Dona Bela

1 Todos queriam ser


"Era belíssima! Como aquela dama era perfeita, toda pomposa em seus vestidos de seda, as pulseiras brilhantes e as jóias no pescoço. Era toda "globalizada". Tinha uma infinita coleção de sapatos, celulares e imóveis. Oh! Todos desejam ser aquela que desce do carro esportivo, que toma champanhe na hidromassagem e come camarões no café da manhã.

Se não pudessem ser ela, gostariam de ser seu cãozinho. Todo peludo, tratado com mimos, fitas, pet shop e ração da mais cara. O animal também era fashion, e era carregado no colo da dona com a mais refinada combinação de tecidos.

A multidão rezava para ser aquela moça, que desfilava em tapete vermelho e jogava beijos para as câmeras. Dona Bela não tem preocupação, não tem receio e nem fome! Bela não tem insônia, sequer medo de ausência salarial. Tem amor ardente − já se casou um milhão de vezes −, e seu sucesso estourou como uma fagulha que transformou-se em explosão. Não adoece, não anda a pé. E lá vai Dona Bela, para outra festa com os companheiros da elite..."

Em algum lugar na cidade grande uma televisão desliga. Uma órfã moradora de rua se afasta da vitrine da loja de televisores, com escárnio doloroso que abrange seu coração. A pequena garota sonha ser a Dona Bela da novela, ter seu destino mudado com uma explosão brilhante de glamour. Então não haverá um estomago faminto, frio que estremece os ossos ou medo da solidão.

Ah, se ela fosse a mulher da TV... E lá vai a garotinha a sonhar: "a mídia deve ser um segundo nome para Paraíso".

Um grande brilho vem em sua direção, deve ser a magia de Dona Bela! Vai ser estrela, só pode ser! A luz forte colide com seu franzino corpo...Não é a magia de Dona Bela, é apenas um carro desgovernado, um homem embriagado ao volante. Isso é a última coisa que vê...sob a grande ilusão dos programas de TV.

Notas finais
E que vc nunca mais seja o mesmo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!