Dois Pesos e Duas Medidas
8 Capítulo 8 – Idílio
Notas iniciais
“Quero o circo todo a que tenho direito: sedução, fantasia, tempo. Quero um romance longo, quero intimidade. Fazer cena de ciúme, terminar, voltar, amar, brigar de novo, telefonar, pedir desculpas, retornar. Amantes bem comportados são um tédio.”
Martha Medeiros.
Capítulo 8 – Idílio
Naruto levou o cigarro já consumido pela metade na boca. Ele tragou a fumaça com força, deixando metade se esvair por entre os lábios, enquanto empurrava o restante para seus pulmões. Seu braço voltou a cair no colchão e ele não conseguia tirar os olhos do teto branco. Seus pensamentos presos em uma única pessoa, a qual ele não conseguia tirar da cabeça desde que chegara.
Sasuke já estava na Califórnia há quase quatro semanas. Quase quatro semanas aguentando a expressão em branco e os olhares neutros. A culpa sem sentido. Quando adolescente, ele interpretava melhor o brilho sorridente e expressivo das íris escuras. O rapaz parecia se refrear o tempo inteiro ao redor dele, tão diferente do passado, onde o menino que ele conheceu só insistia por um pouco de atenção.
Ele bateu as cinzas do cigarro em uma caneca usada de café, uma vez que o cinzeiro estava na mesa do computador e ele estava com preguiça de buscar. Passado e presente se misturando e comparando em sua mente, enquanto ele media seus pesos e suas medidas, tentando decidir que conclusão tomar. Seus pés bateram no ritmo da música alta dentro do seu quarto.
Do you think of me?
Where am I now?
Baby where do I sleep?
Feels so good but I'm old
Two thousand years of chasing taking its toll
Nada era suficiente para aplacar o barulho ensurdecedor que suas reflexões faziam em sua cabeça. Ele tinha dito para Itachi e Nagato que precisava ficar sozinho, enquanto pensava em um novo projeto, mas a verdade era que ele precisava colocar o raciocínio no lugar. Naruto sentia que deveria se desculpar com Sasuke, mas se desculpar exatamente pelo quê? Ele não se arrependia das decisões que tomou no passado, mas se arrependia de algo que não sabia definir ao certo o que era.
O que era tudo muito confuso...
—
Naruto andou até a cozinha para buscar um copo de água e ouviu o som de risos. Movido pela curiosidade, ele andou até a origem do som, encontrando Sasuke sentado no chão da varanda com um tablet nas mãos. No visor grande, ele podia ver a imagem do próprio rapaz seminu, segurando uma toalha. A voz masculina se fez ouvir no vídeo:
“Você não larga essa câmera?”
“Faz parte do meu trabalho.”
“Seu trabalho é gravar filmes, novelas e documentários, Gaara.”
A imagem tremeu, como se alguém tivesse agarrado a câmera do tal homem que ele desconhecia:
“Eu gosto de filmar você.”
E o vídeo parou e mudou para começar outro. Ele se encostou no batente da porta de vidro, para ver melhor a imagem de Sasuke diante de um copo de uísque ou assim ele deduziu, pela cor do líquido dentro do vidro e a maneira como estava sendo servida.
“Você perdeu a aposta, precisa beber todo o copo de uma vez.”
“Gaara...”
“E depois você vai falar com aquele cara!”
A imagem correu até parar em um cara que jogava sinuca com um amigo. Ele tinha cabelos compridos e pretos, parecia ser até mais velho que Naruto, o que o fez erguer uma sobrancelha com curiosidade. Sasuke lhe lançou um olhar por cima do ombro, reconhecendo que ele estava ali, mas não fez mais nada além de voltar a olhar a imagem.
“Eu sei que você gosta de homens mais velhos. O cara é bonito, tem olhos que parecem ser dourados. E não para de olhar para cá, estou sendo bonzinho!”
“Nunca mais aposto com você!”
“Você vai me agradecer, que eu sei.”
O vídeo focou no rapaz ao seu lado, mostrando quando ele ergueu o copo para os lábios e bebeu tudo de uma vez. Seu rosto pálido se contorceu em uma pequena careta, que não durou um segundo. Ele bateu o vidro na superfície de madeira da mesa e se ergueu, fazendo um gesto para que o outro cortasse o vídeo, assim que ele virasse as costas. E o outro cortou.
A imagem mostrou um rapaz de cabelos vermelhos, num tom tão vibrante quanto os de Nagato. Os orbes verdes pareciam quase translúcidos por causa da maquiagem escura em torno dos olhos e a pele pálida parecia gritar, devido à tatuagem que tinha na testa com o kanji que significava “Amor”. O ruivo deu um meio sorriso para a câmera.
“Mudamos os papéis hoje?”
“Mais ou menos isso.”
O tal de Gaara parecia estar cantarolando uma música, enquanto dirigia um carro para um lugar qualquer. Ele pôde ouvir, “When all the love has gone away and passion stares me in the face, could I walk away?”.
“Você está romântico hoje, Gaara.”
“Vai me dizer que você não vê sentido nessa letra?”
“...”
“Quando seu amor vai embora e só te restam paixões passageiras, o que é que você faz? Ou fez?”
O rapaz sorriu como se soubesse de algo que Naruto não sabia, mas Sasuke parecia tomar conhecimento, pois o silêncio pareceu pesar até fora do vídeo. Por um momento, o Uzumaki se perguntou se ele era o assunto da conversa, mas os dois pareciam ser velhos demais para que o caçulo Uchiha ainda carregasse algum resquício do sentimento infantil que disse ter nutrido há anos.
“A gente não pode se apoiar em afetos não correspondidos.”
Foi a resposta seca, amparada pela quietude reflexiva dos dois rapazes. O vídeo estava quase no final, quando a imagem mudou novamente para o que ele supôs ser o rosto do melhor amigo de Sasuke. O cara ajeitou a câmera, fazendo-a estremecer com o movimento. Não houve cuidado com a edição de imagem, mostrando que a parte falha do vídeo era completamente intencional.
“Não ter você por perto me fez querer ver os nossos velhos vídeos. É meio nostálgico. Então, juntei alguns e fiz essa pequena coletânea.”
E o pequeno filme acabou com uma despedida silenciosa, vinda de um olhar que parecia dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Naruto desviou a atenção para o Uchiha por um instante e o viu abrir um sorriso pequeno, pesaroso e relutante. Uma expressão estranhamente tranquila e madura que ele nunca tinha visto num rosto que ele lembrava ser tão jovem e inocente.
— Nós fazíamos praticamente tudo juntos. – Sasuke comentou depois de um longo período de silêncio. – É meio estranho para nós dois não ficarmos perto um do outro por tanto tempo. – explicou com um tom distante, apagando a tela do tablet e o colocando na mesa baixa de café disposta na varanda.
O moreno estava sentado em um dos poucos zafus espalhados pela área. As pernas cruzadas em posição de meditação e as costas apoiadas na porta de correr de vidro. Naruto aproveitou a pequena abertura emocional para tentar uma conversa, esperançoso de que, dessa vez, ele teria êxito. O rapaz sempre cortava suas tentativas e o frustrava com respostas vagas.
— Eu me sentiria estranho sem Itachi por perto também. – comentou, perdendo a forma com as narinas do outro dilataram com a menção do Uchiha mais velho. – Nós vivemos por tantos momentos juntos, construímos tanta coisa juntos, que é meio estranho me imaginar sem o seu irmão. – explicou, puxando um zafu para si mesmo e se sentando de frente para Sasuke.
— Vocês são como um casal de namorado; é diferente. – ele rebateu. – Gaara é como um irmão para mim. Eu não flerto com alguém que considero da minha família. – os olhos escuros encaravam o tablet abandonado na mesa com insistência, como se obrigasse a prestar atenção em algo diferente que não fosse o homem à sua frente.
Naruto ergueu a sobrancelha para a amargura sardônica flagrante no tom de voz profundo. De certa forma, ele sabia que seu relacionamento com Itachi era um pouco confuso, mas nunca pensou que o assunto fosse algo digno de explicações. Para o Uzumaki era ótimo que apenas seu amigo compreendesse bem o passado que tiveram, mas, por algum motivo estranho, ele queria que Sasuke entendesse também.
— Eu amo o seu irmão, Sasuke. De verdade. – declarou, vendo a postura rígida ficar ainda mais tensa. – Ele é uma parte minha que eu não consigo deixar. – sorriu, encarando a cozinha como se pudesse ver o alvo daquele diálogo, perambulando pelo cômodo. – Nós somos atraídos um pelo outro de uma maneira que não consigo explicar. Seu irmão só me fascina e sei que, de algum modo bizarro, o sentimento é recíproco. – refletiu, brincando com os dedos das mãos distraidamente.
O moreno mirou a atenção distraída em sua direção. Os orbes brilhantes como pedras de turmalina preta cheios de energia o acertaram com força e intensidade. Por um minuto estranho e inadequado, ele sentiu como se o ar lhe faltasse nos pulmões e o rapaz era tudo que existia naquele espaço rodeado de névoa. A presença era opressora e demandavam concentração.
Naruto engoliu em seco e se forçou a continuar:
— Nós nunca tentamos um relacionamento, mas a gente acabava cedendo às vezes. – explicou vagamente, não sabendo exatamente se deveria ou não entrar nesse mérito com o irmão mais novo do seu melhor amigo, por motivos bem óbvios. Sasuke poderia não alimentar mais os sentimentos que nutriu no passado, mas isso não significava que o assunto delicado não fosse gerar certo incômodo.
Um minuto de silêncio desconfortável seguido de uma pergunta tranquila:
— Cedendo como? – Sasuke exigiu em um tom de voz mais baixo que o normal, como se receasse fazer a pergunta.
Naruto travou o maxilar, enquanto encarava o rapaz ponderado à sua frente. Depois de muito avaliar, escrutinando o rosto do mais novo como se esperasse ver algum indício de algo que ele não sabia ao certo, decidiu que seria sincero, mesmo que Itachi tivesse optado por se manter em silêncio por razões que ele conhecia perfeitamente bem. De qualquer forma, Sasuke saberia, pois todos sabiam também.
— Eu e Itachi dormimos juntos algumas vezes. – respondeu com simplicidade, como se referisse sobre o tempo, ignorando a forma como o outro arregalou os olhos. – Nos tempos de faculdade e um pouco depois.
Como sua resposta foi só o silêncio mortificado, ele decidiu continuar:
— Foi curiosidade, foi desejo, foi necessidade de aventura e carinho às vezes. – ele coçou a cabeça, enquanto divagava confuso com os próprios sentimentos. – Foi um emaranhado de impulsos que nós percebemos que não passavam disso, de impulsos. – deu de ombros. – Então, a gente decidiu parar, porque aquilo não iria para lugar nenhum. Eram aqueles tipos de coisa que começam quando estamos bêbados demais para percebermos o que estamos fazendo e, de repente, toma proporções maiores. – gesticulou, enquanto tentava achar as palavras certas para definir o passado.
Ele nunca tinha parado para pensar com afinco sobre aquilo, mesmo que ele e Itachi tivessem conversado sobre o assunto diversas vezes. Naruto chamava o romance de impulso, mas internamente, ambos sabiam que o sexo tinha sido mais que um mero lance. Ele realmente fora atraído por seu melhor amigo na época, mas depois de um tempo, eles só perceberam que aquela energia louca que pareciam despertar era apenas incompatível. E só fora esmaecendo com o tempo até sobrarem as brincadeiras e as lembranças gostosas do passado.
Às vezes, o Uzumaki sentia saudades, mas porque ficar com Itachi era sempre maravilhoso. O homem podia aparentar indiferença, mas ele era fascinante em mais maneiras que o loiro podia contar nos dedos. O moreno mais velho só correspondia à sua energia de uma forma que ele não sabia explicar ao certo. Havia necessidade, mas não havia entrega, diferentemente do que sentia com Ino. Eram apenas dois corpos saciando uma vontade carnal, como se só eles pudessem saciar aquilo que precisavam.
No começo, ele achou que só precisava de um corpo masculino às vezes, mas entendeu que aquilo era porque Itachi era Itachi, uma vez que ele não se sentiu daquela forma com mais ninguém.
— Eu e Ino temos algo mais dependente e vicioso, não exatamente apaixonado, mas de alguma forma necessitado. – divagou distraidamente, olhando para as plantas da varanda como se elas pudessem lhe dar as respostas para o que procurava. – Mas, seu irmão é diferente, sempre foi. – balançou a cabeça, numa tentativa de colocar os pensamentos no lugar. – Não foi emocional, foi principalmente físico...
— Você e meu irmão juntos não é algo que eu queira imaginar. – Sasuke cortou com uma expressão extremamente séria.
E antes que ele pudesse responder, a porta de entrada se abriu e Itachi passou por ela com Nagato dormindo sossegadamente nos seus braços.
— Chegamos. – declarou com o sorriso tranquilo que lhe era tão característico, enquanto tirava os sapatos. – Nagato dormiu no carro. – murmurou, colocando o menino no sofá, enquanto desabotoava os punhos da camisa azul marinho e se aproximava dos dois homens na varanda.
Naruto sorriu para o Uchiha mais velho, mas antes que ele pudesse perguntar como foi o dia do melhor amigo, Sasuke se levantou com a cabeça baixa.
— Com licença. – e saiu com passos apressados para o quarto.
Os dois assistiram o rapaz sumir no corredor em silêncio; Itachi consternado e o Uzumaki levemente culpado, embora confuso. Lá dentro, ele pensou ter feito algo errado, mesmo que não soubesse exatamente o quê, afinal, era só sobre o passado... Em sua cabeça, Naruto decidiu que o caçulo só precisava de um tempo para entender o que foi dito.
— O que aconteceu com ele? – Itachi perguntou com curiosidade.
—
Ele jogou o milésimo filtro de cigarro dentro da caneca usada. Ou eram menos que isso, uma vez que já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha fumado naquele meio tempo entre uma reflexão e outra. Depois daquela conversa, o comportamento de Sasuke tinha mudado completamente. O tempo que Naruto acreditou que ele precisava para pensar passou e o mais novo parecia ainda mais enfiado e preso naquela bolha que tinha se enfiado desde que chegara, e não parecia disposto a sair.
Mesmo com Itachi, sua atitude pareceu alterado. Antes, ele ainda via o rapaz dar pequenos sorrisos para o irmão mais velho, agora, ele só estava mais retraído e calado. Uma parte gritante de Naruto queria ver aquele homem que tinha visto naqueles vídeos caseiros. O cara com sorriso confiante e o brilho predatório no olhar; que sabia o que queria e se levantava para conseguir, depois de uma dose de uísque.
Era a mesma expressão que ele tinha visto quando o moreno se mostrou pela primeira vez em sua porta, depois de dez anos...
A contenção era irritante, como se mostrasse apenas uma máscara de alguém que Sasuke deveria ser. Era ver novamente aquele menino oprimido que ele viu pela primeira vez na Buchanan Street; aquele garoto que não acreditava em seu próprio potencial, porque estava ocupado demais observando o irmão mais velho e o pai. Era um alívio ver que, no Japão, o caçulo Uchiha se desprendeu de tudo para ser quem realmente era, mas era triste perceber que parte disso aconteceu com a distância de Itachi.
E era ainda mais triste perceber que tinha tornado o relacionamento ainda mais delicado entre os dois. Em sua cabeça, Sasuke não se importaria de saber que tinha dormido com Itachi, porque fazia muito tempo, mas ele se surpreendeu ao ver a atitude hostil e desgarrada. Ao perceber a frieza, seu melhor amigo tentou perguntar o que estava havendo, mas o rapaz fora totalmente reticente, não querendo dar vazão a maiores explicações.
Naruto estava tentando entender por conta própria, então, ele passou a olhar mais... Seus olhos corriam por qualquer nuance do cara como se fosse aquela primeira vez que o vira parado em sua porta, carregando o olhar escuro mais bonito que já tinha visto na vida. Orbes cujo sorriso sórdido fazia promessas mudas que o Uzumaki não se arrependeria de dissertar. Ele bebia o homem com a intenção de lê-lo, mas era difícil quando o outro só parecia uma incógnita.
Então, ele passou a se apegar em outros detalhes. Em como a cor do cabelo contrastava enormemente com a brancura da pele, como as linhas masculinas eram aristocráticas: sobrancelhas bem desenhadas, nariz pequeno e um pouco arrebitado, lábios finos e pele sem nenhum marca de expressão e lisa como a bunda de um neném. Seu estilo era sóbrio como seus tons. Sasuke não usava estampa, mas parecia amar sobreposições.
Os jeans pareciam ser escolhidos para agarrar as pernas delgadas, a bunda e o quadril estreito. Os músculos magros ondulavam, conforme ele se movia, e o pescoço imaculado longo só parecia implorar por algumas marcas de chupões, mesmo que Naruto ainda preferisse manter a perfeição intocada da tez branca. Então, ele percebeu que estava profundamente atraído, ansiando ver aquele homem que ele viu naqueles fragmentos de vídeo. O homem que foi atrás de outro.
E homem que ele viu em sua porta.
Sasuke parecia ter duas personalidades, e ele decidiu que detestava a atitude distante, que o afastava e os separava. O rapaz mal o encarava e o Uzumaki estava começando a se sentir irritado com a indiferença e a raiva injustificada. Apesar de sentir culpa por algo que não sabia ao certo o motivo, ele não se arrependia do passado. Ele não se arrependia de ter dito “não” para o menino que ele conheceu na Buchanan Street; ele não se arrependia de ter dormido com Itachi quando eram mais jovens. A única coisa que sabia de certo era que não queria ter feito o mais novo sofrer assim, porque ele sabia por Ino o que era amar e não ser correspondido.
Talvez, ele se arrependesse do beijo que alimentou esperanças falsas naquele tempo, embora soubesse bem que ele não hesitaria em beijar Sasuke de novo, mas por outros motivos agora.
Ele esfregou o rosto com as duas mãos e tateou o colchão à procura do maço de cigarros. Ele sentia que ia enlouquecer a qualquer momento. No entanto, antes que ele pudesse pescar o isqueiro também, ele ouviu batidas suaves na porta e a voz tímida de Nagato anunciar que trouxe o jantar. Com um suspiro resignado, ele escondeu tudo na mesa de cabeceira e abriu a janela para tirar o cheiro pungente e pesado de tabaco.
Passando a mão pelo rosto mais uma vez, a fim de limpar a expressão irritada, Naruto abriu a porta com um sorriso:
— Hey, Naga-chan! – cumprimentou animadamente, enquanto pegava a bandeja com uma tigela fumegante de Lámen. Ele suspirou de deleite; alguém (Itachi) reparou que ele estava mal-humorado para decidir mimá-lo assim.
Ele carregou a comida até a cama e se sentou com as pernas cruzadas em posição de meditação. Fungando o cheiro maravilhoso de carne de porco, o Uzumaki mexeu no caldo distraidamente até reparar que Nagato ainda estava parado na porta, com uma expressão perdida, receosa e envergonhada. Os olhos jovens, que, por vezes parecia ser mais velhos e maduros que deveriam, estudavam-no com cautela. O lábio inferior gordo e rosado estava preso entre os dentes e ele parecia querer dizer alguma coisa.
Era a mesma feição que usava, quando se sentia excluído. Naruto suspirou.
— Senta aqui. – chamou, batendo no espaço vago em sua cama. Pelo visto, não era só Itachi que tinha reparado que ele não estava no humor.
O menino assentiu com certa relutância e se aproximou. O loiro levantou a bandeja para que o movimento do colchão não fizesse uma bagunça e esperou o garoto se ajeitar, para voltar a comer.
— Você já comeu? – indagou, tentando encarar os olhos claros, mas os cabelos vermelhos caiam em cascata sobre o rosto pálido. Ele empurrou as madeixas para trás da orelha, procurando encarar o afilhado direito. – Está tudo bem?
Nagato titubeou mais uma vez. Ele mexeu nos dedos dos pés distraidamente, enquanto tentava fugir do escrutínio do homem. Naruto mastigou o macarrão com calma, procurando ler o que se passava na mente da criança. O menino sempre agia com mais cuidado ao seu redor, quando ele estava muito ocupado trabalhando, mas era a primeira vez que ele parecia querer dizer algo e, ao mesmo tempo, não querer. Ele quase parecia estar com medo de enfrentá-lo.
— Por que você está triste? – o menino perguntou repentinamente, soando mais confiante do que de fato se sentia.
A questão o pegou de surpresa. O loiro arregalou os olhos e quase engasgou com o macarrão. Ele encarou os olhos violáceos que agora o enfrentavam sem medo e hesitação. Havia uma força diferente em Nagato, embora fosse o tipo de sensação que ainda parecia insegura, como algo que acabou de florescer.
— Eu não estou triste, de onde você tirou essa ideia? – retrucou, franzindo as sobrancelhas em estranheza. Ele não estava triste, mas mal-humorado.
— Você está sempre triste. – o ruivo voltou a falar, dessa vez, baixando os olhos em pensamento profundo. Ele parecia chateado com uma carranca que contorcia a feição delicada e infantil; a testa enrugada e os lábios franzidos.
Naruto não entendeu. Ele coçou o topo da cabeça, tentando fazer sua mente compreender a linha de pensamento de Nagato, e agarrou o queixo do menino pequeno, a fim de levantar o rosto pálido e encarar os orbes claros. Os cílios estavam úmidos com lágrimas não derramadas.
— É por minha causa? – ele tornou a perguntar, a voz tremulando por causas não ditas, fazendo o coração do mais velho apertar e depois disparar. – Você está sempre triste. – voltou a reafirmar. – Eu não quero ser um peso para você.
O ar estancou nos seus pulmões. Nagato nunca tinha dito aquilo em voz alta; há quanto tempo ele estava martelando esses pensamentos em sua cabeça? Será que ele podia sentir sua insegurança sobre ser pai de uma criança? Ele sempre tentou se manter sério e confiante, para que o afilhado não percebesse seus medos e aflições. Naruto não estava sempre triste, como afirmara, mas a percepção infantil e ingênua só permitia que o menino conseguisse nomear algumas emoções com complexidade.
Ele engoliu em seco, se lembrando da conversa que tivera com Kakashi logo que Sasuke chegou: “Converse com o Nagato, seja mais claro e sincero; ele é apenas uma criança, mas é esperto e já percebe tudo ao seu redor...”.
Franzindo ainda mais as sobrancelhas, ele pegou a bandeja de comida, ainda inacabada, e colocou em cima da escrivaninha. Voltando para a cama, Naruto puxou a criança para o seu colo, embrulhando-o como se fosse protegê-lo de alguma coisa. Ele beijou o topo da cabeça vermelha, aspirando o perfume do shampoo de maçã verde. Duas lágrimas molharam o seu braço, mas ele não se deu o trabalho de reconhecê-las, só permitiu que o mais novo chorasse.
Ao mesmo tempo em que o embalava com balanços e beijos suaves, como lhe foi ensinado para fazer, quando Nagato era só um bebê. O choro silencioso ganhou alguns poucos soluços e o loiro tornou a sentir aquele aperto sufocante no peito. Ele pensou que fingir que nada acontecia, protegeria o menino das emoções que ele era tão familiarizado, quando tinha aquela idade também. Mas, Kakashi tinha razão, ele estava cometendo os mesmos erros que seu pai cometera, como um ciclo que tornava a se repetir.
— Eu nunca te considerei um peso. – murmurou de encontro aos fios rubros. – Eu só fico preocupado com você, o tempo inteiro. – sorriu. – Eu sempre penso em te fazer feliz, em poder te dar tudo o que precisa, em estar presente em todos os momentos da sua vida... – explicou. – Às vezes, eu acho que não sou capaz de fazer tudo por você.
Nagato fungou.
— Mas, você já faz tudo por mim. – replicou com incompreensão. – Você está sempre bravo comigo. – tornou a acusar, lembrando Naruto das vezes que ele perdeu o controle com o afilhado, gritando sem motivos e, por vezes, tornando-se físico em suas demonstrações de frustração.
— Eu só estava com raiva, Naga-chan. – suspirou. – Eu estava com raiva por outros motivos e acabei descontando em você. – explicou, esperando que o garoto entendesse sua explicação, sem criar ainda mais fantasias infantis ao redor do assunto. Ele jamais imaginaria que o menino se culparia dessa forma. – E das outras vezes, eu só brinco com você. Eu te chamo de fedor, mas você é cheiroso. – brincou para amenizar o clima pesado.
Nagato fungou de novo. E Naruto sorriu sadicamente, empurrando o ruivo de volta para a cama, erguendo a camiseta do pijama de algodão e soprando ar na barriga macia. O garoto gargalhou alto em meio às lágrimas, contorcendo-se, enquanto cócegas nadavam sob sua pele. Ele tentou afastar o pai com as mãos pequenas, mas não tinha força o suficiente para combater o corpo adulto.
Naruto parou depois de um tempo, quando percebeu que a criança já estava começando a ficar roxa por falta de ar. Os olhos infantis estavam brilhantes de umidade e contentamento; havia uma luz analítica neles, que o deixava levemente nervoso. Eram os típicos olhares intensos e significativos que parecia dar uma compreensão completamente diferente do que ele achava ser só um menino de quase cinco anos de idade.
— Você é muito importante para mim, Naga-chan. – murmurou, alisando os fios vermelhos espalhados pelo colchão. A palma grande de encontro à estrutura pequena. – Eu sou uma pessoa diferente hoje, graças a você. – desabafou, vendo-o arregalar os olhos minimamente com a confissão. – Quando seus pais se foram e eu peguei você no colo pela primeira vez, eu estava preocupado em como seria o seu futuro, porque eu sei como é crescer sozinho, mesmo que ainda tivesse o seu avô sempre comigo. Depois que o juiz determinou que eu era apto a ser o seu guardião, eu fiquei apavorado. – ele beijou a testa pálida, que estava começando a se enrugar com o pensamento profundo. – Eu mal sabia cuidar de mim mesmo. – riu e balançou a cabeça negativamente.
Nagato ficou em silêncio, tentando entender o significado de todas as palavras. De alguma forma, ele sabia que era importante, por isso, prestou atenção em cada sentença, em cada elevação de voz, cada movimento no rosto adulto. Ele sempre admirou o homem a sua frente, como um super-herói que ansiava em se tornar quando crescesse.
— Nunca duvide do valor que você tem para mim, entendeu? – Naruto pediu com seriedade. Os olhos azuis escurecendo com a gravidade do pedido. – Não precisa entender tudo o que eu disse agora, mas guarde aqui para pensar – colocou a mão onde o coração que batia tranquilo. –, quando sentir que pode entender a profundidade do que estou dizendo. Você enfrentaria dragões e monstros enormes só para me proteger?
— É claro! – o menino afirmou com uma convicção que fez o mais velho sorrir.
— Eu também faria o mesmo por você. Droga, eu faria qualquer coisa por você! – rebateu com o mesmo entusiasmo. – O que sentimos não é tão diferente um do outro, entende? – perguntou, vendo o menino abanar a cabeça com os olhos inocentes brilhando em compreensão. – Você quer dormir aqui hoje?
Nagato se levantou, limpando o rosto molhado e engatinhando até um dos lados da cama espaçosa. Naruto balançou a cabeça negativamente com um sorriso. Ele nem precisava perguntar, quando era óbvio que o menino não negaria.
— Eu vou dormir desse lado! – o ruivo exclamou, começando a puxar o edredom para que pudesse se enfiar debaixo do calor confortável.
— E eu vou levar essa bandeja para cozinha e, depois, volto para dormirmos, ok? – indagou, enquanto se levantava para levar a comida inacabada para a cozinha. Ele tinha perdido a fome, com a conversa nervosa que tinha acabado de ter com seu afilhado. Seu estômago se apertou novamente, pensando sobre o tempo que o garoto debateu sua própria importância para Naruto.
Ele colocou tudo em cima do balcão, decidido a arrumar a louça suja amanhã de manhã, e estava prestes a voltar para o quarto, quando a voz branda de Itachi o interrompeu:
— Você não comeu quase nada, está tudo bem? – indagou, lançando um olhar significativo para a tigela ainda cheia. Ele estava sentado em um dos bancos altos, debruçado sobre um livro qualquer.
Naruto suspirou e apoiou os cotovelos na superfície plana, ao lado do moreno.
— Nagato acha que é um peso para mim. – começou e, ao ver que o Uchiha não demonstrou qualquer surpresa, enrugou o nariz. – Você sabia. – não era uma pergunta, mas uma afirmação categórica.
— Sabia. – confirmou, abanando a cabeça afirmativamente, erguendo o tronco para encarar o loiro de frente. – Mas, esse é um daqueles assuntos que preferi não interferir. – explicou, tirando os óculos de aro grosso que usava para ler. – Era algo que você precisava resolver diretamente com Nagato.
— Se você tivesse me dito, eu teria resolvido isso mais cedo. – revirou os olhos.
— Nagato precisa começar a aprender a confrontar os seus próprios problemas e inseguranças, Naruto. – murmurou, colocando a armação em cima do livro que lia. – Na verdade, vocês dois precisam aprender qual é a importância de um diálogo sincero. Camuflar suas emoções não vai proteger o menino, você sabe disso. Só vai afastá-lo. – sugeriu com uma sobrancelha erguida e o rosto sério, quando viu o homem começando a erguer um sorriso.
— Você reclama do seu velho, mas soa como ele às vezes. – brincou, dando um beijo na testa de Itachi e se afastando. – Nagato vai dormir comigo hoje. Boa noite. – acenou com dois dedos em despedida e caminhou até o quarto, sem ver a forma como o outro ergueu uma sobrancelha em bom humor.
(***)
Ele suspirou, sentindo-se quente, enquanto uma onda de excitação percorria seu corpo como ondas que partiam do baixo-ventre. Naruto abriu os olhos e viu um corpo sobre o dele, mas estava claro demais para distinguir de quem realmente pertencia aquela silhueta masculina que se esfregava à sua de maneira tão erótica e lenta. Ele podia ver sob uma neblina translúcida e sentir a pele pálida sobre a sua; carregada e aquecida. A ponta dos dedos ásperos escavando seu bíceps e ombros.
Suas mãos seguraram o quadril delgado tentando reforçar o vai-e-vem gostoso que se insinuava em cima do seu pênis. Os dígitos subiram, brincando com as ondulações que as costelas faziam na tez branca. Os cabelos pretos faziam cócegas em seu pescoço e bochecha, enquanto a respiração ofegante parecia hipersensibilizar ainda mais os sentidos já gritantes.
Naruto gemeu e tornou a fechar os olhos, começando a impulsionar o corpo de encontro aquele que parecia tão entregue quanto ele mesmo. Era possível sentir a extensão da pele contra a pele, sem lembrar se tinha dormido completamente nu aquela noite, para dar tão livre acesso àquele estranho. Não era Itachi, os cabelos eram mais curtos e mais vibrantes e a palidez excessiva não combinava com o tom cor de pêssego do seu melhor amigo.
O loiro ignorou as indagações, quando as ondas de desejo que se espalhavam em seus membros deram uma parada, a fim de começarem a se enrolar como uma bobina, concentrando-se em seu baixo-ventre. Seus dedos tentaram trazer o corpo masculino para mais perto, a fim de intensificar o falso coito, mas as mãos do outro prenderam os seus pulsos ao lado de sua cabeça. Naruto nem pensou em discutir, gemeu e impulsionou a pélvis para cima; necessitado.
A respiração sôfrega e os pequenos gemidos que soavam em seus ouvidos estavam o enlouquecendo. Ele queria mais que tudo poder inverter as posições e impor o seu ritmo apressado, para saciar aquele desespero que crescia e ao mesmo tempo se concentrava em uma só região. No entanto, de alguma forma estranha, seu tronco parecia colado no colchão, como se estivesse disposto a obedecer aquele homem por conta própria.
Naruto rosnou em protesto e impaciência, ávido por algo mais que aquela preliminar que ameaçava fazê-lo explodir em diversos pedaços e, ainda assim, era insuficiente. Ele queria muito mais que uma leve provocação inconclusiva, ele queria ver o rosto que se escondia irrevogavelmente em seu pescoço e ver a expressão de desejo na face desconhecida. Ele queria afundar em algo que podia tocar, e em algo intangível também.
A tensão que construía em seu corpo pareceu chegar ao ápice. Sua boca se abriu em um gemido silencioso e ele franziu as sobrancelhas com o esforço que seu corpo parecia fazer para tentar reter aquele formigamento intenso que percorria sua pele, deixando-a com a sensação de calor e frio ao mesmo tempo. O ar parou a meio caminho de seus pulmões e Naruto começou a convulsionar sobre a cama...
—
Em algum momento no meio do orgasmo, ele acordou bastante consciente do sonho que tivera, do relaxamento dos seus músculos e da forma como a brisa fria que entrava pela janela aberta refrescava seu corpo quente. Sua respiração ainda estava ofegante e ele ainda se sentia levemente sonolento. Olhando para o lado, ele viu as costas de Nagato, a respiração nivelada lhe dizendo que o menino ainda dormia tranquilamente, indiferente ao que tinha acontecido.
Com um suspiro meio aliviado, meio resignado, o loiro se levantou para trocar de roupa. Fazia tempos que ele não tinha sonhos assim, talvez, ele estivesse com tesão acumulado. Prometeu a si mesmo ligar para Ino amanhã de manhã.
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