Dons: Carbúnculo
3 O livro
Notas iniciais
Fábio estava num corredor comprido e largo no interior de um palacete muito antigo. A iluminação era abundante devido aos grandes vitrais coloridos, repletos de imagens e cenas que contavam a história de sua família.
Os olhos violetas do rapaz se demoraram na apreciação daqueles vitrais. Sabia que sua origem era oriental e que eram muito utilizados em igrejas e catedrais durante a chamada Idade Média. As imagens, majoritariamente religiosas, eram úteis para instruir o catolicismo às pessoas, já que, naquela época, a maior parte da população não era letrada.
Toda a estrutura do palacete de Acádia, onde Fábio estava, fora inspirada nas grandes catedrais góticas do fim da Idade Média, por isso era um lugar que o garoto não se cansava de visitar.
O corredor principal levava a uma biblioteca não muito grande, mas com títulos importantes e obras de peso na literatura mundial e local. Livros das mais variadas épocas faziam parte do acervo, e nomes como Baudelaire, Lovecraft, Rimbaud e escritores de Grahan como Hiordan podiam ser encontrados lá.
A biblioteca estava um pouco empoeirada por não ter sido limpa nas duas últimas semanas. Mesmo assim, lá foi Fábio à procura de algo novo para ler. Seus olhos violetas corriam pelos títulos, indecisos e atentos, enquanto perguntava a si mesmo o que leria primeiro. Subitamente eles pararam sobre um livro de capa preta. O garoto pegou a obra, limpou a capa onde estava escrito “diário” e, dando de ombros, sentou-se à mesa para lê-lo.
Loui, que o levara ao palacete, estava sentado com uma obra romena nas mãos, e já havia devorado as cinco primeiras páginas com crescente interesse. Fábio sorriu para o tio, folheou seu livro e começou a ler.
As gêmeas, Branca e Preta, estavam também sentadas a ler. O silêncio imperava e não incomodava nenhum dos devotos leitores. Mesmo quando já se passara mais de duas horas, ninguém parecia ter disposição para voltar para casa, tão absorvidos estavam em suas leituras.
Loui foi o primeiro a se preocupar com o horário. Parou para consultar o relógio. Logo seria hora do almoço e eles deveriam voltar, já que Acádia ficava muito distante de casa.
Fábio, passadas aquelas duas horas, parecia intrigado com o que estava lendo. Ou seus olhos se arregalavam, ou franzia a testa, ora surpreso, ora incrédulo. Quando Loui falou que era hora de irem embora, o garoto pareceu indignado.
— Não podemos ficar mais? Eu quero mesmo terminar esse livro.
— Façamos o seguinte — Loui falou —, leve para casa e termine de ler. Depois devolveremos à biblioteca.
Satisfeito com a ideia, Fábio guardou o livro consigo. Ele continuou a ler durante todo o caminho de volta, e sequer escutava a conversa de suas primas, tão concentrado estava.
***
Amélia convidou suas amigas para passar a tarde e a noite em sua casa. Elas estenderam um pano no chão do quarto e lá se sentaram e ficaram a discutir assuntos recorrentes entre meninas de dezessete anos.
O quarto de Amélia era bonito e espaçoso, todo decorado, com duas paredes de cor branca e outras duas de cor rosa pastel com corações e flores espalhados. Na parede onde ficava encostada a cabeceira da cama, havia várias fotos de família, fotos de amigas, e algumas fotos de Christophe.
Numa escrivaninha que ficava encostada na parede oposta à cama, havia livros, um abajur e um caderno colorido. Na estante havia alguns livros e lembrancinhas diversas, tudo muito bem organizado. Do teto caia um bonito lustre e vários pássaros decorativos pendurados. No armário cuja porta estava aberta, diversas roupas e sapatos, além de vários estojos de maquiagem. Aquele quarto era o sonho de consumo de muitas meninas.
— Então, o Adri não falou com você ainda? — Christine perguntou à Lady enquanto pintava a unha. Olhou para o trabalho com satisfação, esperando a resposta da amiga.
— Não — Lady falou, decepcionada. — Sabe, às vezes eu acho que ele gosta de mim, outras vezes não. Eu nem sei mais nada.
— Ah, mas eu acho que ele gosta sim. Só não tomou coragem pra te falar ainda. — Amélia tentou confortar a amiga. — Quanto a mim, só queria ter coragem para falar com o Christophe. Acho que ele é muito carinhoso comigo, mas é só uma relação de primos. Ele não demonstra nenhum outro tipo de interesse.
— Então crie coragem e se confesse pra ele — falou Michele, tocando o braço da amiga. — Escreva uma carta ou algo assim, mas não fique esperando que ele magicamente se confesse pra você.
Amélia refletiu. Escrever uma carta era um costume não tão recorrente, mas não era uma ideia de todo ruim. Seria menos constrangedor que falar pessoalmente de seus sentimentos para Christophe. Além de tudo, Michele estava certa, não devia esperar que ele se confessasse, já que ela não sabia ao certo se ele sentia ou não algum tipo de amor por ela.
— Você pode ter razão — disse Amélia, depois de pensar por alguns minutos. — Vou escrever uma carta. É melhor que ficar guardando isso pra mim. Mas, se ele realmente não sentir nada, o que acontecerá? Ficarei envergonhada de encontrá-lo depois.
— Sempre há o risco — Lady falou —, mas vai de você decidir se abrir com ele ou ignorar e esperar que esse sentimento desapareça.
Amélia se levantou e se olhou no espelho. Arrumou s cabelos cor de rosa pastel que estavam presos numa Maria Chiquinha. Passou um brilho labia que deixou seus lábios brilhantes. Também passou um pouco de blush que realçou as maças de seu rosto. Seus grandes olhos castanhos ganharam destaque com o delineador preto que os contornou com uma linha fina, porém firme, e ela sentiu-se mais bonita e confiante. Pensou consigo que poderia haver uma chance de Christophe gostar dela.
— Tudo bem — Amélia falou com energia. — Eu escolho me abrir com ele. Vou escrever a carta e vou fazer com que ele goste de mim.
— Esse é o espírito! — Christine falou com animação, dando um soco no ar.
Todas foram contagiadas pela súbita energia de Amélia, e aplaudiram a decisão da menina de ser sincera sobre seus sentimentos com o rapaz de quem gostava. Isso as inspirou também.
— Então vamos em frente alcançar nossos objetivos! — bradou Christine.
— Embora pra você seja mais fácil, já que você e o Cássio já se entenderam — falou Lady, dando um tapa no braço da amiga. — Mas nós ainda temos um caminho a percorrer.
— Mas chegaremos lá! — Michele bradou.
De repente elas ouviram que alguém batia na porta, e a abriram. Era Alícia que fora ali para chamá-las para o almoço. Naquele dia, apenas Rafael não estaria presente para a refeição.
— Gente, depois do almoço, vocês me ajudam a escrever a carta? — Amélia pediu às amigas.
— Claro, amiga! — Lady falou. — A gente come rapidinho e voltamos pra cá pra escrever. Vamos logo!
As quatro desceram as escadas rapidamente e se dirigiram para a sala de jantar. Amélia olhou em volta e logo viu Christophe conversando com Guilherme, ambos já sentados à mesa. Sorriu satisfeita, e corou quando percebeu que o primo olhou para ela com um sorriso.
Antes que todos se sentassem para comer, Fábio, as gêmeas e Loui chegaram do passeio. Fábio correu para o seu quarto onde guardou seu livro e voltou a tempo de cumprimentar os familiares e se sentar à mesa para o almoço.
Durante a refeição, Preta, que estava sentada ao lado de Christophe, reparou em como Amélia olhava muito para o rapaz, e como suspirava às vezes. Aparentemente, apenas ela notara aquilo, já que o resto da família conversava e brincava.
Aquele comportamento de Amélia não agradava Preta, pois sabia que ela gostava de seu irmão, e não suportava aquilo. Christophe era o irmão adorado de Preta, e ela sentia muito ciúmes quando via as meninas olharem com tanto interesse para ele. Com Amélia não era diferente.
Enquanto a refeição seguiu, Preta evitava olhar para a prima, mas sua raiva não desaparecia.
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