Don't Die.
1 O Inicio.
Notas iniciais
O VENTO GÉLIDO agitou as folhas nas árvores, anunciando que o outono chegara mais cedo do que o previsto. O céu era tomado por nuvens cinzentas. O silêncio prevalecia sobre o local, salvo apenas pelo barulho da água levemente agitada à sua frente. Seu corpo tremia aguardando o apito soar para fazer essa última bateria. Estava exausta. Acreditou que o treino esfriaria sua cabeça e a acalmaria. De fato, a acalmou, mas não totalmente, ainda queria atear fogo em sua professora de biologia por ter aplicado uma prova sem nenhum aviso prévio. Quando se recuperou dos destroços que essa bomba lhe causara, sabia que nenhum esforço resultaria num milagre. Mas não esperava um belo zero gritante em vermelho. Todavia, pelo menos era um vermelho bonito, tinha que aceitar. Sabia que não deveria se cobrar tanto. Era uma boa aluna, só não entendia nada de biologia.
O apito soou e Brooke engoliu a seco e pulou de uma vez, sentindo o impacto da água fria congelar todo seu corpo por alguns segundos. Entretanto, essa sensação logo teve seu fim, quando a pequena West começou a bater os braços com força, em direção ao final da raia. A piscina tinha exatos 25 metros, mas enquanto se nadava, parecia nunca ter um fim. Quando o ar começou a lhe escassear, faltavam poucos centímetros para o final. Sentiu a pressão no peito e fechou os olhos, repetindo o mantra de que aquilo era nada demais.
Bateu com a mão direita no azulejo azul que levava o emblema da escola e emergiu da água, sentindo seu corpo instantaneamente relaxar. Mesmo sabendo que as aulas eram apenas para melhorar seus ataques asmáticos, Brooke treinava com vigor para, quem sabe, poder competir. Saiu apressada da piscina, enrolando-se em sua toalha enquanto observava, com os lábios novamente trêmulos, seu treinador se aproximar.
Peter era um homem de aproximadamente 40 anos, com cabelos marrons escuros e olhos pretos. Seu porte físico era perfeito e lembrava bem o homem que fora há 20 anos. Começou a trabalhar na escola havia muito pouco tempo já que seu antigo professor – o de nariz de batata – sofrera um AVC e decidiu terminar sua carreira. Peter era legal, embora só soubesse gritar e raramente soltava elogios a alguém. Vivia de comidas saudáveis e de sermões intermináveis. Brooke desconfiava de que seu professor tivesse uma queda pela professora de Literatura, a Sra. Mackenzie.
— Ótima bateria! — parabenizou em seu habitual tom sério, colocando a mão sobre o ombro da menina. — Continue assim e será o próximo Phelps.
Brooke sorriu com o elogio.
— Não é para tanto — disse, terminando de secar o cabelo. — E não serei o próximo Phelps... — o professor olhou-a confuso e ela completou. — Serei a Brooke West das piscinas.
Peter bateu em seu ombro e teceu um rápido adeus antes de voltar para suas coisas. Brooke logo recolheu suas coisas e rumou ao vestiário. Queria dar pulos de felicidades, mas optou por continuar em silêncio. Quebrar a atmosfera soturna de sua escola parecia ser errado, fazendo o diretor aparecer como um ninja gritando seu costumeiro ‘’Direção, agora!’’. E sentada em frente a mesa de madeira do amado diretor, ouviria os gritos onde o Sr. Alfred dizia ser inadmissível quebrar o silencio melancólico em sua escola e que atitudes como essas jamais seriam aceitas. ‘’Detenção, senhora encrenca’’ completaria. Só de imaginar a cena, não pode controlar o riso fraco que borbulhou nos lábios.
A escola ocupava dois quarteirões com dois blocos interligados por um grande pátio. Seguia a moda georgiana, com tijolinhos vermelhos e telhados escuros, um gigantesco jardim central com uma fonte de mármore que jorrava água pela boca de um leão. O primeiro bloco era composto pelas salas de aulas, o auditório, dois laboratórios, o teatro, as salas de computadores, a biblioteca e o espaço para os bailes – este antigamente era uma quadra de basquete, mas há dez anos fora reformado. No bloco 2, encontravam-se os campos de futebol americano e feminino, as quadras de basquete, as piscinas e os vestiários. Nesse horário, a escola – que ainda possuía um bom número de alunos – estava ainda mais melancólica.
Adentrou no vestiário feminino, retirando desjeitosamente seu maiô. Não precisava de modos já que estava sozinha. Brooke era a única garota que ficava mesmo após os treinos terminarem. "Méritos estudantis..." Era uma pessoa muito boa, embora poucos compreendessem seu comportamento – e tampouco concordavam com sua visão. Até tentava manter-se na linha, muitas vezes, aliás, mas sempre acabava no meio do fogaréu, segurando o fósforo que atiçara tudo aquilo. Após a terceira convocação e um forte indicio de expulsão, seu pai criou um acordo com o diretor, no qual ela deveria ter aulas particulares, como um castigo – já que naquele tempo, a West não gostava de compromissos escolares. No começo, de fato foi e Brooke tentou de todas as formas que seu professor a odiasse e retirasse-a do grupo. Mas o nariz de batata permaneceu firme e aguentou toda sua birra. No fim, desistiu de lutar contra a maré e acabou tomando gosto pelo esporte.
A água quente que caía sobre seu corpo era um relaxante natural. A agitada garota, de cabelos loiros, que todos diziam ser indisciplinável, de fato apreciava o silêncio e a calmaria. O único problema do silêncio, para ela, era que fazia o tempo parar e as coisas se tornavam chatas. Após um rápido banho, Brooke desligou o chuveiro e procurou pela outra toalha para se enrolar. Abriu seu pequeno armário, onde havia algumas fotos pregadas, entre perfumes e uma muda de roupa. Observava algumas delas enquanto secava seu corpo. Uma boa parte delas era sua e de seu pai, havia algumas com suas amigas e com seu cachorro. Porém, se viu, mais uma vez, presa na foto de sua mãe. Os mesmo olhos azuis, os cabelos loiros. Ela era bem parecida com Anastácia e desejava, vez por outra, ouvir isso quando estivesse andando na rua, contudo, mal teve a oportunidade de conhecê-la. Anastácia morreu um dia após parto, devido a uma complicação e hemorragia interna.
Organizou seus pertences antes de deixar o vestiário, praguejando por estar atrasada. Colocou os fones de ouvido e caminhou até o mesmo lugar onde esperava pelo pai, mas o carro não estava lá. David já deveria ter chegado. Seu pai nunca tolerava atrasos, tantos os delas como os deles. Essa era a regra principal que David Richard estabeleceu com a filha. Enquanto observava os carros à sua frente, Brooke pensava em quais palavras usaria contra o pai, na sã vontade de desfrutar de seu atraso. Sua playlist rolava a medida que ia ficando cada vez mais entediada. As músicas escolhidas eram todas do Pink Floyd, uma de suas bandas preferidas. As canções que pareciam nunca terem fim era um entretenimento para sua alma enfadada. Perdia a noção do tempo tentando descobrir quando uma nova música começava.
Entretanto, o volume de seu celular não estava tão alto assim para que lhe tirasse do mundo, ainda era possível ouvir os carros e todo o barulho que uma pequena cidade, como Charleston não costumava fazer. A cidade era tão monótona quanto às aulas da Sra. Mackenzie. Os policiais eram gordos e só agiam para pegar um ou outro bêbado arruaceiro, roubos pequenos e adolescentes encrenqueiros; os médicos já possuíam cabelos brancos e atuavam por ali para conseguir encerrar sua carreira com um pouco de calma. Portanto, o constante barulho de sirenes a deixaram com uma pulga atrás da orelha. Retirou os fones de ouvido e franziu o cenho, estranhando que uma sexta-feira fosse tão movimentada assim. Pensou nas coisas que poderiam ter acontecido enquanto esteve na escola. Um possível acidente ou um assalto ao banco, mas não ouvira nada de Peter, tampouco encontrara com alguém enquanto saia da escola.
No mesmo instante em que procurava por outra conclusão, um Grand Vitara cinza, de cabine dupla, estacionava a sua frente. Pelo vidro, ela pode ver seu pai.
— Está atrasado! — queixou-se ao entrar no carro. — Eu poderia ter sido sequestrada, esfaqueada, assaltada! Não vê como a cidade está e ainda tem coragem de me deixar sozinha?
— Desculpe... A cidade está um caos — explicou, voltando a dirigir. — E você não seria sequestrada em Charleston.
— As cidades mudam pai, elas não são mais as mesmas.
— Mas Charleston continua igual a um velho. Dorme às noves e acorda às sete.
Fechou a cara ao encarar o pai, mas rapidamente aliviou a expressão, deixando que um leve sorriso tomasse conta de seu rosto.
O carro tomou velocidade e logo se encontrava na avenida. Brooke tentava encontrar um misero espaço que fosse no banco de trás para colocar sua mochila, porém, o local estava todo ocupado com rolos e planilhas do trabalho de seu pai. Richard era arquiteto chefe na Contractor Smith e acabava de começar um novo projeto, um prédio comercial ou algo do tipo. Odiava conversar com seu pai sobre coisas do trabalho e raramente lembrava as coisas discutidas, preferia ter papos mais interessantes e que durassem por mais tempo.
Brooke gostava de estar com seu pai. David Richard não era nenhum pai exigente ou rigoroso, muito pelo contrário, sua animação e sua confiança nela eram o que os mantinha tão próximos. Gostava de assistir a filmes de ação, de futebol americano, livros sobre guerras e de Led Zeppelin, a banda preferida de seu pai. Porém, ainda assim, conseguiam ser diferentes em outros quesitos. Ao contrário do pai, Brook era ardilosa e dona de um comportamento trivial demais.
— Estive pensando... — seu pai começou a fala. — Se quiser, pode sair das aulas de natação. Alfred contou que seu comportamento melhorou muito no último bimestre.
— Eu não vou parar — respondera firme. — Estou gostando de estar lá, de fazer exercícios. E vou continuar e se me sair bem, poderei participar do campeonato interescolar. Sabe, ganhar medalhas, conquistar campeonatos, dominar o mundo...
— Isso não é bom para alguém como você...
— Pai, a natação ajuda com a asma — tratou de interrompê-lo antes que o mesmo prosseguisse com seu discurso protetor. — Você deveria escutar mais o médico já que é o maduro da nossa relação — provocou séria. — Eu estou me sentindo bem e vou continuar, queria ou não!
David ficou em silêncio por alguns momentos, atentos aos carros que se aproximavam. A firmeza em sua voz já dizia que aquela conversa estava por mais que encerrada.
— Você é como sua mãe, determinada demais para desistir! — comentou.
Brooke o encarou, ainda risonho com os olhos saudosos. Seu pai falava pouco sobre sua mãe, mas o bastante para que soubesse o quão determinada Anastácia era. Tentava imaginar como seria essa conversa se sua mãe estivesse viva, se concordaria com ela se provocaria seu pai. ‘’Mais um ponto para Brooke’’.

DON’T DIE
Para David Richard, estar exausto era um eufemismo. O que parecia ser uma corrida de 20 minutos estendeu-se virando uma coisa de duas horas. Seu trabalho, que já fora o suficiente para muito cansaço, somou ao impiedoso trânsito que enfrentava após buscar a filha na escola. Depois de um tempo com a avenida livre, um extenso congestionamento o pegara de surpresa. A avenida estava com uma fila quilométrica de carros e pelo retrovisor, ele a via se aumentar ainda mais. O arquiteto que havia dedicado todo seu dia para um novo projeto, idealizado pelo seu chefe, só queria um pouco de paz e uma bebida bem gelada. A reunião, de quase três horas, fora o abate final para uma semana inteira de cálculos e planejamentos.
Coçou os olhos e esfregou a mão sobre o volante, respirando fundo para tentar manter a calma e não surtar com o próximo motorista que buzinasse como se fosse resolver o problema. Era estranho encontrar a cidade tão agitada assim. Charleston costumava a levantar poeira somente em festivais comemorativos, mas estes só aconteciam na primavera. Não sabia bem o que acontecera, as rádios não relataram nada durante toda parte do dia. Olhando para o céu, viu a grossa camada de nuvens cinza despejarem seus primeiros pingos de água. O rádio ligado em uma estação qualquer soltava algumas notícias ao fim de uma sequência de três músicas de cantores que mal sabia o nome. Percebeu que estava velho, seu conhecimento musical parara nos anos 90 e desde então, vivia perdido com as novas musicas.
— Que conversa adorável Brooke! — ironizou sem mover os olhos.
— Não enche — ela resmungou encostada no vidro do carro, entretida com um motorista mexicano do carro ao lado. — Eu estou com fome... — tornou a falar pouco tempo depois.
— Tem algumas barras de chocolate perdida em algum lugar aí atrás.
Retirando o cinto, a West virou-se para trás em busca das tais barras ditas pelo seu pai. Já havia passado um bom tempo desde que saíram da escola e seu estômago começou a resmungar em protesto. Até tentou aguentar, mas o espírito comilão pareceu falar mais alto. Não eram barras de chocolate amargo que gostaria de encontrar, contudo, não possuía escolhas.
David olhou com os cantos dos olhos para sua filha fazendo careta ao dar a primeira mordida em uma das barras. Não poderia deixar de notar que aquela garota ao seu lado crescera muito nos últimos meses, deixando qualquer lembrança de sua garotinha para trás. Agora, tudo que ele via era uma adolescente de cabelos loiros, com traços faciais finos e um corpo em começo de formação.
— Isso aqui... é horrível! — reclamou fazendo outra careta. — Como você pode comer isso?
— Isso é a única coisa que vende no meu trabalho. — respondeu.
— Eu morreria de fome, mas não comeria, de jeito nenhum.
Ela deixou as barras de lado após soltar um ‘’argh’’ e se preocupou em mudar a estação. Estava cansada de só ouvir relatos de um jornalista ao entrar num hospital e se deparar com pessoas com aparências deploráveis. Entretanto, parecia que qualquer rádio decidira dedicar o dia a fazer matérias cheias de dó e indignação jornalística em relação ao governo.
— Será que não há nada de legal nessa merda?! — exclamou.
A indignação da menina durara pouco tempo. Sirenes policiais foram ouvidas antes mesmo que os policiais passassem em alta velocidade entre os carros, batendo na lataria ou nos vidros para que os outros dessem passagem. Os motoristas mais impacientes que aguardavam na rua tiveram que ceder espaços para as motos, gerando um murmúrio de indignações e palavrões logo depois. Ninguém conseguia entender nada. David olhou para frente, onde um homem discutia com alguém no celular enquanto batia com força na lataria do carro, muito irritado.
— Bom começo de noite, Charleston! Espero que tenham tomado sua vacina contra gripe. Foi noticiado um estranho vírus em 5 estados. Se você teme o fim do mundo, é melhor se prevenir. Mortos estão andando sobre a terra, pelo menos é isso que noticiam três dos maiores hospitais da cidade. Pessoas em estado graves entram na UTI e se transformam em canibais, comendo pacientes ou médicos. Não se sabe bem, autoridades estão tentando manter o caso debaixo do tapete. Então, se não estiver bem, vá para a casa e cuide-se!
David encarava o rádio com uma expressão séria, tentando entender tudo que estava acontecendo. Primeiro foi o trânsito na via expressa numa cidade onde não havia acontecido nada igual, depois foram policiais arrogantes com suas motos em alta velocidade e agora um jornalista dando uma notícia um tanto quanto bizarra.
Foi quando um grito lhe assustou. Olhando para a mesma direção que sua filha, ele via um gordo com a blusa e boa parte do corpo ensanguentado arrancar, numa mordida, tecido epitelial do homem que segundos atrás discutia com alguém ao telefone. O grito proferido com pelo mesmo assustara os demais motoristas que agora corriam para dentro de seus carros. David Richard não soube como reagir diante daquilo, seus olhos estavam atônitos, seu coração parecia ter parado por alguns segundos. De repente, mais pessoas ensanguentadas e cambaleantes começaram a surgir de diversas partes da avenida. Gritos e sirenes começaram a dividir o mesmo espaço.
— Pai, vamos embora daqui — Brooke pediu, ainda horrorizada com tudo que acabava de ver. — Eu não sei o que está acontecendo, mas aquele maluco do rádio estava certo, pessoas estão comendo pessoas — falou com a voz fraca. — Pai, vamos embora logo! — gritou com força tomando de vez a atenção de David.
O arquiteto rapidamente ligou o carro, o que chamou a atenção do gordo que ainda se deliciava com a carne humana. Levantando, ele começou a cambalear em direção ao carro. Trêmula, Brooke começou a gritar com seu pai, lágrimas contornavam as maçãs de seu rosto.
David encontrou uma única oportunidade para escapar dali. Com medo, os demais motoristas começaram a dar marcha ré, seguindo em contramão pela avenida e o arquiteto não fizera diferente. Numa manobra arriscada, conseguira deixar aquele lugar em alta velocidade, vendo pelo retrovisor o gordo tentar de uma maneira inútil alcançar seu carro. Ele buscava manter a calma, mas seu corpo estava fervoroso e em sua mente milhares de pensamentos se formavam a cada minuto.
‘’Mortos estão andando sobre a terra, pelo menos é isso que noticiam três dos maiores hospitais da cidade. ’’
Ele se lembrava da notícia dada no rádio. Não, não poderia ser. Isso não poderia ser real, como pessoas mortas podem caminhar?
‘’Pessoas em estado graves entram na UTI e se transformam em canibais, comendo pacientes ou médicos. ’’
A imagem do homem gordo devorando o outro com tamanha brutalidade invadia sua mente, deixando-o cada vez mais pasmo.
‘’Se você teme o fim do mundo, é melhor se prevenir."
— Pai!
Outro grito de sua filha o fez retornar à realidade. David estava prestes a bater numa van, mas por sorte conseguira desviar a tempo. A notícia era confirmada com os fatos que ele acabava de presenciar. Olhando nos olhos de Brooke, ele via o medo. Jamais deixaria que algo acontecesse com ela, jamais se perdoaria se algo acontecesse a ela.
— Notícias ao vivo da via expressa! Os canibais atacam novamente, desta vez em grande espaço, deixando causas inabaláveis. Os policiais presentes já não conseguem controlar a situação. Se você está aí, escute isso meu amigo, saia o quanto antes. Esconda-se, proteja-se o mais rápido possível!
Já fora da via expressa, David tentava controlar o carro enquanto a cidade parecia um inferno. Pessoas corriam nas ruas, carros de policias por todos os lados e helicópteros sobrevoando toda a cidade. Aquilo era um caos. Aquilo era o fim do mundo.
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