Parte 4

A mesma coisa acontece no motel. Mulher diferente, mas no fundo, igual às outras.


Não tenho saco pra mulher assim. Sorriso branco, rosto bonito, peito grande, corpo gostoso, TPM, dívida, reclamação, dúvida. Não tenho saco. Apenas, aturo.

Minha vida não tem aventura. Sempre volto pra casa.

Coloco um cd pra tocar e sento no sofá. Reflexo na tv desligada novamente.
Minha barriga faz um barulho alto. Fome.


Pego o telefone. Disco um número. Peço uma pizza de qualquer coisa. O inútil do outro lado da linha, diz que vai demorar meia hora.


Não tenho nada pra fazer. É domingo. Tédio de novo.
Acendo um cigarro.
Ligo para Jeff. Amigo. Vontade de jogar baralho.

-

\"O intervalo é a hora em que você vive.
E quando você vive, geralmente desiste.
É por isso que nunca te deixam parar.


Até nos filmes, os intervalos são entupidos.
Cheios de produtos pra comprar,
coisas para engolir,
gente para querer,
musica bonita. Felicidade.


O intervalo é a hora em que você sabe.
E quando sabe, geralmente pára.
É por isso que nunca respirou,
só colocou o ar para dentro e para fora\".


[...]

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Parte 5

Jeff chega. Traz cerveja, e mulher.

Não quero mulher agora, passei o dia com elas.

Não quero cerveja agora. Quero café.

- Oi, Pierre. – Jane diz. Voz sexy.


- Fala, Pierre. – Jeff me cumprimenta.

Ponho as cartas de baralho na mesa.

Pego um copo de café, acendo outro cigarro.


A pizza chega. Abro a porta.

- Boa noite. – o cara da pizza me entrega – Aqui está, são oito dólares.


Procuro dinheiro no bolso. Acho algumas notas amassadas. Oito dólares.

Estendo a mão com o dinheiro. Ele tenta pegar, mas não solto. Não quero soltar.
Ele é lindo. Não acho homens lindos, mas ele é. Seus olhos são atraentes. Estão atraindo os meus.


Sua mão ainda está presa à minha.

Ele sorri. Sorriso sincero. Há tempos não vejo alguém dar um sorriso desses.


- Senhor... O dinheiro. – fala ainda sorrindo.

- Ah! Sim, claro. – solto o dinheiro e os olhos dele se encontram com os meus novamente.

Arrepios.


Ele vira de costas para ir embora. O chamo.

- Qual é o seu nome?


- Ah... David. David Desrosiers, senhor. – estende sua mão.

- Me chame de Pierre. – o cumprimento, balançando levemente nossas mãos.

- Ok, Pierre. Tenho que ir agora.

- Até mais. – continuo segurando sua mão.

- Pierre?

- O que?

- Minha mão.

- Ah... – solto sua mão imediatamente. – Até mais.

- Até. – fala rindo.

Ele sobe na moto e vai embora.

Me deixa para trás com um sorriso bobo nos lábios. Há tempos, não dou um sorriso desses.


Olho para a calçada. Tem um pombo ciscando lá. É noite, deveria estar dormindo em seu pombal.


O pombo vem e pousa na minha janela. Aí o pombo sabe.
Dona Clotilde é a vizinha mais fofoqueira. Me observa da sua janela. Aí a dona Clotilde sabe.

-

Não me apaixono por rapazes. Nunca aconteceu antes.

Quero mais é que se foda.
Eu, o pombo e a dona Clotilde. Não literalmente.


David é um rapaz. Gosto de David. Desejo David.

Quero mais é que se foda.
Eu e David. Literalmente.

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Parte 6

Jeff me chama. Volto para a cozinha.


- Porque você demorou tanto pra pegar uma pizza? – pergunta.


- Por nada. – sorrio cinicamente. – Vamos jogar ou não?


- Claro que vamos. – o careca sorri. – Pronto pra perder?


Preencho uma xícara com café, acendo um cigarro, pego uma fatia de pizza.
Combinação perfeita.

Três partidas. Ganho duas delas. Jeff sorri. A puta sorri.
Ela senta em meu colo e se contorce. Geme alto.
A empurro. Não a quero.


Ela grita quando cai no chão. – Você é um grosso, Pierre. – joga o cigarro dentro da minha xícara de café. Pega a bolsa e vai embora.


Jeff e eu apenas rimos da situação.

-E ai, Pierre. Já arranjou um emprego?

-Não. E nem quero.

-E como você sobrevive?

-Não sei. Tenho dinheiro no banco. A minha velha vive mandando mais e mais.

-Vagabundo. – brincou. – Mas sua mãe não vai te sustentar a vida inteira. Um dia vai ter que arrumar um emprego.

-Talvez...

-Falando sério. Eu realmente acho que você deveria correr atrás de um agora. Mas é só minha opinião.

-

\"Opiniões. Pessoas são cheias delas... Eu estou cheio delas. Delas e das pessoas.


Isso aqui é só mais uma história. Dessas sem a mínima graça; Sem porquinho, sem lobo mau, sem patinho feio... Apenas eu.\"

Apenas eu, David, os pombos e seu Bruce.
Ah, e a dona Clotilde, é claro.

Não preciso de opiniões”

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Parte 7

Anne chega. Jeff vai embora.


- Quando você vai tomar jeito nessa sua cara, Pierre? Julianna é minha amiga. Você achou que nunca íamos descobrir? Filho da puta. – me dá um tapa na cara.


- Pelo contrário... Contava com isso. Não te quero mais. – falo, simplesmente.

Outro tapa. Sento no sofá.


Outro nome.
Outra ofensa.


Anne sai e deixa a porta aberta. Levanto do sofá. Fecho a porta.


Ninguém vai aparecer.
Nada vai acontecer.
Volto.
Sento.
Penso.
Esqueço.

-

Desejo inútil.


Também tive lá minhas feministas.

Meu mundo é a tv desligada onde contemplo o vazio.
Não vejo adiante.
Nunca respirei.
Somos iguais.

Não sei como vou morrer e sinceramente? Pra mim, tanto faz.

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Notas finais
Obrigada ^^