Don't Give Up On Us - Concluída
1 Mudança
Notas iniciais
P.O.V Do Freddie
Já é a terceira mudança que fazemos em menos de 1 ano. Nasci e cresci em Seattle, minha mãe sempre deu duro para me criar e me educar, ainda mais sendo mãe solteira. Ela sempre foi uma mulher forte, guerreira. Por isso que a amo e admiro tanto. Saímos de Seattle em busca de uma vida melhor, as coisas se complicaram quando minha mãe perdeu o emprego. Ela teve que pegar todas as economias que guardava no banco, nos mudamos para San Diego onde ela conseguiu um novo emprego e conseguimos nos estabilizar.
Foi algo temporário até surgir uma grande oportunidade para ela, abriram uma Clínica especializada em Câncer de mama em Los Angeles, minha mãe foi indicada por uma amiga enfermeira Chefe, eles precisavam de funcionários, a proposta veio com um salário melhor, um ótimo plano de saúde e claro, respirar novos ares sempre é bom, Los Angeles têm os melhores hospitáis do estado.
Como sempre, eu nunca precisei me despedir de ninguém muito importante. Estudei em casa a minha vida toda, minha mãe sempre preferiu assim, era mais seguro para mim, ser educado em casa. Tive vários professores, sempre me empenhei em aprender sobre tudo um pouco. Com 3 anos de idade, aprendi a ler. Com 5 anos, eu já falava Espanhol quase fluentemente.
Idiomas me despertavam interesse. Não parei de estudá-los até aprender Francês. Sempre tive de tudo, brinquedos, livros e materiais para meus estudos e games de todos os tipos. Eu vi crianças brincando na rua, correndo na chuva, passeando, se divertindo enquanto eu ficava o dia inteiro em casa quando não estava no hospital.
Pra ser franco, não tive de tudo, em questão de material sim, minha mãe comprava o que eu queria e até mesmo coisas futéis das quais eu sequer precisava. O que eu nunca tive foi amigos, nenhum coleguinha para brincar e nem mesmo animais de estimação.
Cresci vendo as crianças da minha vizinhança curtindo à beça, aprontando e sendo livres para fazer o que queriam, como perseguir os gatos e os cachorros dos vizinhos, enquanto eu olhava tudo pela janela sem poder ir brincar fora de casa.
Minha mãe não deixava, nunca pude pegar Sol, muito menos chuva. Ela sempre me protegeu, me privou de coisas simples como correr e andar de bicicleta com as outras crianças da minha idade.
Aquilo me chateava tanto, eu chorava e implorava para sair, para me sentir normal. Para ser como qualquer outra criança. Por quê eu tinha que ficar na sala ou no meu quarto o tempo todo?
Com o passar do tempo eu entendi, ela estava apenas me protegendo e não me privando. Não eram maus tratos e sim cuidados extremos de uma mãe super protetora com um filho doente.
Eu não era uma criança saudável. Nunca fui. Cresci indo de hospital em hospital, ficava internado por dias, semanas e depois tinha alta, quando minha mãe trabalhava, me deixava com a babá.
Com 10 anos de idade, fui pesquisar sobre a minha doença. Eu não entendia o que era e nem sobre a gravidade, minha mãe falava pouco sobre o assunto e os médicos não explicavam, não me diziam porque eu era muito pequeno.
Foi então que descobri que sou portador de Câncer.
Tenho CMD, é um Câncer Maligno Degenerativo. Não têm cura, ele afeta todas as Células fazendo com que a regeneração seja demorada ou quase nula, no meu caso, apesar do tratamento, minhas Células não estão mais se regenerando como antes. Meu Câncer está avançando, ou seja, não há muito o que fazer... Já estou no Grau 3. Nesse estado, as chances de cura são quase nulas, e já estou conformado. Minha mãe é a única que não consegue se conformar.
Que mãe se conforma com a doença do filho?
Já tentamos de tudo. Quimioterapia, Radioterapia, Imunoterapia e até transplante de Medula Óssea. Nada deu resultado, minha mãe e eu já estamos há anos nessa luta buscando algo que possa ao menos desacelerar o avanço da doença, passei por vários hospitáis, inúmeros tratamentos com diferentes médicos, fui até cobaia de estudos em uma faculdade de medicina em Londres durante 3 meses.
Foi por isso que nos mudamos para L.A, para mais uma tentativa, um novo tratamento. Já até perdi as esperanças, minha mãe não. Ela têm muita fé. Nunca desiste de lutar por mim. A amo tanto. Marissa Benson se sacrificou muito e continua se sacrificando por mim, ela não quer me perder, nem eu quero ter que deixá-la.
Mas acontece que estou ciente da minha realidade.
[...]
Nos mudamos em março para um bairro arborizado, com parquinho e rua espaçosa para crianças brincarem. Vou fazer 18 anos, por um milagre minha mãe permitiu que eu tirasse minha habilitação. Aprendi a dirigir com 15 anos só observando ela. Quando completei 16 anos, pude ter o prazer de tocar no volante pela primeira vez sem ter a sua supervisão. Aos 17 anos, eu já estava habilitado para dirigir, de vez em quando pego seu carro e saio sozinho, é nesses momentos rondando pela cidade que eu me sinto livre. A sensação é maravilhosa.
A vizinhança é tranquila, não é muito diferente de onde vivíamos em San Diego. Todos são legais, têm um grupinho de crianças que gostam de me ver passeando com os cachorros de uma vizinha, um senhorinha de 70 anos que paga 20 pratas para eu levar seus bichinhos para passear quase todas as tardes.
São dois cachorrinhos bonzinhos, um casal de Puddles.
Como minha mãe faz plantão um dia sim e outro não, eu tenho tempo livre de sobra. Já terminei meus estudos. Iniciar um curso Online ficaria para o próximo ano, como nunca tive amigos, nem mesmo virtuais, eu nunca me preocupei com mais nada.
Somos apenas minha mãe e eu. Ela sempre trabalhou e cuidou de mim da melhor forma possível, tenho orgulho de ser seu filho e reconheço todos os seus esforços.
Com vídeo-game de ponta, diversos jogos e com o computador lotado de aplicativos e joguinhos online, o tédio quase nunca me abateu.
Me arrumei para mais uma tarde de passeio com Panks e Dolly, os Puddles de dona Rosemary. Vi muitas garotas bonitas passeando no parquinho, nos mudamos para L.A já vai fazer 3 semanas. Nunca tive coragem de falar com garotas.
Claro que já conversei com outros jovens, pacientes da minha idade, durante minhas idas aos hospitáis, o que é completamente diferente, é fácil ter um diálogo com quem enfrenta o mesmo drama que você.
Vocês acabam se entendendo.
Não se faz amizades em hospitáis, no máximo você arruma colegas que duram até semanas dependendo de sua estadia. Depois você não os vê mais porque acabam indo parar num novo hospital.
E assim o ciclo se repete.
Nunca arranjei amigos de verdade. Você não pode sentir falta de algo que nunca teve.
Se mudando de cidade em cidade, não há despedidas e nem saudades. O que é um alívio.
No parquinho, parei para tomar um sorvete. Sempre experimentei diversos sabores com inúmeras combinações e caldas diferentes. Sempre variando, Panks e Dolly estavam bem presos na guia.
Sentei um pouco para degustar do meu sorvete duplo de chocolate branco e creme com ameixas, escolhi calda de caramelo.
Los Angeles é bonita, claro que sinto falta de Seattle, do clima. Era legal observar a chuva da janela, mesmo não podendo ir lá fora.
Observei a tarde ensolarada, com babás ou mães passeando com bebês. Criancinhas se sujando na caixa de areia. Casais de mãos dadas, adolescentes rindo e se beijando. Famílias apenas curtindo até dar a hora do Pôr-do-Sol.
Eu precisava voltar para casa às 17h.
A garota loira passou carregando um skate roxo embaixo do braço. Eu a reconheci na hora. Era a minha vizinha. Morava na terceira casa à direita da minha, ao lado da casa de dona Rosemary.
Nunca nos falamos, nem mesmo trocamos um simples aceno de cumprimento.
Eu não sabia seu nome. Vi ela parando para comprar um cachorro-quente.
Ela era muito bonita, mesmo com aquele estilo diferente e despojado que chamava atenção. Os cachos dourados e volumosos, ela usava roupas escuras, jeans rasgados e Sneakers.
Foi a primeira vez que a vi usando um short jeans desde que cheguei. Também vestia uma camiseta cinza-escura, e estava de All-Stars. O vento batia e esvoaçava seus cabelos que chegavam nos ombros.
Terminei meu sorvete de casquinha, ela comeu o cachorro-quente e pediu outro. Montou no skate e foi embora enquanto comia o segundo lanche. Sorri observando-a se afastar.
Fiquei ali até dar a minha hora.
[...]
Mais uma noite de plantão da minha mãe que era enfermeira, aquilo significava mais uma noite solitário em casa. Às 20h, saí para colocar o lixo pra fora. Foi quando ouvi a discussão que vinha da casa da garota, deixei as sacolas do lixo no baldão de ferro. Ali ao lado da calçada, permaneci parado, ainda atento. Vi quando ela saiu para o jardim. Todas as cercas eram baixas, não havia muros ao redor das casas.
Um homem saiu de dentro da casa gritando palavrões, a garota loira ficou de frente para ele, os dois batendo boca numa altura absurda à ponto de incomodar os vizinhos.
A discussão prosseguiu ficando séria, foi quando a mãe dela surgiu, eu já tinha visto aquela mulher desfilando no bairro usando roupas curtas e justas. Os três ficaram ali gritando, o homem que presumi que era marido/pai delas, tentou ir pra cima da moça, a mulher ficou na frente.
— VÃO PRO INFERNO, QUE SE FODA! — A loirinha que devia ter minha idade abriu o portãozinho e saiu para a rua apressada.
Seus pais entraram ainda discutindo.
Sem pensar duas vezes, corri indo ver se ela tinha para onde ir ou precisava de alguma coisa.
Era perigoso uma moça sair sozinha durante à noite, ainda por cima só com a roupa do corpo.
— Ei! — Finalmente a alcancei.
Ela parou de andar, já havia percorrido um bom caminho, virou para mim, usava um moletom roxo de capuz, vi pela primeira vez de perto a cor de seus olhos.
Eram azuis num tom escuro. Estavam avermelhados, seu rosto estava corado por conta do choro que percebi que ela segurava à qualquer custo.
— O que você quer? — Indagou ríspida.
— Posso acompanhar você? — Perguntei.
Eu estava um pouco ofegante pela corrida. O coração disparado. Tudo que presenciei havia me deixado nervoso.
— Você é o vizinho novo, certo? Te vi passeando com os pulguentos da dona Rose. Também te vi mais cedo lá no parquinho. Olha cara, eu tô de cabeça quente! Não quero papo com ninguém! — Disse na defensiva.
— Desculpe, fui colocar o lixo para fora e acabei ouvindo a discussão. — Falei envergonhando.
— Quer dizer que você é abelhudo? É melhor ir se acostumando, não somos os vizinhos mais discretos do bairro. É melhor sairmos do meio da rua, ou quer ser atropelado? — Ela se afastou indo para a calçada.
— Sei que não é da minha conta, mas te vi saindo daquele jeito, decidi...
— Decidiu vir atrás de mim? Melhor você voltar pra sua casa, não tô perdida e nem nada do tipo, o problema é meu, não quero ninguém metendo o nariz aonde não é chamado. — Ela tirou um maço de cigarros do bolso.
Estava todo amassado, mesmo assim ela sacou um isqueiro e acendeu um. Sentou no meio-fio enquanto enfiava o cigarro na boca, deu uma longa tragada.
Ela baforou aquela fumaça fedida e respirou fundo. Percebi que ela fumava para relaxar.
— Roubei da minha mãe. — Mostrou o cigarro fumaçando. — Não é um vício. Que droga de noite! — Praguejou.
— Sinto muito. — Fui sincero.
— Já estou acostumada. Minha vida é uma merda mesmo. — Deu de ombros.
Se minha mãe me pegasse ao lado de alguém fumando, ela com certeza surtaria.
— Seu pai é bravo, pelo visto...
— Aquele saco de bosta não é meu pai, é a porra do meu padrasto. Ele só serve para encher a cara e trepar com a minha mãe! — Disse com desgosto.
Ela cuspiu no chão enojada.
— O que aconteceu? — Droga, eu não devia me intrometer.
— A mesma merda de sempre, a gente se estranhou, ele quis dar uma de machão, brigou com minha mãe por minha causa, me ofendeu e eu joguei as cervejas dele no chão. Daí ele veio para cima de mim e você viu o resto... — Fez careta e jogou o cigarro ainda aceso para longe.
— Ele costuma bater em vocês? — Me sentei ao seu lado, mantendo uma distância segura.
— Já bateu na minha mãe, mas acho que ela gosta de apanhar, não têm vergonha na cara e continua com o traste! Ele não é nem doido de bater em mim! — Falou irritada.
— Lamento por tudo. — Eu disse com pesar.
— E qual é a sua? Nunca te vi indo para o colégio. Raramente vejo tua mãe! — Me olhou intrigada.
— Já terminei os estudos. Minha mãe trabalha numa clínica, ela está de plantão hoje. — Expliquei.
— Ainda estou no 3° ano. Não vejo a hora de me livrar daquele inferno. Odeio o colégio... — Revirou os olhos. — Também não tem pai? — Perguntou mudando de assunto.
— Ele morreu quando minha mãe estava grávida. Acidente no trabalho. Ele era engenheiro. — Contei.
— Que barra, cara. — Afastou uma madeixa que insistia em cair sobre o olho direito. — Meu pai deu um pé na bunda da minha mãe assim que ela ficou grávida, meus avós contaram que ele era um vagabundo que não queria nada com a vida. — Relatou.
— Sinto...
— Oh, não! Chega por hoje! Não lamente e nem sinta nada, tô de boas com isso! — Levantou batendo as mãos na parte traseira da calça jeans folgada, se limpando. — Tô indo nessa, vou ver se minha amiga tá em casa. Deixei a porra do meu celular carregando. Tô morrendo de fome. — Disse se afastando.
— Espera, a gente nem se apresentou! — Eu falei não querendo que ela fosse embora.
— Sou Sam. Samantha na verdade, só me chama de Sam, falou? Samantha não me agrada muito. — Fez uma careta engraçada.
— Freddie. Freddward, enfim, me chame pelo apelido também. — Fiz ela rir.
— Já deu minha hora, vou indo enquanto é cedo, filar um jantar na casa de uma amiga. — Riu novamente.
— Eu ainda não jantei. Por quê não janta comigo? Assim você não sai de noite por aí sozinha e nem volta muito tarde pra casa. — Expliquei.
— Sério mesmo? Sem segundas intenções? Não vai me querer de sobremesa, não né? — O que ela queria dizer com aquilo?
— N-não, eu não...
— Estou brincando! — Exclamou e caiu na gargalhada.
Ela tinha uma risada contagiante. Ri de alívio e confusão.
— Eu topo. Vamos logo que eu tô com fome. — Pegou minha mão e saiu me puxando.
E foi naquela noite que nossa amizade se iniciou...
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