Parte 13

Volto pra casa. Arrisco um telefonema.


- Anne? — Ela me manda pro inferno.

Arrisco outro. - Julianna! — Ganho um “filho da puta”.

Esquece!


Minutos passam. Rachel aparece. Entra sem bater na porta.

Me beija com tanta força quanto me odeia.
Me entrega uma caixa; Caixa com fotos nossas.


Sai da casa, diz que não vai voltar. Não me importo.
Acendo um palito de fósforo. Jogo na caixa.
As fotos queimam. Não me importo.

-

O dia amanhece. A tarde chega. O telefone toca.

Olho no visor. É David.
Meu coração falha uma batida.

- Pie? – adoro esse apelido.


- David! Tudo bom?


- Tudo certo... Escuta, o que vai fazer hoje?


- Ahn... Nada, eu acho. Por quê?


- Porque é meu dia de folga. Você quer sair?


- Claro... Pra onde?


- Eu conheço uma boate legal. A2... Sabe aonde é?


- Sei sim...


- Ótimo! Encontre-me lá na frente às nove?


- Ok.


- Até mais. – desliga.

Desligo.

Sorrio. Vou até o guarda-roupa à procura de algo para usar.

-

A minha vida é um daqueles outdoors que ninguém entende. Nem mesmo você.
Todo mundo olha, mas ninguém percebe que tem muito mais ali do que apenas cola velha e papel desfigurado pelo tempo.


A verdade é que, engolir moscas no vento é algo desprezível e eu não entendo como tem gente que faz disso um ofício.


Nojento.

E são dezenas. Moscas católicas-apostólicas-romanas; moscas malufistas, moscas neo-liberais...

Às vezes, penso que o café desce e o amargo fica.
Só às vezes...
Só penso.


.xx

Parte 14

A noite chega.


Primeiro round, banho.
Segundo round, fazer barba.
Terceiro round, me arrumar.
(...)

Saio de casa. Chego na boate. Ainda não estou vendo David.

08:45 pm. Encosto-me em um carro qualquer estacionado na frente do clube.
Acendo um cigarro.
Espero.

08:50 pm.

Espero.

08:58 pm.
Espero.

09:05 pm.
Espero...

David chega. Eu sorrio.

-

A história da minha vida se resume em piadas sem graça, domingo, café e cigarros.


Pelo menos, Saturno comia seus filhos e não ficava fazendo eles de palhaços.
(...)


“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá,
e eu não tenho uma metralhadora”.

Bah, eu gosto mesmo é do Ozzy.
Ele comeu morcego.

xx.

Parte 15


David para em minha frente e não diz nada.


Não leio mente.
Não mente.
Me olha como um vaso.
Uma flor morta.
Não faz fotossíntese.
(...)

“Você respira. Porque não se aproxima e me beija? Eu quero língua. Quero mão. Quero abraço. Quero gemido. Não me olha como um vaso... Eu sei que você é uma flor. Flor é vida. Vaso só serve pra jogar na parede...” - penso.

Sua mão enrosca na minha e ele diz “Oi”.
Pergunta como eu estou.
Bem.

Entramos na boate. Uma garota se aproxima.
Feia. A raiz de seu cabelo denuncia a chapinha.

Pergunta se quero ficar com ela.
Não, não quero. Estou com David. Ele é o único que quero.

- Desculpa, mas não vai dar. Já estou compromissado. – de certa forma, estou.


- Ah. Então... – se aproxima – quando largar da mocréia, me liga. – deposita um papel com seu numero em meu bolso.


-Pierre, vamos dançar. – David me puxa para a pista de dança.


Ele dança em minha frente. Dança de um jeito sexy. Está me provocando.
Ele sabe.

Ele rebola, passa as mãos pelo corpo. Está me provocando.
Ele sabe.

-

Eu sou um estilete sem cabo. Quer pegar, pega.
Só que não entro nem saio da vida de ninguém sem deixar marcas.
Marcas boas ou ruins, mas marcas.


Lâmina cada dia mais afiada.
Quer segurança? Vai brincar com um cotonete.

Quer beijar?
Vai ser intenso.

Quer brincar?
Só não fala que eu não avisei.


.xx

-

Parte 16

Uma hora da manhã. David pede para irmos embora.


Saímos da boate. Começamos a caminhar pelas ruas.


- Então, você tem uma namorada.


- Pois é. – não resisto. — Ela é muito ciumenta e bate em todo mundo que sai comigo. Já até esfaqueou uma garota que estava me dando mole.


David para de andar. Está atônito. Se engasga com a própria saliva.

Caio na risada e David fica com cara de bobo.

- Estou brincando. Não namoraria alguém assim.


- Bom saber... – David ri.


- Na verdade eu namoraria sim. Mas não tenho namorada.


- Não?


- Não! Tenho namorado. – brinco novamente.


- O que? – arregala os olhos.

- Isso que você ouviu. Eu sou gay.

- Hã? – ele para de andar novamente – Q-Que bom então que você tem alguém e...

Antes que David termine a frase, caio na risada novamente.


- Assim não dá. – faz cara de emburrado e acelera os passos.


- Espera, David. – falo ainda rindo. – Desculpa, mas eu não resisti...

- Não sei por que eu ainda acredito no que você fala... Bobo. – cruza os braços.


- Foi mal... – o alcanço e passo um braço por seus ombros. Assim fazemos o trajeto de volta para sua casa.

-

Pra se errar com classe, o erro deve ser magnânimo, pois afinal, até para os erros existem expectativas.


Quem dera eu cometer o mais perfeito dos erros.
Ganhar no inverso da loteria; mover montanhas...
Seria a estrela que vive no escuro sem brilhar, e aí sim, minha loucura seria a mais sábia entre os homens.


Buda morava na casa ao lado, não na minha.
Na minha reside um grande nada.

.xx

Notas finais
Nhi, tem gente que já leu. *-* Muuito obrigada por estar acompanhando de novo. :3
E obrigada pra quem está lendo e comentando. Mesmo, mesmo.