Dont Blink
7 Capítulo 6
Notas iniciais
O ar ficava escasso e o suor escorria por minhas costas e rosto.
Eu sentia medo e minhas pernas perdiam as forças enquanto eu corria no escuro sem rumo. Sentia mãos agarrarem meus braços, mas eu estava assustada demais para dar bola para elas. Eu apenas queria fugir e parar de sentir medo.
Uma imagem se formou na escuridão a poucos passos de mim. Um homem. Dean, eu poderia reconhece-lo em qualquer lugar. Ele era o meu protetor no momento, apesar de ter matado minha irmã. Esse fato ficaria preso em minha mente para sempre, como uma unha encravada que não para de doer nunca.
Dean também estava correndo tão desesperadamente quanto eu, e eu imaginei que ele também estivesse com medo de algo.
-Dean! – Eu o chamei, sem parar de correr. Minha voz estava esganiçada e eu arfava de exaustão.
Ele não respondeu. Nem mesmo se virou ou deu algum sinal de que tinha me ouvido chamar.
Algo a nossa frente me chamou a atenção e eu olhei adiante. Vendo uma grande fenda no chão, como se depois dali não houvesse nada. Diminui o passo, mas Dean continuou correndo na direção do desfiladeiro.
-Dean, pare! – Eu gritei, mas ele nem mesmo diminuiu o passo. – Dean, pare! O desfiladeiro!
O pânico tomou conta de mim e eu não pude controlar minhas pernas de voltarem a correr, agora tomadas por uma força e determinação que eu mesma desconhecia. Logo eu estava no calcanhares de Dean e quando levantei uma mão para segurar seu braço e o parar, ele sumiu.
Senti o chão embaixo de meus pés sumir e logo eu estava caindo livremente, agitando os braços em busca de algo para me agarrar, mas tudo o que eu sentia era o vento cruzando meus dedos com força.
Inconscientemente, dei uma cambalhota no ar e pude ver Dean a vários metros acima de mim, no ar. Asas brancas cintilantes adornavam suas costas e ele voava livremente para cima sem olhar para trás ou até mesmo me perceber caindo abaixo dele.
Juntei todas as forças que ainda me restavam e suguei o ar, gritando.
-Dean!
Jade acordou sobressaltada e confusa sobre onde ela estava. Podia ouvir um leve roncar e só percebeu que estava em um carro quando percebeu a leve instabilidade que o carro proporcionava.
-Você dormiu como uma pedra. – A voz de Dean a atordoou ainda mais e ela o encarou com olhos esbugalhados. – De qualquer maneira, já estamos fora da cidade, só pra você saber.
Jade continuou confusa e um pouco assustada. O sonho que tivera tinha sido tão real que ela ainda podia sentir as mãos sujas tentando agarra-la. Quando ela acordou, realmente esperou estar em uma ambulância ou algo parecido. Aquilo tinha sido um balde de água fria.
-Jade, você está bem? – Dean percebera os olhos arregalados da outra e agora alternava em olhar a estrada e a garota ao seu lado, preocupado.
-Sim, sim. – Ela finalmente acordou de seu estado catatônico, mas ainda estava um pouco alheia ao que acontecia. – Para onde estamos indo, afinal?
-Sacramontes. – Dean respondeu simplesmente e Jade o olhou confusa.
-Sacramontes? Que lugar é esse? – Ela arqueou uma sobrancelha. – Eu nunca ouvi falar desse lugar, sinceramente.
-Isso não me impressiona, já que apenas Anjos sabem sobre esse lugar. – Ele parecia orgulhoso falando sobre isso e Jade suspirou disfarçadamente. – É quase como um segredo de estado.
-E por que você está me contando? – Jade franziu o cenho para ele, mas duvidou que ele tivesse visto, já que estava ocupado demais prestando atenção na estrada e em sua “fantástica história angelical”.
-Por que você precisa saber para onde está indo. – Ele disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – E eu preciso ver uma pessoa lá. Talvez essa pessoa te ajude a entender mais sobre o que está acontecendo.
-Quem é? – Jade perguntou mesmo sabendo que Dean nunca diria a ela. Ele tinha um sério problema em fazer suspense com tudo.
-Você verá. – Ele sorriu e Jade suspirou, se afundando no banco do passageiro e virando para a paisagem que era vista da janela.
***
Dean e Jade escalavam a montanha Sacramontes lentamente. Jade parecia ter bastante dificuldade, tropeçando a cada segundo e se arranhando nas rochas, enquanto Dean parecia andar em uma calçada asfaltada.
Jade tropeçou em uma rocha um pouco maior e perdeu o equilíbrio, mas Dean foi mais rápido e a agarrou pela cintura, mantendo-a em seus próprios pés. Os olhares dos dois se cruzaram por um segundo, mas desviaram logo depois, quando Jade sentiu um leve formigamento em suas bochechas. O que está acontecendo comigo?, ela pensou.
-Merda! – Ela xingou. – E obrigada por isso!
-Não xingue em Sacramontes! – Dean a repreendeu. – Jesus pode ouvi-la.
-Então Jesus realmente existe? – Ela arregalou os olhos e esperou por uma resposta ansiosamente.
-Veja com seus próprios olhos. – Dean apontou para uma pequena casa a alguns metros acima na montanha.
Jade parou um pouco para analisar a casa. Ela era de madeira, o telhado feito de folhas de palmeiras secas, e não parecia proporcionar nenhum conforto ou segurança. Ela se perguntou se Jesus Cristo morava ali mesmo ou se Dean estava zoando com sua cara. Aquele anjo fazia coisas estranhas para um anjo.
Eles subiram mais um pouco. Sacramontes não era um montanha muito íngreme, era mais ladeirosa, e permitia que eles subissem sem usar nenhum tipo de equipamento de alpinismo.
Assim que Jade e Dean puseram seus pés na varanda do casebre, a porta se abriu rapidamente e Jade se sobressaltou, mas Dean parecia já estar esperando por isso.
Um garoto baixinho estava parado na porta, olhando para eles com um sorriso cativante. Ele tinha belos cabelos negros que caiam em mechas na frente de seus olhos incrivelmente lilases. Jade quase se sobressaltou sobre aquilo, mas se conteve quando lembrou que aquele era Jesus Cristo. Ele deveria ter alguma diferença dos seres humanos por ser quem era.
-Dean! – O garoto que tinha a voz infantil e melódica gritou e se jogou nos braços de Dean. Mesmo parecendo já estar próximo da maioridade, o garoto parecia uma criança próximo a Dean.
-Joshua! – Dean abraçou o garoto mais forte. Jade ficou confusa. Ela pensou ter ouvido Dean dizer que naquela casa morava Jesus Cristo e agora ele chamava o garoto de Joshua. Querendo acabar logo com suas dúvidas, ela não se aguentou e perguntou:
-Do que você o chamou? – Seu cenho estava franzido e ela analisava a expressão dos dois.
Dean afastou o garoto um pouco, o abraçando pelos ombros e encarou a mulher, franzindo o cenho para ela também.
-Joshua. – Ele respondeu simplesmente. – Esse é o nome dele.
-Eu pensei que você tinha dito que Jesus Cristo morava aqui. – Ela respondeu emburrada, cruzando os braços contra o peito.
-Eu disse? – Dean agora estava genuinamente confuso. – Eu disse para você vê-lo com seus próprios olhos e eu estava apontando para o cume da montanha.
-Cume?
-É. O topo da montanha. – Dean respondeu como se estivesse falando com uma criança. – Quando não tem mais terra, nem rocha pra você ficar em cima. É apenas ar e a imensidão do mundo.
-Eu sei o que é um cume! – Jade gritou irritada.
-Então por que ainda pergunta? – Dean retrucou infantilmente.
-Ela foi marcada pelo demônio. – Joshua disse de repente, olhando fixamente para Jade. Seus olhos agora estavam arregalados e com as pupilas dilatadas, e ele estava extremamente pálido.
-Você tem certeza? – Dean também estava pálido agora e olhando para Jade com um olhar que misturava pena e espanto. Ela se sentiu corar.
-Do que estão falando? – Ela rosnou, tentando disfarçar a vermelhidão em seu rosto. – Não conversem como se eu não estivesse aqui! Me digam logo o que está acontecendo comigo!
Surpreendentemente, Joshua sorriu, e Jade franziu o cenho para ele. Ela estava acostumada com um mundo em que se você dissesse uma coisa ruim, ganhava em resposta algo pior e não o pacifismo. Talvez por eles serem anjos, ela pensou, eles tem uma paciência divina.
-Vamos entrar que eu explico cada detalhe para você. – Joshua disse ainda sustentando o sorriso e caminhou lentamente em direção da porta do casebre, sendo seguido por Dean e uma relutante Jade.
***
Alec entrou na sala de armas secreta que ele mantinha escondida no porão da catedral da cidade, sendo seguido por Sophie.
A mulher não tinha dado uma palavra o caminho inteiro – não que isso incomodasse Alec. Ele particularmente achava sua voz irritante.
-Por que estamos aqui? – Ela finalmente disse algo. Sophie não gostava de Alec. Ele era arrogante e presunçoso na sua opinião, mas ela não podia esperar mais de um Caído. Alguém que tinha sido expulso do paraíso e agora era tratado como rei no submundo não poderia se portar de outra maneira.
-Precisamos de armas se quisermos pegar aquela vadia. – Alec respondeu indo em direção ao armário onde havia uma variação de espadas, punhais, adagas, arcos, entre outras armas. – E não se esqueça que ela está com Dean. Aquele babaca sempre dá trabalho, mas no final ele sempre fracassa. Só temos que esperar o momento certo, como sempre.
-Chega ser até entediante. – Sophie riu, se aproximando do outro.
Alec tomou uma katana japonesa para si, enquanto Sophie se apossou de um conjunto de arco e flechas. Ambos se preparavam como se estivessem indo para uma guerra, e talvez estivessem. Todos sabiam que o relacionamento entre Anjos e Caídos era conturbado e impossível. Ambos foram feitos pelo mesmo senhor, mas resolveram seguir caminhos inversos. Um seguia a luz e o outro a escuridão. Eram como água e óleo.
Dando um ultimo suspiro triunfante, Alec saiu da sala de armas da catedral, Sophie em seus calcanhares, com a certeza de que venceria Dean mais uma vez. E dessa vez, ele queria que fosse pra sempre.
***
-Como é que é?! – Jade se exaltou, se remexendo na cadeira como se quisesse levantar. Percebendo isso, Dean pousou sua mão levemente sobre o braço da outra. – Isso só pode ser brincadeira! Ninguém pode sair por aí e possuir outras pessoas como se elas fossem objetos.
-L não é uma pessoa e ele não a possui. – Joshua disse em um tom calmo e apaziguador, como se já esperasse por isso. – Ele apenas a marcou como um receptáculo para algo que o pertença. No seu caso, eu penso que seja suas visões.
-Mas como ele pode? Isso não é possível! – Jade chorou, atordoada. – Você não pode simplesmente tirar isso de mim?
-Eu até poderia, mas estamos falando de L. – Joshua respondeu no mesmo tom. Apesar da idade e da aparência inocente, o garoto possuía mais conhecimento e autocontrole do que ela e Dean juntos. – Não acho que ele ficará feliz se descobrir que jogamos fora um pertence seu que ele guardou com tanto carinho.
-E o que espera que façamos? – Dessa vez foi Dean que se pronunciou.
-O melhor a fazer é entregar o que ele quer. – Joshua respondeu e Dean arregalou os olhos, chocado.
-Ele irá mata-la! – Ele bradou. – Eu não vou deixar que L faça algo a Jade. Ela está sob minha custódia agora.
-E o que pretende fazer? Chegar ao submundo com uma espada de madeira em uma mão e um chapéu de pirata na cabeça? – Joshua riu um pouco da própria piada. – Nem mesmo Jeová tem poder o bastante para lutar contra L e você, um mero Anjo que nunca conseguiu completar uma missão, está declarando guerra contra ele. – Ele sacudiu a cabeça negativamente. – Não cometa tamanha estupidez.
Dean quis protestar. Dizer que a coragem de um homem era seu maior poder e que se morresse confrontando L, pelo menos morreria glorioso, mas não conseguiu proferir palavras, pois sabia que Joshua estava certo. Por que dar sua vida por Jade se os outros seres humanos que ele foi designado a proteger teriam morrido? Ele apenas deveria entregar a alma da garota e ir para a próxima. Mas havia algo em Jade que o fazia querer protege-la até o fim.
-Eu vou pedir a Jeremy para fazer um contrato com L para que a alma da garota seja poupada e apenas seu poder seja levado. – Joshua se levantou da confortável cadeira que ele ocupava na frente de Jade. – Descansem. A viagem para o submundo será longa.
Ele saiu da cabana vestindo seu casaco, deixando uma confusa Jade e um contrariado Dean.
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