Aquele beijo foi diferente de todos que eu tinha dado –e a verdade é que foram muito poucos. Até por que, todos esses beijos foram com Alex. Mas dessa vez eu sentia algo novo, misterioso, diferente. Aquele muro que eu tinha construído entre mim e ele durante tanto tempo parecia enfim ter cedido pra mim. Alex tentou abrir a minha boca entre os lábios dele e eu não fiz objeção. Depois disso foi como se eu tivesse ganhado umas mil injeções de adrenalina direto na minha veia. Aquele beijo de língua –o primeiro em toda a minha existência– era melhor do que eu imaginava. Se antes eu nunca pensaria em sequer olhar para Alex Ruiz, agora lá estava eu, no meio de um beijo de língua com ele que me cortava o ar. Literalmente. Tive que parar o beijo, com a minha cabeça girando. Como é que a minha vida deu esse giro maluco depois de uma esfinge ter atacado minha antiga escola?
-Uau... –Alex tinha colocado a mão na testa completamente zonzo, assim como eu- Isso foi...
-É, eu sei... –Sinceramente aquilo não tinha palavras.
-Você tá bem? –Alex tirou uma mecha do meu cabelo que tinha caído no meu rosto e colocou atrás da minha orelha –ok, isso é clichê, mas foi fofo.
-Claro. –Respondi com um sorriso- Só estou meio desorientada...
-Eu também... –Ele retribuiu meu sorriso- Seria idiotice demais te perguntar se você gostou?
-Por quê? –Perguntei enquanto ele se sentava na sacada dele de novo.
-Da última vez que eu perguntei isso você disse que me odiava e quase foi morta por uma harpia. –Alex me olhou como se eu estivesse em uma fogueira, sendo queimada viva- Quero ter certeza que, se você disser que me odeia, eu possa ter uma última visão do seu sorriso...
-Alex... –Empurrei ele de brincadeira- Ok, quer saber a verdade?
-Sempre... –Eu corei.
-Não foi tão ruim quanto eu pensei que fosse... –Respondi indiferente, mas ele me olhou fundo nos olhos. E eu tinha a sensação que ele sabia da verdade quando me olhava desse jeito, como se fosse pescar a verdade dos meus olhos.
-Bom, não foi um gostei, mas já é um começo... –Alex voltou até mim e beijou minha bochecha antes de voltar pra sacada dele- Bom, eu vou estar aqui do lado. Qualquer coisa que precisar, tô aqui do lado. É só gritar... –E eu vi Alex pulando pra sacada dele, entrando no quarto dele e me dando um tchauzinho.
Suspirei, completamente desnorteada. E agora? Como seria a minha vida sem odiar Alex? Até aquele momento eu não tinha ideia de como seria até melhor pra mim. Entrei no meu quarto, ainda desorientada e ainda sentindo falta de ar por conta daquele beijo e quando vi aquela cama gigante de novo não pensei duas vezes. Desabei na cama com um suspiro profundo e logo me entreguei ao sono.
CONTINUA...
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