Doki Doki
9 Capítulo 9
Notas iniciais
A volta foi tranquila, por incrível que pareça.
Shima passou o tempo todo dormindo, inclinado em um Koneko muito desconfortável, mas quem era Shima para notar essas coisas... Koneko e eu trocamos algumas palavras, rimos um pouco, mas nada muito cansativo. Suas palavras, que eram suaves e cheias de paixão pelo tópico, acariciavam meu rosto. Falar com Koneko sempre foi assim: calmo e tranquilo. Totalmente o contrário de Shima... Esses dois sempre foram um tipo de Yin Yang, se completando perfeitamente.
Mas, de novo, Shima era cabeça-de-vento de mais para notar qualquer coisa, enquanto Koneko notava cada respiração... Não é dificil de perceber seus sentimentos, eles gritam o tempo todo. O único surdo é o Shima, que talvez nem seja surdo de verdade... Volta e meia, eu checava meu celular para ver ser Rin não havia mandado uma mensagem, mas nada chegou.
Em algum ponto da viajem, o rádio começou a tocar uma música que nós bem conhecíamos:
“whatever I feel for you
you only seem to care about you
is there any chance you could see me too?
'cause I love you
is there anything I could do
just to get some attention from you?
in the waves I've lost every trace of you
where are you?”
O ar ficou tenso de repente. Koneko estremeceu levemente e começou a murmurar a letra da música, olhando para a paisagem gélida que corria por nós. Sentia que precisava dizer algo, afinal: é para isso que servem os amigos, certo? Esperei a música terminar e a rádio iniciar uma música pop muito irritante para finalmente respirar fundo e falar com ele.
– Hm... Koneko?
– Sim, Bon? — falou ele.
– Sabe... e-eu não sei se importa muito... mas eu acho que vocês dois são perfeitos j-juntos... — esperei ele conectar os pontos em sua mente, sem dizer mais nada, apenas observando a expressão do meu amigo ir de confuso para aterrorizado.
– C-c-como voc-cê sabia disso B-bon?? — eu sentia suas bochechas arderem. Cara, ele virou um tomate. Um mini tomate. Hahaha.
– Bem, não precisa me chamar de Sherlock, — falei, sarcasticamente — mas eu notei. Notei há mil anos atrás. Eu não sei como ele não notou ainda, para falar a verdade.- Koneko escondeu seu rosto atrás das suas palmas, se movimentando com cuidado, para não acordar Shima.
– Bon, isso é ruim, muito ruim. — falou ele, tentando controlar sua respiração. Tudo o que ele não queria agora era ter hiperventilação, notei. — Não quero ser rude, Bon, mas o Shima percebe as coisas muito melhor que você. Ou seja, se você sabe, então é óbvio que ele SABE. — Koneko guinchou
Ficamos em silêncio novamente, o único som era do rádio, que soltava um “bitch, I’m Madonna” a cada dois segundos. Eu não sabia se sentia pena do pobre guri ou se ficava ofendido com o que ele dissera sobre a minha pessoa. No fim, decidi pelo primeiro, deixando o segundo de lado, por enquanto. Meu orgulho poderia ser curado em outro momento.
Sem que nenhum de nós percebêssemos, Shima acordara, e estava com as orelhas aguçadas perto dos perfeitamente rosados lábios de Koneko. Ele sabia do que nós estávamos discutindo, e não pôde suprimir as borboletas em seu estômago de esquentá-lo. Quase inconscientemente, ele se encostou mais em Koneko, sua cara passiva fazia ele passar por alguém que ainda dormia.
– ... mas obrigado, Bon... — Koneko falou, quebrando o silêncio. Passou sua mão pelo cabelo rosa de Shima, delicadamente, uma vez. — Pelo apoio, quero dizer.
– Ei, não é nada Koneko. Tudo pelos amigos. — disse, escolhendo as palavras com cuidado. Passei minha mão por sua cabeça, bagunçando seu cabelo inexistente, e logo em seguida me calando e contemplando a paisagem pela janela.
“And when I come to blows
When I am numbering my foes
Just hope that you are on my side my dear
But it's best to finish as it started
With my face head down
Just staring at the brown formica
It's safer not to look around
I can't hide my feelings from you now
There's too much love to go around these days.”
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Quando chegamos, não estava nevando, não. Estava chovendo. Chovendo muito. Tanto que nosso raio de visão passou para cinco metros de distância. E claro, nossos ouvidos quase explodindo com o incessante choque das gotas pesadas de chuva contra o asfalto, toldos, tetos de carros. A melhor parte: não tínhamos conosco guarda-chuvas. Bem, quem ia pensar que estaria chovendo pra caralho.
No momento em que conseguimos entrar no hall da academia, nossos ossos já estavam encharcados, e eu podia apostar que se eu espremesse meu braço, sairia 10 litros de água dele.
Corremos para o nosso dormitório para tomar um banho quente, porque puta que pariu; eu não sei como não perdi um dedo do pé naquela manhã.
Chegando ao quarto, ligamos o aquecedor e fomos todos para a sala de banhos, levando o necessário. Sentimos a diferença de temperatura assim que abrimos a porta do banho. Sem mais nem menos, nós três andamos civilizadamente para a água quente do onsen que nos esperava ( digo “andamos civilizadamente”, porque seria muito inconveniente dizer que corremos até a beira e pulamos na água, jorrando pingos para todos os lados...)
A primeira coisa que faria depois que sai do banho seria deitar em minha cama e descansar todos os músculos do meu corpo mais ainda. Mas não. Estava com saudades de Rin e não aguentava mais ficar longe dele, ainda mais que estamos na mesma área.
Meu coração batia forte contra meu peito a cada passo que dava para perto do dormitório antigo, sai com um guarda-chuva aberto, mas caara, ele quase não conseguiu segurar a chuva. Cheguei na porta de seu quarto e levei meio minuto para levantar a mão em punho fechado para bater na porta. Assim que bati e ninguém atendeu, tomei liberdade de “invadir” o quarto.
Ninguém parecia estar por ali no momento. Meu coração martelou forte com decepção. Me sentei à beira de sua cama e eu conseguia sentir o seu cheiro em tudo; estava no ar. Bateu uma saudade forte e comecei a ficar gelado do ar frio, então tirei meu casaco molhado da chuva e joguei-o em uma cadeira, descalcei meus sapatos e me enfiei de baixo das cobertas de Rin, respirando profundamente seu cheiro.
Percebi que estava cansado, não que eu tivesse feito algo muito emocionante o dia todo, mas meus músculos subitamente descansaram quando deitei em sua cama. Talvez andar de carro por horas à fio canse o espírito, ou talvez passar muito tempo sentado ao lado de Shima, mesmo que dormindo, extraia muita energia.
Nem notei quando havia pego no sono, só lembro de abrir os olhos novamente e ser recebido por uma penumbra. Senti algo me pinicando no braço, e como reflexo, me levantei e esperei para ser atacado por algo ou alguém, mas nada veio. Então me movi cautelosamente para perto da entrada e acendi a luz do cômodo.
Nada parecia fora do normal. Tudo estava como havia deixado: meu casaco jogado em uma cadeira, meus tênis ao lado da cama, a porta do banheiro fechada, o criado-mudo com alguns cadernos e canetas de Rin... Até a chuva continuava, notei pela janela que mostrava uma chuva torrencial na rua.
Voltei para a cama mais uma vez e sentei-me na borda, pensativo. Porque nem Rin nem Yukio haviam aparecido até agora? E o que havia me tocado no braço?
Não pensei mais por muito tempo pois me peguei observando dois rabos balançando para fora da parte de baixo da cama. Se já não tivesse vindo nesse quarto algumas vezes, nunca reconheceria aqueles rabos sendo de Kuro, o gato de Rin.
– Kuro, pshiishhii — falei, chamando sua atenção. Ele saiu de baixo da cama com o celular de Rin na boca. Quê? — Aonde você achou isso? — perguntei mais para mim mesmo do que para o gato, pois sabia que não ia me responder. Peguei o celular de sua boca e apertei o botão de ligar a tela, só para não acontecer nada. Apertei mais uma vez, e nada. Segurei o botão por alguns segundos, então, e apareceu na tela uma única mensagem, avisando que estava sem bateria, antes de morrer de novo.
Deixei um suspiro sair de minha boca e catei seu carregador para conectar ao seu celular. Quando conectado, esperei alguns segundos antes de ligá-lo. Kuro se roçando contra minhas costas e pernas sentadas na cama até se ajeitar e deitar ao meu lado. Finalmente ligado, digitei sua senha e me deparei com uma mensagem não mandada para mim:
Bon,
Eu, Shura e Yukio vamos em uma missão hoje e voltamos o mais cedo que podermos. Talvez leve alguns dias, mas pretendo já estar de volta amanhã quando vocês chegarem.
Te vejo logo (●´∀`)ノ♡
Suspirei novamente, ele esquecera de clicar em “mandar” e consequentemente, nunca recebi essa mensagem... Bem, pelo menos ele está com Shura e Yukio...
Me deitei novamente em sua cama, agora mais confortável, sabendo (mais ou menos) onde ele estava. Não encontrava forças em mim para voltar ao meu dormitório, ainda mais com essa chuva massante que caía. Decidi, então, mandar uma mensagem para Koneko, avisando que passaria a noite no dormitório de Rin e logo em seguida acomodei meu celular no criado-mudo.
Assim que me deitei, como se já fossemos super íntimos, Kuro se acomodou em meu peito, ronronado de leve. Passei meus dedos contra seus pelos macios e sedosos, vendo ele fechar os olhos e inclinar ao toque de carinho dos meus dedos.
E como se eu não tivesse dormido por uma boa quantia de tempo até agora, caí em um sono profundo.
__________
Eu estava tão molhado, tão molhado, que nem sentia mais as gotas caírem sob minha pele. Arrastei-me como um zumbi para o dormitório antigo, sentindo todos os meus músculos reclamando por cada pequeno gesto que fazia. Estava tão cansado que queria me deitar na cama sem pensar duas vezes, mas o cheiro de podridão e sangue velho de ghouls que saia de mim dava ânsia de vômito, então abri a porta do dormitório, não notando nada além do caminho para o pequeno banheiro no lado direito da porta, e lá eu me fechei, posicionando minha katana na entrada, perto dos guarda-chuvas.
Tirei minha vestimenta, tentando fazer menos movimentos possíveis, e joguei-a no lixo. Sim, no lixo. Elas não tinham mais utilidades, infelizmente. Liguei na água quente e nunca fiquei tão feliz na minha vida por sentir água caindo sobre mim. Ela relaxava automaticamente todos os meus músculos, principalmente meus ombros, nossa, não sabia que estava tão tenso assim.
Deixei a água pelando cair por meu rosto, peito, pernas, ficando com a pele levemente avermelhada e me limpei. Se todos as missões daqui para a frente forem como essa foi, acho que repensarei minhas vontades de ser um exorcista. Porque, caaaara, quanto mais matávamos ghouls e leapers, mais eles apareciam, e mais eles se acumulavam em volta de mim por causa do meu querido pai e seu legado.
Havia também perdido a chegada de Bon, Shima e Koneko, e me sentia culpado por não ter conseguido chegar a tempo para receber-los, mas agora não era o momento para ficar pensando. Simplesmente pensar era uma tarefa muito difícil e absorvia muito de sua concentração e energia restantes para exercê-la. Então deixei tudo acontecer no automático: terminei meu banho, me sequei, fui para o meu lado do dormitório, botei uma camisa branca e uma cueca, deixando meu rabo para fora, e me deitei em minha cama, que estava estranhamente quente e confortável... estranho, mas quem era eu para questionar esse acômodo momento.
E assim sendo, desmaiei de sono.
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Só fui perceber que Rin havia voltado, de manhã cedo, ou seja, quando acordei.
Notei também que no meio da noite, nos reajustamos em um abraço, eu atrás e ele na frente. Desabrochou-se milhares e milhares de flores em meu peito com o primeiro vislumbre que tive de sua presença. Me aproximei de seu calor, encostando minha cabeça contra seu pescoço exposto, tomando cuidado para não esmagar seu rabo quando levei meu corpo.
Seu cheiro era tão forte em minhas narinas, que queimava todo o caminho até a minha faringe. Ah... como eu havia sentido sua falta. Queria acordá-lo, dar boas vindas e um beijo mais do que desejado, porém, se eu sabia de alguma coisa era que missões tiram toda sua energia, e o que Rin mais precisa agora, infelizmente para mim, é de umas boas horas de sono.
Então me mantive ali com ele por mais algumas horas, visto que acordei antes mesmo do Sol nascer, não que eu conseguisse ver o Sol no meio de tantas nuvens, mas o relógio do criado mudo mostrava 06:43 da manhã. Levantei somente quando minha bexiga estava prestes a explodir, sim, esse é um dos grandes problemas do inverno, quando o corpo decide que não precisa de tanta água navegando pelas artérias e veias e manda tudo para onde? Sim, para os rins. Perfeito. De manhã cedo sobre o que eu penso? Sobre a fisionomia do corpo humano, parabéns Bon, seu gênio.
Enfim, deixando biologia de lado, fui para o banheiro e lá percebi que estava morto de fome. Não tendo comido nada a tarde toda nem a noite, faz muito sentido estar vivenciando o momento em que meu estômago comeria todos meus outros órgãos se não alimentado imediatamente. Obedeci-o e roubei ovos e bacon do refrigerador que os gêmeos mantinham no dormitório ao lado de um fogão.
Preparei dois pratos, notando superficialmente que Yukio não se encontrava, mas não dando muita bola, perguntaria para Rin depois, voltando toda minha atenção para não queimar os ovos nem os bacons. Enquanto fritavam, catei duas fatias de pão e botei-as para torrar, me virando rapidamente para observar se as frituras estavam queimando e quando vi que não, me virei novamente atrás de dois copos e de volta para o refrigerador para pegar uma garrafa de suco.
Quando finalmente me sentei à mesa e comecei a sugar pão com bacon e ovo, examinei os movimentos na cama de Rin que mostravam que estava acordando. Sempre pode se contar com o poder do cheiro de comida para acordar qualquer um, principalmente os famintos, como eu acho que é o caso. Um ronco profundo seguido de um gemido sonolento respondeu a minha pergunta e eu me deixei bufar, estava me entretendo muito com o que via.
Vi sua cabeça se virando para minha direção e contemplei seus olhos arregalando quando processou onde estava e quem eu era. Pulou da cama vindo na direção da pequena cozinha, mas não parecia mais interessado na comida, e sim... bem, em mim.
– Bon! — é o que ele fala antes de se jogar em meu abraço. Me afastei um pouco dele, o suficiente para conseguir enxergar seu rosto de uma distância decente, só para encontrar meus lábios com os dele em um beijo lento e desleixado. Sorri no beijo, sem conseguir parar ele. Estava feliz, muito feliz, pois, como havia dito antes, senti muito a sua falta esses dias, e agora estava me sentindo completo, sem um braço a menos. Nos separamos para respirar, e Rin voltou sua atenção agora para o prato de comida posto ao lado do meu. Puxou um banco e se sentou comigo à mesa.
– Então, — ele falou, tentando esconder o sorriso ingênuo brincando em seus lábios, mas logo desistindo, percebendo que ele era mútuo. — Como foi a viagem?
– Ela foi legal. — falei roboticamente a resposta de sempre. — Na verdade, nem tanto, senti sua falta e... me desentendi com meu velho... — confessei, voltando minha atenção para meu suco, não querendo falar sobre o assunto mas querendo que ele saiba alguma coisa sobre o assunto.
– Hm... entendo. — disse ele, pensativo.
– E como foi a missão? — perguntei, mudando de assunto rapidamente. Ele deixou um suspiro cansado sair de sua boca enquanto jogava sua testa contra a madeira da mesa. E assim, Rin me contou todos os detalhes de como eles venceram um bando de ghouls e alguns leapers, e como ele teve que botar as roupas no lixo de tão insuportavelmente fedorentas e gosmentas elas estavam.
Eu fui ouvindo e ouvindo, nunca cansando. Até que uma hora, Rin bocejou e disse que ainda estava cansado, então me convidou, timidamente, se poder adicionar, para deitar com ele, e, quem sou eu para recusar.
Nos ajeitamos de baixo das cobertas de Rin, ficando bem confortáveis, e foi aí que eu me lembrei de uma coisa:
– Rin, onde está Yukio? — perguntei. Rin fez som de nojo, quando encostava sua costas em meu peito. Murmurou umas palavras tão baixou que eu não entendi, e tive que pedir para ele repetir.
– Eu disse que ele está no quarto de... Shura. -desembuchou, enojado.
– Ah... — pois é, isso era uma coisa. Acho que não conseguiria me acostumar com isso, não tão sedo...
– Bem, pelo menos ele não está aqui... — falou ele, se encolhendo em um ato de vergonha. Abracei a fofura de Rin, que sempre mexia comigo.
– É mesmo... — concordei, deixando um selinho cansado em seu pescoço. Ok, eu admito, passei ontem mais tempo dormindo que acordado, mas em minha defesa, quanto mais se dorme, mais sono se tem, então, sim, eu estou com sono.
E com isso, voltamos a dormir, alheios de que dentro de minha mochila que levei para o Natal havia um envelope esperando para ser reaberto.
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