Doki Doki

8 Capítulo 8


Ver o envelope escorregar de minhas mãos e lentamente cair no chão foi um dos momentos mais agoniantes da minha vida. Como não era muito pesado, o som que fizera ao pousar no chão foi abafado e tranquilo. Entretanto, tranquilo era a última coisa que sentia.

– ... o quê? — perguntei. Não confiava em meus ouvidos. Com certeza ele não disse aquilo que imaginei ele ter dito. Ele suspirou.

–... Ryuji... sua mãe acha que o melhor para você e se casar com uma menina saudável e vir morar conosco, lembre-se também que um dia você terá um papel importante para o nosso templo, e precisará de alguém de confiança ao seu lado.

– E você concordou com isso? — indaguei.

Ele assentiu. Minhas pernas não aguentariam por muito mais tempo; estava me sentindo enojado.

– Nem por um segundo passou pela cabeça de vocês que eu já estaria apaixonado por alguém, e que estivesse namorando? Nunca? E por que essa história de casamento agora? — tantas, tantas perguntas que elas estavam me deixando tonto. — Porque não... sei lá, quando eu tivesse vinte anos? OU NUNCA?

Meu pai demorou um tempo para achar as palavras exatas. — Achamos que com a sua idade agora seria melhor para você se acostumar com a ideia; não se envolver em amores na academia, sabendo que teria um casamento planejado.

– E porque não Rin? Porque tenho que me casar com essa Natasha, a qual não vejo desde os meus oito anos? — A injustiça que estava sentindo, aos poucos, ia se transformando em raiva. — Eu sei que conheço ele muito mais do que ela, e — dei uma risada fria — pode apostar, que isso é muito.

– O que a sua mãe, o templo e a vila pensariam de ti se você se casasse com um homem? Achas que eles se sentiriam seguros?

– E porque não?! Qual o problema? — não entendia onde ele queria chegar.

– ... Olhe Ryuji, tem pessoas no nosso mundo, no nosso dia a dia, que não aceitam pessoas como você. — disse ele, cansado, se referindo a minha opção sexual.

– E você então quer que eu mude quem sou para participar dessa sociedade que nem quero entrar, fazendo-me casar com essa menina que nem o sobrenome eu sei?! Quer que eu largue quem amo e confio por um amor falso? Para quê? — a esse ponto, já estava difícil de respirar. Meus pulmões pareciam ter diminuído 20 cm, meu estômago se retorcia e conseguia sentir minhas mãos tremendo, não de frio, mas de raiva, medo, angústia.

Ele parou. Parecia machucado. Sabia que ele não queria isso assim como eu, nunca que o meu pai faria algo assim.

– Pela sua família... — foi a única coisa que saiu de sua voz rouca e sussurrada.

Eu me calei. Ele se calou. Ele havia acabado se usar a família como justificativa? Golpe sujo. Encarava ele enquanto encarava o chão, o silêncio nos sufocando novamente e não tivemos a coragem de falar, nem mesmo de abrir a boca por um bom tempo.

– Por que ela? — eu disse, quebrando o silêncio e pegando-o de surpresa.

– Ah.. é.. por que ela foi uma das únicas -se não a única- menina que você mostrara interesse antes. — fez uma pausa. — E queríamos te deixar em uma situação o mais confortável o possível. — Ele deu uma risada curta e sem emoção, e eu repetindo logo em seguida.

– Que ironia. Muuuuito obrigado por pensar tanto assim em mim, vocês dois. — falei, sarcasticamente.

– Ryuji — disse ele, apertando seus dedos contra seus olhos — nos só queremos o melhor para você, só isso.

–.... — suspirei. — ... melhor para mim, ou melhor para vocês? — queria parar com isso, sabia que fazer isso machucaria meu pai, mais que qualquer faca que penetrasse seu coração, mas não conseguia aguentar, não queria ouvir o que estava ouvindo. Queria acordar desse pesadelo, e sentir a pele morna e macia de Rin no meu abraço, passar meus dedos por seus cabelos bagunçados e fofos, queria me perder olhando em seus olhos e queria beijar delicadamente seus lábios bem definidos. Era só o que eu queria.

... Isso é pedir muito?

Com um suspiro, juntei o envelope e a foto do chão, e estendi para ele pegar. Demorou um pouco para processar o que estava acontecendo, mas quando entendeu, hesitando, pegou o envelope com sua mão trêmula e murmurou alguma coisa como: um dia você vai perceber... antes de eu me virar e fechar a porta de seu quarto com força. Foi só nesse momento que percebi que lágrimas pairavam em meus olhos, ameaçando a cair a qualquer instante.

Não sei quando nem como cheguei ao meu quarto, só lembro de estar na cama, deitado, olhando para o celular e esperando por uma mensagem que não chegaria se eu não mandasse uma antes. Nem um dia se passou e já estava sentindo sua falta, o seu calor ao meu lado.

Suspirei novamente.

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Dia 25 foi um dia parado, e quando eu digo parado, eu quero dizer: almoço de natal, ver mais familiares, ignorar pai e mãe, fazer merda com Shima e Koneko, se machucar caindo e o mais importante, apodrecer na cama e mandar uma que outra mensagem para o Rin, enquanto procurava por, bem.... aquilo.

Digo, não foi difícil achar como se fazer sexo da maneira correta, pelo contrário, foi a primeira coisa que achei. O mais difícil, na minha opinião, foi achar um tutorial no youtube sobre como. Bem, para a minha defesa, aprendo muito mais vendo do que lendo *blush*.

D-de qualquer modo, depois que vi alguns vídeos e aprendi direitinho passo a passo, não conseguia parar de imaginar quais seriam as expressões e reações que Rin faria durante o sexo e -ahhh, tive que pensar em senhoras idosas e suas pelancas moles e todas enrugadas que balançam de um lado para o outro para não ter que sofrer com uma aparição indesejada de um pênis duro.

E embora eu fizesse o máximo para esquecer do que meu pai falara comigo ontem, não conseguia não me sentir culpado por Rin. Eu sei que aquela conversa provavelmente não afetará o meu futuro, mas mesmo assim, pensar em se casar com outra pessoa, mesmo que fosse contra minha vontade, me é errado, extremamente errado. E não falar para ele, tão errado quanto.

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Para: Rin Okumura (16:16)
Quero voltar para o dormitório...

De: Rin Okumura (16:22)
Só mais um dia, tô certo? :)

Era o que esperava. Em vez de responder, escrevi:

Para: Rin Okumura (16:22)
Quero voltar logo e testar as minhas novas técnicas de cama. ;)

Eu ri da minha própria mensagem. Conseguia imaginar Rin do outro lado, completamente vermelho e gaguejando de baixo das cobertas. Oito minutos se passaram até que ouvi o celular tremer, me avisando que tinha uma nova mensagem. Não havia um texto, porém, uma imagem anexada.

A "selfie" tirada por Rin, mostrava no fundo a parede cinza ao lado de sua cama no dormitório e no centro da foto, seu rosto, numa perfeita representação de "eu não acredito que você acabou de dizer isso, ai meu deus que vergonha", misturado com surpresa e "estou prestes a rir, mas tenho que parecer sério uma vez na vida". Não consegui conter a cor vermelha de se concentrar nas minhas bochechas, na verdade na minha cara inteira. Mas tinha algo a mais no seu rosto, algo que não sabia decifrar, como se ele tivesse a alguns segundos de espirrar, só que também não exatamente isso, um pouco mais sexy........

........Pera aí....

Entrei na minha lista de contatos e deslizei até chegar em seu nome. Cliquei e posicionei o celular na minha orelha, ouvindo tocar cinco vezes antes de uma voz aveludada atender.

– B-bon? — perguntou ele. Conseguia ouvir sua respiração levemente falhada. Coitado, estava se esforçando tanto para parecer normal, como se não estivesse fazendo nada indecente. Ah, mas eu sabia *sorriso sádico*. Sabia muito bem que atividade estava praticando agora.

– Rin? — falei com o meu tom mais doce e inocente. Como resultado, ouvi ele arfar do outro lado da linha. — O que você esta fazendo?

– E-eu, ha... n-nada não... — Rin sabia que eu sabia o que ele estava fazendo, mas tentou mentir mesmo assim.

– Sabia que mentir é feio?

– É mesmo? Q-que bom que sou lindo.

Ri. Rin era irônico, muito irônico.

– Claro que é... — pausinha dramática — Mas vem cá? Posso te perguntar uma coisa?

– Já perguntoou — falou ele, arrastando o "o" com leveza.

– Idiota... — dei uma risadinha. — Por que não me ligou antes?

– Para quê? — ouvi a dúvida em sua voz.

– Para praticarmos juntos – respondi, a sensualidade saindo de minha voz aos montes.

Ele gemeu. Cara, mesmo no celular seus gemidos são muito tentadores. O problema agora, era que, ouvir uma vez, me faz querer ouvir mais dos altos, doces, molhados gemidos que ele solta por sua boca. Me decidindo, levantei da cama e tranquei a porta.

Antes de deitar novamente na cama, tirei minhas calcas e as dobrei em cima da escrivaninha para não sujar....

Pensando melhor, tirei todas minhas peças de roupa para nenhuma delas sujarem, exceto as meias, porque estava frio mesmo no quarto. Voltando para a cama peguei meu celular e disse:

– Você tem se masturbado pensando em mim ultimamente? — perguntei. Levando minha mão livre ao meu pênis e o segurei com delicadeza.

– Mm-hm. — falou ele, relutantemente. Dei uma primeira esfregada testando antes de perguntar:

– E o que você imagina? — escutei enquanto Rin puxava uma quantia enorme de ar para, depois de um tempo, soltá-la.

Esfregava minha mão em meu pênis enquanto Rin me contava, muito embaraçado, sobre as fantasias que usava como material de masturbação: como ele gostava quando eu acariciava a cabeça de seu pênis e usava o líquido pré-ejaculatório para esfregar com mais facilidade; como eu usava a pressão exata ao apertar seu pênis com a minha mão; como sentia falta dos meus dentes mordiscando seu lábio inferior, ou minha língua entrelaçada na sua...

Eu mesmo não pude segurar alguns gemidos de saírem por minha boca. Gemidos molhados e cheios de desejo. Minha mão se movia com mais facilidade e agilidade pelo meu pênis duro e quente, enquanto minha cintura tentava sincronizar inconscientemente com os movimentos de prazer. Aumentava a pressão em volta dele a cada vez que meu nome era chorado no celular e sentia o gozo se acumulando e cada vez mais próximo de ejetar.

Dividi com Rin algumas das coisas que faria com ele se estivesse ao seu lado agora, e, sabendo que isso me exitava, e principalmente a ele, não parei. Até que comecei a ouvir "tap tap tap" mais alto e rápido vindo do outro lado da linha, acompanhado por gemidos quase que silenciosos.

– B-bon eu, — falou logo em seguida, dando uma pausa para respirar — eu v-vou gozar.

Estava igualmente próximo do êxtase. Minha cintura se deslocando o suficiente para se ouvir os menores dos rangidos da cama, porém, esses eram abafados pelo som da minha voz que ecoava pelas paredes grossas que cercavam meu quarto. Ouvi Rin granir algo incompreensível enquanto gozava e, logo em seguida, eu fazia o mesmo.

Ficamos um tempo sem dizer nada, gastando todo ele para recuperar nossas respirações e batimentos cardíacos.

– Que horas você volta amanhã? — perguntou Rin, quebrando o silêncio.

– Hmmm... — pensei por um momento. — Provavelmente após o cafe-da-manhã.

– Certo. — conseguia sentir um sorriso abrindo em seu rosto. Passei minha mão pelos meus cabelos descoloridos por mania, só depois me lembrando que ela estava completamente engosmada.

– Merda! — xinguei.

– O que foi? — perguntou ele surpreso.

– Sujei meu cabelo de gozo. — expliquei e ele riu. Sua risada, pelo menos, possuía um nível de pena aceitável para o momento. Decidi que entraria no banho, e então nos despedimos.

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A manhã do dia seguinte foi longa de mais para o meu gosto.

Acordei muito cedo porque estava extremamente ansioso para ir embora e ver Rin, entretanto, fui o primeiro a sair da cama. Fui para a cozinha me servir café-da-manhã, parando no meio do caminho para apreciar a vista do pátio central do templo, o qual estava todo coberto por neve recentemente caída.

Corri para a cozinha, preparei meu café e uma torrada e voltei para sentar na beirada do corredor que era aberto para o pátio. Momentos como esse necessitam ser apreciados por um longo período de tempo, não é sempre que conseguimos tempo para interromper tudo que fazemos e ouvir o cantar dos pássaros, o ecoar do bambu chocando contra a pedra, visualizar o branco da neve cobrindo a superfície do solo e de tudo além.

Nesses momentos da vida, mesmo observando a paisagem detalhadamente, a mente sempre consegue escapar e viajar para outros lugares, ignorando todo o seu redor. Dei um gole no meu café. Comecei a repassar a “conversa” que tivera a dois dias atrás com meu pai. Digo “conversa” pois foi mais uma argumentação do que qualquer outra coisa, entretanto, não queria usar essa palavra para descrever o que ocorreu aquele dia.

Eu entendia o ponto de vista de meu pai, da minha mãe, mas... Não queria abrir mão daquilo que eu tenho em troca de um casamento forçado. Mais um gole. Sentia o calor do líquido descendo e se espalhando pelo meu peito, era viciante. Todavia, o casamento teria um impacto bom para a vila, principalmente para o templo e o seu futuro.

Posicionei minha xícara com força na madeira do chão. Não queria pensar sobre isso. Me deixava em uma posição frágil, e não era disso que eu precisava agora, nem nunca.

Voltei a observar a paisagem a minha frente, a sentir o vento congelante contra meu rosto nu e rapidamente escondi meu nariz na manta. Passei a filosofar sobre múltiplas coisas da vida enquanto terminava minha torrada que nem percebi quando alguém sentou ao meu lado, só notei quando falou, e ainda assim me pegando de surpresa.

– Linda a paisagem, não? — falou a pessoa. Não precisava virar o rosto para saber que o dono dessa voz era meu pai. Me afastei desconfortavelmente um centímetro dele. Se ele notou meu movimento, não comentou.

– ... É. — foi tudo que disse em resposta.

Silêncio novamente.

– Diga, Ryuji, — abriu a boca, depois de momentos de quietação. Assenti para que soubesse que estava ouvindo. — O que tu sabes sobre a vida?

– Tudo aquilo que já presenciei. — retruquei, sem hesitar. — O que mais tem a saber?

Ele me fitou por um bom minuto antes de voltar a observar o pátio novamente.

– A vida é formada de caminhos, rumos que tomamos, criamos. — começou. — Nem todo o caminho que tomamos tem estrada, e nem toda a estrada é feita de terra batida. O grande desafio daquele que caminha, porém, nem sempre é a estrada em si, mas sim a sua vontade, coragem, e confiança em si mesmo, de seguir adiante, pois a qualquer momento existe a possibilidade de trocar de rumo.

– Tendo em mente também que não existe somente a tua estrada, cruzamos caminhos com muitas outras a trajetória toda. — Continuou ele. — Algumas dessas outras estradas acabam se diluindo com a sua e vice-versa. Todo momento, nossas estradas estão cruzando, seja com aquela menina que anda na rua a procura dos pais, ou com aquele que é tudo para ti. — Ah... entendi onde ele quer chegar... — Mas mesmo diluída, as estradas são diferentes e em algum momento elas vão levar caminhos opostos. Não estou dizendo que elas nunca mais irão se cruzar, mas tenha em mente que a palavra “sempre” é muito forte.

– Pai, para que essas metáforas? Eu não vou terminar com Rin. — falei, cautelosamente.

– Nunca disse nada sobre você terminar com Rin, Ryuuji, só estou te dando um conselho.

– Não preciso de conselhos. — virei-me para a paisagem novamente. Não queria que aquilo que ele dizia fosse verdade. Nunca.

Notas finais
Heeey!!! Espero que tenham gostado.... Próximo update vem no fim ( espero) desse mês!!