Dolores
26 Virgínia
Se esse lance da Festa Junina der certo, cara, eu nem vou saber medir o tamanho da minha felicidade. Mas calma, um passo de cada vez. Na segunda-feira o Lucca vai juntar um grupo de umas cinco ou seis pessoas pra falarem com a Luíza e se tudo der certo, ela vai aprovar. E acho que ela aprova sim, por que não aprovaria? Ela adora quando os alunos propõem projetos por conta própria.
Só que claro, a aprovação da festa é só o primeiro passo. To começando a ficar levemente arrependida de ter aceitado a ajuda da Dolores. Quer apostar quanto que ela vai mais atrapalhar do que ajudar? Se tivesse um jeito pra eu falar pro Lucca que eu não a quero envolvida nos preparativos da festa… Só que agora é tarde. E seria muita ingratidão da minha parte desdenhar de alguma ajuda, até porque se dependesse só de mim, não seria possível levar essa ideia adiante.
Acho que a essa altura eu já me daria por satisfeita se a Jéssica entendesse isso e parasse de me criticar. Que os outros me critiquem, é chato e tudo, mas eu supero, agora quando é a Jéssica, me magoa muito mais.
— Posso entrar?
Rapidamente eu me levantei e joguei todas as embalagens de chocolate que tavam em cima da minha barriga, empurrei-as pra debaixo da cama e respondi no meu tom mais casual:
— Pode.
Eu odeio comer porcarias escondida da minha mãe, mas ela não entenderia que nesse meu momento de ansiedade é extremamente importante que eu me apegue a algo que me acalme.
— Não vai jantar?
— Não, eu to sem fome.
— Hum… — ela ficou me observando por um tempo e quase tive um treco quando pensei que ela sabia que eu comia doces escondida no quarto, até que ela expressou o porquê de estar me analisando naquele momento – Tá tudo bem?
E pensar que já houve tempo em que ela não precisaria fazer esse tipo de pergunta. Só que eu não precisava mentir pra ela, não em tudo, então optei por abrir um pouco do jogo.
— Mais ou menos. Eu to meio estressada com as coisas da escola.
— O de sempre?
Aquiesci.
— Olha filha, eu já te falei: continuar estressada e quebrando a cabeça por conta disso só vai te fazer se sentir pior e, consequentemente, piorar o seu desempenho. Vai com calma, estuda tranquilamente. Você não precisa de uma Carta de Honra Ao Mérito. Você só precisa passar.
Às vezes eu acho graça nessas coisas que a minha mãe fala. Acho que é a única mãe do mundo que briga com a filha por ter a ambição de ser a melhor aluna da sala.
— Tudo bem. — mas eu não tava com paciência pra discutir isso outra vez, ela definitivamente não entendia os meus motivos.
Só que ela sabia que meu semblante de desânimo não se tratava só de notas. Ela já havia comentado que eu andava muito sozinha ultimamente, que o telefone tocava muito menos e que já são vários finais de semana seguidos sem que eu saísse de casa. E claro, ela queria estender o papo.
— E os seus amigos? Como estão? Você nunca mais trouxe ninguém aqui.
— Ah, você sabe, tá todo mundo dando duro agora que é o último ano da escola. — não, não tavam dando duro. Pensando bem, é melhor contar de uma vez, porque aparentemente ela é a única amiga de verdade que me resta — Na verdade eles tão esquisitos comigo.
— Esquisitos como?
— Parece que não gostam tanto assim que eu seja representante.
— E por quê? — ela franziu as sobrancelhas.
— Porque eu faço o meu trabalho direito e não passo a mão na cabeça deles. — a julgar pelo tom irritado em que falei, pode-se concluir que isso tava me deixando mais bolada do que eu pensava.
— Isso os transforma em maus amigos então. — ela disse com a sua casual sensatez.
— Você deve ter razão. Principalmente porque não é só isso, é que também… — vacilei.
— O que?
Ai. Eu não sei se tava preparada pra dizer isso em voz alta. Eu não tava nem preparada pra assumir isso em pensamento.
— O que, minha filha? — ela insistiu.
— Acho que... — respira – Acho que eles não são tão legais quanto pareciam antes. Se você visse as coisas que eles falam…
— O que eles falam?
É realmente tocante a importância que a minha mãe dá pras coisas da minha vida, do meu cotidiano e das pessoas que estão em minha volta. É essa atenção que às vezes me faz pensar demais antes de dizer qualquer coisa pra ela, porque a minha mãe simplesmente explora tudo que eu conto até a última gota e dá um jeito de fazer uma análise da situação – análise que nem sempre é o que eu gostaria de ouvir. Mas dessa vez, talvez, eu tivesse coisas a dizer que poderiam ser pessoalmente sensíveis à ela e eu não gostaria de falar isso precipitadamente de quem frequentava a minha casa, quem dizia gostar da minha mãe e que a minha mãe também gostava.
— Pode confiar, meu amor. O que foi?
— Num sei dizer direito, mas eles são maldosos e meio… — eu não queria revelar isso, mas se eu comecei, eu tinha de terminar – Meio preconceituosos, sabe?
— Preconceituosos com o que? — ela ajeitou sua postura, já preparada pra lidar com essa informação, seja lá qual fosse.
Mas não, isso eu não queria dizer. Até porque eu poderia estar enganada, certo? Eu não escolheria amigos tão escrotos... Escolheria?
— Ah, não sei… Não sei. Acho que só to implicando com eles no momento e to vendo as coisas de um jeito mais negativo do que realmente é.
— Ou não. — claramente essa informação a deixou preocupada – Olha Virgínia, na medida em que você for vivendo, vai notar que as pessoas podem ser muito piores do que aparentam. E quase sempre são. Tá certo que nem sempre elas dizem ou fazem algo grande o bastante, que vire motivo pra você eliminá-las de sua vida, mas é importante estar atenta e julgar quão grave são as coisas que elas dizem.
— Eu sei. — concordei cabisbaixa.
É complicado aceitar que amigos de longa data, pessoas que cresceram junto com você, podem ser pessoas ruins. Eu não sei se é meu estado de negação falho que faz isso comigo, mas talvez o que eles falam ou fazem seja grande o bastante pra que eu me afaste, só que ainda to confusa. E como que se estivesse ouvindo meus pensamentos, minha mãe completou:
— Agora se você quer ficar numa boa com os seus amigos que, afinal de contas, são seus amigos de infância, acho que não custa nada tomar a iniciativa pra reviver a amizade. Por que você não chama as meninas pra dormirem aqui amanhã, que nem nos velhos tempos?
— É. Vou pensar.
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