Dois Pesos e Duas Medidas

5 Capítulo 5 – Reminiscência


Notas iniciais
Apesar de muitas pessoas terem pensado o contrário, eu não abandonei as minhas histórias. O dia que isso acontecer (se acontecer, eu não sei), vocês ficarão cientes, porque farei questão de colocar um aviso no enredo, dizendo que não continuarei qualquer trama. Eu sei que demorei meses e meses para atualizar, mas a escrita ainda é a minha válvula de escape, então, mesmo que demore, vou continuar com as histórias, porque eu mesma sinto falta. Não comecei a escrever para passar o tempo, eu escrevo há anos como forma de terapia, então, não levo essa "brincadeira" de ânimo leve. É através dos meus textos, que vocês entendem a minha visão sobre o mundo, a vida que levo ou levei e a forma que sou e fui como pessoa. Embora, eu tenha mudado alguns hábitos para conseguir administrar o meu tempo nas últimas semanas, nada garante que eu consiga atualizar os capítulos de maneira mais rápida, porque até semana passada, eu estava trabalhando até 2/3 horas da manhã. Sou workaholic, gente, não consigo dormir em paz, enquanto não vejo meu trabalho terminado. Por isso, eu peço paciência. Se vocês não verem um capítulo com apenas a palavra “ABANDONADO”, quer dizer que eu ainda estou insistindo na história. E depois de muito matutar na frente do computador (porque fazia tanto tempo que havia esquecido metade do que planejei para o enredo), eu consegui relembrar algumas coisas e escrever. Agora, estou usando um pequeno diário para anotar as minhas ideias, porque minha cabeça anda tão cheia, que preciso pensar duas vezes até para lembrar a data do meu aniversário. Sério, ‘tá foda! Espero que gostem

Revisado por Monsieur Noir.

“A experiência é aquilo que lhe permite reconhecer um erro quando você o comete de novo.” — Earl Wilson.

Capítulo 5 — Reminiscência

Naruto gemeu enquanto se espreguiçava. Suas articulações estalaram e os músculos gritaram em protesto, mas ele não se importou, porque sua mente ainda estava presa em algum lugar entre a consciência e inconsciência. Espalhando-se na cama larga, ele deu falta de um corpo familiar e despertou aos poucos, ao mesmo tempo em que tateava o colchão. Ele olhou em volta, com os olhos ainda pesados e embaçados de sono e suspirou, tentando fazer seu cérebro começar a trabalhar.

Nagato não estava mais na cama, o que só podia significar que já passara das dez da manhã. O Uzumaki nunca entendia como uma criança de apenas quatro anos podia ter um relógio interno tão pontual quanto o de um idoso.

Suas costas reclamaram a cada movimento e, vagamente, ele pensou que da próxima vez, Nagato poderia dormir sozinho em sua antiga cama, pois o menino o chutara a noite toda em seus sonhos. Ele não se lembrava do garoto ser tão agitado assim durante a noite. Normalmente, o moleque permanecia inerte como se estivesse morto, o que o assustava muito no passado. Ele não tinha culpa que bebês pareciam tão frágeis.

O loiro se sentou na cama, ouvindo passos agitados no andar de baixo. De forma automática, ele caminhou até o banheiro anexo ao quarto para escovar os dentes e jogar uma água no rosto. Suas costas protestaram novamente, mas ele mal registrou o incômodo, pois estava distraído em enumerar as tarefas do dia. Era domingo, então, provavelmente ele almoçaria com seus pais e arranjaria algo para fazer à tarde. Talvez, iria até Golden Gate Park com Nagato e Kyuubi para passar o tempo e, depois, voltariam para casa.

Secando o rosto, ele encarou sua própria imagem no espelho. Seus olhos estavam ligeiramente marcados por olheiras e o homem passou as pontas dos dedos nas marcas, esperando que a massagem diminuísse a aparência cansada. Da próxima vez, ele dormiria no sofá ou compraria um colchão extra, caso o contrário, chegaria o dia em que ele acordaria com uma contusão ou sendo jogado para fora de sua própria cama.

Ele descartou a toalha em um gancho preso à parede e saiu. Quando abriu a porta, pôde ouvir som de risos e conversa animada na cozinha. Com um sorriso leve no rosto, ele desceu as escadas e encontrou seus pais envolvidos em um diálogo descontraído, enquanto Nagato e Kyuubi corriam pelo quintal dos fundos. Naruto suspirou e balançou a cabeça negativamente em resignação.

– Bom dia... – cumprimentou-os, ouvindo os mais velhos responderem em uníssono. – Eles não param, onde se desligam? – perguntou casualmente, apontando o lado externo da casa com um movimento de cabeça e se sentando para tomar o café da manhã. Havia uma variedade grande de frutas, pães e bolos sobre a mesa e, por um momento, ele ficou confuso sobre o que comer.

– São crianças. – Minato respondeu, lhe entregando uma xícara limpa e recolhendo a louça suja. – Você parece cansado, não dormiu bem? – franziu a testa em preocupação.

Naruto riu.

– Nagato me chutou a noite inteira, é difícil dormir assim. – explicou, pegando um pouco de café da garrafa térmica e atraindo o riso do patriarca. – Eu estou começando a achar que precisarei dormir no sofá nas próximas visitas.

– Isso me lembra de alguém, sabe? – o mais velho lhe lançou um olhar sugestivo e sorriu ao ver o bico emburrado no rosto do filho. – Você costumava a ser bem agitado quando era pequeno. Pode ser a idade, crianças absorvem melhor o que acontece durante o dia e costumam levar o que guardam para os sonhos; se o dia foi agitado, o sono também será agitado.

– Ou não... – ele esfregou a testa com uma careta incerta, olhando o pai com um sorriso divertido. — Ino sempre reclama sobre eu me mexer muito na cama.

Kakashi ergueu as sobrancelhas com um olhar debochado, largando o jornal que lia para tomar um gole de café.

– Você é um caso à parte, Naruto. – provocou, ignorando a cara feia que o rapaz lhe jogou como retaliação. – Nagato é tranquilo por natureza, mas está em uma fase que é naturalmente mais ansiosa e expectante sobre tudo, então, é normal que ele seja mais afoito agora.

– Eu não sei se é um alívio ouvir isso. – brincou. — Ele está crescendo muito rápido. – olhou com saudosismo para o menino que brincava do lado de fora. Parecia que tinha sido ontem que ele havia segurado o bebê pequeno pela primeira vez, enquanto lhe prometia que nada lhe faltaria, principalmente amor e carinho, uma vez que ele já tinha perdido tanto tão cedo. Naquela época, os olhos azuis, quase lilases, o fitaram sem entender muito bem suas promessas, mas a forma como a mãozinha apertou seu dedo, parecia lhe dizer que Nagato tinha consciência do peso de suas palavras.

– E vai crescer ainda mais rápido daqui pra frente. – Minato murmurou, olhando o próprio filho com o mesmo olhar nostálgico e carinhoso. Ele bagunçou os cabelos loiros do filho e lhe deu um beijo no topo da cabeça, fazendo Kakashi sorrir em cumplicidade. Ele deu uma piscadela para o namorado e se afastou para lavar a louça do café.

– O que me faz pensar que devo comprar uma cama nova para Nagato. Acho que a cama de solteiro não será suficiente daqui a um tempo. – ele colocou duas fatias de pão torrado e ovos mexidos em um prato, enquanto divagava. – Eu sei que é um exagero, mas Sasuke vai ficar em casa por um tempo também e quero que ele fique confortável. Depois que ele arranjar seu próprio lugar, Nagato fica com a cama espaçosa para chutar o quanto quiser.

– A propósito... – seu pai começou. – Quanto tempo o irmão de Itachi pensa em ficar nos Estados Unidos? Faz tanto tempo que não o vejo. Da última vez, o garoto correu para fora de casa como se tivesse visto um fantasma e nem sequer se despediu. – divagou, perdendo a forma como Naruto se remexeu desconfortável na cadeira.

Kakashi, mais silencioso e atento, lançou um olhar discreto e aguçado para o mais novo, mas não abriu a boca para comentar sobre o desconforto visível nos orbes azuis. Ele só espetou um pedaço de morango com o garfo e comeu como se nada tivesse acontecido, prestando atenção na troca entre pai e filho, sem se importar em ser apenas coadjuvante na conversa.

– Ele deve ser um homem agora, quanto tempo se passou desde que a família Uchiha voltou para o Japão? – o Namikaze perguntou, tentando fazer as contas por si mesmo, mas desistindo. Ele não se lembrava ao certo.

– Dez anos... – Naruto esclareceu, jogando o ovo em cima do pão torrado e dando uma mordida, tentando ignorar aquela memória incômoda do passado.

Minato cantarolou em compreensão e espanto. Naruto revirou os olhos e quase sorriu, adivinhando os pensamentos do patriarca. Na certa, o mais velho estava se certificando que havia realmente passado tanto tempo e o quanto os anos passaram depressa. De certa maneira, ele entendia, pois se sentira da mesma forma, quando descobriu que o rapaz parado em sua porta era Sasuke. O rosto redondo de criança dera lugar a características cinzeladas e o olhar inocente e curioso fora substituído pela força afiada de um homem perspicaz.

O Uzumaki perdeu a conta de quantas vezes focou a atenção analisando as mudanças do Uchiha mais novo, tendo dificuldade em associar a imagem infantil que habitava suas lembranças com a visão do corpo desenvolvido por músculos magros e uma altura que rivalizava a sua própria. Ele quase cedeu ao impulso de esfregar a testa em pesar, enquanto admitia para si mesmo que a sua reação era o indício de uma atração não muito desejada. Se fosse outra pessoa, o loiro não hesitaria em deixar os seus pensamentos bem claros, mas Sasuke não parecia ser o tipo que esquecia rejeição tão fácil, mesmo que entendesse suas razões, como Itachi fizera questão de enfatizar inúmeras vezes.

– Dez anos... – Minato repetiu reflexivamente. – Poderíamos marcar um almoço aqui em casa, faz muito tempo que Itachi não aparece... Quero saber como estão Mikoto e Fugaku-san.

– Vou conversar com eles e ligo para acertar os detalhes. – ele prometeu, jogando suas divagações para um lado escuro de sua mente.

– PAI!

Nagato veio correndo e gritando em meio aos risos, enquanto Kyuubi atacava seu calcanhar com pequenas mordidas. Naruto sorriu para seus pais, antes de erguer o menino nos seus braços como se levantasse uma pena e soprar a barriga infantil até o afilhado explodisse em gargalhadas escandalosas.

– Veio para a pessoa errada, moleque! – ele rugiu, tentando soar ameaçador e atraindo ainda mais risadas divertidas.

– JII-CHAN! – o ruivo gritou, olhando o Namikaze com o olhar fingido de súplica. – SALVE-ME!

(***)

Naruto equilibrou as sacolas de compras e mochilas em uma mão, ao mesmo tempo em que impulsionava Nagato em seu colo. O garoto havia dormido no carro, depois de passar a tarde correndo e brincando no Golden Gate Park. Na volta, o Uzumaki ainda passou em uma loja de móveis para comprar uma cama de casal nova e, depois, no supermercado. O dia agitado desgastou a ambos, mas não seria justo com o afilhado fazê-lo passar batido um dos poucos tempos livres que tinham em casa. O descanso poderia vir depois.

Ele se despediu de uma jovem que estava no elevador com um sorriso e um aceno de cabeça, ignorando a forma esperançosa que ela olhou ao perceber a atenção. Ele já estava começando a se acostumar com a forma como as mulheres se sensibilizavam ao verem que ele era um pai solteiro. Mesmo os rumores sobre ele e Itachi serem um casal não eram suficientes para afastar a população feminina do conjunto de prédios em que viviam. Pelo contrário, pareciam atrai-las ainda mais.

Ele virou o corredor para chegar até a porta do apartamento 318 e tocou a campainha, uma vez que suas mãos estavam ocupadas demais para conseguir pescar as chaves em seu bolso.

Quando a porta se abriu, Naruto deu de cara com Sasuke. Os olhos negros eram intensos e profundos de encontro ao seu e ele se sentiu momentaneamente desconfortável com a expressão em branco. Levaria um tempo até que ele pudesse se habituar ao homem perambulando em sua casa. Por algum motivo estranho, o fato de o rapaz ser totalmente diferente do menino que ele conheceu o incomodava.

Sem esperar um pedido, o moreno começou a puxar as sacolas e malas de sua mão. Naruto estava muito consciente dos dedos roçando os seus e a forma como a pele fria contrastava bruscamente com o calor que emanava do seu próprio corpo. Seus olhos se encontraram novamente, e o mais novo se afastou para colocar as compras em cima da mesa e as mochilas nas cadeiras.

O Uzumaki soltou a respiração que não sabia estar segurando.

Ele içou Nagato no seu colo novamente, ajeitando-o no braço livre para conseguir fechar a porta. O garoto se remexeu em seu colo, murmurando algumas palavras ininteligíveis em seu sono. Itachi estava saindo do quarto do menino com algumas caixas em seus braços, e ele podia sentir o cheiro de comida em torno do apartamento. Farejando o ar e olhando para a cozinha, surpreendeu-se ao ver Sasuke mexendo em algo no fogão.

– Que cheiro delicioso! – ele caminhou até o Uchiha e começou a abrir as panelas para vasculhar o que estava sendo preparado para o jantar. – Você está me dando uma fome, sabia? – ele perguntou totalmente inconsciente de como a frase soava dúbia, tão acostumado em dizer coisas com duplo sentido.

– Alguém precisava fazer a comida, uma vez que Itachi se recusou a receber ajuda para arrumar o quarto do Nagato. – ele explicou, dando de ombros, não parecendo nem um pouco afetado com a proximidade e suas brincadeiras. A aparente indiferença do homem fazia o loiro se perguntar se o moreno ainda estava chateado com a discussão do dia anterior.

Itachi saiu da lavanderia e tentou puxar o menino ruivo do seu colo.

– Vou colocá-lo na cama. – comentou como se não tivesse tentando esclarecer a razão pela qual estava tentando puxa a criança de seus braços.

– Ele precisa de um banho, duvido que consiga dormir do lado desse fedor. – brincou, entregando sua carga para o amigo.

– Eu já consegui dormir do seu lado tantas vezes, devo ter acostumado... – Itachi retorquiu sarcasticamente, ignorando a careta que o homem fez ao ouvir a provocação.

– Você é um idiota! – Naruto rebateu com as sobrancelhas franzidas, fazendo o mais velho rir do ataque coxo.

– Certifique-se de tomar um banho antes do jantar, você também fede. – Itachi continuou, caminhando até seu próprio quarto para deixar Nagato descansar um pouco mais, antes de acordá-lo.

– Às vezes, eu me pergunto como posso ser amigo do seu irmão. – ele murmurou com um bico mal-humorado, pescando uma faca suja para passar uma água, antes de jogar na lava-louças.

– Às vezes, eu me pergunto a mesma coisa. – a voz do seu lado comentou com tranquilidade. O tom suave, mas grave e profundo, não foi o suficiente para impedir que o Uzumaki se assustasse. Ele não esperava que Sasuke respondesse, principalmente, depois da briga que tiveram no dia anterior.

Naruto mordeu o lábio inferior e se reprendeu mentalmente. O rapaz ao seu lado não era uma criança birrenta. Na verdade, nunca fora, mesmo quando tinha oito anos e ainda fazia beicinho para conseguir ajuda nas lições de inglês.

O silêncio que se estendeu entre eles começou a se tornar desconfortável, especialmente para Naruto. Ele se remexeu desconfortavelmente, enquanto secava a mão e ponderava se era o momento certo para pedir desculpas. Por um milésimo de segundo, o loiro sentiu vontade de postergar a conversa, devido ao nervosismo que sacudia o seu estômago de forma desagradável, mas ele não conseguia adiar mais, pois odiava deixar assuntos inacabados.

– Sasuke... – ele começou, mas o outro o interrompeu.

– Está tudo bem, Naruto, já conversei com Itachi sobre o que aconteceu e eu entendi os seus pontos. Eu só fiquei irritado, pois não sabia que ele não comentou para você sobre eu estar vindo. – interrompeu-o, mexendo a mistura de arroz, polvo cozido, algas marinhas e shiitake na panela.

– De qualquer forma, não explica a minha reação. – ele lambeu os lábios e jogou a toalha no balcão que separava a cozinha da sala de jantar. Ele apertou a borda da pia com as mãos, inclinando as costas sobre a superfície de aço. Os orbes azuis ponderaram a figura masculina por um segundo ou dois, tentando ignorar o orgulho que o compelia a apenas concordar sem apologias. – Eu só queria... – respirou fundo. – Pedir desculpas pela maneira como agi ontem.

O moreno balançou a cabeça negativamente, como se dispensasse o discurso, mas sem parecer magoado ou irritado, apenas divertido.

– Você não estaria pedindo desculpas se me conhecesse de verdade. No seu lugar, eu teria arrancado a cabeça do meu irmão e te colocaria para fora, sem ao menos considerar se você precisaria de um lugar para ficar ou não. – Sasuke insinuou com um sorriso e cruzou os braços.

Naruto fingiu não ver os músculos dos bíceps e do peito apertarem sob a camisa e tentou segurar o riso, mas não conseguiu.

– Eu devo ficar preocupado? – perguntou sem evitar o tom divertido escorrer pela sua voz. Ele estava aliviado, como se um peso morto tivesse sido retirado dos seus ombros. Era bom ver que o homem não parecia chateado e ainda conseguia brincar sobre o assunto. A atitude descontraída do Uchiha mais novo o fez questionar se ele sequer se lembrava do que aconteceu há dez anos e se ele estava se preocupando demais à toa.

– Talvez. – ele respondeu, dando de ombros e apagando o fogo do arroz. – Onde estão a toalha de mesa e os apoiadores de panela? – perguntou com a intenção de começar a arrumar a sala de jantar para que todos pudessem comer.

O Uzumaki se desencostou da pia com um pulo e rapidamente começou a puxar os utensílios dos armários, entregando-os ao moreno.

– Agora que estamos nos entendendo, quero falar sobre outras coisas... – começou, lambendo os lábios em antecipação. – Agora que chegou na Califórnia, quais são os seus planos daqui para frente? – ele questionou com curiosidade, tentando entender o porquê de o outro ter viajado mais de seis mil milhas para voltar aos Estados Unidos. Ele sabia que o outro queria estudar e aperfeiçoar o idioma, mas uma mudança tão grande sempre era acompanhada de vários objetivos e, ele estava curioso para saber quais eram os motivos que levaram o homem a arriscar tanto.

Sasuke deu de ombros distraidamente, dispondo os utensílios sobre a mesa.

– Por enquanto, preciso arranjar um emprego. – ele sorriu para si mesmo, fazendo Naruto erguer uma sobrancelha para o tom distante, mas explicativo. – Antes de sair de Kyoto, eu paguei por seis meses de aulas em uma escola preparatória. Se tudo der certo, eu pretendo prestar uma prova, fazer pós-graduação por aqui e, quem sabe, ficar definitivamente. – ele definiu os pratos sobre a mesa e encarou os olhos azuis cerúleos.

O loiro sorriu, cruzou os braços e se encostou em uma pilastra ao lado do balcão da cozinha, sentindo-se um pouco orgulhoso e admirado com os planos ambiciosos do rapaz. Sasuke sempre foi um garoto inteligente e persistente. O Uzumaki não duvidava que o moreno se saísse bem em seus planos, mesmo que tivesse de empurrar um monte de cartas para conseguir o que queria. Mais uma vez, a passagem do tempo o acertou, enquanto ele reparava o quanto o jovem parecia ter mudado. A maturidade de suas metas mostrando o quanto o irmão caçula de Itachi havia crescido.

Ele só percebeu que estava encarando intensamente, quando o outro se remexeu de forma desconfortável, enquanto se movia pela sala de jantar.

– O quê?! – Sasuke questionou de repente, desviando o olhar em reflexão profunda, com um vinco profundo entre suas sobrancelhas.

O sorriso de Naruto aumentou.

– Eu não podia esperar menos de você. – ele respondeu, bagunçando o cabelo negro, como costumava a fazer quando eram mais novos, e ignorando a forma como o Uchiha arregalou os olhos em surpresa.

O moreno demorou um pouco, antes de reagir ao seu ataque e empurrar sua mão com uma careta, contudo, o loiro podia ver que o homem não estava tão irritado quanto aparentava.

Os dois foram interrompidos por um riso infantil. Pelo canto do olho, o Uzumaki viu um ponto vermelho e branco se mover em sua direção e se esconder atrás das pernas de Sasuke. Por um momento, Naruto ficou confuso com a situação; Nagato estava correndo pela casa como veio ao mundo, sendo perseguido por Itachi, que apareceu no corredor todo descabelado. Assim que ele olhou para o melhor amigo, entendeu o que estava acontecendo.

– Eu juro, Uzumaki, você está fazendo o seu filho criar um gosto por andar nu por essa casa e se tornar um punhado tanto quanto você! – acusou sem um tom de repreensão, olhando o menino com o olhar falso de aviso. Naruto gargalhou e Sasuke olhou desconfiado para a novidade.

– É mentira, tio ‘tachi estava me fazendo cócegas! – Nagato se defendeu, apontando o dedo pequeno para o mais velho e agarrando a parte traseira das calças do outro moreno. O garoto franziu as sobrancelhas vermelhas para o homem mais velho, tentando segurar o sorriso de romper o seu rosto.

O Uchiha mais novo encarava a tudo com estranheza, como se não esperasse que seu irmão fosse agir tão infantil, mesmo com uma criança. O tempo podia fazer mágica com as pessoas.

– Vá se vestir para o jantar, Nagato. – Naruto pediu em meio aos risos. – Você não espera que a gente coma olhando para o seu pipi, certo? – perguntou, tentando cutucar o garoto no baixo-ventre, mas este se afastou, enquanto ria ainda mais, gritava “não” e tentava esconder as partes íntimas com as mãos. – Ué, cadê o seu pipi? É tão pequeno que eu não consigo ver...

– É claro! Eu estou escondendo ele! – o ruivo retorquiu, fugindo de Sasuke, visto como o outro homem não parecia ser uma proteção muito boa, uma vez que seu pai conseguia lhe provocar com facilidade.

– Sério? Mesmo se eu escondo o meu, é capaz das pessoas verem, de tão grande que ele é! – disse, olhando para baixo e fingindo analisar o volume em sua calça jeans.

– Você é grande, então, seu pipi é maior que o meu! – Nagato não se deixou abalar, olhando criticamente para o loiro.

– Seu pai só está enaltecendo o próprio ego, Nagato. – Itachi interrompeu a discussão deles com um sorriso malicioso. – Ele não é tão grande assim. – ele disse com pouco caso.

– Que diabos, ‘tachi! – Naruto gritou com uma careta ultrajada. – Faço questão de medir o seu pau, polegada por polegada, só pra saber se você é tão grande quanto eu! – sua indignação teria soado convincente, se ele não tivesse balançado as sobrancelhas sugestivamente para o homem.

– Eu acho que tio ‘tachi é maior que você! – tendenciosamente, Nagato pesou para quem o defendia.

Itachi riu e o chamou com a mão. Sem hesitar, o menino correu até o mais velho e mostrou a língua para o loiro, antes de se afastar até o quarto acompanhado do Uchiha.

– Dá para acreditar nesse moleque? Eu sou o seu pai! Eu que o carreguei nove meses na minha barriga, alimentei e cuidei, e é assim que ele me trata! – Naruto desabafou e dramatizou, olhando para Sasuke em busca de apoio.

O moreno revirou os olhos e se afastou também.

– Vocês são estranhos. – ele simplesmente disse, antes de sumir no corredor para buscar o seu celular no quarto.

(***)

Naruto acordou com uma movimentação estranha no corredor. Preocupado, ele empurrou o edredom e se levantou da cama. Esfregando os olhos e soltando um bocejo, ele saiu do quarto para encontrar uma figura masculina saindo do banheiro. Por um momento, ele demorou a entender que aquele homem era Sasuke.

– Hey... – ele murmurou, bocejando outra vez e coçando o peito nu distraidamente. – O que está fazendo acordado tão cedo? – perguntou, vendo o rapaz arrumado como se fosse sair.

– Eu tenho aula às nove. – explicou. – Desculpa se eu te acordei.

Naruto balançou a cabeça em demissão, como se o pedido fosse irrelevante.

– Você já tomou café? – o loiro perguntou e sem esperar uma resposta, começou a caminhar até a cozinha. Ele olhou para o relógio no canto superior da parede e contou quanto tempo tinha para preparar algo a tempo do rapaz comer e ir à escola. Ele não tinha a mínima ideia de que as aulas do Uchiha começavam tão logo ele chegou à Califórnia. A princípio, acreditou que o moreno daria tempo para conhecer a cidade, passear um pouco, rever os velhos amigos, mas, pelo visto, ele esqueceu que Sasuke era irmão de Itachi. Ambos podiam ser diferentes em alguns aspectos, mas eram totalmente semelhantes em outros. Assim como o seu melhor amigo, o mais novo era extremamente focado em seus objetivos.

Era algo que ele admirava no garoto, desde quando este era uma criança.

– Não precisa se preocupar, Naruto, eu como alguma coisa no caminho. – a voz profunda e ao mesmo tempo suave interrompeu seus pensamentos.

Ele olhou para o Uchiha, avaliando suas feições por um momento. Os orbes negros eram intensos de encontro aos seus e a densidade o incomodava, por algum motivo, ele não conseguia encarar o rapaz por muito tempo, sem se sentir inseguro e intimidado. Era estranho e o irritava.

– Eu preciso preparar o café da manhã de qualquer maneira, Sasuke. – explicou, puxando a frigideira de dentro da lava-louças. – Nagato vai acordar a qualquer momento e ele precisa comer antes de ir para a escola também.

Ele viu o moreno concordar receosamente e voltar para o quarto, a fim de terminar de se arrumar. Ele esfregou os olhos, ainda se sentindo sonolento, e começou a separar os ingredientes para fazer os ovos mexidos. Naruto não estava com muita inspiração para elaborar algo mais trabalhado e decidiu optar pelo mais fácil.

O sentimento esquisito e incômodo que o rondava, quando o homem estava por perto, ainda retorcia a boca do seu estômago, mas ele tentou não dissertar muito sobre essas sensações, talvez, com receio de descobrir o porquê de aquela presença mexer tanto com os seus sentidos. Parte dele acreditava que seu desconforto era causado pelo constrangimento do passado conturbado que tiveram, pelas várias palavras que deveriam ter sido ditas, mas eram evitadas como pesadelos, e pelas incertezas que os rondavam.

Naruto queria saber desse novo Sasuke, mas ele tinha medo que sua curiosidade pudesse abrir margem para algo que ambos não desejavam. Ele tinha ciência que suas perguntas atravessariam uma linha delicada e – conhecendo o rapaz como conhecia – algo lhe dizia que o outro não seria tão manso a respeito de ultrapassar certos limites. Desde que chegara, o Uchiha estava sendo vago e disperso, como se quisesse impor certa distância entre eles, e o Uzumaki não era tão ignorante ao ponto de não entender esses pequenos sinais de alerta.

Mas, ainda assim, ele queria que não fosse dessa forma.

– Pai. – a voz pequena chamou, quebrando a linha dos seus pensamentos. – Bom dia. – Nagato forçou um sorriso cansado e esfregou os olhos para dissipar o sono.

– Bom dia. – ele respondeu distraidamente, colocando os ovos mexidos em uma travessa de vidro. – Nagato, pegue as coisas na geladeira para o café da manhã e coloque em cima da mesa, por favor? – pediu, ainda com a cabeça longe.

– Deixa que eu ajude o seu pai, Nagato, vá trocar de roupa para não se atrasar pra escola. – Sasuke interrompeu o menino e chamou a atenção do loiro.

O ruivo pequeno abriu um sorriso de agradecimento, concordou e correu para o corredor, para voltar alguns segundos depois.

– Bom dia, tio ‘suke! – ele cumprimentou, antes de correr novamente até o quarto de Itachi para se arrumar.

O loiro sorriu com o gesto e o olhar sério no rosto do Uchiha pareceu suavizar por alguns segundos, antes de voltar a brilhar de forma indiferente.

– Obrigado, Sasuke. – Naruto agradeceu, cortando umas fatias de pão para colocar na torradeira. – Você pode pegar um saquinho plástico com zíper no armário à direita. – apontou. – Preciso fazer o lanche do Nagato para a escola. – explicou com um sorriso sem graça.

– Quem diria que você seria um pai tão atencioso. – Sasuke ironizou com tom de brincadeira, mas sem soar necessariamente ofensivo. – São esses? – ele perguntou, mostrando um dos saquinhos para o mais velho.

– Sim... – agradeceu, começando a fazer dois sanduíches bem servidos com queijo, peito de peru, alface e tomate. – Às vezes é preciso ser um pai atencioso. – replicou com riso fácil no tom de voz. – Porque nem sempre consigo essa proeza. – jogou distraidamente, embrulhando os lanches em um pedaço de papel alumínio.

Um silêncio pesado cresceu entre eles, como se ambos não soubessem mais o que dizer. Eles teriam ficado nesse clima por tempo indeterminado, visto como nenhum deles estava com vontade de abrir a boca para continuar o assunto. Apesar da quietude, Naruto podia sentir o olhar analítico do outro perfurando a lateral da sua cabeça.

– O que vocês normalmente comem de manhã? – Sasuke perguntou, abrindo a geladeira parecendo meio perdido. Ele não precisou explicar para que o loiro entendesse. Mesmo tendo morado por um tempo na Califórnia, o rapaz sempre fora criado dentro dos costumes japoneses. Embora soubesse o que comiam no café da manhã, não tinha certeza sobre os hábitos que ele e Itachi mantinham em sua própria casa.

Naruto quase bateu na própria testa, quando percebeu que se esquecera de considerar o que o outro homem iria querer comer.

– Pode pegar o leite, a galeia, o açucar e a manteiga da geladeira. – orientou. – Nós não temos um critério. Geralmente, quando Itachi acorda mais cedo, ele prepara arroz e omeletes. Eu sou um pouco mais preguiçoso e opto pelo que estou acostumado: ovos mexidos, waffles ou panquecas. – sorriu. – Eu tomo café de manhã, mas seu irmão sempre toma chá e Nagato, leite com açúcar; é o único costume que mantemos. E você, prefere o quê? – perguntou com um sorriso divertido, tentando amenizar o desconforto do Uchiha.

– Chá. – respondeu com encolher de ombros.

– Orientais são tão previsíveis. – brincou. – No armário de trás tem um pote cheio de sachês de chá, pode escolher qual você prefere. – apontou uma chaleira elétrica em cima do balcão de madeira ao lado da geladeira. – E ali tem água quente.

– Você fala como se não tivesse sangue oriental. – Sasuke resmungou, movendo-se pela cozinha.

– Você não é nada divertido, Sasuke. – Naruto constatou, percebendo a expressão carrancuda e mal-humorada do moreno.

– Não de manhã. – murmurou, começando a se servir de ovos mexidos. – Você sabe como faço para chegar até a 9th Street? – perguntou. – Eu vi o caminho no Google Maps, mas ele costuma falhar às vezes. – explicou, mexendo a comida distraidamente com o garfo, enquanto pensava sobre o precisava fazer. – Pelo que eu vi, fica perto da Square Station.

– Eu vou te levar até a escola, Sasuke. – Itachi interrompeu a conversa dos dois, surgindo do corredor totalmente arrumado para o trabalho. – Se você for pelo trem, vai se perder. É melhor pegar o metrô e descer na Lake Merritt. Eu te ensino o caminho hoje e amanhã você pode ir sozinho.

Naruto viu o mais novo fazer um beicinho emburrado, como se estivesse prestes a reclamar que não era mais uma criança. Mas, depois de ponderar um segundo, ele viu que era a melhor opção que se perder e faltar no primeiro dia de aula. Por um momento, o rapaz se pareceu com aquele menino que ele conheceu há 14 anos.

– Nós vamos passar na escola de Nagato, antes de chegar até onde você vai estudar. Quando estiver voltando pra casa, quero que o busque, porque eu não poderei sair do trabalho mais cedo e Naruto tem reunião depois do almoço e ficará a tarde inteira fora de casa. – comandou em um tom que não aceitava “não” como resposta, fazendo a careta contrariada do seu irmão caçula se aprofundar ainda mais com o timbre autoritário.

– Eu posso tentar sair mais cedo, ‘tachi... – tentou argumentar para impedir que o Uchiha mais novo se tornasse outro responsável por Nagato, mas seu melhor amigo balançou a cabeça negativamente, impedindo-o de continuar.

– Sasuke pode buscá-lo na escola, não pode, Sasuke? – o homem se virou para o moreno, com um olhar estreito em aviso.

O rapaz só grunhiu em resposta, desviando o olhar do mais velho e optando por comer em silêncio com as sobrancelhas franzidas em contrariedade. Naruto olhou para os dois por um momento e depois tornou a encarar o amigo com intensidade. Itachi estava insistindo demais que o outro pegasse seu afilhado na volta pra casa e ele não sabia avaliar se estava gostando muito da atitude do Uchiha.

– Não se preocupe, Naruto, eu posso buscar Nagato na escola. – Sasuke confirmou suavemente depois de alguns segundos de silêncio, como se há alguns minutos não estivesse fazendo careta sobre o pedido do seu irmão.

– Obrigado, Sasuke. – o loiro agradeceu, fingindo não ver o sorriso satisfeito no rosto de Itachi.

Notas finais
Queria mandar um beijo para a minha mãe, para o meu irmão, para o meu gato Bobby e minha gata Kitty que vivem me trazendo cadáveres como presente, para o meu revisor maravilhoso que conversa comigo por HORAS e ainda salva meus textos e principalmente para você, seu lindo(a)!