Dona De Mim
12 Capítulo 12
Acordei na segunda-feira sem vontade nenhuma de sair de casa. Levantei, tomei um banho e parei em frente ao espelho. Eu já não tinha mais aquele ar de menina. Estava muito mais bonita do que há anos atrás. Meus 27 anos estavam me caindo muito bem.
Do que eu estou com medo então? Como minha reunião era dali há cerca de duas horas, resolvi cuidar de mim. Cabelo, maquiagem, tudo completo.
Hum, e a roupa? Mais social ou mais mulherão? Estamos em Maio e o friozinho já está começando. Por aqui, as pessoas não usam muito o estilo social em roupas, então resolvi assumir o estilo Paulistana Fashion: coloquei uma legging de couro preta, uma camiseta comprida mas que delineava meu corpo, toda branca e com uma pantera linda na frente, uma jaqueta curta de couro preta e uma bota preta de salto alto que ia quase até o joelho. Deixei o cabelo cacheado natural e jogado, meio anos 80. Pouca maquiagem, mas um batom vinho. Perfeito.
Fui tomar um gole de café antes de sair e encontrei meu irmão na cozinha.
– Ual! Você tá quente mana! Aonde você vai?
– Vou em uma reunião. Quero todos os otários daquela empresa babando. – Falei dando uma piscadinha.
– Bom, com certeza eles terão que gastar alguns minutos no banheiro depois. – Fiz uma cara de perplexa e dei um tapa no braço dele.
Bom, era hora do show.
Entrei no meu maior amor e minha companheira dos últimos anos: minha linda Dodge Ram Vermelha e quente! Eu sei, eu sei, ela é um absurdo de cara. Mas gente, eu não queria falar não, mas graças a Deus e ao Henrique, a nossa empresa decolou e estou ganhando muito bem. Muito bem mesmo! Mais do que imaginei ganhar um dia. Então, esse foi um luxo que eu pude me dar.
Entrei no meu brinquedo e coloquei Trace Adkins pra cantar.
Quando cheguei na empresa foi muito legal. Minha caminhonete é toda insulfimada, então não dá pra ver ao certo quem está dentro. Todos os meninos estavam reunidos na porta da empresa: Armando, Jason, Márcio, outros que eu não conhecia e ele, meu sol, o Cadú. Conforme fui encostando, todos olharam. Senti um orgulho imenso do meu bom gosto automotivo. Minha leoazinha interior estava se abraçando. Estacionei sob todos os olhares. Quando desci, eles perderam o ar, jamais imaginariam uma mulher num carro como aquele. Peguei minha pasta de couro preta e fui em direção à roda.
Meu coração parecia que ia pular do peito, e eu juraria que estava com o rosto corado devido ao calor que estava invadindo-me. Eu estava tão confiante, como jamais imaginei que pudesse estar. Fui o caminho todo encarando o olhar de mel, que neste momento estava quase me engolindo. Eu podia sentir sua vontade de me comer. Toda. Senti orgulho pelo meu bom gosto nas roupas e minha leoazinha estava linda, com cabelos ao vento e com uma carinha muito sexy.
Fui direto para Armando, para um abraço cheio de saudade.
– Oh, minha menina, como você está linda! – Ele me analisava, segurando meus ombros. – Senti muito sua falta.
– Eu também senti sua falta. Você me visitou muito pouco em São Paulo nanico.
– Caralho, mulher! Você tá um arraso! Deixa-me ver isso. – Senti tanta falta de Jason. Ele pegou minha mão e me rodou. – Você está namorando? E olha que pela primeira vez eu falo muito sério Bia.
– Ai, seu imbecil. Senti muita falta desse seu humor, sabia? Bom, eu estou solteira e aberta para um jantar hoje, o que acha? – De canto de olho, vi Cadú ficando roxo.
– Eu acho que te pego às 21h. Aliás, você vai me buscar, bonita, pois eu quero muito dar uma volta na sua máquina.
– Combinado, Jay! – Dei um beijo no rosto e uma piscadinha.
– Ei, Márcio, como você está? Você e o Jay nunca foram me visitar e isso me magoou, sabia? – Dei um abraço nele.
– Oh, menina, não somos chefes né. Não podemos ficar passeando por aí.
Armando apresentou-me os outros homens, mas confesso que não prestei muita atenção. Meu foco estava voltado para ele e aquele calor todo. Cumprimentei um a um até que parei em sua frente.
– Bom dia, Carlos Eduardo. Tudo bem contigo? – Falei com voz de menina fofa, estendendo a mão para ele, com um sorriso torto, cabeça de lado e dando aquela entortadinha na perna, sabem?
Ele agarrou minha mão, e me puxou ao encontro dele. Com a outra mão no bolso da calça social grafite. Olhando nos meus olhos, me derretendo por dentro. Ah, que calorrrrrrrrrrrrrr!
– Um maravilhoso dia a partir de agora minha linda. Posso falar que também morri de saudade de você?
– Hum, pode. – Ainda com voz de menina. – Mas você sabe que não vou acreditar não é. – Falei ao pé do sei ouvido, com a boca perto do pescoço. Hum, meu cheiro amadeirado preferido. Percebi que sua pele arrepiou e ele apertou minha mão.
Dei alguns passos para trás e soltei-me dele.
– Bom, eu tenho uma reunião, se me derem licença. – Eu disse entrando no prédio. – Ah, nanico, você e esses meninos feios irão almoçar comigo e não aceito não como resposta.
Entrei e fui até a recepcionista. Ela confirmou minha reunião e encaminhou-me para a sala de espera. A reunião seria 09h e eu tinha 15 minutos ainda. Sentei e comecei a rever minha apresentação. Estava muito boa! Li, reli, relembrei tópicos e afundei-me no estudo. De repente, uma voz rouca interrompeu minha concentração.
– Vamos lá, minha linda?
Cadú estava em pé na minha frente, com a mão estendida e cara de malandro.
– Lá onde? – Perguntei confusa. Ah, será que ele vai participar da reunião? Grrrrrrr. Eu sabia.
– Para nossa reunião minha linda. Estamos 5 minutos atrasados.
– Achei que eu iria encontrar somente o gerente. — Eu disse, petulante.
– E você vai. Seremos somente eu e você. – Ele disse abaixando em minha frente, com os olhos semicerrados e um sorriso perverso.
Oh Meu Deus! Ele é o gerente... ELE É O GERENTE! Minha leoa estava com os olhos arregalados e o queixo no chão.
Ele riu e me puxou pelo punho. – Vem, Bianca, estamos atrasados.
Entramos em sua sala e ele fechou a porta. Fiquei estática. Em pé. Com os pés grudados no chão.
– Por que o Henrique não me disse nada? – Eu disse baixo, para mim mesma, mas ele ouviu.
– Por que ele não sabia meu amor. E eu preferi deixar assim pra você não correr de mim.
Fechei os olhos, respirei fundo. Vamos lá, eu sou boa nisso. Muito boa. Quando abri novamente estava determinada.
– Bem, então vamos ao que interessa. – Sentei em sua frente, coloquei meu netbook, meus papéis e tudo mais. Ele só me observava. Com o tornozelo esquerdo em cima do joelho direito, braço apoiado e segurando o queixo.
– O senhor sabe que hoje faço parte de uma empresa que presta serviço de instalações, situada em São Paulo, junto com Henrique. Meu intuito com a reunião de hoje é demonstrar a qualidade de nosso trabalho e as vantagens que sua empresa teria em uma parceria conosco.
– Bom, minha linda. – Ele levantou, deu a volta na mesa e encostou do meu lado, recolhendo meus papeis e fechando meu netbook. – Em primeiro lugar eu já sei de tudo isso, portanto já digo que a parceria está mais que fechada, desde que você contrate nossos antigos técnicos para suas novas equipes. Nãos os quero prejudicados. Em segundo lugar, a maior vantagem da parceria com a Panther é ter você por perto, e esse com toda certeza é meu maior interesse.
Eu virei a minha cadeira para o outro lado e levantei, indo para longe dele.
– Olha, Cadú, se você já havia decidido não devia ter me chamado aqui. Se já está decidido, com sua licença, eu vou embora.
Fui até a mesa, sem poder encará-lo e comecei a juntar minhas coisas. Ele me virou de uma vez, me ergueu, colocando-me em cima da mesa e me beijou. Oh Deus. Quanto tempo eu esperei por esse beijo de novo. Quente. Nossas línguas se encontravam e estavam desesperadas. Foi bom sentir que fiz falta de verdade para ele. Ele me apertava contra seu peito, com uma mão emaranhada em meus cachos. Eu me afastei pois não conseguia respirar. Ele puxou de leve meu cabelo, para que eu olhasse em seus olhos.
– Deixe-me conversar com você. Por favor. – Era uma súplica. Olhei seu rosto de perto. Ele também havia mudado. Oh, merda, ele estava mais lindo. Com o rosto mais másculo e um pouco mais envelhecido. Aqueles olhos cor de mel eram ainda mais intensos e decididos. Aquela boca enorme. Aquele queixo quadrado. Fechei os olhos e tentei me recompor. Sai devagar da mesa, colocando meus pensamentos em ordem. Eu não sou mais aquela menina que vai se deixar levar tão fácil. Encostei na parece oposta e olhei pra ele. Ele estava encostado na mesa, com as mãos do bolso e olhar confuso.
– Cara, você é tão lindo. – Eu ri. Ele riu e baixou a cabeça.
– Cadú, as coisas não são simples assim. Você poderia ter estragado minha vida e isso só não aconteceu graças ao Henrique. Você tem noção do que fez comigo? – Eu falava baixo. Cada palavra cortava meu peito. Uma pequena lágrima escapou pelo meu rosto.
– Eu só percebi quando o Armando entrou na minha sala e me deu um soco na cara. Eu não imaginei que você fugiria de todos. Eu não percebi o tamanho da humilhação que te fiz passar até saber que você estava indo embora. Aquela noite foi a pior da minha vida. Eu me senti um lixo.
– Eu acho realmente muito bom que você tenha se sentido assim. E eu perdoo você. Eu o conheço o suficiente pra saber que é impulsivo e faz as coisas sem pensar nas consequências. Foi assim que saiu comigo naquela noite. – Toda a minha insegurança me bateu como um soco.
– Não, não foi isso! – Ele veio até mim e pegou meu rosto com as mãos. – Eu queria você no momento em que te vi chegando aqui naquela manhã. Você parecia tão forte, tão independente, tão linda, tão viva. Uma leoa. Eu quase morri quando descobri que você era a mulher com quem eu brigava há anos. – Ele riu e arrumou meu cabelo que estava no rosto. – Mas quando entramos naquela reunião e eu vi a leoa em ação, aquilo virou meu mundo de cabeça para baixo. Eu era uma bagunça só. Eu fiquei uma pilha de nervos com nossa vistoria. Mas quando te vi, foi como se quebrasse todo o gelo do meu coração. Você é tão brava, é tão gostoso te provocar. – Rindo, ele me deu um pequeno beijo nos lábios. – Quando eu te chamei para sair e você não aceitou, eu já esperava. Fui pra casa, me arrumei e fiquei na esquina da sua casa para seguir você. Foi assim que fui para o clube. Eu queria você.
– Eu... eu... – Coloquei as mãos no rosto e sai de perto dele. – Eu jamais imaginei isso Cadú! Você é lindo, tem dinheiro, status. Jamais se interessaria por mim. Era errado. Era... eu não sei. Depois que ficamos juntos na sua casa eu fiquei apavorada. E deixei-me encantar por uma noite, mesmo que no fundo eu soubesse que você iria usar isso para me humilhar depois. Eu não resisti a você. Mas nunca achei que você seria tão baixo.
– Eu sempre tive tudo o que quis Bia. Todas as mulheres que queria e como queria. Mas eu nunca quis ninguém como eu queria você. Nunca levei ninguém até meu apartamento. Eu queria ter você ali. Dormir e acordar com você. Quando vi que você foi embora, eu enlouqueci. Tentei falar contigo, mas você foi tão estúpida. Foi quando tive a ideia das flores.
– Aquilo foi lindo. Surreal. Eu realmente não entendi o por que.
– Eu achei que você entenderia e me ligaria. Mas passei na frente da casa dos seus pais e vi vocês jogando tudo fora. Aquilo foi como se você tivesse enfiado uma faca no meu peito. Eu fiquei com tanta raiva de você, de mim. Foi quando decidi espalhar as fotos.
– E por que você me ligou na segunda?
– Por que mesmo com raiva eu ainda a queria...
Ele veio até mim, e me abraçou.
– Eu achei que poderia me explicar. Mas você falou daquele jeito comigo, falando que era palhaçada e tal. Eu desisti. Sabia que iria ficar furiosa com o que fiz e achei que viria até mim, brigar, xingar, e assim teria uma chance de te ver. Mas você foi... frágil. Eu a destruí. Quando descobri do pedido de demissão eu não sabia o que fazer. Eu fui falar com o Henrique, mas não adiantou. Eu decidi que esperaria alguns dias e te procuraria. No mesmo dia a tarde, Henrique veio avisar que iria para São Paulo por uma semana. Eu estava descontrolado e preocupado, tentando saber como você estava. Fui até sua casa a noite e vi Henrique saindo de lá entendi tudo. Eu já sabia da empresa dele. Num primeiro momento, fiquei aliviado pois sabia que seria uma chance maravilhosa pra você e fui para a casa. Mas depois, eu percebi que você iria embora. IRIA EMBORA! Eu não a veria mais... foi por isso que fui ao aeroporto.
– Você é louco. Você acha que eu vou acreditar em tudo isso? Não faz sentido! E outra, esses dois anos que se passaram você não deve ter ficado sozinho. Já era pra ver ter esquecido tudo.
– Eu tentei. Todos os dias. Outras mulheres. Trabalho. Mas era sempre você enchendo minha mente.
– Eu sofri tanto... – Sentei na cadeira e coloquei as mãos no rosto. As lágrimas rolavam sem controle.
– Meu amor, por favor. Acredita em mim. O que eu posso fazer pra você acreditar em mim? – Ele estava ajoelhado entre minhas pernas.
– Eu não sei. – Ergui a cabeça e olhei para ele. Será que ele estava sendo sincero? Oh, eu tenho tanto medo.
– Deixe ao menos eu tentar reconquistar você. – Como se precisasse.
– Eu preciso pensar. E perto de você eu não consigo. Eu vou embora e ligo mais tarde. Eu prometo.
– Você vai almoçar com os meninos?
– Sim, eu preciso relaxar e morro de saudade deles.
– Ok. – Ele me levantou, me abraçou e beijou o topo de minha cabeça. – Eu estarei esperando por você.
Eu saí da sua sala e corri para o carro. Eu estava tão confusa. Coloquei uma música e comecei a pensar. Será que seria tudo isso mesmo? Mas o que ele sente por mim? Paixão? Amor? Eu o amo. Mas ele não pode saber disso. O que eu vou fazer? Deixar-me levar novamente?
Alguns minutos depois os meninos chegaram e fomos almoçar. Foi muito divertido e me fez muito bem. Claro, desmarquei o jantar com Jason.
Voltei para casa e procurei minha mãe. Pela primeira vez contei tudo o que havia acontecido. Ela era de longe minha melhor amiga e ia me ajudar.
– Filha, que confusão. Eu não sei o que dizer... – Ah, que bacana.
– Mãe!
– Bom, eu tenho certeza de que ele é completamente apaixonado por você. Mas só você sabe o estrago que ele fez aí nesse coraçãozinho. Siga seus instintos. Viva, minha filha.
Hum... Viver? Tá. Se eu pensar com meu cérebro, eu volto amanhã pra São Paulo, fugindo. Se eu pensar com minha alma eu dou mais uma chance pra nós e espero que ele me ame de volta. Se eu pensar com o que tenho no meio das pernas, eu corro ao apartamento dele e dou pra ele agora.
2 x 1
Peguei meu celular.
– Minha linda, achei que não ligaria. – Pude sentir um sorriso formando do outro lado.
– É, eu liguei. Eu... Acho que podemos jantar. O que acha? – Nossa, eu to muito confusa.
– Eu decido o que vamos fazer senhorita. Mas esteja linda que passarei te pegar as 20h. – Ele respirou fundo e falou baixo – Não vejo a hora...
Ai meu coração... Descontrolado. Respira menina!
– Tu... tudo bem. Até mais tarde.
Minha Nossa Senhora das Meninas Taradas, segura minha periquita!
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