Dolovan Breus
1 ELSA
Notas iniciais
A cadeira era de mogno canadense, as braçadeiras tinham rococós nas bordas. A mesa era feita do mesmo material, e sobre ela se encontrava um maço de folhas de papel, um computador e uma caneca de chocolate quente onde se lia “Melhor Irmã”. Ela não pode evitar um sorriso ao levar o líquido fumegante aos lábios. Anna lhe dera aquela caneca há muitos anos. Afastou uma madeixa castanha escura dos olhos e tomou a primeira folha do maço. No canto superior esquerdo, havia uma fotografia quatro por quatro de um garoto pouco mais velho que ela, cabelos negros e pele pálida, ostentando um sorriso simpático e atrevido. Seu olhar se deteve na fotografia por alguns instantes, então ela correu os olhos pela folha. Jack Frost. Do clã Ω, o clã dos guardiões. Passou o dedo pela protuberância no canto inferior direito da folha, que representava uma estrela branca no interior de um círculo preto. Ao seu lado, em caracteres miúdos, lia-se “Associação Caça aos Vampiros”. ✪ Voltou a olhar para a fotografia, e comprimiu os lábios. As imagens lhe surgiram na mente involuntariamente. Um inverno, um beijo, uma fuga. Será que eles sabiam? E estavam fazendo aquilo para fortalece-la? Se fosse assim, ela não ia deixar que um simples caso a detivesse. A luz pálida do início do outono atravessava o vidro grosso das janelas, cujo batente era de madeira, e iluminava a poeira do ar ao redor da caçadora. Tamborilou os dedos na superfície áspera da mesa no momento em que a porta foi aberta. Ergueu o olhar.
- Elsa. – o adolescente sentou-se descontraidamente na cadeira de madeira, os cabelos louro-avermelhados despenteados. Os olhos eram castanho-escuros, e a jaqueta na mesma cor estava aberta.
- O que foi, Kristoff? – ela perguntou, depositando cuidadosamente o papel sobre a mesa. Sorriu discretamente ao relancear a aliança de noivado no dedo anelar da mão esquerda do jovem.
- Anna me mandou entregar algumas coisas. – ele suspirou quase imperceptivelmente ao dizer o nome de sua noiva – e irmã mais nova de Elsa. Tirou da bolsa de couro uma corrente, cujo pingente era um cristal de gelo. Era algo simples, mas significativo na visão de ambas as irmãs. Ele colocou sobre a mesa, ao lado da corrente, um envelope pardo. Kristoff curvou-se para frente, juntando as sobrancelhas. – Eu soube. A sua próxima caça. Sabe que não precisa aceitar, não é? Poderia simplesmente dizer que não. Anna está preocupada.
- Vocês descobrem tudo antes de mim – Elsa riu, tentando ocultar a tensão na voz. Revirou os olhos. – Foi tudo há muito tempo, Kristoff. Não precisam se preocupar, eu consigo lidar com o Frost.
Kristoff ergueu uma sobrancelha, duvidoso. Suspirou.
- De qualquer modo, eu e Anna queremos o melhor para você. Desde que sobreviva para o nosso casamento. – ele sorriu, e ela retribuiu o sorriso. Ele suspirou e se levantou estrondosamente. – Tenho que ir. Gelo não se entrega sozinho.
E dito isso, deixou-a. Ela comprimiu os lábios. Embora dissera em tom muito convicto que saberia lidar com o líder do clã Ω, não estava muito certa daquilo. Fixou o olhar na corrente que a irmã lhe dera, e a colocou rapidamente. Abriu com cuidado o envelope pardo, tomando cuidado para não rasga-lo, e tirou de lá uma folha de papel com a caligrafia cuidadosa e bela de Anna.
Elsa,
Obrigada pela última carta! Confesso que fiquei com um pouco de medo quanto à sua reação ao meu noivado com Kristoff. Você costumava me proteger bastante! O seu relato sobre a sua missão na região oriental da Rússia me pareceu incrível! Já deve imaginar que estou louca para ir para lá! Conhecendo você praticamente o mundo todo – e seus vampiros – tem algum conselho para a lua de mel? Eu e Kristoff estamos simplesmente travados nesse ponto. Se não ajudar vamos acabar passando a lua de mel aqui mesmo!
Vamos aos assuntos sérios agora, Elsa. Eu sei que a sua próxima missão é caçar e eliminar Jack Frost. Acredito piamente que você consegue fazer qualquer coisa, e que é muito forte. Mas isso talvez seja demais. Estou muito preocupada. Antes de mais nada, quero deixar claro que você tem a opção de simplesmente recusar a missão. Sei que as três palavras “recusar”, “a” e “missão” não se encaixam juntas no seu vocabulário, mas essa opção existe sim. Não pense que vai parecer covarde se recusar, todos entenderão. Eu sei disso mais que ninguém. No caso de manter-se teimosa e aceitar... Essa possibilidade me preocupa muito. Acredito em você, e sei que pode parecer fácil para você simplesmente superar tudo em um dia e partir para eliminar... Ele. Mas tenho medo de você se arrepender de tudo quando estiver lá, diante dele. Tenho muito medo do que pode acontecer. Você é a pessoa mais corajosa que já conheci, e sei que pode fazer tudo. Mas por favor, pense bem.
Junto com a carta, estou enviando o meu convite de casamento – e seria ótimo se você estivesse viva até lá. Brincadeira. Mas estou realmente enviando o convite, e por favor não perca. Imprimimos o número certinho, e o Kristoff vai pirar se tivermos que fazer mais um.
Com muito amor,
Sua irmã, Anna.
Elsa suspirou e comprimiu os lábios. Talvez a irmã estivesse certa. Talvez ela devesse simplesmente recusar a missão e fazer algo que estivesse mais a seu alcance. Mas era por isso que ela estava ali, não era? Porque ela conseguia se superar, conseguia conquistar coisas além de seu alcance. E não seria um vampiro um pouco intimidador que mancharia a sua reputação. Respirou fundo e tirou um segundo pedaço de papel – cartão – do envelope. O convite de casamento. Enfiou as duas folhas na primeira gaveta da escrivaninha e se levantou bruscamente. Deixou o seu escritório e caminhou até a recepção do edifício.
- Olaf – o recepcionista ergueu o olhar. Sua cabeleira era branca, e os olhos de um azul gélido. – Marque a minha saída para amanhã e a minha chegada... Para daqui a uma semana.
Ele a encarou, surpreso.
- O que foi? – ela perguntou.
- Nada. É que... Todos achavam que você ia recusar. Mas... Está bem. Boa sorte. – ele sorriu e ela retribuiu o sorriso, tensa. Deixou o edifício. Eles esperavam que ela desistisse. Mas ia mostrar a todos eles. Bateu a porta do carro com força e pisou fundo no acelerador, desejando chegar no seu apartamento o quanto antes. Jogou a mala escura sobre a cama e começou a amontoar nela roupas, acessórios, um diário de viagem, suas armas... Fechou-a e fixou o olhar no teto. Não se ia deixar intimidar por Jack Frost. Comprimiu os lábios, esperando que estivesse certa. Após um tempo, adormeceu.
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