Domingo, Café e Cigarros
3 Parte 9, 10, 11 e 12.
Parte 9
Saio de casa. Passo pelo boteco.
O cachorro deitado na calçada levanta.
Desiste.
Senta.
Existe.
O velho sentado na mesa bebe.
Olha pra mim.
Nove horas da manhã. Deve ser sua terceira pinga já.
O pombo vem.
Vai.
Suja.
Passo do bar.
Desço a rua.
Fumo um cigarro.
É manhã e ainda tem prostitutas no beco.
Elas sorriem. Sorriem com sinceridade. Te dão um sorriso esperando teu dinheiro, não pescando felicidade na sarjeta.
Não sei por que vim. Não tenho o que fazer aqui.
Volto para o bar. Peço um conhaque.
-
Quando eu era pequeno, minha mãe me ensinava modos. Eu tinha amigos imaginários e não bebia nem fumava.
Quando eu era pequeno, tinha uma velha que jogava o palito de fósforo aceso no café e via o futuro na mancha que fazia quando o palito apagava. Ficava na mesma rua da quitanda, acho. Tipo, mais lá pra baixo.
Minha mãe sempre me levava lá pra tirar quebrante. Nunca adiantava.
Depois de um tempo, descobri qual era o problema. Era o café”.
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Parte 10
Outro conhaque.
O cachorro não se move.
“Se essa rua, se essa rua fosse minha,
eu mandava, eu mandava apedrejar,
cada pombo, cada Bruce, cada velho,
só pra ver o cachorro levantar”
“Já me livrei da Anne e da Julianna. Matei dois pássaros com uma pedra só. Falta uma. – penso.
Volto para casa, pego o telefone.
- Alô? – ela atende.
- Rachel?
- Oi, amor. Ta tudo bem?
- Não.
-Mas eu quero te ver bem.
- Não to doente. – afirmo.
- Você andou bebendo! – ela sabe.
- Andei. Sentei. Pensei.
- Vem pra cá comigo? – pede manhosa.
- Eu fico aqui. Você fica ai.
- Você ta se afundando...
- Não, não estou.
- Você não me quer mais? – pergunta receosa.
- Não mais. Mas você não tem culpa. Quer felicidade.
Ela chora baixinho.
Me sinto mal. Como elas conseguem fazer isso?
- Tudo bem então. Se cuida. – ela desliga. Eu desligo.
-
O pior não é sentir e não lembrar de nada. O pior é saber que eu estava, apesar de tudo, me sentindo bem.
O pior é o barulho dos carros na avenida, motores, buzinas.
O pior é lembrar das pessoas. De seus olhares, seus mundos. Suas expressões catatônicas de: “eu tenho um sentido\".
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Parte 11
A noite chega. Ligo novamente. Ligo para a pizzaria.
Pizza de palmito. Palmito com lágrimas.
Minutos passam. A pizza chega, David chega.
- David!
- Olá... Pierre! Certo? – pergunta.
- Isso. Quando lhe devo?
- Onze dólares.
- Certo. – o pago. – David? Não quer entrar um pouco?
-
É tudo feito de sujeira.
Paredes amareladas nos bares, tiozinho servindo pinga com as mãos cheias de cascas.
Ruas sujas, bêbados rindo sem dentes.
Putas com celulites.
Pastelaria com gordura nas cadeiras, caldo-de-cana com mosca.
Churrasco grego. Moscas.
É mosca pra tudo quanto é lado. Quando os pombos saem, a festa é delas.
É tudo sujo. Imundo.
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Parte 12
- Pra que? – tenta não parecer rude.
- Sei lá. Conversar?
- Bem... Estou em horário de trabalho, mas acho que tenho um tempinho.
Entra, senta, conversa.
- O que você faz da vida?
- Nada. – respondo sincero.
David ri. Sorriso lindo.
- Quer uma cerveja?
- Não posso agora. Estou trabalhando, lembra? Mas aceito uma água.
Pego a água. David bebe.
David bebe e sorri.
Seu sorriso me encanta. Não enjôo.
Conversamos sobre vida pessoal, jogos de futebol e lugares.
O celular de David toca. Seu chefe diz que tem que voltar para a pizzaria.
- Tenho que ir agora. Se não, amanhã não tenho mais meu emprego.
- Ok, então.
- Até mais, Pie. – Passa os braços por meu pescoço. Me arrepio.
Dá um rápido e estalado beijo em meu rosto. Fecho os olhos.
David sai e minha mão pousa em meu rosto, no lugar onde recebi o beijo.
-
Duas da manhã me pedem pra sair.
Saio. Paro no bar.
Afirmam que é terça-feira. Pra mim é domingo.
Teimam que é terça-feira. Pra mim, continua sendo domingo.
Peço uma dose.
À noite os pombos dormem, e eu respiro.
A dose. A conta. O troco.
Foda-se a velha. Agora quem joga o palito de fósforo aceso sou eu.
A conta está em chamas. As pessoas não entendem.
Eu quero mais é que se foda.
-
Eu? Eu sempre acabo no cuspe com sangue.
Sempre assim.
Cabeça abaixada, saliva vermelha na pia branca; E não reflete, nem pensa... Só escorre.
E eu fico aqui.
Menina boazinha vai pro céu tirar pó de corredor e limpar pena de anjo sem pau.
Menina ruim sangra, mas vive.
E o ciclope não fica vesgo. Fato.
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