Domingo, Café e Cigarros
6 Parte 21, 22, 23 e 24.
Parte 21
Tédio.
Saio de casa.
Paro no bar ao lado da quitanda.
Tem um cachorro deitado do meu lado.
Reparei que o cachorro nunca entra na quitanda.
Deve ter nojo. Bruce nunca limpa lá. Por isso aquela porra vive cheia de pombo.
O cachorro fede.
Fede enquanto late no buraco do tatu.
Bruce fuma cebolinha. Eu o vejo.
Ele me vê.
Um conhaque.
Apenas um. Não quero ficar bêbado.
A garçonete traz a conta.
Ela fez as sobrancelhas tortas.
Não conseguiu seguir a carreira de modelo, agora trabalha no bar.
Ela sorri. Quer felicidade. Quer a caixinha do longa vida.
Ela sabe. Os pombos sabem.
Eles sabem de tudo.
Maldito Caufield.
-
Eu bebo.
Dizem que o álcool dificulta a cicatrização.
Por isso tenho marcas. E sinto as feridas abertas.
Quando eu era pequeno, não bebia. E tinha medo de Deus.
Não imaginava que ele era um Juca Chaves.
No principio, a felicidade é tão concreta que tem peso, gosto e cor.
No principio, as mulheres são meninas e brincam igual à gente.
Depois se fez a luz e o bom retiro.
Se fez a noite, o domingo e a busca.
Surgiram a casa, a janela, o cachorro, o Bruce e seus pombos.
O vazio.
No sétimo dia, Juca chaves riu... Até morrer.
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Parte 22
Volto pra casa.
Espero a noite chegar e logo chega.
Batidas na porta novamente.
É David.
Eu sei. Eu sinto.
Ele entra. Me beija quase que violentamente.
David senta no sofá, eu faço o mesmo.
- E se eu disser que nunca sei a direção? E se eu disser que toda vez que eu ia acertar, na verdade só arrisquei? Você ia me querer? – pergunto.
- Sim. – responde, visivelmente certo do que diz.
- E se eu disser que nunca soube nada da minha vida e que sempre deixei tudo passar por mim... E às vezes ia, às vezes não. Dependendo do gosto do café. Você ainda ia me querer?
- Sim, ainda.
- Será que ia mesmo? David, você entende? Ainda quer?
- Sim.
- Eu não sei nada. Só sei ser quem eu sou. Ainda?
- Sim.
- Agora eu perdi o trem, David. Ele não para mais pra mim. E se eu disser que também não quero que ele pare. Ainda assim você ia querer?
- Ainda assim.
- Por quê?
- Porque eu te quero, te desejo. Não posso controlar isso.
Sorrio. Felicidade.
-
A disputar com abutres em fúria, a carne a cair em sua bênção, que já se faz um banquete de vermes. Não importa qual deles vai vencer.
É pegar ou largar.
Porque a carne imita a vida. Suja; curta e perdida.
Porque a vida imita a carne. Sangra; seca e arde.
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Parte 23
David se aproxima. Nos beijamos.
Nos acariciamos, nos entregamos.
Gemidos altos de prazer ecoam pela casa.
Corpos se unem. Almas se fundem.
Sexo, amor, prazer.
Combinação perfeita.
Mais perfeita do que domingo, café e cigarros.
Pêlos arrepiados, mãos e corpos suados, afagos e ofegos, mãos desejosas.
Combinação perfeita.
-
E a teoria do leite se foi.
Se foi no exato momento em que eu o encontrei.
E no momento em que eu o encontrei, me apaixonei por ele.
Eu sabia.
Ele sabia.
Os pombos, o Bruce e a dona Clotilde sabiam. Sabiam o tempo inteiro.
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Parte 24 — Parte final.
Acordo com David em meus braços.
Dorme como um anjo.
Eu dormi como uma pedra. Há tempos não conseguia essa proeza.
Ele abre os olhos e sorri ao me ver.
- Dave? – o chamo e acaricio seus cabelos enquanto ele faz desenhos imaginários em meu peito descoberto.
- Hum? – murmura e me encara.
- Quer namorar comigo?
- ... Quero. Quero muito.
- Eu te amo. – não me importo se é cedo pra dizer.
Sei o que sinto.
- Eu te amo. – ele também sente. — Pierre? – ele me chama.
- Oi?
- Que dia é hoje?
- Domingo. – respondo.
- Pierre? Que dia é hoje? – pergunta novamente.
- Quinta feira. – respondo após vários minutos em silêncio.
David sorri e se aconchega em meu peito.
Acendo um cigarro.
O pombo pousa na janela.
É só um dia igual.
...
Ou não.
FIM.
Notas finais
Obrigada, gente linda. :33
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