Dona

12 Maria Marta


Notas iniciais
Aqui estou eu, com a cara mais lavada do mundo, com um novo capítulo. Espero que perdoem minha demora e não me abandonem. Ah, e eu to postando esse capítulo pelo celular, não sei como vai ficar o formato do texto. Desculpem qualquer coisa. Boa leitura. Bj.

— Attention, les passagers à bord du vol 1821, à destination de Rio de Janeiro, expédition immédiate. – e é feita a ultima chamada paro o voo de José Alfredo. A mulher o abraça, não quer deixar o marido ir embora mais uma vez.

— Por favor, Marta. Tenho que ir. – eles se beijam, e ele some dentro da enorme sala.

Narração Maria Marta

Falar de sentimentos é muito complicado pra mim, conhecida como sem coração. Não mais do que para aquele cangaceiro nordestino, é claro. Cangaceiro esse que eu amo demais, vocês devem saber. Voltando aos sentimentos, — mesmo sem ter saído desse rumo, até porque, quando conheci José Alfredo e construí uma família, descobri que o amor é o sentimento mais nobre que existe -, meu marido nunca soube falar as palavras que meus professores me obrigavam a saber, ele só sabe aquele dialeto nordestino.

Sempre fui uma mulher requintada, de postura. E bonita também, meus olhos claros chamam a atenção de homens e mulheres por onde passo. Uma verdadeira aristocrata. Nasci para mandar, não para ser mandada. Grande parte da minha vida acreditei que isso me fazia melhor do que os outros e fiz coisas que me arrependo. Depois de anos de experiência, aprendi a usar esse poder a meu favor, sem passar por cima de ninguém. Elegante e conquistadora, recebo declarações e cantadas do faxineiro da minha empresa à algum acionista bilionário, mas nenhuma dessas já foi mais bonita das que o meu marido costuma cochichar no pé do meu ouvido. Apesar de ser um bronco turrão, ele sabe ser romântico. E é sedutor sem fazer esforço. Deve ser por isso que as mulheres costumam ter os quatro pneus arriados por ele, como ele gosta de dizer.

Meu filho mais novo fala que a gente briga desde quando o mundo é mundo, e o mais velho defende dizendo que começamos a brigar quando o pai começou a ter relações extra conjugais. Que seja, só sei que brigamos pra caramba! [risos] A gente briga mais quando um contradiz o outro, o que acontece frequentemente. O resto é só provocação.

Agora eu to sentada em uma cadeira de um aeroporto, mais precisamente, uma cadeira na frente da sala de embarque do aeroporto de Genéve, derramada em lágrimas. Estou me separando do meu marido de novo. Mas só os corpos, o nosso coração vai estar sempre interligado. Ele partiu para o Rio de Janeiro com toda a nossa família, só eu fiquei. Não que eles não tenham insistido para que eu voltasse, eu que escolhi mesmo. To cansada de ser motivo de chacota. Eu confio no meu marido, mas tenho medo, não adianta. Ele já me traiu com diversas mulheres e a ultima foi a que me doeu mais. Ele foi capaz de levar a ninfeta para dentro da minha casa, e dormir com ela em uma cama que já foi minha. Isso não se faz com mulher alguma, jamais. Meu orgulho — um pouquinho exagerado — foi ferido profundamente. Meu coração também. Ao contrário do que costumam dizer, não tenho coração de pedra não. Nem de diamante. Eu também sou gente, e tenho minhas fraquezas. E se eu tenho um ponto fraco, esse ponto é o comendador José Alfredo Medeiros.

Apesar de amar o Zé, pensei que tudo estivesse perdido. Tudo já parecia estar perdido há um tempo, quando decidimos tentar de novo... Deu errado mais uma vez. Resolvi tentar a vida na Suíça, quem sabe aqui eu não encontrava alguém que me faria esquecer o abominável homem de preto? O pior de tudo foi que conheci. Nunca amarei um outro homem como amo José Alfredo, mas me sinto bem quando estou com Maurílio. Ele é brasileiro também, é mais novo do que eu, mas é lindo e galanteador. Charmoso. E ainda tem os olhos claros! Me faz sentir desejada e que mulher não quer se sentir assim? Estamos "juntos" há 3 meses e apenas alguns amigos em comum sabem da nossa relação. Foi passar o natal com a família em São Paulo, mas volta depois de amanhã. É divorciado e tem uma filha adolescente, que mora com a mãe. A última vez que falei com ele foi antes dos meus filhos chegarem. Ele já deve saber que eu e o comendador voltamos, mas isso não deve o surpreender. Sempre soube que quem eu amava mesmo estava no Brasil. É que com ele era apenas carinho, questão de se sentir bem. Eu não me deixei envolver completamente na relação, e, ainda bem, ele entendeu. Fomos transparentemente sinceros.

Estou em lágrimas, principalmente, porque menti para José Alfredo. Na verdade, omiti. Mas a minha consciência diz que eu deveria ter contado tudo a ele, e não fiz. Entretanto, eu duvido a minha parte da Império como o José Alfredo também arrumou alguém para se espojar enquanto estivemos separados. Não que eu tenha me envolvido com Maurílio por causa disso. Preciso voltar para casa — que vai estar vazia, vazia como não esteve nas últimas semanas. E ainda tenho minha conversa com Maurílio daqui há dois dias. Vai, Marta, você consegue. Sempre conseguiu. Toque sua empresa e não se deixe corroer de saudade. É melhor pra você, você sabe.

Trânsito irritante. Eu só quero chegar em casa e descansar.

O silêncio ta fazendo a festa em cada canto desse apartamento, está de enlouquecer gente sã. Ensurdecedor. As almofadas estão arrumadas de novo — ultimamente, o lugar delas era no chão. Não tem copo em cima da mesinha de centro e nem toalha nas camas dos quartos. Nem sapato no meio da casa. João Lucas esqueceu uma meia e Clara, sua escova de dentes. Atrapalhados. Um pouco adiante, a cabeça de uma boneca no chão. Martinha assustadoramente brincalhona. No minha suite, chinelos — escuros — masculinos. No banheiro, outra escova de dentes. Clara teve a quem puxar. A menina ainda deixou um bracelete no meu closet. A pior de todas, só não esquece a cabeça porque ta colada no corpo. No corredor, um fio de cabelo ruivo. Ainda no quarto das meninas, um sutiã. Não sei se de Clara ou Cristina. Avaliando tudo isso, tive certeza, mais uma vez, de que a minha família é a melhor. Foram dias maravilhosos que passamos juntos. Agora quero que voltem para pegar o que deixaram!

Notas finais
Foi um pouquinho diferente do que estão acostumados por aqui, não é!? 😚 Mas, e aí? Eu preciso saber o que acharam. Faço uma narração do Comendador no próximo ou não?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.