Dolce & Desastre
14 Dolce & Lágrimas
A Velvet estava num daqueles estados de calma artificial que só existiam quando toda a gente fingia trabalhar para não encarar o que realmente estava a acontecer.
O ar parecia mais denso, carregado de pequenas tensões que ninguém nomeava, mas que se denunciavam nos detalhes: cadeiras arrastadas com força a mais, copos pousados com precisão exagerada, suspiros que duravam meio segundo além do aceitável.
O Noah digitava irritado. Eu percebia pelo jeito como os ombros dele estavam rígidos, pelo maxilar contraído e, principalmente, pela forma quase violenta com que carregava em cada tecla. O som seco ecoava pelo open space, criando um ritmo desconfortável, um metrónomo do mau humor.
A Adison observava de longe, encostada à bancada central, a caneca de café já fria entre as mãos. Não bebia. Só segurava, como se aquele objecto fosse um apoio dramático. Cabeça inclinada, olhos semicerrados, a avaliar a cena com aquele prazer curioso de quem sabe que algo vai acontecer e quer estar lá para ver.
Ela analisou o Noah por dois segundos. Dois segundos exactos. Depois decidiu intervir, não por empatia, mas porque o silêncio estava aborrecido demais para ser deixado em paz.
— Uau — comentou, arrastando a palavra, com um sorriso torto. — Se digitares com mais ódio, o computador ainda te pede desculpa.
O tom era leve demais para ser gentil. Era provocação disfarçada de humor.
Vi o Noah retesar ainda mais, mas ele não levantou os olhos. Continuou a encarar o ecrã como se fosse a única coisa que merecia existir naquele momento.
— Hilário — respondeu, com uma expressão de nojo. — Principalmente vindo de alguém que não foi… convenientemente ignorada.
A resposta veio seca.
Logo a seguir, ele parou de digitar como se tivesse batido num limite físico. A cadeira rangiu alto quando se levantou, o som cortou o ar e puxou olhares periféricos de quem fingia não estar a ouvir.
Depois virou-se para mim. O olhar era directo, carregado de algo que não era exactamente raiva, mas também não era só frustração. Era uma mistura amarga de comparação e ressentimento.
— Milão — disse, como se cuspisse a palavra. — Boa viagem, Adrian.
Não esperou resposta. Agarrou no casaco num gesto brusco, passou por nós sem abrandar e desapareceu pelo corredor. Os passos eram rápidos demais para parecerem casuais, era mais o de alguém a sair antes de dizer o que não devia.
— Vou tirar fotocópias — atirou ainda, já longe, como se isso resolvesse o que tinha feito.
Fiquei parado um segundo, a tentar perceber o que acabara de acontecer. Olhei para o vazio por onde ele saíra e depois para a Adison.
— O que foi isto? — perguntei. — Eu fiz alguma coisa?
Ela virou lentamente o rosto para mim, os olhos a abrirem-se com uma incredulidade quase mecânica, como se eu tivesse feito a pergunta mais absurda do mundo.
— Duh. É Milão.
Franzi a testa, genuinamente confuso.
— Está bem. E…?
— E tu não achas nada demais? — ela perguntou, desta vez com choque real na voz; o sarcasmo a ceder lugar à incredulidade pura.
Encolhi os ombros, simples, automático.
— É trabalho. Desfile, reuniões, stress. Igual aqui… só que com mais italiano.
Adison ficou em silêncio.
Um silêncio pesado, crítico.
Olhou para mim como se estivesse a reavaliar tudo o que achava que sabia. Depois pousou a caneca na bancada com um cuidado exagerado — como se aquele gesto marcasse uma viragem emocional importante.
— Eu estou há três semanas numa dieta rigorosa — declarou. — Rigorosa do tipo questionável. Perigosa, inclusive.
Do outro lado da sala, o Leslie levantou lentamente os olhos dos moodboards. O movimento foi mínimo, mas calculado. Uma sobrancelha arqueou-se com interesse imediato, como alguém que acabou de ouvir um detalhe relevante.
— Interessante — comentou, com calma estudada. — É a mesma dieta que mandou duas pessoas para as urgências o ano passado ou é uma versão menos homicida?
A Adison apontou para ele sem sequer virar o corpo todo.
— Não pedi diagnóstico médico.
— Ainda bem — respondeu o Leslie, já a voltar ao papel. — Eu cobrava.
Eu assisti à troca em silêncio, a tentar acompanhar o ritmo caótico daquilo.
— Eu disse alguma coisa assim tão má? — perguntei à Adison.
Ela suspirou fundo. Um suspiro longo, carregado de cansaço e condescendência — o suspiro de quem vai explicar o óbvio a alguém que claramente não nasceu para entender glamour.
— Adrian, ouve com atenção — começou, num tom perigosamente cético. — Milão não é só uma cidade. É a cidade.
Começou a andar enquanto falava, passos marcados, gestos amplos, como se estivesse num monólogo ensaiado.
— Milão é onde a Valentina recebe vestidos obscenos. Peças absurdas. Históricas. Incrivelmente caras. Vestidos que custam mais do que a auto-estima de muita gente.
Fez uma pausa estratégica, só para deixar o drama assentar.
— E sabes o que ela faz com eles?
— Imagino que devolva — arrisquei.
A Adison riu. Curto. Quase piedoso.
— Não, loirinho. Ela descarta.
O Leslie inclinou a cabeça, sem tirar os olhos do moodboard.
— Tecnicamente, ela redistribui — corrigiu.
— Exacto — continuou a Adison, a ignorá-lo com talento. — Vestidos caríssimos, incríveis, que ela não aprova. E adivinha onde vão parar?
— No departamento? — tentei.
— Em mim — disse ela, sem qualquer traço de modéstia. — Coisas que custam mais do que o carro do Leslie. — Parou e olhou para ele. — Sem ofensa.
O Leslie nem piscou.
— Nenhuma — respondeu, com um sorriso divertido. — O meu carro conhece bem o lugar dele na hierarquia.
A Adison voltou-se para mim, os olhos agora a brilhar — não de raiva, mas de expectativa.
— Então sim, Adrian — bateu-me nos ombros com mais força do que devia. — É Milão. É vestir coisas que nunca chegariam perto de mim em condições normais. — Inclinou-se, baixando o tom, o rosto demasiado perto do meu. — E tu estás a ir como se fosse uma terça-feira qualquer.
Pensei um instante.
— Continua a ser trabalho — disse, com naturalidade.
A Adison levou a mão ao peito, dramaticamente ferida.
— Eu não acredito que trabalho contigo.
Do outro lado da sala, o Leslie sorriu de canto — aquele sorriso afiado, perigoso, que sempre significava mais do que parecia.
— Não te preocupes, Adison — disse, tranquilo. — Ele vai entender. Milão ensina sempre.
O Noah voltou passado uns minutos. O som do teclado voltou a ocupar a sala com força expressiva.
O Leslie pousou a caneta ao lado do computador, com uma delicadeza excessiva.
— Estou a sentir o ambiente um bocadinho… pesado — disse, como quem comenta o tempo. — Alguém quer vir comigo à cafetaria antes que isto vire um filme europeu demasiado silencioso?
A Adison ergueu uma sobrancelha, entretida.
— Uau. Nunca pensei ouvir-te preocupado com energias.
Ele olhou para ela de lado, sem pressa, a escolher o nível exacto de sarcasmo.
— Estou a evoluir.
— Ou isso… ou andas a ouvir o podcast da Octavia — provocou ela, e depois olhou para mim como se me quisesse pôr como cúmplice. — Aquele dos alinhamentos energéticos.
O Leslie ajustou o casaco com dois dedos, um gesto automático quando precisava parecer indiferente a algo que o afectara.
Fingiu ponderação um segundo a mais do que o necessário.
— Chama-se curadoria interna. — Pausa mínima. — E sim, ouvi dois episódios. Para fins… académicos.
Soltei um riso curto, baixando os olhos para o ecrã.
— Claro.
O Leslie levantou-se, pegou no telemóvel e acrescentou, quase casual demais para não ser intencional:
— Além disso, o episódio sobre ambientes tóxicos tinha exemplos curiosamente familiares.
Lançou um último olhar na direcção do Noah, que continuava a digitar sem levantar a cabeça, e começou a andar como se não tivesse dito nada.
Eu e a Adison trocámos um olhar rápido antes de o seguir.
A cafetaria estava mais calma do que o departamento. Tinha aquele ruído constante que não exige conversa imediata: máquinas a trabalhar, copos a pousar, vozes indistintas ao fundo. O cheiro do café era forte, quase agressivo.
Sentámo-nos com bebidas automáticas e expectativas baixas, cada um a ocupar o espaço com uma naturalidade silenciosa.
O Leslie foi directo, como sempre. Não perdeu tempo a mexer no copo nem a fingir casualidade.
— Então, Adrian. — pousou o copo na mesa. — Como está a situação com o Allan?
Demorei um pouco a responder. Não por falta de resposta — mas porque precisava escolher a versão mais honesta que ainda coubesse numa conversa pública.
Observei a superfície escura do café.
— O Allan não estava no apartamento — disse por fim. — E estar lá… está a ficar insuportável.
A Adison fez um som curto, algures entre empatia e impaciência.
— Detesto casas com memória.
— Eu também — concordei. — E acho que preciso de algum tempo longe de tudo aquilo.
Ela pousou o copo com um clique decidido — gesto de quem prefere soluções a discursos.
— Tenho um sofá.
Olhei para ela, surpreendido pela franqueza.
— Isso foi um convite?
A Adison encolheu os ombros, como se estivesse a oferecer uma tomada extra, não abrigo emocional.
— Não exageres. É uma oferta logística. O sofá existe. E eu tolero pessoas temporariamente.
O Leslie arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Altamente acolhedor.
— Eu sei — disse ela. — Sou um doce.
Sorri, e senti algo parecido com alívio instalar-se no peito.
— Vou pensar nisso. — pausei. — Mas provavelmente vou aceitar. Preciso mesmo de espaço.
A Adison assentiu, satisfeita por aquilo não ter virado uma cena.
O Leslie inclinou-se um pouco, baixando o tom sem o tornar invasivo.
— E o Mathew?
A pergunta veio neutra. Sem armadilha. Sem julgamento. Só curiosidade.
Suspirei, a esfregar os dedos no copo quente.
— Não sei o que fazer. Nem o que dizer. — olhei para o café. — Não quero usar ninguém como distração… mas também não sei se estou a evitar algo ou só a precisar de tempo.
O Leslie observou-me com atenção, a medir não só a resposta, mas o espaço entre as palavras.
— Às vezes — disse — não saber é a resposta mais honesta disponível.
A Adison levantou o copo num gesto quase cerimonial.
— E, entretanto, tu ficas no sofá.
— Provavelmente.
— Óptimo — disse ela. — Mas aviso já: acordo cedo e odeio partilhas emocionais antes das oito.
Sorri, pela primeira vez naquele dia com um pouco menos de peso.
— Combinado.
Bebemos em silêncio confortável. Por alguns minutos, isso foi mais do que suficiente.
Subimos ao fim da tarde. O corredor tinha o cheiro neutro que nunca muda, independentemente de quem entra ou sai.
A Adison caminhava ao meu lado com a naturalidade de quem se recusa a dramatizar, mas o silêncio entre nós denunciava que ambos sabíamos ao que íamos.
— Cinco minutos — disse ela quando parámos à porta. — Pegas no essencial. Não vamos transformar isto numa visita guiada emocional.
Sorri de leve e abri a porta.
O apartamento estava mais silencioso do que eu me lembrava. Não um silêncio vazio — um silêncio organizado, como se alguém tivesse passado por ali recentemente e arrumado não só objectos, mas intenções.
E então vi-o.
O Allan estava junto à porta do quarto, com uma mochila pousada num ombro, a outra alça pendurada, como se ainda estivesse a decidir se ficava ou se saía de vez. Vestia roupa simples, prática — aquela versão dele que aparecia quando precisava ser eficiente para não pensar demasiado.
Levantou os olhos quando nos viu.
Durante um segundo, ninguém se mexeu.
A Adison foi a primeira a reagir.
— Bem… — disse, olhando de mim para ele e depois para um relógio inexistente no pulso. — Timing impecável.
Deu um passo atrás de imediato.
— Vou poupar-nos a todos um constrangimento prolongado. — fez um gesto amplo. — Fico lá em baixo, a tentar descobrir como se cumprimenta alguém neste momento sem parecer uma personagem secundária mal escrita.
Olhou para mim.
— Leva o tempo que precisares. Mas não demais. — fez pausa curta. — O carro pode estar ilegalmente estacionado. Provavelmente.
Lançou ao Allan um meio sorriso enviesado, sem saber se devia acenar, cumprimentar ou fingir que ele não existia.
— Prazer… circunstancial — murmurou, desconfortável.
E saiu, deixando a porta fechar-se atrás de si com um clique suave demais para o peso do momento.
Fiquei ali, frente a frente com o Allan, e o apartamento inteiro pareceu observar-nos em silêncio.
O instante estendeu-se mais do que devia. Não havia gritos prestes a explodir — havia algo pior: a sensação de que qualquer palavra mal colocada podia tornar tudo irreversível.
O Allan mexeu-se primeiro.
Ajustou a alça da mochila num gesto automático, quase nervoso. O tecido escorregou-lhe pelo braço; ele tentou corrigir, desistiu a meio e deixou a mochila cair no chão.
O som foi baixo.
Mas foi definitivo.
— Vim só buscar algumas coisas — disse, num tom controlado demais para ser espontâneo. — Achei melhor fazer isto agora.
Assenti devagar, como se o corpo precisasse de acompanhar o que a cabeça já sabia.
Encostei-me ao balcão da cozinha e cruzei os braços — não como defesa, mas como quem precisava de um limite físico para não se desfazer.
— Faz sentido.
Ele desviou o olhar quase de imediato, como se sustentar o meu fosse difícil demais. Os olhos percorreram o apartamento com uma atenção estranha, demorada, como se estivesse a rever um cenário que já não lhe pertencia. Talvez nem a mim.
— Achei que não te ia encontrar aqui — admitiu, ao fim de alguns segundos. — Achei que… ia ser mais fácil.
Respirei fundo antes de responder.
— Nada disto é fácil, Allan. — deixei a frase assentar. — Só deixou de ser evitável.
Ele apertou os lábios e inspirou pelo nariz — gesto que eu conhecia. Era o sinal de quem estava a tentar organizar-se antes de se partir.
— Eu vi — disse por fim. — Antes de tu admitires.
Franzi a testa, não em defesa, mas em atenção verdadeira.
— Viste o quê?
O Allan levantou o olhar, finalmente directo, sem o cuidado habitual de suavizar a verdade.
— Que tu mudaste.
Não veio com raiva. Veio gasto. Repetido. Como coisa dita em outras noites, com esperança de que a repetição mudasse o desfecho.
— Tu dizes isso como se mudar fosse traição — respondi, com uma calma que me assustou.
Ele reagiu logo, como se já tivesse preparado essa resposta mil vezes.
— Não é a mudança. — fez um gesto curto. — É o modo como tu já não estás aqui do mesmo jeito.
Dei um passo à frente. Não para o confrontar — para não me esconder.
— Eu estou aqui — disse. — Só não estou da maneira que tu precisas que eu continue a ser.
Allan ficou quieto um segundo a mais do que o normal, como se tivesse de escolher entre engolir aquilo ou dizer o que lhe estava a rasgar a garganta há meses. Depois soltou o ar pelo nariz, curto, e a voz veio mais baixa, mas mais carregada.
— Eu acredito que tu não me traíste — repetiu. — Mas eu não consigo fingir que isto apareceu do nada.
Ele deu um passo pequeno, quase sem se aperceber, e apontou para o espaço entre nós como se fosse ali que a prova vivia.
— O antigo Adrian… — a frase saiu com um peso estranho, como se ele estivesse a falar de alguém que já tinha morrido. — O antigo Adrian nunca me mentia.
Senti o estômago apertar. Não por raiva. Por reconhecimento.
— Allan…
— Não, deixa-me acabar — interrompeu, desta vez sem levantar a voz, mas com aquele tom em que eu sabia que ele não ia recuar. — Tu sempre me contaste tudo. Mesmo quando era feio. Mesmo quando era estúpido. Mesmo quando era “eu não sei o que estou a sentir”. Tu punhas-me dentro da tua vida.
Ele passou a mão pela testa, como se estivesse cansado até do próprio pensamento.
— E agora… tu tiveste de esconder-me coisas. Tu tiveste de escolher o que dizias. O que omitias. O que guardavas para ti. — engoliu em seco, o maxilar a endurecer. — E eu sei que tu vais dizer que não era por mal. Mas, Adrian… o facto é que o antigo Adrian não fazia isto comigo.
A palavra “comigo” veio mais ferida do que acusatória.
Eu inspirei devagar, a tentar não reagir com defesa imediata. A tentar não transformar aquilo num inventário de culpas.
— Eu tentei — disse, e a minha voz saiu mais cansada do que eu queria. — Eu juro que tentei.
Ele arqueou uma sobrancelha, sem ironia. Só cansaço.
— Tentaste como?
Eu dei um passo também. Não para o encurralar, mas para não falar de longe, como se isto fosse um tema qualquer.
— Tentava trazer-te coisas — expliquei, num tom firme, mas controlado. — Tentava falar do trabalho, do que estava a acontecer, de quem eu estava a conhecer, do que me estava a ser pedido… — apontei para mim, para o peito, num gesto pequeno. — E tu fechavas.
Ele abriu a boca, mas eu continuei, porque precisava dizer isto inteiro.
— Tu não dizias “não me contes”, eu sei. — balancei a cabeça, a reconhecer. — Mas tu fazias aquele silêncio. Aquele silêncio em que eu sentia que, se insistisse, ia virar discussão. Ou pior: ia virar deceção.
O Allan desviou o olhar, como se eu lhe tivesse acertado num sítio exacto.
— Tu olhavas para mim como se eu tivesse trazido outra pessoa para casa — continuei, com a voz a ficar mais baixa. — E eu… eu começava a editar-me antes de falar. Porque eu queria paz. Eu queria que a casa não fosse mais um sítio onde eu tinha de me explicar.
Ele riu uma vez. Um riso curto, sem humor, mais um reflexo do que uma reação.
— Estás a culpar-me?
— Não — respondi de imediato, sem agressividade. — Não é isso. Não é “culpa”. — respirei, a procurar as palavras certas. — É que nós deixámos de ter espaço. Tu deixaste de ter espaço para me ver a mudar… e eu deixei de ter coragem de te mostrar a mudança toda.
O Allan voltou a olhar para mim. Os olhos estavam húmidos, mas firmes.
— Eu só queria que tu continuasses a ser meu — disse ele, e a frase saiu crua, sem estratégia. — Que continuasses a escolher-me primeiro. Que eu ainda fosse… a tua casa.
Aquela palavra doeu.
— Tu foste — respondi, com honestidade. — Durante muito tempo, tu foste a minha casa.
Pousei a mão no balcão, porque senti o corpo a pedir apoio físico.
— Mas, Allan… — o nome dele saiu quase como um pedido. — Tu também tens de admitir que começaste a tratar a minha vida como se fosse uma coisa que te acontecia a ti. Como se eu te estivesse a abandonar só por… crescer num sítio novo.
Ele ficou em silêncio. O peito dele subiu e desceu uma vez, num esforço claro de se manter inteiro.
— Eu tinha medo — confessou por fim, quase num sussurro. — Medo de tu me deixares para trás. E, no fundo… eu acho que tu começaste a fazer isso sem querer.
Eu engoli em seco.
— Talvez — admiti, e não foi fácil. — Mas eu também comecei a esconder porque eu não tinha abertura. Não tinha espaço. Eu sentia que, se dissesse a verdade toda, tu ias olhar para mim como se eu estivesse a escolher outra coisa por cima de ti.
O Allan respirou fundo, e a voz dele voltou com uma tristeza limpa.
— O antigo Adrian nunca me mentia… porque sabia que eu aguentava.
Eu deixei a frase pousar. E depois respondi, sem me desviar.
— E o Adrian de agora mentiu por omissão… porque já não tinha a certeza de que tu aguentavas. Ou de que ias querer aguentar comigo.
O silêncio ficou pesado.
Não havia vencedores ali. Só duas pessoas a encarar, finalmente, a mesma verdade por ângulos diferentes.
O Allan passou a mão pelo rosto, os dedos a pressionar a pele como se quisesse apagar o que sentia.
— Desde a Velvet tu és outra pessoa — disse, com algo entre mágoa e lucidez. — O jeito como falas, como te vestes… como olhas.
Engoli em seco. Não porque fosse injusto. Porque era preciso.
— E foi isso que viste ontem — acrescentei, baixo.
Ele assentiu devagar.
— A maneira como olhaste para o Mathew. — a voz não subiu, mas tremeu num ponto específico. — Era a mesma que tu olhavas para mim na faculdade. Quando tudo ainda era simples.
Balancei a cabeça, sem negar. Não havia como.
— Eu nunca te traí, Allan — disse. — E preciso que tu acredites nisso.
— Eu acredito — respondeu ele, e foi aí que doeu. — Mas eu também sei reconhecer quando uma coisa começa no mesmo sítio onde outra começou antes.
Eu puxei o ar devagar, como se estivesse a tentar manter-me inteiro só pela respiração.
— Eu não estou apaixonado pelo Mathew, Allan.
Ele ficou a olhar para mim um segundo. Não com raiva, com aquela calma cansada de quem já pensou nisto mil vezes. Depois soltou uma risada curta, seca, sem humor.
— Ainda não. — abanou a cabeça, como se a frase lhe soubesse mal. — Mas tens de admitir… já estiveste mais longe.
Eu engoli em seco. A vontade imediata era negar, fechar tudo, voltar atrás. Mas não havia como.
— Eu estive mais longe de muita coisa — disse, baixo. — Isso não quer dizer que eu vá chegar lá.
Allan desviou o olhar, como se precisasse de um ponto no chão para não se partir.
— Eu não estou a dizer que vais. — voltou a olhar-me. — Estou a dizer que… eu vi-te abrir uma porta.
— Eu abri uma porta para respirar — respondi logo, com o peito apertado. — Não uma porta para te trocar.
Ele assentiu devagar, mas a mágoa não saía da cara. Ficava ali, quieta, como uma coisa que não aceita argumentos.
— Eu sei que tu não és esse tipo de pessoa — disse ele. E doeu porque não foi elogio… foi uma dolorosa lembrança de Adrian que ele insistia em agarrar-se.
Eu dei um passo mais perto, com cuidado.
— Isto não é sobre ele, Allan. — a minha voz falhou um pouco e eu corrigi-me. — Quer dizer… é, mas não é só ele. Ele só… tocou num sítio que já estava aberto há algum tempo.
Allan fechou os olhos por um segundo, como se aquilo lhe tirasse o ar.
— E eu sou o “sítio aberto”? — perguntou, quase num sussurro. Como se a minha resposta pudesse desfazê-lo em cinzas.
— Não. — fui rápido, firme. — Tu foste casa para mim durante anos. — parei, porque as palavras custavam. — Mas nós… começámos a viver como se a casa fosse só rotina. E eu… eu deixei de me sentir lá dentro.
— Houve algum momento em que tu quiseste?
Eu senti o estômago apertar. A pergunta não era acusação. Era necessidade. Era ele a tentar escolher onde dói: no acto, ou na vontade.
— Allan…
— Não fujas Adrian. — disse ele, e a voz dele tremeu um pouco mais. — Eu preciso de saber. — engoliu em seco. — Porque se eu for construir uma história na minha cabeça… ela vai ser pior do que a verdade.
Eu fechei os olhos por um segundo. Abri-os de novo, tentando manter a voz firme.
— Houve. — admiti, baixo.
O Allan ficou imóvel, como se aquela palavra fosse um golpe pequeno mas certeiro.
— Quando?
Eu hesitei, e ele percebeu.
— Não me poupes, Adrian. — disse, quase num sussurro. — Não agora.
Eu respirei fundo, o peito a doer.
— Ontem. Lá fora. — a frase saiu com vergonha. — Por um segundo. Um daqueles segundos estúpidos em que o corpo decide por ti antes da cabeça.
Ele baixou o olhar, os lábios a tremerem.
— E…?
— E eu não fiz nada. — respondi rápido, quase a defender-me do que eu próprio tinha sentido. — Porque… — parei, engoli, e a verdade veio inteira. — Porque tu sempre foste maior do que qualquer vontade que eu tive.
O Allan levantou os olhos devagar. Aquilo bateu nele como carinho e sentença ao mesmo tempo.
— “Maior”… — repetiu, com um riso triste. — Então eu agora sou um peso.
— Não. — fui imediato. — Tu não és um peso. Tu és… — eu procurei a palavra e falhei, então disse a única coisa honesta. — Tu és a minha vida Allan. És a parte de mim que ainda se recusa a ser um cliché.
Ele respirou fundo, os ombros a caírem um pouco, como se a força o estivesse a abandonar.
— Mas quiseste. — disse, e doeu-lhe dizer.
— Sim. — confirmei, sem tentar suavizar. — E eu odiei-me por isso durante dois segundos. Depois… eu só fiquei com medo.
— Medo de quê?
— De perceber que não era só um impulso aleatório. — eu disse, e a minha voz falhou num ponto mínimo. — Medo de perceber que eu consigo querer… e continuar a ser eu. E que isso muda tudo.
O Allan ficou em silêncio, e nesse silêncio eu vi a luta dele: querer agarrar-se ao “não aconteceu nada” como vitória, e ao mesmo tempo sentir que a vontade já era uma perda.
— Então o Mathew é isto? — perguntou, quase sem força. — Uma vontade?
Eu abanei a cabeça devagar.
— Não sei. — respondi. — Eu só sei que… eu nunca te traí. E mesmo quando eu quis… eu parei. Porque tu ainda eras mais importante do que eu me sentir confuso por cinco minutos.
Ele respirou fundo, uma vez, duas, como se estivesse a tentar não reagir com o orgulho.
Eu baixei o olhar, porque era verdade demais para sustentar com os olhos.
— Eu tentei, Allan.
— Eu sei. — a voz dele quebrou num ponto mínimo, quase imperceptível, mas eu ouvi. — E é isso que me mata. Porque se fosse uma traição daquelas óbvias, eu odiava-te e pronto. Mas isto… isto é só… tu a mudares. E eu a ficar para trás.
O silêncio que veio a seguir não foi desconfortável. Foi denso. E nenhum de nós tentou fugir dele.
— Eu amo-te — disse eu finalmente. A frase saiu inteira, sem dramatização. — Mas já não sei ser teu namorado.
O Allan fechou os olhos por um segundo, como se precisasse sentir a frase no corpo antes de a aceitar na cabeça. Quando voltou a abri-los, estavam húmidos.
— Então o problema sou eu? — perguntou, quase num sussurro.
— Não. — fui firme, sem levantar a voz. Aproximei-me e segurei-lhe o rosto, porque já não havia modo elegante de manter distância. — O problema é insistirmos numa versão nossa que já não existe. — respirei. — Eu não deixei de te amar. Eu só... Não é o amor de antes.
O Allan soltou um riso curto, sem humor.
— Engraçado… — murmurou. — Passei tanto tempo a dizer que tu estavas diferente… e afinal o que doeu foi perceber que eu fiquei à espera que tu voltasses a ser quem eras.
A frase ficou suspensa entre nós.
O apartamento pareceu encolher à volta dela.
— Nós mudámos — acrescentei, com cuidado. Limpei-lhe uma lágrima. — Os dois. Só que tu tentaste segurar… e eu segui.
Ele assentiu devagar, a aceitar algo que já vinha a entender há tempo demais. E depois, de um jeito quase brusco, abraçou-me.
E eu deixei-me cair ali.
Agarrei-o com força, o perfume dele a subir-me à garganta, o coração dele contra o meu peito a bater como se ainda quisesse discutir com a realidade.
— Então é isto — disse ele.
Não era pergunta.
— É — respondi, com o rosto enfiado no pescoço dele.
Quando nos afastámos, ele olhou-me com os olhos molhados, sem qualquer tentativa de disfarce. A respiração irregular denunciava o esforço para se manter inteiro.
— Posso…? — perguntou.
O dedo dele tocou-me a boca com uma delicadeza que me partiu.
Assenti.
O beijo veio sem urgência. Lento. Cauteloso. Como quem volta a um lugar conhecido só para confirmar uma suspeita.
As bocas tocaram-se com cuidado, a respiração dele misturada com a minha, quente e instável. A língua dele encontrou a minha com hesitação, sem pressa, sem aquele desejo de ir mais longe.
O sabor era familiar.
O gesto era bonito.
E foi aí que eu soube... Não encaixava mais.
Quando nos afastámos, ficámos próximos, testas quase a tocar-se, como se nenhum dos dois quisesse ser o primeiro a admitir que tinha acabado.
— Ainda é bonito — disse ele, a tentar colar humor barato numa coisa partida. — Só… diferente.
— É — respondi. — Já não tem o sabor de antes.
Ele sorriu e chorou ao mesmo tempo, desajeitado, humano.
— Vou buscar as minhas coisas.
— Não — interrompi, sem pensar. — Eu é que vou sair.
Ele hesitou, mas assentiu. Já não tinha força para discutir.
— Vais ficar com o Mathew? — perguntou, tentando soar leve. Não conseguiu.
— Não. — respondi sem rodeios. — Ainda não estou pronto. E tu… — a palavra custou — tu ainda és demasiado recente.
Ele respirou fundo, como se aquela resposta lhe tirasse um peso específico do peito.
— Obrigado. — depois tentou aliviar. — Ao menos não é um guião de troca imediata.
— Não — murmurei.
O Allan pegou na mochila e passou a alça pelo ombro com mais firmeza.
— Vou dar uma volta.
Entendi o pedido de espaço.
— Eu saio também.
Ele assentiu. Abriu a porta, parou um segundo como se quisesse dizer mais alguma coisa — e desistiu.
— Cuida-te, Adrian.
— Tu também.
A porta fechou-se atrás dele.
Fiquei ali parado alguns segundos, a sentir o apartamento vazio de um modo novo, mais honesto.
Depois fui ao quarto e abri o armário. Não pensei muito. Peguei a mala média, a azul-escura, ainda com uma etiqueta antiga presa ao puxador. Reconheci-a de imediato: a mala da viagem ao Colorado, antes de tudo começar a ficar… complicado.
Atirei lá para dentro algumas peças sem critério: camisas engomadas, três pares de calças, roupa interior. Peguei dois casacos para levar no braço.
Fechei a mala. O som do fecho pareceu alto demais.
Apaguei a luz do quarto e saí. Tranquei a porta com um cuidado exagerado, como se isso pudesse manter alguma coisa inteira lá dentro.
No elevador, mantive os olhos no espelho.
O rosto estava controlado demais.
Olhos vermelhos, mas secos.
A versão funcional de mim que eu odiava por ela souber aparecer sempre.
Quando cheguei à rua, vi a Adison encostada ao carro, braços cruzados, peso numa perna só. Ergueu o olhar assim que me viu com a mala.
— Ok — disse apenas. — Isso responde à pergunta.
Assenti e dei dois passos na direcção do carro. Estava quase a abrir a porta quando senti a contenção começar a falhar.
Não foi pensamento.
Foi físico.
Um aperto no peito. A garganta a fechar sem aviso.
A Adison percebeu antes de eu conseguir dizer qualquer coisa.
E, pela primeira vez naquele dia, ela não fez uma única piada.
Não revirou os olhos.
Não tentou “aliviar” com sarcasmo.
Só deu um passo em frente e abraçou-me.
Um abraço firme. Como se eu estivesse a cair e ela tivesse decidido que, hoje, não.
— Podes chorar — disse baixo, junto ao meu ouvido. — Está tudo bem.
Foi o suficiente.
O corpo cedeu de uma vez.
O choro veio forte, descontrolado, quase violento. Agarrei-me a ela com mais força do que pretendia, o rosto enterrado no ombro, a respiração a falhar, o som a sair antes de eu o conseguir conter.
Chorei pelo fim.
Pelo que foi bonito.
Pelo que não resultou.
Pelo que eu ainda não sabia como seria sem ele.
E a Adison manteve-me ali.
Não disse nada.
Não tentou regular o choro.
Só ficou.
Uma mão firme nas minhas costas, a outra a segurar-me como se eu pudesse cair se ela largasse.
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