Doki Doki

7 Capítulo 7


Se aproximava cada vez mais do Natal. Recebi as férias de inverno de braços abertos e aceitava todo o frio que me davam; precisava manter minha reserva de frio para conseguir sobreviver no verão escaldante... Avisei para o velho que ia passar o recesso na academia com os amigos com uma condição: tinha de passar o Natal em casa... blé.

Possuía, então, dois dias com meus amigos (principalmente com Rin) antes de voltar para casa, onde ficaria no máximo 3 dias antes de encher o saco, embora meu pai tenha dito que havia uma surpresa me esperando quando voltasse para casa.

Não me imporava muito com essa surpresa, queria que esses dias passassem rápidos, rápidos e produtivos. Tinha que fazer pesquisas de como... hmm... como fazer amor sem hã... machucar o parceiro... se você me entende.

Bem, de qualquer forma, passaria meu ano novo na academia, então tinha bastante tempo para passar com Rin e os outros. E mesmo não gostando de admitir... sentia falta do velho. E Shima e Koneko estariam comigo por bem ou por mal, então não tinha como ser uma péssima visita. Rezava para que não fosse.

Os dois dias passados com Rin foram bem normais, e quando digo normais quero dizer: passamos nossas manhãs na cama aconchegados um com o calor do outro, volta e meia nos beijando ou pegando num sono leve e preguiçoso. Após sair da cama almoçávamos e íamos bem agasalhados para fora dos dormitórios, sempre segurando a mão do outro, íamos para a clareira e conversávamos sobre coisas aleatórias ou polemicas, que sempre acabavam em briga, mas logo fazíamos as pazes. Para fim da tarde, entravamos mais para dentro da floresta onde Rin podia treinar com sua espada ainda na bainha enquanto eu meditava e observava seu treinamento. Admito que ele é muito fofo quando está concentrado, mas se dissesse isso para ele, me daria um soco, ou pior, me atacaria com a katana. Quando a fome batia, invadíamos a cozinha do dormitório de Rin e fazíamos uma janta junto com o demônio que cozinhava para eles. Kuro comia conosco e Rin sempre ameaçava fazer sopa de gato, pois os dois sempre entravam numa discução... isso me lembrava alguma coisa... talvez o meu relacionamento com ele. Uma das noites, Yukio se juntou a nós para a refeição, porém na outra recusara, afirmando que havia de comparecer a uma importante reunião com o Mephisto, o que era mentira pois logo que saiu do dormitório, vimos Mephisto na praça do chafariz pela janela da cozinha fazendo coisas misteriosas como sempre. Então, chegamos a conclusão que Yukio fora a um encontro, só não sabíamos com quem e Rin me prometera que descobriria e me contaria tudo depois. Nas duas noites anteriores dormimos em um quarto abandonado do dormitório de Rin e Yukio; entretanto, nessa última noite antes de minha partida, montamos uma barraca na floresta. Não na clareira, mas em um lugar também especial: uma nascente de rio no interior da floresta. O padrão das árvores sem folhas era cortado pela água que deslizava graciosamente colina abaixo. A grama e os arbustos perto do rio eram cheios de vida e com a cor mais forte, bem, tudo perto do rio ganhava mais vida, mesmo que no inverno. Ele era lindo. O rio prateado devido a luz do luar que refletia nas águas passageiras emitia um cheiro de grama-quando-chove misturado com fragrâncias, cuja eram encontrados só em florestas, que se juntavam com o cheiro de inverno. O vento fraco porém frio beijava nossos rostos quando queria. Não reclamamos, pois sabíamos que isso iria acontecer e combinamos que isso não nos atrapalharia. Ainda não chegara a nevar entre esses últimos dias, então não havia poças de barro espalhadas pela floresta, o que era bom: tínhamos mais lugares para escolher onde erguer nossa barraca.

Escolhemos um lugar a beira da nascente, onde podíamos observar as estrelas mais adequadamente. Pedi para Rin buscar galhos secos para montarmos uma fogueira enquanto armava a barraca, já que ele não tinha habilidade o suficiente nem para encaixar duas peças. Mais tarde, com a barraca erguida e nosso aquecedor natural queimando, ajeitamos nossos sacos de dormir ao lado de fora da barraca um do lado do outro e nos deitamos virados para o céu. Primeira coisa que notamos foi um mar de estrelas, todas brilhando e enfeitando o céu escuro de inverno. Nem o diamante mais caro da terra se comparava com as estrelas que osbervava com Rin. Fui pego de surpresa quando sua mão quente segurou a minha. Meu coração ainda escapava batidas toda vez que entrelaçávamos nossos dedos. Olhei para ele e seus olhos encontraram com os meus. Eles refletiam as estrelas que no céu estavam, suas iris azuis tão profundas quanto a imensidade do oceano, falava mais que a boca. Neste momento seus olhos gritavam... "Eu..."

– Eu te amo, Bon. — falou ele. Eu ri, e ele me encarou.

– ... É que eu sabia que você ia dizer isso. — Ele me encarou com um ar de dúvida — Pelo seu olhar. Ele fala tudo. — ... — E tambem te amo Rin. — acrescentei, dando-lhe um beijo na testa, quando percebi que ele não falaria mais nada.

Fomos logo dormir dentro da barraca quentinha, grande parte por causa do frio, mas também precisava acordar cedo no próximo dia se eu quisesse chegar em casa antes da comemoração de Natal. Perguntei se queria ir comigo; entretanto, recusou dizendo que alguém deviria ficar cuidando de Yukio e que esse alguém era ele. Demos alguns amassos antes de pegar no sono, lógico, não nos veríamos por inteiros três dias.

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A despedia havia sido algo simples e rápido, ainda mais com Shima me enchendo para não demorar e não ser dramático. Mas prometi que traria um presente de volta para ele. (Mal ele sabia que o presente seria sexo * risos*)

Exatamente o oposto da despedida, a viagem foi comprida e horrivelmente chata. Os segundos pareciam se arrastar, levando com eles trinta tijolos, cada qual pesando dois quilos. Shima conseguiu dormir a viagem toda (maldito), enquanto Koneko tentou ler um livro, porém acabou passando mal e tivemos que parar no meio da estrada para ele vomitar um pouco. Nojento, mas como sou seu amigo, ajudei-o com toda minha boa vontade, enquantoalguém dormia e babava todo o carro.

Na chegada, fomos recebidos pelo meu velho, e por Yaozo, com sorrisos e abraços desconfortáveis. Encontrei minha mãe na cozinha, já preparando a ceita com as irmãs Hojo, e ela me deu um tapa dizendo que foi muito rude de minha parte não contatar com ela durante o ano letivo. Sai resmungando da cozinha e fui para o meu quarto. Notei que ele estava muito bem arrumado para o meu padrão: o meu cobertor azul claro esticado perfeitamente sobre a cama, o relevo do travesseiro sendo a única imperfeição; minha escrivaninha, mais à direita, intocada desde o último dia que estivera ali, possuía um leve manto de poeira que cobria-a por inteira.

Joguei minha malinha no chão perto da porta e me deitei na cama. Macia, ahhh... que vontade de dormir e nunca mais acordar.... eu vou dorm-

– ATAQUE DO SHIMAAAA!!! — e assim dito, um macaco rosa pulou em cima da cama como se não tivesseninguém deitado nela.

– AI AI AI AAAAAAAAAAAI!!!! — urrei de dor. — SAI DE CIMA DE MIM! SAI DE CIMA!! — ouvia Koneko ao fundo pedindo para Shima sair de cima de mim.

– MAS BO~ON!!! FIQUEI COM SAUDADES DE VOCÊ — Shima fez cara de triste. — O único com quem você se comunica é o Rin... — conseguia ouvir a inveja em sua voz, mesmo sendo um pouco forçado.

–... — suspirei. — Tá certo. Nesses dias que estivermos aqui, será só nosso. Nada de... Rin, ou qualquer que sejam as namoradas de vocês — Shima interrompeu para me chamar de rude por não saber da vida amorosa deles — Não vamos nem falar sobre a academia, entenderam? — continuei, ignorando Shima e seus comentários inúteis. Os dois acentiram.

Claro, nunca prometi que não pensaria sobre Rin.

Hah. Não sei se passei um segundo sem pensar nele a viagem toda... Mas continuando: Nós três fizemos o que sempre fazóamos quando juntos em casa. Bagunça para encher os velhos. Estava muito frio, não me surpreenderia se nevasse a qualquer segundo, ainda mais por causa das nuvens pesadas que costuravam o céu formando imagens diversas.

A ceia na noite de 24 para 25 foi bem... igual a todas as outras. Como não somos cristãos, não rezamos nem nada, só festejamos o Natal para ter uma desculpa para festejar. Um exército de pratos quentes era colocado sobre a mesa comprida de jantar, que só era usada para ocasiões como essa. Na mesa, sentavam mais e mais pessoas com quem nunca conversei e nem sei o nome, mas já estava acostumado com isso. Era só sorrir ou fingir um riso fraco. Me perguntava como estava Rin... se ele estava pensando em mim tanto quanto pensava nele...

Não comi como comia todos os anos, estava de certa forma... confuso. Como se tivesse perdido um membro. Meu pai notara o meu estranho comportamento e depois que todas as visitas foram embora e só sobraram os de casa; ele me convocou para uma meditação. Achei estranho porque ele nunca me chamara para meditar ao seu lado antes, eu que me metia em suas meditações...

De qualquer modo, nos sentamos na área de meditação após acender umas velas aromáticas e espirituais, rezamos para os espíritos guardiões e em seguida o ambiente foi tomado pelo silêncio. Sentei firme em meu posto tentando me concentrar na meditação, entretanto, como veneno, meus pensamentos foram transformando-se em pensamentos sobre Rin. Deixei um suspiro sair e desisti de tentar me concentrar na meditação, em vez disso fiquei olhando para o fogo das velas que dançavam na escuridão do quarto. Aquilo me distrariu por uns bons cinco minutos, faltavam agora mais ou menos vinte e cinco minutos para o velho terminar a meditação. Maravilha.

Soltei outro suspiro, esse porém, de tédio mesmo. Minhas costas já estavam doendo e nem faziam dez minutos desde que nos sentamos para meditar. Mais um suspiro. Outros dez minutos: não conseguia sentir minhas pernas direito. ... Isso estava ficando patético até para mim. Usei todas as minhas forças de pensamento para me concentrar em meditar, e acho que levei uns quinze minutos para isso pois quando finalmente consegui me concentrar, meu pai se virou para me encarar.

– Por que suspiras tanto? — perguntou ele, cortando a minha concentração recém adquirida, me irritando. Bem, não é como se fosse culpa dele. Suspirei outra vez.

– Como assim? — perguntei.

– Você está suspirando a cada segundo. Está tudo bem?

–... tudo ótimo. — não, tudo péssimo, mas não pretendia contar para ele o porque. Estava realmente sendo dramático, mas para a minha defesa, essa era a primeira vez que fiquei longe de Rin por mais de doze horas.

– O que foi? É uma menina que está em seus pensamentos? — testou ele.

– Não é uma menina. — falei sem hesitar. Estava certo, né? Não era uma garota, então não precisamos entrar nesse assunto. Nunca que passaria pela cabeça dele que eu tenho um namorado.

– ... um menino então? — certo, isso havia realmente me pego de surpresa, não sabia como reagir, e mentir não era o meu forte, então virei a cara pro outro lado e fingi que não ouvi a pergunta. — É isso, Ryuji? — sua voz não era acusatória, só genuinamente interessado.

Não sabia o que responder. Ficamos sentados por muito tempo na sala de meditaçao, eu criando buracos no chão com o meu olhar e meu pai em mim. Depois de um tempo, ele se levantou e falou para eu o segui-lo, e fiz como mandara.

Fomos para seu quarto. Fiquei esperando ao lado da porta enquanto ele ia para o criado-mudo perto da cama fuçar nas gavetas até achar o que procurava. Voltou-se para mim e me entregou um envelope. Hesitei antes de abrir, olhando para ele com curiosidade antes dele me mandar abrir.

Dentro do envelope, havia uma foto e um texto. O texto era muito comprido para me interessar no momento, então peguei a imagem primeiro. Era de uma garota, que parecia ter a minha idade. Olhos verdes, um tom a cima do normal. Sua pele clara, mas não tão clara e perfeita quanto a de Rin, era um contraste com os cabelos castanhos, longos e levemente ondulados. Reconhecia ela de algum lugar, o formato do rosto me era familiar.

– Esta é... — tentei me lembrar do nome dela.

– Natasha. — completou ele. — Se lembra dela?

– ... — usei todos os meus neurônios para me lembrar dela. — Eu brincava com ela quando menor?

– Sim. — respondeu ele.

– E o que que tem ela?

– ...Ela é sua futura esposa.

...

Deixei o envelope e todas as coisas de dentro caírem no chão.

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Meu Natal foi trágico.

Não trágico porque passei ele com Yukio, não, nós passávamos o Natal sempre juntos. Mas porque ele decidiu trazer a namorada dele para comemorar conosco. E não era ninguém mais ninguém menos que *som de tambores no fundo* Shura! Sim, leu certo, SHURA. E para melhorar, Bon não estava comigo para me fazer companhia, assim, sofri em dobro pela Shura: sofri seus ataques de abraços, sofri pelo cheiro de álcool que nunca saia do corpo dela. E pior de tudo sofri vendo meu irmão beijando ela... traidor. Sério, queria poder ter chorado sangue naquela hora, talvez daí a minha visão ficasse embaçada e perderia de ver algo que me assombraria pra sempre.

Fora isso, o Natal foi aceitável. MENTIRA. Ele foi todo péssimo de todos os ângulos e formas possíveis. Shura decidiu cozinhar porque era Natal e me expulsou da cozinha, toda vez que entrava para ajudar ela invocava sua espada e tentava me cortar, mas para minha sorte, como a cozinha era apertada e e ela não queria derrubar nada, ela nunca chegou a me acertar. Meu único consolo era Kuro, que também achou muito estranho tudo. Quando dei a primeira garfada no peru na janta (número um), conseguia ainda sentir a carne mole e muito mal passada e tive ânsia de vômito. Peguei o suco rapidamente para amenizar o gosto escroto que senti, porém, o suco estava com um excesso exorbitante de açúcar o que só fez piorar. No fim, tive que levantar ir ao banheiro e... bem, você sabe o que aconteceu. Quando voltei do banheiro, percebi que os três também estavam sofrendo o mesmo que eu sofri.

No final, tive que fazer uma janta com o que sobrou da tentativa falha de uma janta de Natal. Botei o peru no forno para ver se conseguia arrumar ele de alguma forma; joguei o açúcar com suco fora e encontrei alguns limões para fazer uma rica limonada suíça com a quantidade certa de açúcar desta vez. Fiquei com pena de Shura, mas não o suficiente para deixar ela me ajudar na cozinha. Pensando melhor, preferiria que ela ficasse ao meu lado, bem longe do meu irmão, não queria nem pensar no que estavam fazendo no lado de fora da cozinha. Estremeci.

E assim, na nossa tentativa de janta número dois, os pratos cheiravam deliciosamente bem, de dar água na boca. Nossos estômagos dançando e pedindo para serem enchidos. Enfiei a faca para cortar o peru, quando ouço uma voz vindo em nossa direção do corredor.

– Mas que cheiro MAGNÍFICO! — fala Mephisto, entrando no refeitório batendo portas. Parou na frente da ave assada, só alguns centímetros de tocar com seus fios de cabelo roxo nela. — Posso ter um pedaço disso aí, Rin?

Ponderei essa opção por um tempo, até que a mandei a merda: era Natal, todos mereciam ser felizes hoje. Falei que sim para ele.

– HAH! A cultura humana e sua habilidade de criar feriados para poderem comer comidas gostosas uma vez por ano! ADORO! — ele levantou o prato do peru e o avaliou de todos os ângulos. — Isso vai servir. ADEUS! — e assim, saiu correndo com o prato de peru em mãos.

Ficamos os três sentados em nossas cadeiras, olhando para onde a ave estava a alguns segundos atrás. O cheiro dela ainda invadia nossas narinas famintas. Kuro era o único que protestava ao meu lado, entrando em crise.

–... E agora? — perguntou Yukio, porém, ninguém se sentiu com obrigação de responder, nossas barrigas sendo as únicas falando, até Kuro se calou depois de um tempo.

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E foi assim que fomos parar no meio das ruas da cidade grande. Achamos um lugar bem barato para comer, porque quem estava pagando era Shura, já que nós dois não possuíamos dinheiro algum. Comemos ramen na noite da ceia de Natal, incrível. Esperava que Bon tivesse tido um Natal muito mais aconchegante. Bon... como será que ele estava? Aquela última noite que passamos juntos fora algo especial, espero que tenhamos outros momentos especiais como aquele no futuro.

Terminanos nossos pratos e pagamos pela comida, desejamos um feliz natal para o cozinheiro e vagamos pela cidade. Eram 23:54 quando recebi uma mensagem de Bon. Nela dizia:

De: Bon Bon Bon BON
Feliz Natal Rin!
Beijos, Bon. Saudades. Te amo.

Corei. Será que ele havia pensado em mim tanto quanto eu pensei nele? Shura notou que minha expressão mudara e apanhou meu celular para ler a mensagem.

– Você e Suguro estao namorando? — perguntou ela, perplexa. — Ew, que nojo, vocês dois juntos era a última coisa que eu esperava.

– OLHA QUEM FALA!! — retruquei. Peguei meu celular da sua mão e escrevi uma resposta. Botei meu celular no bolso e me concentrei em voltar para o dormitório com Yukio, Kuro e Shura.

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Eram 23:43 quando decidi mandar uma mensagem para Rin, mas foi só as 23:54 quando pensei em algo bom e criei coragem para mandá-lo. Esperei também um minuto e meio para receber sua resposta

De: Rin Okumura
Espero que seu Natal tenha sido melhor que o meu :/
Contando os dias para sua volta, também te amo.

Não respondi. Não tinha o que responder.

Joguei meu celular na escrivaninha e me revirei na cama. Faltavam cinco minutos para ser dia 25, mas isso não importava, estava cansado de corpo e alma, precisava descansar. Mas claro, quem conseguiria dormir se tivesse ouvido o que eu ouvi?

Peguei no sono uma hora e alguns minutos mais tarde.

Notas finais
yooo~ mais um capítulo!! yay!