Dois Pesos e Duas Medidas
6 Capítulo 6 – Lenidade
Notas iniciais
“A paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõe.”
William Shakespeare.
Capítulo 6 – Lenidade
Eram quase 19h30min, quando Naruto saiu do prédio onde passou parte do dia fazendo uma reunião de finalização de contrato. No ombro esquerdo, ele carregava três tubos de projetos com uma pequena amostra do seu portfólio, e na mão, a maleta que continha o ultrabook moderno com todos os arquivos necessários para a apresentação da sua ideia para a área de marketing.
Com um suspiro cansado, ele pescou o celular no bolso da calça, a fim de conferir as últimas ligações recebidas. Ele sentiu o telefone vibrar mais cedo, mas ignorou para não interromper a conversa importante. Equilibrando a pasta no braço, o Uzumaki começou a vasculhar o aparelho distraidamente, enquanto apalpava o jeans em busca da chave do carro.
“Ino...”, ele pensou ao ver o número familiar gravado na tela.
Com um toque simples, ele chamou a mulher para ver o que ela queria, ao mesmo tempo em que abria o carro e jogava todas as suas coisas no banco traseiro, sem se preocupar em ser delicado.
– Alô? – a voz feminina soou do outro lado.
– Você me ligou? – foi direto ao ponto, fechando a porta do passageiro para abrir a do motorista e entrar no carro. Ele praticamente jogou seu corpo desgastado no banco, fazendo o veículo balançar com o peso.
– Liguei. Eu sabia que você tinha uma reunião hoje e fiquei preocupada sobre quem buscaria Nagato na escola. Como você não atendeu, eu liguei pro Itachi para saber se ele pegaria o menino, porque eu tenho plantão essa noite, mas ele me disse que Sasuke está cuidando de tudo... – ela respondeu num tom meio reflexivo, meio explicativo.
Naruto sorriu com a tagarelice e a preocupação da mulher.
– ‘tachi insistiu que Sasuke cuidasse de Nagato hoje, enquanto nenhum de nós chegássemos em casa. – esclareceu. – Eu não queria, mas você o conhece, ele não sabe aceitar “não” como resposta.
– Ele só está sendo racional, Naruto. – rebateu com um tom entediado. – Itachi se preocupa com você. E outra: Nagato não fala muito bem o japonês, além de umas poucas palavras; a convivência vai forçar Sasuke a usar o nosso idioma. No final das contas, não foi para isso que ele veio? – indagou.
Houve um momento de silêncio, onde ele refletia seriamente em cima da linha de raciocínio da Yamanaka. Com um suspiro, deu-se por vencido.
– Você tem razão. – admitiu, apoiando-se no banco estofado e olhando para o teto acolchoado do carro. – Eu não tinha pensado por esse lado, é só que eu vi esse sorrisinho que o Itachi costuma dar, quando está com alguma ideia na cabeça, que me perturbou um pouco esta manhã.
– Ele só deve estar querendo encher o saco do irmão mais novo. – consolou-o com diversão. – Itachi só está fazendo com que o garoto fique perto de tudo o que te relaciona. – palpitou com o riso persistente na voz.
Naruto soltou um muxoxo. Ino nunca o deixaria em paz com relação a esse assunto, principalmente agora que tinha o Uchiha por perto para a lembrar do que acontecera há anos atrás.
– Eu espero sinceramente que não! – fez uma careta com o pensamento. As coisas já estavam complicadas da maneira como estavam no momento, ele não queria que tudo se tornasse ainda pior. Por algum motivo desconhecido, ele tinha medo de peitar o rapaz para conversar a respeito do passado, na tentativa de tornar as circunstâncias um pouco melhores.
A mulher riu mais um pouco, aproveitando-se do seu desespero.
– Nunca diga “dessa água não beberei”, pois o caminho é longo e você pode sentir sede. – ela recitou num aviso sério, contrastando bruscamente com as brincadeiras de segundos atrás. – Desculpe, eu brinco sobre o assunto, mas a verdade é que eu me identifico um pouco com o garoto. – confessou em um tom distante, parecendo pensativa.
O Uzumaki lambeu os lábios secos e balançou a cabeça negativamente. Distraidamente, ele passou a mão pelo volante e olhou o espelho retrovisor, assistindo as luzes vermelhas e amarelas dos outros carros em movimento correrem seguidas de outras.
– Eu não sei o que dizer como resposta, Ino, você já sabe a minha opinião e, assim como você está cansada de ouvi-la, eu estou cansado de me repetir. – murmurou com um toque de impaciência. – Eu acho que você deve ser feliz, com ou sem Shikamaru. – gesticulou, mesmo sabendo que ela não seria capaz de ver seus gestos energéticos.
– Eu sou feliz com você. – sua voz soou como se estivesse fazendo beicinho.
Ele sorriu e depois riu. Ino não tinha jeito.
– Eu também sou feliz com você, sua chata. – rebateu com carinho. – Você vai passar a madrugada no hospital essa noite? – mudou o tópico da conversa, cansado do tema pesado. A mulher costumava se tornar sentimental, quando se lembrava da paixão de infância e melhor amigo, e ele estava sem cabeça para dissertar sobre o assunto sem ser indelicado.
– É a minha vez de cobrir a ala de psiquiatria, – explicou. – por quê? – ela perguntou com uma insinuação maliciosa e óbvia.
Ele riu e colocou a mão na boca, raspando os dentes no dedo indicador para reprimir a vontade de morder o corpo feminino por inteiro.
– Acho que você vai precisar de uma massagem amanhã. – afirmou com um sorriso sacana. A mulher soltou um gemido de deleite do outro lado da linha.
– Com certeza. – murmurou. – Você pode começar pelos meus pés. – lançou a dica com um toque de diversão indisfarçado.
– Posso começar pelos seus pés, depois subir para as suas panturrilhas e seus joelhos... – sussurrou insinuante. – Para as coxas...
Ela gemeu de novo.
– Cala a boca, eu vou desligar! – exclamou com ansiedade, em meio aos risos, fazendo-o gargalhar também. – Não vai ser nada bonito se entrarem nessa sala e me verem esfregando as pernas, porque você me deixou com tesão! – e sem esperar uma resposta, ela desligou.
Naruto riu mais um pouco, balançando a cabeça negativamente e colocando o celular de lado. Ele gostava de Ino, justamente por causa da lábia suja. Sem querer, ela o colocava para cima e fazia tudo parecer mais leve. Mesmo quando estava chateada, fazia questão de exibir um sorriso cafajeste e soltar um comentário sarcástico, chegando ao cúmulo de tirar sarro de si mesma.
Ele amava essa mulher, da forma inusitada e excêntrica dele, mas amava.
(***)
Naruto estava se sentindo animado, quando pisou no andar do apartamento que dividia com Itachi. O dia fora desgastante, mas proveitoso. Depois de falar com Ino, seu humor tinha melhorado consideravelmente e ele assoviou uma música por todo o caminho de volta, congratulando-se mentalmente por conseguir fechar outro trabalho para a semana.
Quando ele abriu a porta de entrada, começou a cantarolar e balançar o corpo no ritmo da música:
– Bitch, never left but I'm back at it and I'm feelin' myself, jack rabbit. – apontou para o afilhado sentado no chão da sala de estar, que o olhava com uma cara engraçada de perplexidade. – Feelin' myself, back off, cause I'm feelin' myself, jack off! – e parou a interpretação da música, antes que chegasse na parte feia para crianças, embora já tivesse citado um vibrador.
Sasuke, que estava sentado ao lado do menino, ergueu uma sobrancelha para ele, como se perguntasse o que estava acontecendo.
– O que vocês estão aprontando? – Naruto perguntou, ignorando o olhar do Uchiha e fechando a porta atrás de si. Nagato correu em sua direção e, antes de pegá-lo no colo, equilibrou as chaves, a pasta, sacos de papel e os canudos de projeto no aparador de madeira.
Ele afundou o nariz nos cabelos vermelhos num gesto de carinho e sentiu o cheiro familiar de maçã verde nos fios ainda úmidos do banho recente.
– Sasuke está desenhando para mim! – o menino exclamou entusiasmado, balançando as pernas para indicar que queria descer e poder puxar o padrinho até a mesa de café no centro da sala. Havia papéis, lápis e canetas espalhados por todo o carpete e Naruto percebeu que sentia falta dessa bagunça de criança. Ele e Itachi estavam sempre ocupados para entrar nessas brincadeiras e, embora, ambos tentassem manter o ambiente descontraído para o garoto, o loiro sabia que não era a mesma coisa.
– Obrigado por cuidar dele para mim, Sasuke. – ele encarou o moreno, tentando demonstrar com um sorriso o quanto se sentia grato. – Você fez muito mais que eu imaginava; até conseguiu convencer esse fedor a tomar um banho antes que eu chegasse! – brincou.
– Eu não sou um fedor! – Nagato rebateu com as sobrancelhas franzidas em descontentamento. Um bico amuado enrugando ainda mais o rosto infantil.
– Não se preocupe. – o Uchiha murmurou, desviando os olhos, obviamente sem graça com o elogio. – Eu só fiz o que achei necessário, não levo muito jeito com crianças. – admitiu com certo receio, poupando um olhar de soslaio para o mais velho e dando de ombros.
– De qualquer forma, muito obrigado. – agradeceu. – Vocês já comeram? Eu trouxe alguns lanches do McDonald’s. – perguntou com preocupação, voltando para o aparador perto da porta de entrada e pegando os sacos de papel em cima da pasta de couro preta. Ele olhou para os dois à procura de respostas e recebeu um olhar de censura do Uchiha.
– Nós já jantamos. – o rapaz respondeu num tom que dizia claramente que ele não esperava que Naruto alimentasse Nagato com uma refeição de tão baixa qualidade. – Coma o que está na geladeira e em cima do fogão. – ele murmurou, voltando a se inclinar para a mesa de café e encarar os papéis espalhados na superfície plana.
O Uzumaki quase riu com a repreensão velada nos olhos escuros. Por um momento, ele se sentiu diante de uma mãe galinha, protegendo o seu filhote. Ele nunca imaginou que Sasuke fosse tão crítico com relação à comida, mas, levando-se em conta como o homem era quando pequeno, ele só podia pensar que não era uma novidade que o moreno fizesse o estilo geração saudável. Desde criança, o mais novo detestou doce e alimentos pesados.
– O que vocês estão desenhando? Itachi não chegou ainda? – perguntou com curiosidade, uma vez que os dois voltaram a se absorver no que estavam fazendo. Ele não estava com fome, então, só guardou os lanches que trouxera dentro do micro-ondas para comer mais tarde.
– O tio ‘tachi não chegou ainda. – Nagato respondeu, pegando um dos papéis em cima da mesa e correndo até ele de novo. – Pai, olha o que o tio ‘suke desenhou pra mim! – exclamou, estendendo o desenho.
Naruto teve um vislumbre de vermelho vivo, antes de pegar a folha grossa e estranhamente pesada. Quando seus olhos bateram na imagem, ele perdeu o fôlego. O esboço era um retrato do seu afilhado aparentemente distraído. O relevo da tinta parecia dar vida à figura. Havia tanta emoção, que ele conseguia captar até as emoções do ruivo pequeno no momento em que o Uchiha memorizou o momento para colocá-lo no papel. Nem mesmo uma fotografia poderia parecer tão profunda e detalhista.
– Uau... – só conseguiu murmurar, olhando para o menino, antes de tornar a encarar o desenho, comparando-os. Mesmo a intensidade dos olhos parecia a mesma. – Caramba... – ele estava sem palavras.
– Ele desenhou com giz de cera. – o garoto explicou energeticamente. – Ele queimou um pouco a ponta do giz para amolecer e virar tinta, não é legal? – perguntou, dando pequenos pulinhos de animação. – Ele vai me ensinar, quando eu ficar mais velho, porque agora eu sou muito novo para mexer com fogo. – confidenciou com uma felicidade que o Uzumaki não via há tempos.
– Sério? E eu posso ficar com esse desenho para mim? – pediu, vendo Nagato titubear e olhar para Sasuke como se esperasse uma autorização. No entanto, o moreno encarava a TV, fingindo não prestar atenção na conversa.
– Mas, tio ‘suke deu esse desenho para mim. – o ruivo fez um beicinho, não querendo negar nada ao pai e, ao mesmo tempo, querendo manter o presente para si mesmo. – Eu faço outro pra você. – prometeu.
– Eu vou colocá-lo numa moldura amanhã, então. – explicou com calma. – Dessa forma, todo mundo pode olhar o desenho que você ganhou, pode ser? – sugeriu. O garoto pensou, pensou e, por fim, cedeu com um aceno frenético de cabeça. – Ótimo! Eu vou guardá-lo na minha gaveta para não me esquecer de comprar o quadro, tudo bem?
Nagato concordou novamente e Naruto continuou, colocando o papel em cima da mesa para guardar mais tarde:
– Você já entregou o seu presente pro Sasuke? O que você fez na casa do seu avô? – indagou com curiosidade genuína, querendo saber da reação do Uchiha. Nesse momento, o moreno parou de fingir que assistia a TV e o ruivo corou furiosamente com a pergunta.
O menino começou a se balançar nos calcanhares e a remexer as mãos num tique nervoso. Ele desviou o olhar para o corredor que dava para os quartos.
– Eu não sei se ele vai gostar do meu desenho. – sussurrou com insegurança, voltando a encarar o pai como se pedisse ajuda. – Minhas pinturas não são tão bonitas quanto às do tio ‘suke. – explicou com a voz baixa, com medo que o rapaz ouvisse a conversa.
A expressão do Uzumaki se iluminou em compreensão. Ao ver os desenhos de Sasuke, o moleque se tornara levemente intimidado com os seus esboços infantis. Ele não iria dizer que não achava o desenho cheio de bolas, traços e cores engraçado, mas ainda assim era bonito, justamente pelo significado que os rabiscos continham. Era tudo sobre como ele amava algo ou alguém.
– Besteira... – respondeu, bagunçando os fios vermelhos em um cafuné. – Ele vai adorar o seu presente. – assegurou, vendo o menino assentir com relutância e correr para buscar o quadro que fizera no final de semana.
Naruto olhou para Sasuke e sorriu, mas o Uchiha não demonstrou outra reação a não ser encará-lo com intensa curiosidade.
– Ele fez um desenho para mim? – indagou em um tom estranho e ao mesmo tempo desconfiado, como se a atitude fosse suspeita e inesperada.
– Para se desculpar sobre os meus gritos, quando você chegou. – explicou com um simples encolher de ombros. – Nagato ficou com medo que você fosse embora por minha causa e lhe fez um presente para convencê-lo a ficar. – não existia vergonha na admissão.
O moreno franziu as sobrancelhas e ele mesmo sentiu a própria testa se enrugar em uma careta contrariada, enquanto pensavam sobre o que aquilo significava de fato. Repentinamente, o Uzumaki sentiu em mal-estar na boca do estômago, lembrando-se da reação do afilhado ao lhe ver perder o controle.
– Ele parece se apegar muito fácil às pessoas. – o outro comentou, distraindo o loiro de suas divagações perturbadas.
Naruto se jogou no sofá. Os braços espalhados e a cabeça apoiada no encosto macio. Ele conseguiu sorrir de novo, mas estava começando a sentir a cabeça doer com a lembrança de mais uma de suas preocupações constantes.
– Sim. – murmurou em vaga concordância. – Às vezes, eu tenho medo que ele se machuque por isso, quando ficar mais velho. – confessou com um timbre cansado, brincando distraidamente com um fio solto da costura do estofado. – Mas, eu aprendi comigo mesmo que os pais não podem suprimir os filhos, e nem tentar fazê-lo, porque as pessoas têm a mania de fazer tudo ao contrário, quando se sentem desafiados. Independentemente da idade. – encontrou os orbes escuros para reforçar sua explicação. – Quantas vezes seus pais disseram que você não podia fazer tal coisa e você fez só para provar que eles estavam enganados? – perguntar.
Sasuke tentou segurar um sorriso, mas ele não conseguiu e os lábios finos se curvaram levemente para cima. O Uzumaki correu os olhos sobre a figura masculina e constatou que a reação combinava com o homem, sem tirar a originalidade do seu aspecto indiferente.
– Muitas. – o Uchiha retorquiu com certa diversão na voz.
– Exatamente. – apontou com convicção, como se a resposta para muitas questões estivesse naquela palavra. – Nagato é muito mais ponderado do que parece e compreende as pessoas de uma forma que nem mesmo eu faço como adulto, então, pode ser que eu esteja sendo superprotetor. – disse em um tom distante ao analisar as circunstâncias. – Mesmo preocupado, eu não vou forçá-lo a ser alguém que não é. Se ele tiver que mudar algo em si mesmo, a vida vai fazer questão de ensiná-lo que algo precisa ser diferente. – balançou a cabeça negativamente e se inclinou até que seus cotovelos pudessem se apoiar nos joelhos. – Eu acho arriscado Nagato se apegar tão rápido, mas eu mesmo me apego fácil às pessoas, então, qual é o ponto de mandar alguém fazer algo que você mesmo não faz? Não acredito em “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. As pessoas têm formas diferentes de lidar com a vida. Para algumas pessoas, o que pode ser um erro e um defeito, pode ser uma qualidade e um acerto para outras. – divagou, encarando as próprias mãos como se elas fossem a coisa mais interessante no cômodo. – Existe gente que transforma até a raiva em sentimento positivo, ou seja, posso esperar que Nagato seja alguém assim, não posso? – indagou com diversão.
– Eu nunca tinha pensado nisso. – Sasuke respondeu meio distante, como se estivesse pensando em seus devaneios.
– Eu também não tinha pensado nisso até alguns meses atrás. – rebateu vagamente.
Passos apressados se aproximaram pelo corredor.
– Sasuke! – o ruivo gritou, quando viu o homem no mesmo lugar que o deixara. – Olha o desenho que eu fiz para você! – ele exclamou, sentando-se no colo do moreno com a pintura estendida.
Sasuke nem pareceu esboçar um reação pelo menino ter invadido seu espaço pessoal tão repentinamente, tão perdido estava em seus pensamentos.
– Esse é o meu avô Minato e esse é o meu outro avô Kakashi. Eles são namorados. – explicou naturalmente, fazendo o Uchiha erguer uma sobrancelha e olhar para o mais velho com uma pergunta silenciosa em sua expressão. Naruto descartou com um movimento de descaso. – Esse é o tio ‘tachi e esse é você. – apontou novamente. – Esse é o papai, essa é a Ino-chan, esse de cabelos vermelhos sou eu e esse é o Kyuubi, a raposa de estimação do meu avô Minato.
Naruto gargalhou, assistindo a expressão confusa do Uchiha. Ele deveria estar um pouco atordoado com tantas informações.
– Por que você desenhou todo mundo junto, Nagato? – o loiro forçou o menino a continuar com as suas explicações.
– Porque nós somos uma família e devemos ficar todos juntos. – rebateu como se fosse óbvio. – Faltou o tio Sui e a tia Karin, mas não ia caber no quadro. – fez beicinho. – Eles são namorados também.
Naquele momento, Sasuke pareceu reagir.
– Karin está namorando? – indagou com perplexidade, atraindo a atenção do ruivo pequeno, que não sabia que ambos se conheciam.
– Você conhece a tia Karin? – o garoto perguntou num tom esganiçado.
– Sasuke e Karin eram amigos na época da escola, Naga-chan. – Naruto disse, antes que o moreno pudesse responder. – Surpreendentemente, a Karin está namorando o Suigetsu já faz dois anos. Não sei como, porque eles brigam sem parar e o tempo inteiro; mesmo juntos. Pensei que os dois discutiam por causa da tensão sexual, mas até hoje eles não param de discordar um do outro. – franziu as sobrancelhas em estranheza. – Achei que você soubesse. – insinuou como se não quisesse nada.
– O que é tensão sexual? – o ruivo perguntou curioso.
– Nada que seja da sua conta, Nagato. – o mais velho rebateu, fazendo o menino cruzar os braços em contrariedade, voltar a se apoiar no peito do Uchiha e fazer beicinho.
O moreno se remexeu desconfortável e ajeitou Nagato em seu colo, antes de desviar o olhar para a janela.
– Nós perdemos o contato, depois que eu voltei para o Japão. – explicou num tom vago, e Naruto percebeu que, talvez, havia outros motivos que o moreno não estava disposto a divulgar.
– Certo... – concordou reticente, demonstrando que não acreditava inteiramente na história. – Karin está namorando Suigetsu e Juugo parece ter se mudado para a Croácia, depois de ter começado a namorar um menino. Eu não lembro ao certo o nome dele. – informou, vendo o olhar do outro se arregalar com tantas novidades.
– Aconteceram muitas coisas, enquanto eu estava fora. – pensou em voz alta. – Suigetsu e Karin; Juugo namorando um homem; seu pai... São muitas informações. – piscou vagarosamente para ver se as fichas começavam a cair em seu cérebro. – Como você lidou ao descobrir que o seu pai estava saindo com um homem? – não se conteve em saber.
Naruto riu e abaixou a cabeça, brincando com os dedos das mãos.
– Foi chocante e estranho no começo. – encarou Nagato, que olhava os adultos com um misto de curiosidade, tédio e mau humor, ele dormiria em breve, ainda mais agora que estava embalado no colo de alguém. – Por mais que eu estivesse acostumado e, para mim, fosse extremamente normal ser bissexual e conviver com pessoas semelhantes a mim, é totalmente diferente você descobrir que seu pai está saindo com um cara. – riu. – Eu não julguei, mas demorei um pouco para me acostumar. No começo era muito esquisito, mas agora é normal... Nagato cresceu vendo o meu pai e o Kakashi juntos, pra ele é supernatural e as pessoas se chocam um pouco, quando ele trata o assunto como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Nem todo mundo está habituado.
– Foi o que eu pensei. Eu não consigo imaginar o meu pai namorando outro homem. Não julgaria, porque não sou ninguém para julgar, mas seria estranho. – concordou com um encolher de ombros, brincando distraidamente com os cabelos vermelhos do menino em seu colo e o vendo piscar lentamente, devido à sonolência.
– Falando no seu pai, me lembrei da sua mãe. Itachi me contou que ela abriu uma cafeteria. Ela deve estar fazendo sucesso. – brincou. – Eu lembro quando jantava na sua casa e comia até explodir, porque Mikoto cozinha como uma deusa! – olhou para o teto, fingindo uma expressão de deleite.
– Ela só está trabalhando com o que gosta. Depois que eu cresci e pude me virar sozinho, ela começou a pensar em trabalhar fora. – ele deu de ombros. – Eu acho que é bom para distrair a cabeça. Meu pai trabalhava o dia inteiro e eu estudava em período integral, então, ela ficava a maior parte do tempo sozinha em casa. Eu acho que ela começou a se incomodar com o marasmo. – pausa. – Ela parece mais feliz. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito calorosa e receptiva, diferentemente de mim ou do meu pai e Itachi, então, ela devia sentir falta de interagir com outras pessoas. Agora a senhora Mikoto fica na cafeteria e passa o dia todo conversando e fofocando com as freguesas.
Naruto sorriu. Ele adorava a mulher pequena e saber que ela parecia mais feliz por estar fazendo o que ama, era um alento para o seu coração. Muitas vezes, quando visitara a família Uchiha quando eram vizinhos, ele sentira que Mikoto e Sasuke pareciam suprimidos em uma bola restritiva.
– E Fugaku-san? – perguntou com curiosidade.
– Você o conhece, ele não vai sair do Consulado até a aposentadoria. Meu pai gosta de estabilidade e rotina, não o vejo tentando mudar agora. – explicou distraidamente. – Ele ainda resmungou, quando minha mãe decidiu trabalhar. Na cabeça dele, ela não tinha o porquê abrir um negócio, se estávamos bem financeiramente. Foi difícil para ele se acostumar com a ausência dela aos finais de semana. Se não fosse o meu pai, eu diria que ele estava ficando carente... – franziu as sobrancelhas, enquanto pensava na possibilidade.
Naruto riu.
– Quem sabe? – o Uzumaki plantou a semente da dúvida, vendo o vinco na testa do outro se aprofundar. – Eu só percebi que o meu pai não é imune à carência, quando o vi com Kakashi. – riu, lembrando-se de algumas situações engraçadas do passado. – Eu precisava sair de casa para evitar ficar diabético e/ ou traumatizado. – fez uma careta.
– Há quanto tempo os dois estão juntos?
– Uns quatro ou cinco anos, eu acho... – tentou fazer as contas. – Quando meu pai me contou, eu tinha uns... 27/ 28? Eu não tenho certeza. – fez um gesto de descaso. – Kakashi foi aluno do meu pai na faculdade e depois que ele se formou, ambos nunca mais se falaram. Anos mais tarde, Kakashi foi contratado para dar aulas na mesma universidade onde meu pai leciona até hoje. E o resto é história, de repente, eles simplesmente aparecem juntos. – sorriu com a memória. – Se foi estranho para mim, não consigo imaginar como foi para o meu pai, porque nunca o vi gaguejar tanto como quando ele me contou que estava saindo com um cara. – gargalhou.
Sasuke sorriu e balançou a cabeça negativamente com o riso desenfreado do homem mais velho. Nagato se sobressaltou com o barulho e voltou a ressonar logo em seguida.
– Então, seu pai é mais velho que o namorado. – não era um pergunta e o novo tópico da conversar fez Naruto parar de rir e começar a ficar nervoso.
– Onze anos de diferença. – respondeu sinceramente, tentando fazer a voz soar mais firme do que se sentia.
O moreno concordou com um meneio simples e uma expressão que o Uzumaki não conseguia definir ao certo. Por um momento, ele teve a sensação de estar pisando em ovos. O silêncio desconfortável pareceu crescer entre eles, até que o mais novo tornou a falar:
– Eu acho que ele dormiu... – Sasuke murmurou, deixando o tema passar. No entanto, algo lhe dizia que aquele assunto não havia terminado ainda.
Nagato tinha, de fato, caído no sono. Sua cabeça estava levemente inclinada para baixo e seus cabelos vermelhos cobriam parte do rosto infantil. Inconscientemente, seus dedos agarraram um punhado da camiseta do Uchiha numa mania que o garoto tinha desde que era um bebê. Ele quase desistiu de levar o menino para o quarto, pois este parecia estar dormindo tão gostoso.
– Eu vou levá-lo pra cama. – declarou, levando-se do sofá.
Ele caminhou até o moreno e tentou puxar o ruivo de cima de Sasuke, sem acordá-lo. No entanto, ele não pôde fazer isso sem uma boa dose de contato com o homem mais novo. Suas mãos e braços sentiram a dureza dos músculos do outro e ele tentou não pensar no ato simples como algo sexual. Eles estavam próximos e, quando ergueu o olhar para o rapaz, encontrou os olhos negros o encarando com intensidade.
Com a proximidade, ele pôde perceber que os olhos do mais novo eram tão escuros, que era impossível distinguir as pupilas. As íris obsidianas carregaram uma emoção densa, séria e carregada, que Naruto não conseguiu assinalar o significado. Ele se perdeu no sentido indefinido que o constituía e lhe evocava inúmeras perguntas, pelas quais estava cada vez mais tentado em encontrar respostas.
Nagato se mexeu com a movimentação, acordando os dois para a realidade.
– Obrigado por cuidar dele para mim. – ele murmurou, tentando quebrar o clima desconfortável que pareceu crescer entre eles, e puxou o menino para o seu colo. O garoto abriu os olhos sonolentos e vidrados, mas tornou a fechá-los em um sono leve, familiarizado com o calor que passou a envolvê-lo.
Sasuke não respondeu, apenas acenou positivamente com a cabeça, enquanto ele se afastava para o quarto de Itachi.
(***)
Ele pegou um pedaço de papel de celulose e jogou a erva no meio, com todo o cuidado e paciência do mundo, quase como um ritual ensaiado, dobrando a folha para espalhar o fumo em uma linha reta. Os dedos experientes ajeitaram e modelaram todo o cigarro com a mesma destreza de um escultor inspirado. Estava tão distraído que demorou um pouco para perceber que estavam batendo na porta.
– Entra. – autorizou, terminando de selar o baseado com a língua e vendo Itachi abrir a porta do seu quarto com cautela. – Você demorou pra chegar hoje, com quem estava?
O moreno revirou os olhos e sorriu, sentando-se no lado oposto da cama a que ele mesmo estava tão casualmente jogado.
– Fiquei até tarde no escritório, terminando um projeto. A empresa quer lançar um produto novo no final do ano e a gente precisa apresentar as especificações físicas na semana que vem. – explicou, prestando atenção nas ministrações do Uzumaki em seu cigarro.
– Parece ser um saco... – ele comentou casualmente, erguendo os olhos para o Uchiha. – Você parece precisar disso, depois de um dia desses. – insinuou, erguendo a cigarrilha num gesto autoexplicativo.
– Faz um bom tempo desde a última vez que fumamos juntos. – disse com um sorriso meio contido. Os lábios se franziram levemente e os orbes escuros brilharam com diversão indisfarçada. – Presumo que Nagato já tenha dormido. – meio perguntou e afirmou, vendo o mais novo concordar com a cabeça.
– Mais um motivo para curtir um pouco. Vai ser bom para dormir mais tarde. – o loiro balançou as sobrancelhas sugestivamente. – Ultimamente só a Ino me acompanha. – murmurou, enquanto procurava o isqueiro na gaveta da mesa de cabeceira. – Nagato dormiu no colo do seu irmão. – contou, ajeitando-se na cama novamente. – Não esperava que ele tivesse tanto jeito com crianças.
Itachi se aproximou, ficando de frente para o Uzumaki e cruzando as pernas em posição de meditação.
– Nem ele deve saber disso. – deu de ombros casualmente. – Sasuke não tem noção de metade das coisas que é capaz de fazer. Às vezes é preciso um incentivo ou dois para empurrá-lo para frente. Achei que tivesse mudado com a chegada da vida adulta, mas existem certas coisas que nunca mudam. – confidenciou, assistindo Naruto acender o baseado, sugando o fumo e soltando em tragadas curtas, a fim de fazer a erva carburar.
Ele ainda precisou riscar o isqueiro algumas vezes.
– Você acha? Eu o acho tão independente. – respondeu com a voz abafada pelo cigarro preso entre os lábios. Ele deu uma tragada profunda e segurou. – Ele é bem assertivo nas decisões que toma. É sempre sim ou não, oito ou 80. Sasuke quase não se dá espaço para questionar se é a escolha mais prudente a se tomar ou a não. Eu acho isso bem interessante e perigoso também.
O Uchiha mais velho sorriu misteriosamente, como se quisesse dizer algo mais com aquele ato simples. Ele puxou o baseado para si mesmo e sugou a ponta com força e segurou. No entanto, ele não conseguiu ir muito longe, antes de começar a tossir a fumaça. Naruto começou a gargalhar.
– Está forte. – resmungou com a voz rouca, em meio às tosses.
– Então, quer dizer que é boa. – ele respondeu claramente divertido. – Eu acho que o seu irmão está com medo que Nagato se apegue, uma vez que ele tem planos de morar sozinho em breve. Eu não acho que você deve forçá-lo a ficar e cuidar do menino, quando está claro que ele não quer se envolver demais. – começou o assunto que o atormentava desde o começo do dia.
Itachi tragou mais uma vez, mas conseguiu se manter dessa vez.
– Eu não estou forçando ninguém. – rebateu de forma contida, tentando segurar o ar. – Você ia ficar a tarde inteira fora, eu não sabia que horas ia chegar em casa, Ino estaria no plantão, sua prima no trabalho e seus pais dando aula na faculdade. – soltou a fumaça com calma, apreciando a forma como ela dançava diante do seu rosto, antes de passar o cigarro. – Sasuke seria o único disponível para buscar o garoto na escola, uma vez que ainda está desempregado. Ele não é mais uma criança, Naruto, sabe que está morando aqui de favor e, enquanto não pode nos ajudar com as contas, ele precisará ajudar de outras formas. – encarou o outro e o viu fazer uma careta. – E eu não estou reclamando de acolhê-lo.
– Você é tão rígido. – murmurou com um beicinho, fazendo o mais velho rir.
Seu rosto relaxou ao ouvir o som descontraído. Ele gostava de ver Itachi alto, justamente porque o soltava. O moreno sorria com mais liberdade e, sua expressão sempre séria, se iluminava em contentamento indisfarçado. Ele quase lembrava Mikoto, já que sóbrio, o melhor amigo tinha o mesmo ar carregado de Fugaku, ou algo parecido, pois duvidava que alguém pudesse ser tão grave quanto o patriarca da família Uchiha.
– Eu não sou tão duro quanto pareço. – ele retrucou distraidamente, encarando a paisagem pela janela aberta. – Você sabe disso – insinuou. – e sei que Sasuke também me entende.
Naruto sorriu e tragou mais algumas vezes, antes de passar o baseado.
– Eu sei. – concordou. – Você finge ser esse cara turrão e mau só para conquistar mais corações. Eu estou bem ciente das suas táticas, Uchiha. – fingiu cinismo e ciúme só para puxar outra onda de risos no homem.
Itachi riu e ele riu também.
Os dois ficaram em silêncio, apreciando o relaxamento causado pela maconha. Naruto considerou as explanações do moreno por um momento, concluindo que ele entendia os motivos do homem, mesmo que os considerasse um tanto frio e calculista. Ele conviveu com a família Uchiha por tempo o suficiente para saber que esse tipo de valor rígido era hereditário; tanto Itachi quanto Sasuke deveriam pensar dessa forma, porque Fugaku os ensinou assim.
Por ser descendente de japoneses, ele sabia que algumas famílias eram mais tradicionais e rigorosas que outras. Ele torcia o nariz para o excesso de regras, mas entendia, respeitava e agradecia, porque, se não fosse pelo seu melhor amigo, a educação de Nagato seria um desastre. O mais velho era muito mais disciplinado e exigente que ele seria em ensinar seu afilhado, portanto, sem o moreno, talvez o menino não fosse tão independente quanto é hoje.
Itachi passou o baseado e fez um sinal indicando que estava satisfeito. Ele pegou o cigarro, tragou mais algumas vezes e apagou com a ponta dos dedos, antes de guardar o resto em um pequeno pote de alumínio. Naruto deitou na cama, encarou o teto por um tempo, apreciando o silêncio confortável, e soltou a fumaça de maneira que formassem uma auréola sobre sua cabeça. Quando os desenhos desvaneceram no ar, ele encarou o Uchiha.
– Você pode dormir aqui, se quiser... – convidou ao ver o homem com os olhos fechados. Se o moreno já estava cansado antes, o baseado o deixaria ainda mais letárgico e ele começaria a cochilar em breve.
– Hn. – ele murmurou preguiçosamente, desabotoando a camisa. Ele jogou a peça na cadeira que o loiro usava para trabalhar e começou a tirar a calça e as meias para se enfiar debaixo das cobertas.
O Uzumaki assistiu as ações do outro com diversão indisfarçada. Havia apenas duas situações que tornavam o Uchiha mole como uma geleia: orgasmos e maconha. Ele viu o corpo delgado se mover com uma pitada de admiração e saudade. Fazia anos desde a última vez que ambos fizeram muito mais que apenas insinuar sobre sexo. As situações mudaram e eles não eram mais os caras hormonais e aventureiros dos tempos de faculdade, no entanto, Naruto não podia deixar de se sentir nostálgico.
Vagamente, ele se perguntou se aguentaria festas como as daquela época de novo. Depois que Yahiko e Konan morreram, sua vida mudou tanto...
– Às vezes, eu acho que você gosta de me provocar, Uchiha. – murmurou, vendo o corpo se enfiar sob o edredom e tremular com o riso.
Ele se inclinou sobre Itachi e beijou a curva do pescoço para o ombro. O mais velho ergueu a mão esquerda e afagou seus cabelos para agradecer o gesto, antes de voltar à posição que estava.
– Boa noite, Naruto. – a voz suave estava levemente grogue com o sono.
– Boa noite, ‘tachi. – murmurou, levantando-se para apagar a luz e voltar a se enfiar debaixo das cobertas. Não demorou nem cinco minutos para que caísse no sono também. O Uchiha não era o único que estava cansado, no final das contas...
Fale com o autor