Don't Go Away
1 Capítulo Único
Don't Go Away
“Eu vou voltar pra Sampa” essa era a frase que rondara minha cabeça a noite inteira. “Quando?” eu perguntara. “Amanhã, às 7h” ele respondeu me olhando como quem pede desculpas.
Manhã fria e gelada
não há muito o que dizer
Sobre as coisas presas em minha mente
E como o dia vai amanhecendo
Meu avião já se foi
Com todas as coisas presas em minha mente
– Não é verdade. Eu sei que não é. — Falei achando que era apenas mais uma brincadeira dele sobre isso, como ele já fizera várias vezes.
– Não, é sério dessa vez...
– Quando é que você vai adimitir que é mentira? Não tem graça. — Eu continuei, revirando os olhos enquanto o celular dele tocava, sem dar-lhe chance de resposta.
– Oi, mãe... Não, de noite eu termino... Tô conversando aqui na praça... Tá, já vou.
– Não, isso não pode ser sério, você dizia, dizia que... — comecei atropelando as palavras.
– ...que eu nunca voltaria pra lá, principalmente por causa de você, eu sei. Mas não sou eu quem quero ir.
– N-não, você não, você não pode ir, você não pode me deixar, você não... — falei querendo acreditar que a qualquer momento ele diria que era brincadeira, mas isso não aconteceu.
– Desculpa. — ele disse apenas. Os olhos vermelhos contiam uma lágrima que ele não queria deixar escapar.
Eu não quero estar lá quando você estiver partindo
Eu não quero estar lá quando você tocar o chão
Levantei-me do banco em que estávamos rindo até alguns minutos atrás e corri. Só queria fugir dali e fingir que nada daquilo tinha acontecido, que aquela conversa nunca acontecera e que no dia seguinte eu o veria de novo na escola e tudo seria como era. Mas não era verdade. Isso não aconteceria de novo e eu sabia, por mais que eu não quisesse.
Então não vá embora
Diga o que disser
Mas diga que ficará
Para sempre e mais um dia
Na minha vida
Porque preciso de mais tempo
Sim, preciso de mais tempo apenas pra fazer as coisas certas
E era isso que eu revivia em minha mente várias e várias vezes, rolando na cama, sem conseguir domir. Peguei o celular na gaveta e o relógio marcava 6h.
“Amanhã, às 7h”. Às 7h. Ainda dava tempo.
Maldita a minha situação
E os jogos que tenho que jogar
Com todas as coisas presas em minha mente
Maldita a minha educação
Eu não consigo achar palavras para dizer
As coisas presas em minha mente
Levantei da cama as pressas, coloquei a primeira blusa e o primeiro short que eu encontrei no guarda-roupa e corri para pegar um ônibus para a rodoviária. Eu não saberia dizer se os minutos passaram mais devagar no ponto de ônibus ou no caminho para o aeroporto.
6H47.
– Onde você está? — liguei pra ele quando eu já podia ver o aeroporto.
– Na rodoviária, esperando o embarque, por...
– Não pergunta. Só não entra no ônibus ainda. — e desliguei.
“Passageiros com destino a São Paulo no voo das 7h, favor se dirigirem a plataforma 17”
Eu não quero estar lá quando você estiver descendo
Eu não quero estar lá quando você tocar o chão
Então não vá embora
Diga o que disser
Mas diga que você ficará
Para sempre e mais um dia
Na minha vida
Porque eu preciso de mais tempo
Sim, eu preciso de mais tempo apenas pra fazer as coisas certas
Corri esbarrando em várias pessoas pelo caminho, sem tempo de me desculpar. Plataforma 17. Lá estava ele, olhando sem entender pro celular, como se esperasse uma nova ligação, parado no portão de embarque, parecendo sem saber o que fazer, enquanto sua mãe o chamava há uns metros de distância.
Até que ele tirou os olhos do celular e me viu. As lágrimas que eu havia contido a noite inteira começaram a pesar e logo eu senti meu rosto molhado, enquanto eu corria em sua direção.
O que está acontecendo comigo e com você?
Tudo que nós parecemos saber é como mostrar
Que os sentimentos estão errados
– O que você tá fazendo aqui, sua doida? — Ele perguntou me abraçando forte e me tirando do chão.
– Eu não podia te deixar ir embora sem me despedir. — eu disse em meio a todo o meu desespero. A qualquer momento eu imaginava ele desaparecendo dos meus braços e indo pra nunca mais voltar.
– Eu te amo, feinha. Não quero te perder, eu te amo. — Ele disse e a lágrima que ele segurara no dia anterior, caiu.
– Eu também te amo. Muito. Não vai...
– Por mais que eu queira, eu não posso, te disse ontem...
– Eu sei... Só me abraça então... — eu pedi, me aninhando mais a ele.
Então não vá embora
Diga o que disser
Mas diga que ficará
Para sempre e mais um dia
Na minha vida
Porque eu preciso de mais tempo
Sim, eu preciso de mais tempo apenas pra fazer as coisas certas
– Filho, desculpe, mas temos que ir. — a mãe dele chamou, agora um pouco mais perto de nós. Eu me separei dele, secando as lágrimas do meu rosto.
– Que ridículo, eu chorando. — falei com um riso irônico.
– E eu? — ele disse e me abraçou de novo. — Vou sentir saudades...
– E eu mais ainda. — eu disse e o beijei. O último beijo antes de ele ir, possivelmente o nosso último por definitivo – nós dois odiávamos relacionamentos a distância, por mais que tivéssemos evitado tocar no assunto -, e ele foi embora. Eu podia sentir meu coração indo junto com ele, a cada passo que ele dava em direção aquele maldito avião.
Não esperei o avião decolar e sai de lá. Me sentei em alguma cadeira qualquer tentando me acalmar e conter as lágrimas que ainda teimavam em surgir e fiquei lá por alguns minutos – ou talvez horas, não me importava. Mas logo meu celular tocou. Minha mãe, me perguntando onde eu estava. Respondi uma coisa qualquer e me levantei, indo para a saída. Eu sabia que ia doer. Sabia que eu ia ficar mal por algum tempo, mas passaria. Algum dia passaria. Sempre passa.
Então não vá embora...
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