Domingo, Café e Cigarros
5 Parte 17, 18, 19 e 20
Parte 17
Chegamos à casa de David. Ele agradece por eu tê-lo acompanhado, agradece pela noite. Diz que não vai esquecer. Diz que foi ótima.
- Concordo! Fazia muito tempo que eu não ria assim. Não ria com vontade; Apenas sorria.
- Pois deveria rir com vontade sempre. Fica melhor assim.
- Você me faz sorrir com vontade.
David ri. Seus olhos brilham e suas bochechas ganham um tom avermelhado.
Aproximo nossos rostos, acaricio-lhe a face e fixo meus olhos nos seus.
Seu sorriso some e ele fecha os olhos. Aproveita o carinho.
Sua boca está entreaberta e convidativa.
Me aproximo mais e levo minhas mãos até sua cintura. David segura em meu pescoço e nossas respirações finalmente se encontram, seguidas por nossas bocas.
Um beijo calmo, mas cheio de desejo começa.
Mãos correm livremente pelos corpos.
David solta um baixo gemido com nossas bocas ainda juntas. O ar começa a faltar e eu reclamo mentalmente, sendo obrigado a finalizar o beijo.
David encosta sua testa na minha.
- Boa noite, Pierre. – suga o piercing de seu lábio e entra em sua casa.
Permaneço parado em frente à porta.
Penso. Indago. Fumo.
David conseguiu me fazer rir e tirar uma brincadeira consigo. Tudo isso na mesma noite.
Nem me lembro da última vez em que eu ri com vontade.
Talvez nunca tenha rido.
Talvez seja apenas fruto da minha imaginação.
Ou não.
-
Eu nunca paro. Nunca fico quieto. Sou uma pessoa absolutamente atormentada, e por isso, às vezes não me suporto.Só às vezes.
Nunca entendi porque a gente não suporta certas coisas.
Mas é o preço que temos que pagar por sermos filhos de uma lógica incompleta que defende criadores sem noção alguma de nada.
Galinha sem ovo.
(...)
“Vai com Deus, meu filho.
Não tia! Mal tenho dinheiro para pagar a minha dose diária. Não dou minha bebida pro santo.”
xx.
Parte 18
E o dia começa de novo.
Domingo.
Amanhece na rua.
Pombos.
Bruce fala com os legumes.
O velho ergue a porta do bar.
Primeiro cliente.
Eu.
Não, eu não durmo.
Não, eu não pretendo mudar de vida.
Acendo um cigarro.
Café preto.
Vodca.
Café preto.
Pessoas passam, pombos voam.
Eu ligo.
David atende.
Diz que quer me ver.
Também quero vê-lo.
Diz que vai á minha casa quando sair do trabalho.
Peço que não demore.
Pago o dono do bar. Levanto da mesa e me ponho a andar.
Passo pela quitanda.
Bruce e os pombos.
Bruce conversa com seus repolhos e os pombos bicam as migalhas do chão.
Patéticos. Bruce e os pombos.
Olho para o asfalto. Pigarro na garganta.
Acendo um cigarro. Volto para casa.
Recolho as contas que estão jogadas no chão do pátio.
Clotilde me observa através de sua janela.
Fofoqueira.
Olho para ela e a mesma balança a cabeça e some da janela.
-
Foda-se.
Foda-se a boa postura e a boa virtude.
Odeio a vizinhança.
Odeio quando a cidade desperta.
Tem muito mais sujeiras nas pessoas do que nas calçadas.
O café abençoa as blasfêmias.
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Parte 19
Entro em casa.
Jogo as correspondências em cima da mesa, junto com as outras cartas fechadas que nunca li.
Abro a janela. Cuspo nos pombos.
Bebo café.
Tomo banho, troco de roupa.
Assisto tv. Ouço música. É só mais um dia normal.
Acendo um cigarro.
Coloco a mesa. Dois pratos.
Não há ninguém ali.
Tudo bem.
Esquento no microondas dois pedaços de pizza.
Encho duas taças de vinho barato.
Brindo com o segundo copo e ele tomba na mesa.
Escorre e pinga no chão.
Não tem ninguém aqui.
Eu sei.
Tudo bem.
-
Caufield era rico. Nunca vagou pelos becos.
Nunca sentiu o verdadeiro vazio. Nem sentiu o tédio das cinco da tarde no domingo;
Ou pegou fila no banco.
Mas Caufield desaparecia.
Filho da puta.
Desaparecia.
Maldito.
Morro de inveja.
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Parte 20
Escuto batidas na porta.
Abro.
É Rachel.
Ela falou que não ia voltar, mas voltou.
Não entendo.
- Você está na merda. – afirma e entra.
- Não. Porque veio?
- Trouxe uma coisa pra você. – me dá uma caixa e sorri.
Não entendo o porquê do presente.
Não estou doente.
Não é meu aniversário.
- Você lembra de como a gente era feliz?
Se eu somasse o que todos pensam sobre minha felicidade, minha vida seria a Disneylândia.
- Tem outra não é? Você vai atrás dela... Eu sei. Quem é ela, Pierre?
Que ela?
Não sei por que Rachel sempre pensa assim, como técnico de futebol.
Acha que quando uma sai, outra tem que entrar em campo.
- Fala alguma coisa. Me diz o que você quer de mim.
- Não quero nada. Nunca vou querer. E sempre digo. Mesmo sem você perguntar.
- Filho da puta.
E sempre ganho outro ‘filho da puta’.
Não é culpa dela. Ela quer felicidade.
Coitada.
Continuo sem falar nada. Ela se apóia na pia.
Chora baixo e soluça.
- O que foi? — pergunto.
- Cortei as mãos. – tira as mãos da pia.
Cortou mesmo. Posso ver o sangue.
- Nos cacos de vidro da tua pia. Está cheio deles.
Ah é. Eu quebro copos.
Olho ela chorando. Lembro que ela sempre chora e o quanto isso me irrita.
Ela diz que me ama.
Diz que estará por perto se eu precisar.
Não vou precisar, obrigado.
Vai embora com a mão sangrando.
Não abro o presente. Não quero saber o que é.
-
Sol queima a alma.
Sapo caiu da festa no céu.
Onde eu andei?
Quem morou aqui?
Cadê meu café?
Sapos...
Nação de sapos.
Eu gosto mesmo é do Ozzy.
(...)
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