Domingo

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
NaruHina, um pouco melancólica, mas espero que agrade.

Domingo. Para alguns, o final da semana, para outros, o início... Para ela, entretanto, era o melhor dia da semana. Era mais claro, mais bonito, mais cheiroso, mais vivo. E tudo isso por um único motivo: ela iria vê-lo. No auge dos seus dezesseis anos, Hinata era uma jovem tímida e meiga, corava por tudo, envergonhava-se por tudo, privava-se de tudo. Ela, porém, não se importava com tais coisas, “tenho outras preocupações” dizia ela, quando questionada a respeito de sua suposta falta de experiências no mundo.

Naruto e Hinata eram amigos de infância. Seus pais frequentavam os mesmos lugares, e assim eles se conheceram. Ela era a princesinha da família, sua franjinha por sobre os olhos era o que completava a figura angelical que seus pais tinham criado. Ela era feliz. Naruto era um garoto agitado, loiro e possuidor de olhos tão azuis quanto um céu, límpido e sem nuvens, de um dia de verão. Dois anos mais velho que ela, ele também era feliz.

Há aproximadamente dez anos atrás, exatamente em um domingo ensolarado como este, eles se conheciam. Os pais os apresentaram, comentaram o quão “bonitinho eles ficavam juntos”, e os estimularam a ser amigos. Assim eles o fizeram, se tornaram amigos. Cultivaram, entre eles, um sentimento puro e belo, que mais tarde se mostraria de uma forma diferente, porém igualmente bela.

Por ironia do destino, ou não, poucos anos depois foram obrigados a dizerem adeus uma ao outro. Seus olhos, cheios do pesar que seus corações carregavam devido a separação, diziam um ao outro frases nunca ditas, faziam promessas um ao outro, mesmo sem dizê-las em alto e bom som. Minutos se passaram e ele se foi. Mudou-se de estado com a família, ela ficou. Mesmo com a distância, eles não deixaram de pensar um no outro. Mesmo com as novas amizades e paixonites, típicas da adolescência, eles sempre se lembravam da estranha amizade entre o loiro falastrão e a menina da franjinha sobre os olhos.

Domingo. Sempre um domingo. Calhou de ser em um domingo o dia do seu reencontro. Hinata nem podia imaginar estar tão próxima de seu velho amigo, ele, entretanto, era todo ansiedade. Almejava encontrá-la, ver como ela estava, ter a comprovação de que o tempo, assim como fez com ele, tinha mudado as suas feições e tornado sua amiga ainda mais perfeita.

Domingo. Como de costume, os pais de Hinata levaram-na ao templo, para assim, fazerem seus agradecimentos e petições. Domingo. Totalmente propício para uma mocinha de catorze anos vestir-se alegremente e exalar a todo o frescor de sua juventude e expor sua tez aos cálidos raios de sol ali presentes. Domingo. Completamente a favor de um reencontro que acalmaria os pensamentos de um belo jovem de dezesseis anos, bem alinhado, compenetrado e satisfeito com o que a vida lhe havia dado.

Chegaram então ao templo em horários desencontrados. Ela, como de costume, foi dar um passeio sem a companhia de seus pais, furtando-se de conversas longas e demasiado curiosas que seus pais, frequentemente, a faziam suportar. Ele, todo sorrisos, a viu de longe. Pode visualizar seus cabelos, longos e negros, caírem-lhe pelas costas, formando pequenas e graciosas ondas nas pontas. Deliciou-se ao constatar que ela conservara a velha franjinha, quase lhe cobrindo os olhos, marca registrada de sua timidez. Não se sabe qual a razão, mas naquele domingo ele não foi cumprimenta-la. Seu reencontro se resumiu a um envergonhado olhar de Hinata para ele, enquanto a mesma se encaminhava para o carro de seus pais, e um breve aceno de cabeça de Naruto, ainda desnorteado pela situação – “sabe-se lá o porquê” era a resposta da sua mente.

Continuaram assim por algum tempo. Sem saber qual das duas partes era a mais envergonhada, se era Hinata a conversar com seus botões, ou Naruto a sorrir indolentemente para o vento, o tempo passou. Breves acenos de cabeça, tímidos sorrisos, ligeiros apertos de mão. Era nisso que eles haviam se tornado. Tímidos. Sem coragem de manter uma conversa minimamente longa. Deste jeito passou-se um ano. Naruto, envergonhado consigo mesmo pela covardia, e Hinata tristemente conformada com a sua falta de iniciativa.

Outro ano se passou. Nesse ínterim, os dois já tinham conseguido estabelecer breves diálogos, sempre acompanhados do olhar benfazejo de seus pais, e a companhia de um ou dois amigos em comum. O que passava completamente despercebido um para o outro era, no entanto, a admiração mútua que crescia mais e mais com a cordial relação que, finalmente, se estabelecia. Hinata corava violentamente todas as vezes que o via, e ele sorria desconcertado sempre que seu olhar recaia sobre o dela, fazendo-a corar novamente. Belamente. Puramente. Angelicalmente. Era assim que ele a via, como um anjo, um anjo lindo e, para sua total frustração, inalcançável. Na visão dela, Naruto era o rapaz mais encantador que ela tinha tido o prazer de conhecer. Ele a tratava respeitosamente, “não como esses garotos normais e apressados, ele é diferente, ele parece me entender” era o que pensava Hinata, rindo, corando e suspirando ante as palavras que dizia.

No ano em que Hinata faria dezesseis anos, a amizade deles havia se tornado novamente sólida. Era bonito de se ver o laço que os unia. Um sempre escutava ao outro, resignando-se a escutar e aguardar a sua vez de falar. Eram novamente felizes, satisfeitos, quase que completamente, um com o outro. Uma vez ele a chamou para passear – fazer isso demandou um esforço anormalmente grande da parte dele, que se atropelava nas palavras e parecia prestes a se calar, não o fazia, porém, ao olhar nos olhos de Hinata e ver a curiosa indagação ali – ela, sobressaltada pelo convite, corou, olhou em volta a procura da mãe, esfregou as mãos, separou os lábios, sem proferir som algum, arregalou os olhos. Conseguiu, enfim, dizer algo inteligível após Naruto acordá-la do transe em que ela estava, ao tocar-lhe a mão, o que os fez sentir algo inexplicável. Algo como uma corrente, algo de sentido e origem inexplicáveis, algo puro e belo, assim como os dois o eram.

No dia combinado, entretanto, ele não fora. Ela o esperou, em vão, com seu vestido azul favorito, que ele jamais pode ver e que ela jamais voltou a usar.

Domingo. Um dia carregado de ansiedade e de tristeza. Hinata estava cabisbaixa e Naruto aéreo. Alguma coisa os mudara. O destino mais uma vez agira e tornaria a agir. Quando já iam embora, ele a chamou para conversar, disse que passaria em sua casa no dia seguinte e lá conversariam. Hinata alegrou-se novamente, não pode notar, mas algo em Naruto havia mudado. Algo que brevemente ela descobriria.

Segunda. Às dez horas da manhã ele chegou a casa dela, trazendo consigo uma notícia feliz e triste, boa e ruim. Ele passara no vestibular e teria de se mudar para uma cidade bem distante, em um interior, longe de sua cidade natal. Hinata congelou, seu estado de espírito, antes leve e feliz, transmutou-se para algo pesado e amargo. Como é injusto – pensava ela – tantos anos longe, e quando finalmente nos podemos nos encontrar, ele novamente vai embora... e eu nem tive tempo de dizer o que sinto...

Como era esperado da parte dela, mostrou seu belo sorriso e o abraçou. Parabenizou-o. Acalmou-o. Como ela repudiou ter de se mostrar feliz enquanto seu coração estava arrasado. Ele, porém, saiu feliz da casa da Hyuuga, prometendo visitas periódicas e vir vê-la antes de ir-se.

Passaram dois meses sem se ver. Hinata viajara e Naruto não entrou em contato, o que ela agradeceu, pois não queria ter de mostrar uma falsa felicidade. Não é comum uma moça de quinze anos estar triste assim, nós não temos nada! Somos apenas amigos de infância... amigos que não deviam ter se aproximado tanto. Amigos novamente separados. Ah! Como tudo isso é injusto... Os pensamentos de Hinata eram dotados de uma melancolia jamais expressadas em sua fala, presente apenas em seus olhos, cobertos por sua franja. Sua proteção contra o olhar das pessoas.

Quando voltaram a se ver, a Hyuuga foi novamente feita infeliz. Naruto foi a sua casa, animado com a viajem e cheio de planos para lhe contar. Trazia também uma notícia nada bem-vinda. Durante sua ausência, não se sabia nem quando e nem onde, Naruto conhecera uma tal Sakura Haruno, apaixonara-se por ela e estavam, agora, juntos, para total desespero de Hinata. Esta, no entanto, obrigou-se novamente a sorrir, mesmo que ainda desacreditada das palavras do Uzumaki. O resto da visita correu como se ela não estivesse presente, respondia a tudo automaticamente e sem nenhuma emoção visível em sua voz ou em suas feições. Hinata estava congelada, assim como seus sentimentos que, a partir daquele momento, foram obrigados a se calar e a congelar.

Domingo. Mesmo após as noites regadas a lágrimas, aos dias dotados de um melancólico ar de desamparo, mesmo após saber que ele não era mais seu, o domingo a sobressaltava. Ela ainda o esperava. Esperava ser o alvo de seu olhar, a direção do seu sorriso e o destino das suas palavras. Ela esperava voltar a ser a sua melhor amiga, talvez até mais, porém nada mais podia ser assim, ele tinha a sua rosada e ela a sua solidão.

Hinata completou dezesseis anos. Estava ainda mais linda. Estava ainda mais infeliz. Sua vida tinha um quê de resignação notada apenas por ninguém, exceto ela própria. Domingo. Foi justo em um domingo que eles voltaram a se encontrar, A Hyuuga triste e o loiro feliz. Eles eram assim agora. Naruto não fazia ideia de quanta dor provocava em Hinata apenas em falar de Sakura. Enquanto Hinata não se lembrava da existência da rosada, ficava novamente feliz, imaginava-se completa ao lado do Uzumaki. Porém, a verdade sempre recaia sobre ela. Mas mesmo assim o domingo continuava a ser o melhor dia da semana... Ela ainda podia vê-lo, mesmo que ele não fosse seu para sempre, ele era dela por poucos instantes. Breves e doces instantes, em que ela podia ver – sim, ela via e não imaginava – os olhos deles brilhando só de vê-la sorrir e, breves instantes depois, cobrirem-se de algo desconhecido, que os deixava opacos.

Domingo. Foi em um domingo que o encontro esclarecedor foi marcado. Eles iriam ao parque. Iriam conversar debaixo das árvores frutíferas, iriam tomar sorvete e sentar no seu banco favorito. Iriam, mesmo que por pouco tempo, voltar a ser os mesmos Naruto e Hinata de antes. Seriam felizes.

Ao contrario do que se esperava, feliz foi a única coisa que eles não puderam ser em seu encontro. Frente aos amigos, Naruto tornou-se frio com Hinata, que se limitou a calar-se por alguns instantes até que o loiro voltasse ao normal. Conversaram, lembraram-se do passado. Entenderam-se bem, até chegar ao assunto delicado: Sakura. Hinata perguntou como eles se conheceram e desmontou suas feições ao receber a resposta de Naruto. Ele dissera que estava cansado de esperar por ela, que doía-lhe demais o coração vê-la e não poder toma-la para si. Revelou que, face a isso, e a uma incompreensão dos sentimentos da Hyuuga para com ele, decidiu esquecê-la. E foi aí que Sakura apareceu, linda e simples como uma cerejeira, disse que com ela foi fácil. Ela me deixava ver o que o coração dela queria, eu me senti capaz de fazê-la feliz e não hesitei. Decidi esquecer você Hinata, decidi deixar pra trás... Hinata corou muito, e disse que ele estava enganado, e que deveria tê-la perguntado se ela o amava. Disse que poderia tê-lo feito feliz também, e que desde que soubera de Sakura não era mais a mesma. Venho desmoronando, essa que é a verdade. Fomos covardes e pagamos o preço... devo caminhar sozinha Naruto... perdoe-me por tê-lo feito sofrer...

Um silencio sepulcral se instalou entre os dois. Naruto foi o primeiro a voltar a falar, disse que tinha uma proposta a fazer. Teve a, infeliz, ideia de pedir que Hinata o esperasse. Pediu com tamanha força que ela cedeu. Disse que o esperaria. Faria isso com a mais sincera paciência e os mais ternos sentimentos. Terminaram o passeio cheios de insegurança e apreensões. Naruto, surpreendentemente, pediu para segurar a mão de Hinata, algo jamais feito por eles. Hinata corou, mas cedeu. Ele tremeu um pouco ante a maciez da mão da menina, e ficou a massagear lhe a pele enquanto caminhavam. Na hora da despedida, Naruto teve vontade de beijá-la, mas Hinata não permitiu – para ela, isso só deveria acontecer quando ele fosse inteiramente dela – ele, então, beijou-lhe a face e disse adeus.

Foram embora. Hinata feliz com a promessa. Naruto triste por saber que jamais a cumpriria... assim mais dois anos se passaram. Breves encontros ocorreram, um eventual encontro de Hinata e Sakura – seguido de uma longa noite de lágrimas para a Hyyuga – breves acenos, rápidas conversas. Hinata estava começando a achar que Naruto iria, enfim, cumprir sua promessa, quando a notícia lhe foi dada: Naruto, agora com vinte anos, havia se casado com Sakura.

Tristeza. Isso era o que definia Hinata. Não dormiu um segundo sequer na noite em que recebera a notícia. Chorou, chorou, chorou. Não podia acreditar que Naruto a havia enganado. Mas assim o era. Ele tinha feito exatamente isso, e Hinata nada podia fazer a não ser chorar...

Meses depois eles puderam se encontrar. Nenhum telefonema foi dado a ela por ele. Nenhuma explicação, nem mesmo a noticia do casamento tinha sido dada por ele. Quando finalmente se encontraram, a espira circular que ela tanto odiava pode ser vista, bem como a elegante moça de cabelos róseos e olhos verdes ao seu lado. Eu não consigo desistir dela, não sei o porquê... devem ser aqueles olhos lindos – Hinata lembrou-se dessa frase, dita anos atrás por Naruto, e entendeu que ele não era mais dela desde antes da promessa. Naruto fizera aquilo para confortá-la e livrar a si mesmo do crescente sentimento de culpa em sua mente. Compreendeu que não podia perdoá-lo e nem tampouco culpa-lo de nada. Pode afirmar e viver, o quanto o amor pode machucar, clareou a mente e viu que a covardia os privou de, talvez, a melhor fase das suas vidas, fase essa que poderia durar para sempre. Entendeu, por fim, que jamais amaria alguém daquele jeito novamente. Naruto foi e sempre seria seu primeiro amor, seu único amor até então.

Ajeitou o cabelo, alinhou a saia que vestia, colocou um belo sorriso nos lábios. Ajeitou a franja. Caminhou até onde o jovem casal estava. Felicitou-os. Abençoou-os. Sorriu-lhes. Ninguém poderia duvidar da franqueza de seus gestos e palavras. Naquele domingo, ninguém ficou sabendo da tristeza da Hyuuga, tudo ficaria bem se não fosse o vento. Sim, o vento. O mesmo vento que levantara a franja da Hyuuga no dia em que se conheceram e deixou Naruto mergulhar naquele mar perolado e sincero de timidez, alegria e pureza. Este mesmo vento bagunçou lhe os cabelos. Naquele instante, Naruto pode, mais uma vez, mergulhar naquele mar de pérolas que eram os olhos de Hinata. Pérolas essas, não mais alegres e brilhantes. Naquele dia Naruto percebeu que as pérolas de Hinata estavam deficientes, elas não mais brilhavam. Estavam opacas. Os tristes efeitos de um amor puro verdadeiro, impedido de acontecer. Impedido não por um momento, mas impedido para sempre.

Notas finais
O que acharam?
Aceito críticas, até.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!