O mesmo terror que se encontra em seus olhos se encontra agora nos meus. Meu maior temor. Via pessoas na televisão sendo enterradas como se fossem frutas estragadas jogadas no lixo.

Me lembro de um documentário feito na China sobre Dolertãlis, enquanto a repórter ia falando, pessoas de máscaras passavam correndo ao fundo. Haviam médicos, todos com roupas de segurança fazendo exames de sangue nas pessoas. Haviam crianças e também haviam idosos. Logo depois a reportagem se passa dentro de um hospital, onde se encontravam pessoas em estado terminal. Estavam com lesões na pele, vomitavam, sentiam náuseas e tinham alucinações. Qualquer rápido contato que tivessem com os fluídos do corpo de um contaminado, já fazia com que você começasse a ter sintomas parecidos. As pessoas estavam desesperadas, não sabiam o que estava acontecendo, não tinham a cura. O que lhes restava era acreditar que tudo ficaria bem, mesmo sendo tão difícil de acreditar.

Três dias depois foi realmente confirmado que o vírus já estava circulando em território canadense. Pássaros, água e até o ar espalhavam esta doença. Dias depois o Canadá fechou portos e aeroportos, exterminou ratos e aves, só podíamos sair com máscaras e a água deveria ser fervida para consumo.

– Preciso ir ao mercado com seu pai. — diz minha mãe colocando as chaves em sua bolsa.

– Não mãe, eu não quero ficar sozinha. — digo enquanto desgrudo meus olhos da televisão e me viro para encará-la.

– Se eu não for, vamos morrer de fome. Cuide de seu irmão. Já volto. — diz ela colocando sua bolsa sobre o ombro esquerdo e saindo para se encontrar com meu pai que a esperava na rua.

Calvin está dormindo e não vejo algum problema aparente. Saio da frente da TV e vou ao banheiro. Enquanto lavo minhas mãos me olho no espelho.

"Você vai se chamar Rachel". Imagino minha mãe dizendo quando me viu pela primeira vez. Ela não quis saber o sexo durante a gravidez, preferiu surpresa. Pelo menos foi assim que me contou. Ela também contou que tinha medo de me pegar no colo, pois eu era muito mole e ela tinha medo de quebrar. Engraçado. Rio baixinho lembrando disso.

Meus cabelos castanhos estão despenteados mas eu nem ligo. Eles vão até um pouco abaixo do pescoço, que foi onde eu cortei neste verão. Meu olhos cor de mel estão vermelhos de sono, mas eu não posso dormir agora. Saio do banheiro e vou à cozinha, bebo um gole de café para despertar. Mas depois fico me perguntando se eu posso ter ingerido o vírus. Tenho ficado meio paranóica nos últimos dias. Acho que tudo que como ou bebo ou toco são perigosos. Mas a humanidade está assim, não só eu. Estamos propensos a nos contaminarmos. Não apenas com o Dolertãlis, mas sim com qualquer outra doença que exista. "Nascemos para morrer". Sim, mas não agora, nem hoje.

Olho por detrás da cortina, para as ruas. Ninguém. A rua está vazia, assim como está a muito tempo. As pessoas tem medo. Eu tenho medo. Não vejo a hora de meus pais voltarem.

Moro em um condomínio, poucas casas, poucas pessoas. Sempre foi muito reservado, tudo muito quieto. Costumávamos brincar uns com os outros quando éramos menores, mas depois fomos nos afastando e não mantivemos mais contato. Já faz 14 dias que não vejo ninguém além da minha família. Minha mãe me proibiu de ir à escola, por precaução, mas sei que hoje ela deve estar abandonada.

Volto para a frente da televisão, mas em todos os canais a atração principal é Dolertãlis. Estou cansada de ver a mesma coisa, e os poucos canais que não falam sobre isso está passando desenhos infantis, que se Calvin estivesse acordado, com certeza estaria assistindo. Entro na internet, num programa qualquer de bate-papo. Kate, Wen, Gleen e Sasha são os únicos que eu conheço que estão online, mas fora isso apenas mais umas seis pessoas estão livres para bate-papo. Kate e Wen são meu colegas de turma da escola, Sasha é uma conhecida da minha mãe e Gleen é um dos filhos do meu vizinho. Sem mais nada pra fazer, vou conversar com Wen.

– Oi.– começo sem ter muito o que falar.

– Olá. — ele responde.

– Como está na escola? — tento puxar algum assunto.

– Eu não vou mais, e soube que quase ninguém está indo.

– Ah.. que pena. Está tudo bem por aí?

– Graças à Deus, sim.

– Que bom! — digo, mas eu não tenho mais assunto nenhum. Nem sei porque fui conversar com ele, total perda de tempo.

– Vou ter que sair. Tchau!

– Tchau. — digo, mas ele já havia deslogado.

Ok, eu preciso conversar com alguém ou eu vou morrer. Penso e olho as pessoas que ainda restam oline. Sasha e Glenn. Não tenho intimidade com nenhum dos dois. Sasha já é até casada. Glenn tem 17 anos. Costumava brincar com ele e com seu irmão quando éramos menores, depois perdemos um pouco de contato. Glenn é um pouco maior que eu, bochechas rosadas, tem ficado mais fortinho desde quando começou a malhar no verão do ano passado, olhos verdes e cabelos loiros. Uma ótima companhia por sinal.

– Hey! Quer dar um pulo aqui em casa?– mando para Glenn, sendo direta.

– Claro, já estou indo!– eles responde três minutos depois.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.