Notas iniciais
Oi, gente! ❤️ Não poderia deixar essa data passar em branco! Hoje é Dia das Crianças e também dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso país. 🇧🇷🙏🏻 Então, nada melhor do que comemorar essa data com uma historinha especial! Boa leitura.

Era feriado, o tipo de dia feito exclusivamente para um ser humano passar vinte e quatro horas deitado, alternando entre dormir e comer.

​Hyoga acordou devagar, deu aquela espreguiçada longa que fez até os ossos estalarem e, num gesto automático, jogou o braço para o lado para puxar o namorado para perto. Tateou o lençol. Nada. Sentiu apenas o vazio e o colchão já meio frio.

​Ele abriu um dos olhos, confuso, e olhou para os lados procurando por Shun, mas o quarto estava completamente vazio. Deu um suspiro pesado e esticou o pescoço para espiar o relógio digital na cabeceira.

​6:00

Hyoga piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava delirando por causa do sono. Seis da manhã. Em pleno feriado.

​Ele se levantou arrastando os pés e coçando os olhos. Quem, em sã consciência, acordava àquela hora se não fosse obrigado a trabalhar ou, no caso deles, se não tivesse nenhum deus mitológico tentando destruir a Terra? Salvar o mundo até justificava o despertador tocar antes do sol nascer, mas numa segunda-feira de folga prolongada?

Ainda meio zonso de sono, vestindo apenas um samba-canção e com o cabelo loiro apontando para todas as direções possíveis, Hyoga abriu a porta do quarto e começou sua busca pelo namorado. Não que fosse uma tarefa muito difícil; o apartamento deles em Tóquio tinha tão poucos metros quadrados que, se ele esticasse muito os braços na cozinha, corria o risco de tocar a parede da sala.

​Ele foi seguindo o barulho baixinho que vinha da cozinha, pronto para arrastar Shun de volta para baixo das cobertas na marra.

​Hyoga nem precisou procurar muito. O cheiro de café preto — daquele bem forte e encorpado que ele adorava tomar sem uma única gota de açúcar — invadiu o ambiente e funcionou como uma corda, puxando o loiro pelo nariz. Mas o que realmente o atraiu não foi o aroma da bebida, e sim a voz baixa de Shun, que cantarolava uma música qualquer enquanto se movimentava.

​As janelas e as cortinas da cozinha minúscula já estavam escancaradas, deixando a luz clara da manhã entrar. Shun estava ali, concentrado, terminando de passar o café no coador de pano. Ele olhou para o lado e abriu um sorriso enorme ao dar de cara com a figura do namorado: Hyoga estava descabelado, com os olhos meio fundos e arrastando os chinelos pelo piso.

​— Acordou cedo — constatou, pensando que não havia como começar o dia melhor do que com o sorriso de Andrômeda.

​Hyoga se escorou no batente da porta, cruzando os braços. Ficou ali olhando para o namorado, que também estava com os cabelos um pouco bagunçados, os olhos inchados e roupas de ficar em casa. Mas, aos olhos do loiro, Shun estava absolutamente perfeito, mesmo com resquícios de sono no rostinho.

​— Eu senti falta de você na minha cama — jogou seu charme, com a voz ainda rouca.

​Shun soltou uma risadinha, olhando para o samba-canção dele e para o cabelo arrepiado.

​— De mim ou do meu corpo servindo de aquecedor elétrico?

​— Do seu corpo... Ele me aquece muito bem — Hyoga sorriu, aproximando-se.

​— Até parece que você não tem lençol...

​— Você faz um serviço bem melhor, e sabe disso... — O loiro colou o corpo no dele e deu um beijo suave bem na orelha de Shun, abraçando-o por trás.

— Hyoga... você vai me fazer derramar o café! — Shun deu um leve sobressalto, sentindo um arrepio gostoso, e tentou se concentrar no que estava fazendo.

​Hyoga apenas riu baixinho, beijando o pescoço dele e dizendo que depois era só passar outro. Na verdade, a última coisa que Hyoga queria passar àquela hora era café; a intenção dele era passar o rodo em Shun mesmo.

​— Vem comigo... — O loiro começou a arrastar o namorado para longe do fogão, fazendo o garoto finalmente largar o coador de pano.

​Shun sorriu, rendendo-se ao puxão, e Hyoga aproveitou para lhe dar um beijo de verdade, daqueles demorados de bom dia.

​— Esse é um ótimo dia para a gente passar inteirinho dentro do quarto — Hyoga murmurou contra os lábios dele.

​Shun semicerrou os olhos.

​— Fazendo o quê?

​— Adivinha? Podemos fazer o que você quiser... — O loiro sorriu, descendo os lábios para o pescoço de Shun, que exalava aquele cheiro gostoso do hidratante de todo-dia da Natura que ele tinha passado depois do banho.

​Shun soltou uma risada fofa, sentindo cócegas, e tentou empurrar o peito nu de Hyoga de leve.

​— Não posso, Hyoga. Vou ter que recusar.

​— Tá fazendo frio... — Hyoga resmungou bem no pé do ouvido dele, apertando mais a sua cintura. — E eu estou com saudades do seu calor.

​Shun suspirou, deixando-se levar pela sensação daqueles braços ao redor de si, e até jogou a cabeça para trás, apoiando-a no peito desnudo do loiro.

​— Hyoga... — ele suspirou.

​— Eu adoro quando você chama meu nome assim, suspirando. Amo os suspiros que saem dos seus lábios. — Dizendo isso, Hyoga lhe deu um selinho bem gostosinho.

​Shun retribuiu o beijo, puxando o namorado de leve pela nuca, mas logo se afastou, quebrando o contato. Hyoga piscou, confuso com a interrupção.

​— Que foi? Tô com mau hálito? — O loiro bafejou na própria mão e cheirou rápido, desconfiado.

​— Se você estivesse com mau hálito eu já saberia, Hyoga... — Shun o tranquilizou. — Depois de passar a noite inteira deitado na cama comigo, roncou igual a um urso hibernando, eu já teria desmaiado.

​Hyoga fez uma cara de ofendido:

— Urso hibernando? Que calúnia! Eu não ronco.

— Ronca, sim. E não vem culpar o vento, porque a janela fica fechada.

— Não ronco. E, se roncasse, saberia. — Hyoga rebateu, mantendo as mãos na cintura de Shun.

— Como, se você estaria dormindo? — O garoto virou o rosto para ele, os lábios quase se tocando.

Hyoga estreitou os olhos, procurando uma resposta à altura.

— Tenho meus métodos.

— Seu sexto sentido, né? — Shun ergueu as sobrancelhas.

— Finalmente alguém reconhece meus talentos. — Hyoga aproveitou a proximidade para roubar-lhe um selinho.

Shun balançou a cabeça, divertido, antes de retomar o assunto.

— Tá bom, mas falando sério... O Shiryu me ligou agorinha.

​Hyoga revirou os olhos, mantendo os braços cruzados ao redor da cintura de Shun.

​— Ah, não... Diz para ele que a gente não quer peixe e nem maxixe hoje!

Shun apertou os lábios, tentando não entrar na onda da implicância.

​— Ele não ligou oferecendo isso, Hyoga.

​— Ótimo... — O loiro suspirou aliviado. — Então ele não chamou a gente para ir à igreja com ele, né?

​— Também não.

​— Maravilha. Avisa para ele que a gente já foi domingo passado e que já estamos completamente livres dos pecados por este mês — Hyoga brincou, puxando o namorado de volta para perto.

Shun deu uma cutucada na barriga dele, contendo a vontade de rir.

— Não, bobo! A Shunrei está na maternidade. O bebê vai nascer!

— Caramba, que legal! — Hyoga se animou com a notícia, mas não demorou a encontrar espaço para uma provocação. — Coitado do Shiryu. Vem aí mais um dragãozinho para terminar de arrancar todos os fios de cabelo que sobraram na cabeça dele.

Shun deu um tapinha no braço dele.

— Hyoga! Para de implicar com o coitado!

— Mas é verdade! — Hyoga insistiu, apertando Shun contra o peito

No fundo, ele sempre teve uma pontinha de inveja daquele cabelo perfeito e gigante do Shiryu, e estava secretamente feliz que a paternidade estava fazendo o amigo perder alguns fios.

​Mas, claro, ele só estava sendo o maior piadista do mundo ali porque sabia que ver o Shun rindo daquele jeito fofo era o passaporte perfeito para ganhar muito mais do que risadas naquela manhã de feriado.

​— Então, o Shiryu falou que eles não têm com quem deixar o Ryuho agora que a situação apertou no hospital — Shun explicou, olhando para ele com uma carinha de quem está prestes a pedir um favor enorme.

​— É quê?! — O loiro já ficou com as orelhas em pé, arregalando os olhos enquanto o cérebro processa a informação e projeta a imagem de um minidragão quebrando o apartamento inteiro. — E o que a gente tem a ver com os problemas da família Dragão, Shun?

​— Ele perguntou se a gente poderia cuidar dele... Só hoje, enquanto o Shiryu vê com quem ele pode ficar nos próximos dias.

​— Mas... Mas... — Hyoga gaguejou, caçando as palavras no ar, completamente desestabilizado. O clima de safadeza evaporando em um piscar de olhos. — Shun, não!

​— Vai ser tranquilo, amor... — Shun tentou acalmá-lo, fazendo carinho em seu ombro

​— Tranquilo? Shun, eu não sei cuidar nem de uma planta! O meu cacto morreu no mês passado e foi de sede! Um cacto, Shun! A planta que sobrevive no deserto do Saara não aguentou duas semanas sob a minha tutela, como é que você quer que eu cuide de um ser humano que se mexe?!

Shun mordeu o lábio para não rir do drama do cacto, mas logo respondeu:

​— Um cacto não sabe pedir água, Hyoga. O Ryuho sabe falar.

​— Mas por que a gente?! — Hyoga começa a gesticular, inconformado. — Por que eles não deixam o menino com o Seiya ou com o Jabu?

​Shun cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha com aquela cara de "você tá falando sério?":

​— Hyoga, você, em sua plena consciência, deixaria o seu filho — isso se você tivesse um — aos cuidados deles dois?

​Hyoga realmente parou e pensou na cena. Imaginou o Seiya jogando o menino para cima e esquecendo de pegar. Imaginou o Jabu apostando corrida de cavalinho com a criança no meio da rua e os dois indo parar no pronto-socorro.

​— É... Com certeza não — Hyoga respondeu. — Isso se eu não quisesse que o moleque chegasse vivo à idade de ir para o jardim de infância.

— Então... — Shun ajeitou-se nos braços dele. — Vamos cuidar dele!

— Mas, Shun... Eu não sei cuidar de criança! Sou um zero à esquerda com alguém que tem metade do meu tamanho e pode começar a chorar só porque olhei torto!

— Você vai se sair bem. — Shun tocou-lhe o rosto, sorrindo. — Considere isso um teste...

Hyoga franziu a testa.

— Teste de quê?

Shun escapou do abraço para arrumar as xícaras na bancada, deixando a pergunta sem resposta.

​Hyoga nem desconfiava, mas no fundo, o coração de Andrômeda já está lá na frente. Shun pensou muito no futuro dos dois e tinha um desejo secreto de, quem sabe mais para a frente, adotar um filho — ou quem sabe até encontrar uma forma mágica de engravidar e aumentar a família.

Aliás, colocar uma sementinha dentro dele e fazê-la germinar, depois de tudo o que os dois já passaram e de tudo o que já fizeram... Aquilo com certeza seria moleza. Se a Saori conseguia reencarnar a cada duzentos anos e os outros deuses faziam milagres bizarros toda hora, arranjar uma ajudinha divina para um teste de gravidez positivo em Andrômeda seria a coisa mais fácil da terra.

Hyoga deixou o mistério de lado, soltou um suspiro e cruzou os braços.

— Então vamos bancar a babá por um dia?

— Pelo que parece, sim. — Shun guardou o coador. — Daqui a pouco, o Shiryu passa aqui para deixá-lo conosco.

— Então seremos dois cavaleiros e meio?

— Certamente.

Hyoga espiou o corredor e voltou a atenção para o namorado com um sorriso enviesado.

— Ainda dá tempo de apagar as luzes, deitar no chão e fingir que não tem ninguém em casa.

​Shun soltou um suspiro longo, daqueles de quem está quase perdendo a paciência com o namorado. Hyoga percebeu o bico que se formava nos lábios dele, e resolve parar de brincar.

​— Tá, parei... — o loiro murmurou, amolecendo o tom.

— É sério, Hyoga. Vai dar tudo certo. — Shun procurou os olhos dele. — É só um dia.

O loiro passou a mão pelos cabelos, sem esconder a preocupação.

— Fácil falar. As crianças te adoram, Shun. Bem diferente de mim.

— Deixa de bobagem! Elas gostam de você também.

— Gostam tanto que, da última vez no mercado, eu fui tentar ser simpático e ofereci um sorvete para uma menininha que estava chorando. A mãe dela quase chamou a polícia achando que eu era um sequestrador.

Shun apertou os lábios, mas não conseguiu conter a reação.

— Você não tem jeito... — comentou, enquanto Hyoga o puxava pela cintura. — Só me faz um favor: não tenta ser você mesmo hoje, tá bom?

​— E como é que eu não vou ser eu?

​— Simples! Tenta sorrir mais, não fica com essa postura rígida e conversa com ele sem parecer que está dando uma ordem de quartel... E, por favor, não ofereça sorvete para nenhuma criança — o garoto listou.

​— Tá bom, anotado — Hyoga deixou armazenado na cabeça, por mais que achasse difícil.

​— E tem mais! — Shun emendou, segurando o riso. — Não vai tratar a criança igual a um cachorro! Nada de dizer "passa", "fica aqui" ou inventar de botar o menino para dormir no chão em cima de uma coberta velha.

​— Poxa, e eu que estava pensando em colocar um tapetinho higiênico no canto da sala e uma vasilha de Tupperware com água para ele beber quando quisesse... Ia me poupar um trabalhão.

Shun ainda estava tentando recuperar o fôlego quando a campainha tocou, anunciando a chegada do pequeno dragão.

— Eles chegaram! — avisou, escapando dos braços de Hyoga para ir até a entrada.

— Que os deuses tenham piedade do nosso sofá... — o loiro resmungou.

— Deixa de ser ranzinza! — Shun deu-lhe um beijo rápido e saiu apressado para atender à porta.

Da cozinha, Hyoga ouviu a voz animada do namorado cumprimentando o amigo de Libra.

​— Oi, Shiryu! — Shun falou muito contente. Pelo tom de voz meio sufocado que veio do corredor, Hyoga soube perfeitamente que o namorado acabara de receber um daqueles abraços de urso capazes de esmagar qualquer um.

​Os dois riram, e Shun perguntou se Shunrei estava bem. Shiryu, com aquela voz de pai babão e visivelmente aliviado, respondeu:

​— Sim, ela tá bem! Quer saber o sexo do bebê?

​— O quê? — Pela voz aguda soando da entrada, dava para perceber que Shun estava muito animado.

​Lá de dentro, Hyoga escutou Shiryu dizendo, todo orgulhoso, que era uma menina... Uma linda garotinha! Shun soltou um gritinho de alegria e deu os parabéns, quase pulando.

​Logo em seguida, Shiryu explicou que só passou ali voando para deixar o pequeno Ryuho, porque precisava correr em casa para buscar fraldas e algumas roupas que tinha esquecido. A bolsa de Shunrei havia estourado de surpresa e, no desespero, eles saíram correndo sem tempo de pegar quase nada. E blá, blá, blá... Hyoga, honestamente, não estava nem um pouco interessado naquele assunto de maternidade, mas até que ficou curioso quando escutou Shiryu mostrando a foto da recém-nascida para Shun pelo celular.

​Se fosse possível, Hyoga teria esticado o pescoço igual a uma girafa só para espiar a tela dali da cozinha. Depois, lembrou-se de que todos os bebês têm exatamente a mesma cara de joelho quando nascem, mas isso não impedia que fossem fofos.

​Enquanto o papo rolava na entrada, Hyoga aproveitou para ir até o quarto. Tirou o samba-canção, vestiu uma calça e uma camiseta, e olhou com profunda tristeza para a cama. Ele queria muito deitar nela de novo e esquecer que o mundo lá fora existia, talvez até fingindo um coma induzido pelo cansaço do feriado.

​Balançando a cabeça para espantar a preguiça, ele retornou para a cozinha, dando uma última olhadinha ao redor. Serviu o café preto na maior caneca que encontrou, enchendo-a até a boca, quase igual a um balde; ele sabia muito bem que iria precisar de cada gota daquela cafeína para conseguir aguentar o resto do dia — mesmo que corresse o risco de entrar em overdose ou ficar tão elétrico quanto Pégaso depois de dez latas de energético.

​— E aí, Shiryu... — Com a caneca pesada na mão, o loiro cumprimentou o amigo de longe com um aceno de cabeça.

​— Oi, Hyoga! — Shiryu sorriu lá da porta mesmo, segurando um monte de sacolas.

​Hyoga sempre fora um homem de poucas palavras com os outros, mantendo aquela pose mais reservada, e só se abria de verdade, mostrando seu lado palhaço e carinhoso, quando estava com Shun.

​Satisfeito com seu balde de café, ele se virou para ir em direção à sala, com a intenção de se jogar no sofá e assistir ao jornal matinal em paz, deixando que Shun passasse o dia correndo atrás do menino. Mas, ao dar o primeiro passo para fora da cozinha, ele quase se engasgou. O café queimou sua garganta e metade do líquido saiu pelo nariz em um jato quente.

​Ele deu de cara com a criança, que estava parada bem na sua frente, olhando-o fixamente de baixo para cima.

​— Ah... Oi? — Hyoga não soube nem o que dizer, enquanto o garotinho parecia julgar até a sua alma com aquele olhar. — Tudo bem?

​Ele ficou encarando aquele serzinho humano que nem tinha todos os dentes na boca ainda, segurando um urso de pelúcia pelo braço e ostentando uma cabeleira preta e espetada. Era, sem tirar nem pôr, a cara cuspida e escarrada do Shiryu. A única diferença marcante eram os olhinhos puxados, que ele havia herdado direto de Shunrei.

​Aliás, olhar para os traços do menino fez uma ficha antiga demorar um pouco para cair na mente de Hyoga. Por anos, desde a infância na Fundação Graad, Hyoga sempre tivera a certeza absoluta de que Shiryu era chinês — afinal, o cara morava em Rozan, usava roupas tradicionais e vivia falando de filosofias antigas. Tinha sido um choque cultural e tanto quando, já mais velho, Hyoga descobrira que o melhor amigo era tão japonês quanto o resto deles e que só fora enviado para treinar na China. Pensar nisso ali, olhando para o minidragão, quase o fez esquecer do pânico de ser babá.

Ryuho continuou imóvel, piscando os olhos inocentes para o loiro descabelado com a caneca gigante na mão. O desespero bate e Hyoga resolve falar a primeira coisa que vem à mente:

— Quer... café?

Hyoga arregalou os olhos e levou a mão à testa. Parabéns, gênio. Oferecendo café para uma criança de quatro anos.

— Quer pão? Leite? Um prato de sopa? — As opções foram saindo cada vez mais absurdas. — Ou prefere lutar contra um espectro?

Ele fechou os olhos, respirou fundo e se agachou diante do menino.

— Certo. Vamos tentar de novo. Eu sou o Hyoga. Tio Hyoga. — Apontou para o próprio peito, pronunciando devagar: — T-i-o H-y-o-g-a. Entendeu?

Ryuho continuou encarando-o, com a mesma expressão de quem estava tentando descobrir que espécie de adulto tinha aparecido na sua frente.

​Será que o menino só fala chinês porque cresceu em Rozan? Desesperado para quebrar o gelo, o Cavaleiro de Cisne juntou todas as suas memórias de quando ouvia o Shiryu conversando e tentou arriscar a única frase em mandarim que achava que lembrava:

​— Nǐ hǎo? — Hyoga limpou a garganta, tentando quase falar mandarim na marra com o garotinho. — Nǐ... chī fàn le ma? Você quer... um pastel? Um rolinho primavera? Pelo amor de Athena, me dá um sinal de vida, garoto!

​— O que você tá fazendo, Hyoga?

​Hyoga estava tão focado em conseguir pelo menos um "a" do garoto que nem viu quando Shun e Shiryu se despediram lá na porta, e muito menos percebeu quando o namorado retornou para o seu lado. O loiro deu um pequeno salto com o susto, e apontou para o minidragão:

​— Shun... ele veio com defeito de fábrica?

Shun franziu a testa e se agachou diante da criança.

— Por que você tá dizendo isso?

​No mesmo instante em que Shun ficou de joelhos, o rostinho sério de Ryuho mudou, abrindo um sorriso bem banguela e radiante.

​— Porque ele não fala!! — Hyoga exclamou.

​— O quê?

​— Sei lá, Shun! Vai ver que o moleque veio configurado em outro idioma de fábrica e a gente precisa achar o menu para mudar para o japonês nas configurações! — Hyoga desabafou. — Eu ofereci café, pão, leite, perguntei se ele entendia japonês, tentei até falar mandarim e o moleque ficou me julgando igual ao mestre Camus quando eu errava a postura no treino!

​E, nesse exato momento, quebrando todo o argumento do Cisne, o menino abriu um sorriso banguela, esticou os bracinhos e gritou:

​— Tio Shun!!

​O menino praticamente voou no pescoço de Andrômeda, prendendo os bracinhos ali com uma intimidade que deixou Hyoga de queixo caído.

​— Oi, meu amor! — Shun o recebeu no colo, cobrindo-lhe as bochechas de beijinhos.

Hyoga ficou de boca aberta.

— O que???

— Como assim ele não fala, Hyoga? O Ryuho fala até demais, é uma verdadeira matraca quando começa! O Shiryu vive dizendo que ele não cala a boca um segundo em casa.

​— Mas... Mas como? Mas... ele... — Hyoga gaguejou, falando coisas completamente desconexas, olhando do menino para Shun e de Shun para o menino.

​Enquanto isso, o namorado continuava brincando com a criança, jogando-a para cima e para baixo para depois enchê-la de beijos na barriga, arrancando gargalhadas do garotinho.

​— Eu juro que ele estava mudo até dois segundos atrás! — Hyoga insistiu, apontando a caneca para o minidragão. — Ele estava me desintegrando com os olhos!

​— Não seja dramático, amor... — Shun comentou, colocando Ryuho em pé no chão de novo.

​— Eu não sou dramático, Shun, eu pensei de verdade que ele fosse mudo!

​Shun começou a bagunçar os cabelos pretos e espetados de Ryuho. Hyoga cruzou os braços, bufando e resmungando que ia pedir ao Shiryu o manual de instruções do menino, enquanto Ryuho já segurava na mão de Shun, pulando de um pé para o outro.

​— Tio Shun! Tio Shun! Você viu? A minha irmãzinha nasceu!

​— Sim, eu vi!! — Shun retribuiu, vendo o pequeno tagarela desabar a falar sem pausas para respirar.

​— Ela é bem pequenininha e tem cara de uva, mas o papai disse que ela vai ser forte igual ao vovô Dohko! Eu vou ensinar ela a dar o soco do dragão na água!

​— É mesmo, meu lindo? — Shun respondeu com aquela voz doce, os olhos brilhosos de encanto.

​— Sim! — a criança disse, emendando um assunto no outro sem a menor lógica. — E no caminho para cá eu vi um cachorro amarelo que parecia um leão, aí o papai disse que leão voa, mas eu sei que não voa porque o dinossauro pescoçudo engoliu as asas dele! E ontem eu comi uma formiga preta na calçada e ela tinha gosto de terra molhada, o papai brigou, mas o gosto era bom!

Shun escutava tudo fascinado.

​Então a criança voltava a falar da irmã e dizia que ia ensinar a nadar na banheira que a mamãe comprou.

​— Que máximo! Ela vai ser muito sortuda de ter um irmão mais velho tão forte, inteligente e protetor como você.

​— Vai sim! — O menino estufou o peito e ergueu o urso de pelúcia. — E o meu urso também vai proteger ela de todos os monstros da floresta!

​— É mesmo? — Shun estava maravilhado com a imaginação do pequeno.

​— Sim! O nome do meu ursinho é Bilu... — O menino ergueu o bicho surrado, mostrando-o orgulhoso para os dois, embora ficasse bem claro que a atenção dele estava focada apenas em Shun.

​Hyoga ficou ali em pé na cozinha, assistindo àquela cena e sentindo uma pontinha de inveja. Era impressionante como tudo aquilo parecia tão natural para Shun. O namorado seguiu conversando besteira com a criança como se cada palavra fosse realmente a coisa mais importante do universo, escutando o garoto falar e falar sobre aviões, desenhos e como os dinossauros faziam para escovar os dentes gigantes.

​— Vamos ver desenho na televisão... — Shun finalmente disse, pegando a criança no colo e ajeitando o menininho de um jeito superconfortável no seu quadril.

​— Vamos!! — Ryuho vibrou, apontando para a sala feito um pequeno capitão comandando um navio.

​Os dois viraram as costas e foram em direção ao sofá, conversando animados sobre super-heróis e desenhos animados. Eles ignoraram o loiro, que continuou parado feito uma estátua no meio da cozinha, segurando sua caneca gigante de café e processando o fato de que tinha sido solenemente rejeitado pelo filho do Shiryu.

....

​O dia passou rápido. Enquanto isso, Shun e Ryuho continuavam na sala, assistindo a desenhos, brincando e correndo pela casa. Hyoga assistia a tudo de longe, bem escorado no canto da parede.

​Em um determinado momento, o loiro até tentou se juntar aos dois no sofá. Ele sentou ali e começou a encarar a tela da televisão, que passava um desenho em que um gato azul era brutalmente perseguido por um rato marrom.

​Hyoga franziu a testa, indignado com o roteiro, e não conseguiu segurar a língua ácida:

​— Shun, na boa... Qual é a lógica desse desenho?

​— A lógica é que o rato é esperto e o gato é bobão! — a criança respondeu, sem tirar os olhos da tela, achando que tinha encerrado o assunto.

​E então Hyoga retrucou:

​— O gato pesa seis quilos e apanha de um rato que cabe na palma da mão? Na minha terra, um felino desses já teria engolido esse camundongo e usado os ossos dele como palito de dente há muito tempo. Esse Tom é uma vergonha para a classe dos predadores.

​Ryuho, que estava com os olhos vidrados na tela, olhou para Hyoga com os olhinhos arregalados, absorvendo a imagem mental do Tom mastigando o Jerry. A boca do menino começou a tremer e os olhos se encheram de lágrimas.

​— O Rei Gelado quer que o rato morra... — Ryuho resmungou, achando o loiro tão chato, rabugento e estraga-prazeres quanto o vilão de Hora de Aventura, prestes a abrir o berreiro.

​— Hyoga! — Shun o repreendeu, jogando uma almofada na cara do namorado. — Para de falar essas coisas! Você vai traumatizar o menino!

​— O quê? Eu só estava comentando sobre a realidade da cadeia alimentar — Hyoga se defendeu, tirando a almofada do rosto. — A biologia não perdoa ninguém

​Suspirando fundo, Shun pegou o controle remoto e mudou rapidamente de canal para acalmar o pequeno dragão. Na tela, começou a passar o clássico do Papa-Léguas e o Coiote. O coiote montava uma armadilha complexa, que obviamente falhava e o fazia explodir. Hyoga achou o desenho violento, mas a criança gostou de ver o papa-léguas escapar.

​Hyoga olhou para a TV, soltou uma risada nasalada e atacou novamente com seu humor ácido:

​— Ah, fala sério. Outra mentira científica. É biologicamente impossível o Coiote não alcançar essa ave.

​— Ele alcança sim! — Ryuho falou, batendo o pé.

​— Na vida real, a velocidade máxima de um coiote é de quase setenta quilômetros por hora, enquanto a porcaria de um papa-léguas mal chega a trinta. Esse bicho azul já deveria ter virado janta no primeiro episódio. Sem contar que o Coiote gasta milhões em produtos ACME que explodem na cara dele. Se ele investisse esse dinheiro, comprava um estoque de frango para o resto da vida.

​Ryuho limpou o nariz na manga da camisa, virou-se para Hyoga de braços cruzados e rebateu o loiro:

​— Você não sabe de nada. O Coiote não pega o passarinho porque o passarinho é mágico e faz bip-bip! E o bip-bip dá superpoderes! Você tá com inveja porque não sabe correr rápido e fica só congelando as coisas!

​Hyoga piscou, incrédulo por estar sendo peitado por uma criatura que mal batia na sua cintura. Ele se inclinou para frente no sofá, entrando de vez na discussão:

​— Escuta aqui, minidragão, o bip-bip é só uma buzina anatômica, não dá superpoderes! E eu corro muito rápido sim, eu sou um Cavaleiro de Athena! Eu posso cruzar essa sala na velocidade da luz se eu quiser!

​Hyoga iria mesmo correr ali para mostrar como era veloz, já ameaçando levantar do sofá só de birra.

​— Não corre não! Você é devagar e tem cara de rabugento! O meu pai corre mais que você e o dragão dele voa! O seu cisne só boia na lagoa! — Ryuho mostrou a língua.

​Shun olhava para um e para outro, tentando saber quem era o mais infantil dali.

​— O meu Cisne voa e corta geleiras, seu projeto de calango!

​— Voa nada! Cisne só serve para passar frio e ficar com o bico congelado! O dragão cospe fogo e quebra tudo, e o seu passarinho branco é um frouxo!

​— Hyoga, chega! — Shun interveio, entrando no meio dos dois com os braços cruzados e uma expressão severa. — Dá para você parar de se comportar como uma criança e discutir com um menino de quatro anos?

​— Eu não sou criança e não estou discutindo, só estou trazendo fatos e dados para o debate!

​Mas, apesar de dizer que não era criança, Hyoga cruzou os braços com força, jogou o corpo para trás no sofá e fez um bico gigante, virando o rosto para o lado oposto idêntico a um garotinho mimado que acabou de perder o brinquedo.

​Shun olhou para a cena do namorado de vinte e poucos anos emburrado igualzinho ao Ryuho e teve que morder o lábio por dentro para não rir em pleno sermão.

Como punição pelo mau comportamento geral da sala, Shun bateu palmas e deu a ideia que sempre salvava qualquer tarde de feriado:

​— Chega de desenhos violentos e chega de debates biológicos. Vamos fazer pipoca!

​Hyoga, ainda no seu papel de adolescente incompreendido, resmungou alto sem desmanchar o bico:

​— Pipoca é sem graça.

​— Você é que é um sem-sal!

​Ryuho mostrou uma língua bem comprida para o loiro e correu para acompanhar Shun até a cozinha. Hyoga até tentou disfarçar a maturidade na frente do namorado, mas foi só Shun virar as costas para entrar no corredor que o Cavaleiro de Cisne descruzou os braços rápido e mostrou a língua para a criança de volta, fazendo uma careta digna de um rival de jardim de infância.

​Na cozinha, Shun colocou o pequeno Ryuho sentado em cima da bancada de mármore para que ele pudesse auxiliar — ou, no caso prático de uma criança de quatro anos, atrapalhar o processo o máximo possível. Enquanto Shun pegava a panela e o óleo, o menino acompanhava cada movimento com os olhos brilhando.

​— Tio Shun, por que a pipoca pula? — a criança perguntou, curiosa.

​Shun começou a explicar do modo científico: que o grão de milho tem água lá dentro, que o fogo esquenta essa água até ela virar vapor e que a pressão faz a casca estourar. Ryuho franziu a testa, com aquela carinha de quem não estava entendendo absolutamente nada.

​Percebendo a confusão, Shun mudou de estratégia na hora, sorrindo doce:

​— Sabe o que é? É que os milhos são muito tímidos. Quando a panela fica bem quentinha, eles ficam tão felizes e animados com o calor que começam a pular de alegria e estouram!

​Ryuho arregalou os olhos, fascinado com a resposta, e olhou de lado em direção à sala:

​— Entendi... Então seria bom colocar o Tio Gelado dentro da panela também. Aí ele esquenta, pula, estoura e fica feliz de uma vez!

​Shun soltou uma gargalhada alta com a ideia do "Hyoga estourado" e mexeu nos cabelos do menino:

​— Acho que o Tio Hyoga não caberia aí dentro da panela, meu amor. Ele ia entalar.

​Os dois riram juntos na cozinha, e a piada foi tão boa que até o próprio Hyoga, que fingia ler o jornal na sala, não aguentou e riu, desarmando o estoque de rabugice.

​Minutos depois, quando voltaram para a sala trazendo um enorme balde de pipoca, Hyoga viu o carinho imenso que Shun tinha pelo menino: o jeito cuidadoso com que soprava as pipocas e pedia para a criança comer devagar porque ainda estava quente, e a maneira hilária com que o próprio Ryuho ignorava os avisos e enchia a boca com tantas pipocas de uma vez que mal conseguia acomodar tudo nas bochechas, parecendo um esquilo gordinho guardando nozes para o inverno.

​Hyoga riu de verdade da cena, com o coração amolecendo. Ele se inclinou para a frente no sofá, aproximando-se dos dois:

​— Olha, minidragão, se você continuar entupindo a boca desse jeito, vai acabar engasgando e seu pai vai ter que providenciar um filho novo... — Hyoga comentou, mas o tom agora era leve e divertido.

​Ryuho mastigou rápido, engoliu com um esforço visível que fez suas bochechas de esquilo finalmente diminuírem e olhou para o loiro com os olhinhos castanhos cheios de dúvida:

​— Como? — a criança perguntou, curiosa.

​Hyoga deu um sorriso de canto, pegando um punhado de pipoca:

​— Ah, depois o seu pai te explica tudo sobre as cegonhas. E sobre encomendas especiais em Rozan.

​Shun cobriu a boca com a mão, rindo, porque sabia perfeitamente o tamanho do problema imenso que Hyoga acabara de jogar para o Dragão resolver quando voltasse. Que Shiryu se virasse para explicar biologia e lendas infantis para o menino mais tarde.

​No sofá, eles continuaram se divertindo e, para a surpresa do próprio Cisne, a tarde foi até bem legal.

​Hyoga não estava acostumado a uma vida a três. Ele preza pela calmaria, pelo apartamento organizado e pela rotina tranquila com o namorado. Mas ver a criança se espremendo entre ele e Shun no sofá, dando-lhe cotoveladas acidentais bem na lateral da barriga — que atingiam em cheio o seu fígado a cada movimento —, não parecia tão ruim assim.

​O menino ria, falava coisas sem nexo e continuava brincando, correndo, tropeçando nos próprios pés e falando muito mais do que os ouvidos de Hyoga eram capazes de suportar em um único feriado (enquanto se perguntava secretamente onde ficava o botão de desligar da criança).

​Para fazer o pequeno dragão finalmente parar de correr igual a um foguete pela sala minúscula e dar um descanso para o carpete, Hyoga teve uma ideia. Ele se levantou, foi até o quarto e voltou trazendo o caderno de desenho pessoal — aquele que usava bem escondido quando estava entediado ou com saudades da Sibéria.

​Hyoga sentou-se no tapete, abriu as páginas e sorriu, mostrando as constelações desenhadas a lápis com traços finos e detalhados.

​A cena que se seguiu foi uma das mais bonitas que o apartamento já tinha presenciado. Ryuho, fascinado, deitou-se de bruços ao lado do loiro, apontando com o dedinho miúdo e sujo de manteiga para as estrelas no papel. Com uma paciência que nem ele mesmo sabia que tinha, Hyoga começou a explicar cada uma delas. Mostrou a constelação de Cisne, a de Andrômeda, a de Dragão e até parou um tempo na Ursa Maior, contando como aquelas luzes no céu guiavam os marinheiros e os cavaleiros na escuridão. Ryuho ouvia tudo quietinho, maravilhado, olhando para o "tio Hyoga" como se ele realmente fosse o dono do céu.

​Shun observava os dois de longe, com o queixo apoiado nas mãos e o coração transbordando de amor, confirmando que o seu "teste secreto" havia sido aprovado com nota máxima.

​O dia terminou da melhor forma possível: com uma enorme barraca de lençóis e cadeiras montada bem no meio da sala de estar. Lá dentro do forte, o pequeno Ryuho estava espremido entre os dois tios, já quase cochilando.

​Os olhinhos puxados do menino pesavam a cada segundo, lutando bravamente contra o sono, enquanto ele segurava o urso Bilu contra o peito.

​Para dar o toque final de magia daquele Dia das Crianças, Hyoga elevou o cosmo de um jeito tão suave que nem esfriou o ambiente. Ele ergueu a mão livre e fez alguns cristais de gelo brilhantes e perfeitos surgirem no ar, fazendo-os girar devagarzinho ao redor da cabeça de Ryuho, como um móbile feito de estrelas reais refletindo a luz da lua que entrava pela janela. O minidragão sorriu, vendo o gelo dançar, e finalmente fechou os olhos, pegando no sono profundamente no calor daquela conchinha a três.

​No final da noite, Shiryu veio buscar o filho. Ele bateu na porta de mansinho e chamou o nome dos amigos algumas vezes, mas, como ninguém respondeu e a luz da sala estava apagada, o Cavaleiro de Libra resolveu entrar por conta própria.

​Ao entrar, ele parou e deparou-se com a fortaleza de lençóis, que ainda estava de pé. Lá dentro, os três dormiam juntos, dividindo o mesmo espaço apertado. Ryuho estava capotado, atravessado entre os dois tios com o urso jogado de lado, enquanto Hyoga mantinha um braço protetor ao redor do menino e o corpo colado ao de Shun. Shiryu achou a cena a coisa mais fofa do universo e não pôde perder a oportunidade de sorrir largo.

​O tempo passou e a rotina mudou. Mesmo depois que Shunrei voltou da maternidade com a nova bebê nos braços, a casa de Hyoga e Shun nunca mais voltou a ser silenciosa como antes. Ryuho continuou indo lá mais e mais vezes. Ele passava os finais de semana inteiros, os feriados prolongados e qualquer dia de folga que os tios tivessem.

​E, contra todas as suas próprias previsões rabugentas, Hyoga até começou a sentir vontade de ser pai de verdade. A pose de homem sério e reservado caía por terra toda vez que o loiro andava com o menino montado sobre os seus ombros, correndo e fingindo voar pela sala minúscula de poucos metros quadrados, enquanto a criança gargalhava alto e puxava os seus cabelos loiros como se fossem rédeas de um cavalo de corrida.

​Assistindo àquela bagunça da cozinha, Shun sorriu e mordeu a lateral da bochecha, segurando um segredo que fazia seu coração flutuar. Naquele Dia das Crianças, Hyoga havia se tornado uma eterna criança graças ao filho do Shiryu, resgatando uma leveza que a guerra tentara roubar dele na infância.

Mas o loiro não sabia — pelo menos não ainda — que o próximo dia 12 de outubro não seria comemorado apenas com ele, Shun e os afilhados. No ventre de Shun, um pacotinho a mais já começava a se formar, uma sementinha de vida que coroava o amor dos dois e marcava o início daquela família que, agora, finalmente começava a crescer.


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