Notas iniciais
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Acordei muito cedo naquela manhã de sábado, na verdade, nunca fui muito de ficar na cama até tarde. O céu ainda estava escuro quando finalmente voltei a minha total consciência de onde estava e do que deveria fazer naquele dia. Foi quando o motivo que me fez acordar tão cedo voltou a minha mente: o “encontro” com Alice. Bem, encontro não era a melhor expressão a se usar, mas eu não sei outra forma de designar, então fica por isso mesmo.

Levantei-me e observei melhor o quarto escuro. Meu cabelo estava uma verdadeira selva emaranhada que sei que dificilmente conseguiria levar menos de 10 minutos para dar um jeito nele. Espere, já que eu iria sair de casa, o que iria vestir? Não tinha nada de muito chamativo ou bonito, nunca fui muito chegada em moda e sempre comprei o que me parecia mais confortável. Acho que não é a toa que as pessoas daquela escola não gostem muito de mim. Alice andava sempre tão bonita e era tão cheia de estilo que provavelmente só iria passar vergonha ao lado dela. Abracei minhas próprias pernas, o que iria fazer?

Foi quando lembrei de que ela havia deixado seu número de celular comigo. Peguei a lista de contatos e vi que também era o número do seu whatsapp. Eu poderia simplesmente mandar mensagem para ela e desmarcar tudo isso. “Não somos amigas, eu não tenho nenhum compromisso com ela” pensei enquanto digitava a mensagem. Mas... E se ela estiver certa? Talvez eu estivesse desperdiçando meu cabelo, desperdiçando a oportunidade de ser mais bonita. Suspirei e levantei-me enquanto me levantava para tentar me arrumar.

***

– Uau! Você está bonita! Nunca pensei que te veria vestida com algo que não fosse blusa de frio e calça jeans – Disse Alice sorrindo. Olhei para mim mesma, não havia nada demais em minhas roupas, a única diferença era que ao invés de calça eu estava usando shorts não muito curtos, uma blusa preta e um casaquinho bege por cima.

– Ahh... E-eu... Não tem nada demais comigo – Se eu soubesse que seria tão simples assim não teria me preocupado tanto. Foi então que ela deu uma pequena risada enquanto me olhava. O que eu havia feito? – D-do que você está rindo?

– Nada, é que eu estou feliz – Disse simplesmente – Você anda somente com os melhores e mais inteligentes alunos, não é? E eu sou apenas burra e muito sem graça. Eu tinha medo de que você me odiasse ou simplesmente não gostasse de mim.

– N-Não tem como algum odiar você – Comentei, quase incrédula de que alguém como ele se sentisse insegura em algum momento de sua vida.

– Eu sei! – Estava demorando... – E é por isso que eu estou feliz! Venha! O salão é por aqui.

Estávamos em um pequeno Shopping em Port Angeles, que era apenas alguns quilômetros de Forks. Era sorte eu ter acordado tão cedo, pois Alice passou na minha casa antes das 9h, pois teríamos que chegar aqui assim que abrisse. Ela realmente era uma garota que não dava pra se entender, porque mais alguém levantaria tão cedo para me levar para sair justamente no sábado? Ela era muito cobiçada entre os garotos, não teria namorado? Eles não saíram juntos ontem? E se não saíram porque não estavam juntos hoje? Porque ela queria passar parte de seu fim de semana comigo?

Paramos em frente a um belo salão pintado nas cores lilás, branco e preto. Com certeza era bastante chamativo para aqueles que não conheciam. Alice segurou minha mão e puxou para dentro, paramos ao lado de um homem de cabelos loiros curtos que dispensava uma cliente.

– Allliiiiiiiiiceeeeeeeee! – Gritou ele com uma voz afeminada me fazendo dar um salto de susto.

– Bichaaaaaaa vagabaaa – Gritou Alice de volta, indo até o rapaz para abraçá-lo. Os outros funcionários do salão não fizeram sinal de terem ouvido, provavelmente já haviam se acostumado com episódios desse tipo.

– E então minha diva, o que temos para hoje? E quem é essa gata do seu lado? – Perguntou ele olhando pra mim, claro que recuei um pouco.

– Essa é minha ultra-amiga de escola Isabella Swan, mas pode chamar de Bella mesmo. Esse é o Beto, Bella, meu cabeleireiro mais amado do mundo!– Vai devagar Alice, pensei um pouco corada. Definitivamente, Alice era estranha.

– É um prazer tê-la aqui Belinha! Me acompanhe – Levou-me até um lavatório onde lavou meus cabelos, em seguida fez uma hidratação e me sentou em uma cadeira na frente do espelho e se pôs a pentear os fios – Seu cabelo é muito bonito! E então... Como gostaria de cortá-lo hoje?

– Eu acho que você pode cortar as pontas e fazer um repicado. Ficaria legal se tingisse ele de loiro, mas você gosta da cor dele não é? – Espera aí, não estávamos radicalizando as coisas?

– Er... Alice...

– Desculpe Bella, eu acabei decidindo por você sem me certificar de sua opinião.Po de dizer – Eu encarei aqueles olhos azuis por alguns segundos, nos conhecíamos ontem e parecia que ela já exercia um controle total sobre minha vida. Ainda assim, não podia deixar de acreditar no que eles diziam. Por algum motivo senti que não éramos tão diferentes assim, ela não iria me fazer mal.

– V-você fazer t-tudo do jeito q-que Alice sugerir...

– Sério?- Os dois perguntaram enquanto me encaravam surpresos.

– E-eu não entendo nada sobre esse t-tipo de coisa, e-então apenas faça o que ela sugerir, certo?

Não foi preciso falar duas vezes, Alice já foi puxando o cabeleireiro para o canto passando as instruções do que o mesmo deveria fazer. Depois de horas e horas (talvez não tenha sido tanto assim) sem que eles me deixassem eu me ver no espelho, finalmente o trabalho terminou.

– Aqui está! – Disse ele me virando para o espelho. No lugar da menina de longos e desgrenhados cabelos havia uma moça de belos cabelos loiros com corte moderno. Não me reconheci por um instante – Você gostou? Assim pode ver a parte de trás do cabelo – Colocou um espelho atrás de mim, pude ver que meu cabelo formando leves ondas na parte de baixo. Agora o comprimento dele batia em dois palmos abaixo do ombro. Ainda estava grande, mas para quem era acostumada a ter o cabelo tocando o bumbum a vida inteira foi uma mudança radical – É uma mudança e tanto.

– Isso é... – Com certeza era grande. Não estava loiro demais? Alice não havia dito que gostava dele? Que a cor era bonita? Isso quer dizer que tudo havia sido um truque? Ela fingiu ser minha amiga, mas na verdade me odeia e queria só me enganar.

– Eu... Está tão ruim assim? – Perguntou Beto com uma cara assustada. Provavelmente a mesma que eu fazia.

– Bella, mal posso esperar para ver seu novo cabelo! – Alice vinha correndo.

–E-eu fiz exatamente o que você pediu Alicinha – Disse ele assustado e já se justificando. Alice parou de andar e ficou me observando com a boca aberta, parecia perplexa com a mudança.

– Está tão... Você está tão linda! Ficou realmente perfeito em você – Disse enquanto me abraçava.

– S-sério? – Perguntei sem acreditar. Ela realmente parecia feliz.

– Sim, ficou realmente bonito. Já pensei em pintar o meu, mas por ele ser um pouco fino tenho medo de que estrague. Gostaria muito de que ele fosse como o seu.

– S-Sim. Eu sabia o tempo todo que havia ficado ótimo nela – O loiro quase chorava de alívio. Eles conversaram sobre mais alguma coisa, mas não prestei atenção. Ainda encarava meu próprio reflexo no espelho.

– E quer saber de uma coisa... Se antes você já não perdia em nada no quesito beleza para as garotas do colégio, agora as ultrapassou de longe – Ela estava escorada no encosto de minha cadeira e mais uma vez senti meu rosto se avermelhar com sua fala. De repente, arregalou os olhos como se houvesse se lembrado de alguma coisa – Por favor, não diga para as outras meninas, ok? Não posso achar nenhuma das minhas amigas mais bonitas do que as outras ou sou morta imediatamente.

Não me contive e comecei a rir e conseqüentemente ela riu também. Realmente aquela menina era curiosa, eu acabei por gostar de tudo isso. Mesmo com minha insistência, a morena não deixou que eu pagasse por nada, dizendo que era um presente de boas vindas. Despedimos-nos do cabeleireiro com a promessa de voltar mais vezes, mesmo que para uma visita.

– Por que não vamos beber algo agora? – Sugeriu ela. Levantei a sobrancelha, ela ainda não era menor de idade? Como se tivesse interpretado meus pensamentos, Alice apenas riu. — Não quis dizer isso, sua boba! Ia perguntar se você não quer ir ao Mc Donalds!

– Eu estou morrendo de fome...

– Melhor que comemos também! Vem – E me puxou para o local onde desejava ir – Te falei que seus olhos verdes são os mais bonitos que já vi?

– Alice... – Reclamei – P-por favor, não me deixe constrangida – Ela apenas sorriu, mas nada disse em resposta.

Talvez por causa do meu cabelo estar mais curto ou pelo brilho que o mesmo emanava, mas eu realmente me sentia mais leve.

***

Cheguei em minha casa no meio da tarde. Alice queria passear mais um pouco pelo shopping, mas eu a fiz lembrar dos exames que tínhamos na próxima segunda feira e ela concordou em irmos embora. Antes de eu sair do carro, ela e abraçou e deu um beijo na bochecha o que me fez ficar extremamente vermelha, como sempre, é claro. Entrei na casa silenciosamente e quando ouvi um “boa tarde, Bella” tive a impressão de que ia morrer com o susto.

Meu pai andou da cozinha até ali para me ver melhor, normalmente ele não estaria em casa nesse horário e isso era o que havia feito eu me assustar. Ao me ver, seu rosto fez uma expressão de surpresa e confusão, com certeza ele não imaginava que a mudança seria tão radical.

– Oi pai – Digo tentando acabar com o silêncio constrangedor.

– Bella, você... – Começou, mas acabou por ficar sem palavras.

– É – Corei – Eu mudei um pouco o meu cabelo. O senhor gostou?

– Um pouco não é o melhor adjetivo que você pode usar. Ficou bem diferente, mas está bonita – Ele respondeu por fim, vindo até mim e me dando um abraço. Estranhei, Charlie não era dado a esse tipo de demonstração de afeto – Sabe que pode me contar as coisas, não é?

– Eu sei pai – Aquela conversa estava estranha. Pra mim em casa sempre houve um pacto silencioso de que desde que eu não fizesse besteira, não precisaria contar mais do que Charlie precisava ouvir.

– Que bom. Sua mãe disse que assim que você chegasse, ligasse a webcam pois ela queria ver seu novo corte de cabelo.

– Você contou pra ela? – Perguntei levemente chateada, Minha mãe ia ficar falando horas a fio de como tomo as decisões sem contar para ela.

– Me desculpe. Ela ligou pro seu cel tentando falar com você e como não conseguiu ligou aqui em casa. Como você nunca sai, ela me perguntou porque e eu acabei dizendo –Se justificou um pouco sem graça.

– Tudo bem. Vou lá acabar logo com isso... – Subi as escadas indo para o meu quarto. Ele não era muito grande, apenas uma cama de solteiro, uma escrivaninha, uma pequena estante para livros e uma cômoda. Suas paredes eram pintadas na cor verde desde que eu era criança. A velha cadeira de balanço que minha mãe usava quando eu era bebê ainda estava ali no canto.

Ajeitei meu cabelo da melhor maneira possível em um espelho que havia ao lado da cama e me sentei na cadeira de frente a escrivaninha, ligando meu notebook logo em seguida. Não podia deixar de ficar nervosa enquanto a máquina ligava e a internet conectava. Assim que carregou, mandei uma mensagem no whatsapp para minha mãe enquanto entrava no programa para fazer a conexão.

Logo pude ver o rosto belo e sorridente da mulher que havia me dado a luz na tela do computador. Rennê era uma mulher bonita, alegre e jovial, não aparentava os anos que possuía. Diferente de mim que nessa idade já parecia um zumbi. Suas feições haviam melhorado bastante depois que eu me mudei para cá. Não que ela se sentisse feliz em se livrar de mim (talvez até sentisse, mas nunca demonstrou), mas por poder acompanhar o marido nos jogos q fazia pelo estado.

– Belliiiiiinha, meu Deus. Como você está diferente! Está tão bonita! Porque decidiu do nada mudar? Onde arrumou o cabelo? Porque você não me contou antes? Quem é a amiga que foi com você? Você a conheceu na escola? Há quanto...

= Mãe, por favor, calma! Uma pergunta de cada vez!- Voltei para a única pergunta de que me lembrava – O nome dela é Alice, mãe. Eu a conheci na escola.

– E porque decidiu mudar? – Contei toda história para minha mãe, escondendo, é claro, o fato de ficar corada na presença de Alice. Já era constrangedor o suficiente que apenas ela soubesse.

– Entendi... – Disse minha mãe sorrindo, seus cabelos castanhos estavam um pouco abaixo dos ombros e seus olhos exibiam um brilho estranho – Agora me conta, tem algum gatinho envolvido nisso tudo? – Não sei que expressão fiz, mas acabei abaixando a cabeça e ficando sem graça.

– Não mãe... Claro que não. Só porque as pessoas decidem mudar não quer dizer que estejam interessadas em alguém – Na verdade, eu nunca tive muito interesse em meninos, sempre me senti deslocada quando ouvia as garotas da escola comentavam quantos haviam beijado.

– Eu sei, meu amor. Só estou curiosa – Ela riu – Vou desligar aqui. Phill me chamou para assistir o treino dele e eu prometi que ia.

– Ok. Se cuide, mãe.

– Você também, minha princesa. Fico feliz que tenha feito uma nova amiga!

– Eu também – Disse e sorri, fazendo-a sorrir em resposta. Ela desligou e eu fiquei refletindo um pouco sobre meu dia enquanto juntava minhas coisas para estudar.

No fundo, eu estava realmente feliz. Talvez fosse um pouco precipitado, mas me sentia ansiosa para ir à escola na segunda. Eu finalmente tinha uma amiga, minha primeira amiga.

Notas finais
Obrigada a todos pelos comentários! Abraços!