Dois Pesos e Duas Medidas
11 Capítulo 11 – Desembaraço
Notas iniciais
Decidi recomeçar a história. Entretanto, preferi substituir o “era uma vez” pelo “é dessa vez”.
Lucas Aurélio.
Capítulo 11 – Desembaraço
Naruto tinha acabado de clicar em “Enviar”, quando ouviu a porta da frente abrir e fechar, o tilintar das chaves, quando bateram na madeira do aparador, e o som de um conjunto de passos, adultos tranquilos e infantis correndo pelo corredor até o seu quarto. Ele tentou segurar o riso, mas não conseguiu, quando braços pequenos enrolaram em seu pescoço em um abraço muito apertado e o cheio inconfundível de maçã verde chegou até seu nariz.
— Tadaima! – Nagato gritou animadamente, apertando-o ainda mais.
— Okaeri. – respondeu calmamente com um sorriso, em contraste com a animação da criança. Ele fechou a caixa de entrada do seu e-mail profissional, encerrando seu trabalho do dia, antes de puxar o menino para o colo e afagar o cabelo vermelho. – E aí, como foi a escola?
O ruivo se desencostou do peito do seu pai, para olhá-lo.
— Bem. Eu tenho vários deveres de casa para o final de semana. – contou com um muxoxo desanimado. – Você vai ter que me ajudar nas lições de ciências! – exigiu com seriedade; as sobrancelhas rubras franzidas em aborrecimento.
Naruto apertou os lábios para se impedir de rir. Nagato era terrivelmente mandão e autoritário às vezes, e ao invés de irritá-lo, o loiro se divertia. Era naquelas horas que ele se dava conta de que realmente estava contribuindo para a prepotência da criança.
— É claro que eu vou te ajudar. Esse é meu dever como pai, não é? – brincou. – Cadê o seu tio ‘suke? – perguntou, tentando não dar em seu tom de voz, o quanto achava bonita a forma como o menino chamava Sasuke. E o quanto estava curioso.
— Eu acho que ele foi para o quarto. – sorriu e, depois, mordeu a parte interna da bochecha, em dúvida. – As meninas agem muito estranho, quando o tio ‘suke está por perto. – confidenciou com uma cara meio irritada. – As meninas também agem de forma estranha com o tio ‘tachi, mas com o tio ‘suke é bem pior!
Naquele ponto, o Uzumaki não aguentou e começou a gargalhar. O outro o olhou com um misto de confusão e contrariedade.
— É porque eles são muito bonitos. – esclareceu simplesmente, fazendo o menino o olhar como se estivesse ofendido com aquela explicação.
— Só por causa disso?! Meninas são muito estranhas. – admoestou.
Naruto riu mais um pouco das observações inocentes da criança. Quando ele dizia “meninas”, ele englobava também as mulheres. Nagato não gostava de atenção, por isso ficava tão ressabiado. Sasuke sempre atraiu as pessoas, desde criança, mesmo emitindo umas ondas meio hostis. Antigamente, as atenções eram sempre como ele era fofinho, mesmo com o semblante mal-humorado. Hoje, o loiro tinha certeza que o foco daquela visibilidade toda era outro. O rapaz tinha se tornado um homem de fato surpreendente, e o rosto sério emitia aquela energia misteriosa, que clamava a vontade de desvendá-lo por inteiro. Pedaço por pedaço. Em cada detalhe.
— Você vai entender, quando ficar um pouco mais velho. – ele murmurou, fazendo o ruivo resmungar um simples “você sempre diz isso” como resposta. – O que acha de jantarmos fora? – mudou de assunto. – É sexta-feira, você não tem aula amanhã, Itachi vai chegar tarde essa noite e eu não estou muito afim de cozinhar hoje...
— Podemos ter Chow Mein? – ele perguntou, se levantando para correr até o quarto. – E sorvete depois, na sobremesa?
— Podemos. – sorriu com uma piscadela, se levantando também pra trocar de roupa. – Vá chamar o Sasuke para ir com a gente. – pediu com um tapa estalado na bunda magra e pequena, vendo-o correr para fora do quarto, gritando pelo outro homem.
Ele se moveu até o guarda-roupa, fingindo ignorar o som da voz de Nagato falando com o Uchiha mais novo. Sasuke tinha um tom profundo, mas ele falava baixo e mal dava para distinguir o que ele dizia entre o timbre animado do seu afilhado. Com um suspiro, ele pegou uma camiseta raglan azul e branca da gaveta e uma calça de sarja simples. Naruto sabia que estava usando a criança a seu favor para convencer o moreno a sair essa noite, porque já tinha percebido que o rapaz tinha um fraco pelo garoto espevitado.
Sem exigir nada, o irmão do seu melhor amigo buscava o menino na escola depois da própria aula, e ainda bancava a babá, enquanto ele e Itachi trabalhavam.
— Vamos, tio ‘suke! – ele ouviu Nagato insistir.
Mordendo o lábio inferior, ele saiu do quarto abotoando a calça, para encontra-los parados no corredor. Sasuke lançou um olhar breve em sua direção, atraído pelo barulho dos seus passos pesados ecoando pelo chão de madeira. Os olhos escuros percorreram sua figura seminua, antes que ele apertasse os lábios em uma careta fechada. Naruto reteve um suspiro cansado, vendo o quanto o Uchiha ainda estava irritado com a briga que tiveram no começo da semana.
— Não há muito que fazer, Sasuke. A geladeira e a dispensa estão vazias, porque nem eu ou Itachi tivemos tempo de ir ao mercado essa semana. – explicou. – Pense nisso como um pedido de desculpas por me meter na sua vida. – demandou com um encolher de ombros, resistindo ao impulso de rolar os olhos. Ele não estava particularmente arrependido e, ia insistir mais uma vez na proposta que fizera na segunda-feira.
Nagato franziu os lábios, em dúvida sobre o que os adultos estavam falando. Um longo minuto de silêncio depois, Sasuke finalmente respondeu:
— Ok.
O Uzumaki arregalou os olhos de surpresa, pois não esperava que o rapaz aceitasse tão facilmente, e soltou a respiração que não sabia estar segurando.
— Ótimo. – sorriu. – Nagato quer comer Chow Mein em um restaurante chinês perto de onde você estuda. Se você gostar, já sabe onde almoçar no intervalo das aulas. – deu uma piscadela e empurrou seu afilhado em direção ao quarto de Itachi. – Vá se arrumar, fedor! – brincou.
— Eu não sou fedido! – o ruivo choramingou, batendo os pés.
Naruto sorriu com a birra infantil e caminhou até o banheiro para terminar de se arrumar, sentindo-se levemente triunfante e também aliviado. Depois de pensar muito, em toda a conversa que tivera com Ino, Itachi e Sai, ele desistiu de lutar com suas próprias emoções e anseios. Apesar dos medos e das inseguranças, que ainda lutavam por um lugar em sua cabeça, ele decidiu que abriria espaço para Sasuke decidir o que queria fazer. O loiro finalmente deu o braço a torcer e reconheceu que o caçulo Uchiha não era mais uma criança.
E só o fato de vê-lo como igual, fê-lo se sentir infinitamente melhor.
Ele até tentou segurar aquela visão que tinha; daquele garoto apaixonado, infantil e devoto que um dia existiu. Contudo, cada vez que olhava o homem que o “garoto” se tornou, ele entrava em conflito consigo mesmo. O moreno era intenso, mesmo que muito reservado. Seus olhos escuros eram fortes, e como alguém podia ser tão expressivo e estoico ao mesmo tempo, ele não sabia. A voz grave e profunda era um tormento e, às vezes, só de ver a boca cor-de-rosa se abrir, o loiro se arrepiava por inteiro. Ele ficava sonhando acordado sobre como aqueles lábios se sentiriam sobre sua pele e como o rapaz soaria, quando estivesse gemendo. O timbre rouco e agressivo arranhando seu psicológico e o acendendo.
Seu pênis deu um tique com interesse e ele o ajeitou dentro da calça e cueca. Não havia nada de pueril na visão que ele tinha do irmão caçula do seu melhor amigo e aquilo o perturbava. Muito. E teimar em manter aquela visão de Sasuke pequeno, com 12 anos de idade estava piorando as coisas.
Renovando suas convicções, ele terminou de se vestir e saiu para esperá-los na sala de estar. Sentou-se no sofá, com as pernas espalhadas para aliviar o leve incômodo em sua virilha e encarou o retrato que o mais novo tinha feito de Nagato há alguns dias. Ele não iria com muita sede ao pote, visto como o moreno insistia em manter certa distância entre eles. No entanto, o Uzumaki deixaria claro em ações indiretas que estava atraído. Dependendo de como as coisas caminhassem, seria mais direto. Fazia tempo que não flertava com as pessoas, mas Itachi e Ino insistiam em dizer que ele era um namorador natural, quem sabe, usaria a característica a seu favor.
— Eu estou pronto!
Naruto acordou de seus pensamentos com a voz fina do seu afilhado exclamar no corredor. Ele virou a cabeça para ver o menino vestido com uma calça jeans toda puída em ambos os joelhos, uma camiseta camuflada cinza e preta e um tênis cano alto branco. O loiro abriu um sorriso enorme.
— Como você está chique! – elogiou, afinal, ele que tinha comprado aquelas roupas.
O ruivo pequeno riu muito orgulhoso de si mesmo.
— Não sei se devo ficar preocupado com o fato de você estar tornando Nagato uma pequena versão sua. – Sasuke interrompeu a conversa entre pai e filho. Apesar do timbre sério, comedido e, de certa forma, receoso, era perceptível um leve traço de humor, o que fez ambos os Uzumaki sorrirem, um mais divertido que o outro. – O que Itachi fala sobre isso?
Naruto descartou a questão com um gesto de descaso, levantou-se e caminhou até o homem para se inclinar em direção ao Uchiha. Seus ombros se encontrando com um toque suave, antes que o loiro se afastasse.
— Ele acha graça. – respondeu finalmente, pegando a chave do carro no aparador de madeira. – Nagato ganha um monte de roupas e cada um compra o que acha ficar bonito. Ele usa tudo, pelo menos até agora. – divagou, passando os dedos entre os cabelos vermelhos. – Quando ele determinar o que gosta e o que não gosta dentro da própria cabecinha, ele pode escolher o que vestir, né? – perguntou, apontando as escadas no hall do andar, trancando a porta do apartamento e olhando para o garoto atrás de respostas.
— Eu gosto de tudo. – o ruivo deu de ombros.
O loiro revirou os olhos e encarou Sasuke, que olhava os dois com diversão.
— É claro que você gosta, porque é um interesseiro e ama presentes. – mostrou a língua para o menino, antes de correr ao ouvir os gritos indignados do afilhado.
(***)
— Eu não sei quem é mais criança. – Sasuke comentou, sentando-se em uma mesa livre no restaurante chinês, que ficava umas quadras abaixo de onde estudava.
Naruto riu e Nagato fez uma careta para o mais velho deles.
— Desculpa. – pediu sem estar arrependido. – Eu gosto de provocar esse moleque; é assim que eu demonstro o meu amor, não é, Naga-chan? – perguntou, apertando a bochecha direita do seu afilhado, fazendo-o o gritar e chamar a atenção do resto do restaurante para eles.
O ruivo corou.
— Você só me maltrata! – o garoto sibilou emburrado, amenizando o tom de voz.
— Não é verdade. – o loiro rebateu e olhou para Sasuke, que assistia a interação com cuidado. – Só o trato assim, com brincadeiras, porque quero que Nagato sinta que somos amigos também, além de termos uma relação pai e filho. – a declaração fez com que os outros dois suavizassem suas feições. – Nós não tivemos isso, sabe? Eu e você. – olhou para o Uchiha e estendeu o braço para cutucar os dedos pálidos do outro lado da mesa e indicar que se referia a ambos. – Nossos pais estavam preocupados demais com o trabalho. Eu sei que eles tinham os compromissos e responsabilidades deles como pais, mas não quer dizer que não fez falta naquela época. Meu pai vivia angustiado sobre nunca me deixar faltar nada, uma vez que eu já tinha perdido a mãe, mas se focou demais nos meus estudos e em bens materiais, e esqueceu um pouco o companheirismo. Seu pai era fechado, sério e tradicional demais para se deixar levar facilmente por emoções e afetos. – gesticulou com a mão livre para enfatizar seus pontos. – Querendo ou não, essas coisas mexem com a nossa infância e adolescência.
O moreno sustentou seu olhar com seriedade. A testa franzida com concentração.
— Eu não quero que falte amor para Nagato, quando ele já perdeu tanto, sendo tão novinho. – mordeu o lábio inferior, ponderando as palavras seguintes. Seu polegar acariciando a pele fina na parte interna do antebraço do moreno sem que o próprio Naruto percebesse o que estava fazendo. – Quero que ele saiba que pode contar comigo em todos os momentos, como amigos verdadeiros fazem. – respirou fundo. – Não sou um exemplo muito bom, sei disso, porque já o machuquei sem perceber várias vezes com as minhas explosões, impulsividade e falta de maturidade sobre as coisas... – encarou a mesa em pensamento profundo. – Mas, eu não quero que ele pense que falta carinho e camaradagem, por causa dos meus defeitos.
Um silêncio profundo se fez entre eles, cada um preso com suas conclusões sobre o que foi dito. Ao ouvir um pigarreio, o Uzumaki tornou a erguer o olhar.
Sasuke o encarava com uma compreensão que ele nunca tinha visto antes.
— Se tem algo que ninguém pode questionar, Naruto – começou o Uchiha. –, é o seu amor por essa criança. – ele sorriu genuinamente, fazendo o loiro perder o fôlego por um instante. – Apesar das implicações, das brigas infantis e das brincadeiras irrelevantes, está na cara que você daria o mundo para Nagato se pudesse.
Ambos olharam para o tema da conversa e viram os olhos violáceos molhados com lágrimas não derramadas. O loiro se sobressaltou assustado na cadeira e soltou o braço do Uchiha, que não percebeu estar segurando ainda.
— Hey, por que você está com essa cara? – perguntou, puxando o menino para o seu colo. Nagato, que até a pouco estava calado, começou a chorar audivelmente com o rosto enfiado na camiseta do padrinho. Seus soluços eram evidentes, mesmo que tentasse abafar os sons no tecido da roupa.
Ele olhou para os olhos escuros de Sasuke à procura de uma explicação, confuso e espantado com o choro repentino, e só o encontrou com um sorriso leve nos lábios.
— Vamos pedir para que embalem o jantar para viagem. A gente pode passar em um mercado para comprar o sorvete que ele quer. Vamos para casa. – o Uchiha sugeriu e pegou o menu para ordenar os pratos que seriam levados.
Naruto por fim entendeu o que tinha acontecido. Sem dizer uma palavra, Sasuke o avisou que seu afilhado só estava se sentindo sensível com a rara demonstração de afeto. Com um sorriso agradecido e um aceno leve de cabeça para o outro homem, ele voltou a atenção para seu afilhado, que ainda chorava em seu colo. Ele beijou o topo da cabeça vermelha e afagou os fios macios com amor.
— Hey, pare de agir como se o que eu disse fosse novidade! Você sabe que te amo! – pediu com um sorriso carinhoso, fazendo o garoto chorar mais ainda. Seu coração se apertou e ele engoliu em seco para disfarçar a agonia. Naquelas horas, tornava-se perceptível o quanto se ver como um peso para o padrinho, tinha mexido com o psicológico da criança. O fato só o fez se sentir mais horrível na vida de Nagato e questionar novamente se era certo continuar com a guarda do menino.
(***)
Sasuke tinha dirigido seu carro em todo o caminho na volta, desde que saíram do restaurante, porque o seu afilhado não parecia disposto a largá-lo. Eles foram para o mercado e compraram o sorvete favorito do menino, apenas para ver se o humor dele melhorava, contudo, depois de tanto chorar, o ruivo estava cansado demais para esboçar uma reação decente.
Eles chegaram mais cedo que o esperado; e o jantar não tinha acontecido como o planejado. Pelo contrário, nada do que Naruto esperava acontecer, aconteceu. Ele tinha imaginado conversar com o Uchiha a respeito do trabalho que arranjou para ele na galeria de Sai; tinha esperado flertar um pouco, quem sabe... Mas, não deu. E ele não se sentia frustrado, porque, apesar de tudo, ele se sentia mais próximo de Sasuke que nunca. Ainda havia certa barreira que os separava, como os limites que o moreno fez questão de delimitar para o relacionamento deles, mas não era tão rígida quanto antes, era apenas um limiar que definia uma nova relação entre eles.
Quando eles chegaram ao hall do andar onde viviam, o silêncio balançava indeciso entre ser ou não ser desconfortável. A tristeza e o choro de Nagato tinham aberto questões delicadas, mas a compreensão que girava em torno de toda a situação, de certa forma, era um alívio.
O moreno estava prestes a abrir a porta do apartamento, quando o Uzumaki sentiu que ainda havia coisas que precisavam ser ditas:
— Sasuke? – chamou com um sussurro, uma vez que o ruivo tinha caído no sono em seus braços. – Obrigado por hoje e por tudo o que tem feito por Nagato. – sorriu, quando o homem se virou para encará-lo. – Você tem cuidado dele para mim todos os dias, quando deveria estar à procura de um emprego pra começar a sua vida na Califórnia, e eu sou grato. Eu vejo o quanto tem se esforçado. – abaixou o olhar, humilde. – Eu não menti, quando disse que quero que consiga realizar os seus objetivos aqui.
Aproximou-se para ficar cara a cara com o Uchiha e dar ênfase em suas palavras. Quando seus olhares se encontraram, intensos e significativos, o loiro se perguntou se Sasuke sabia o quanto o deixava maluco. O homem tinha chegado de supetão em sua casa e vida, bagunçando todas as certezas que tinha e o fazendo duvidar até de si mesmo. Era desesperador a forma como as emoções com relação ao mais novo abalavam o seu interior e mexiam com a sua cabeça.
— Naruto... – ele começou, mas não continuou, parecendo muito incerto sobre o que dizer.
— Eu sei que você pensa que eu o vejo como criança e, por esse motivo, me meto na sua vida... – murmurou sem desviar o olhar. – Mas, acredite quando digo que faço o que faço, justamente por me importar e acreditar em você. – sentiu uma vontade enlouquecedora de tocar a pele pálida, que parecia ainda mais translúcida sob a luz fraca do hall do terceiro andar, e não se reteve, quando sua mão se moveu sozinha para acariciar o maxilar cinzelado com o polegar. – É uma ótima oportunidade para estar em contato com o que você realmente gosta. Poucos têm essa chance, então, aproveite isso. Deixe-me te ajudar como tem me ajudado; deixe-me retribuir o que está fazendo pelo Nagato. – pediu com seriedade.
O pomo de adão do outro tremeu com incerteza; os olhos negros vibrando em todo o seu rosto à procura de alguma coisa que Naruto não sabia dizer o que era.
Depois de um longo tempo, que pareceram minutos enquanto eles se encaravam profundamente e mediam convicções, Sasuke finalmente respondeu:
— Eu juro que vou pensar novamente no assunto. – garantiu com firmeza, antes de engolir em seco e se afastar para entrar no apartamento.
Naruto suspirou, ainda sentindo a suavidade da pele em contraste com o seu dedo calejado. Agora, ele seria atormentado pela sensação tímida da tez em seu dígito e pela perspectiva de como seria ter o corpo inteiro em suas mãos.
(***)
O loiro escreveu o que ouvia em um bloco de notas largado a esmo em sua mesa de trabalho. Eram os detalhes que faltavam sobre a nova campanha que começaria a criar em breve e ele não poderia esquecer. Confirmou com a pessoa do outro lado da linha e desligou o telefone com um suspiro, meio satisfeito e meio cansado com a perspectiva do negócio recém-fechado.
Distraído com os pensamentos sobre como começar, ele quase não ouviu a suave batida na porta. Erguendo a cabeça, encontrou Sasuke parado na entrada do seu quarto, parecendo se sentir muito inadequado.
— Hey, Sasuke! – cumprimentou e apontou para a cama às suas costas. – Entre e se acomode! – brincou. – Não é um lugar adequado para uma reunião, mas como você não agendou um horário, não tive tempo de alugar uma sala em algum coworking decente! – sorriu, vendo-o revirar os olhos.
— Eu só vim conversar a respeito do trabalho na galeria de arte do seu amigo. – ele respondeu simplesmente, antes de sentar no espaço indicado.
Naruto teve que fechar os pensamentos maliciosos sobre ter o Uchiha deitado em sua cama, ao invés de estar simplesmente sentado, os cabelos escuros espalhados pelo colchão como se fossem tinta preta, o rosto torcido em agonia, enquanto ele...
Pigarreou.
— Pensou com carinho sobre o assunto? – indagou, tentando se mostrar insensível aos devaneios que invadiam a sua mente sem querer.
Sasuke apertou os lábios em uma linha fina, enquanto ponderava. Na certa, estava lutando contra o próprio orgulho para admitir que queria o emprego.
— Será que a vaga ainda está disponível? – respondeu com outra pergunta.
O loiro quis sorrir com a maneira como o mais novo contornou a questão para não admitir que tivesse sido precipitado, mas se controlou, sabendo que ele leria a sua expressão e se fecharia novamente ao se sentir ofendido.
— Meu amigo não tinha a intenção de contratar alguém. Ele só aceitou uma sugestão minha para ajudá-lo nas tarefas burocráticas e na administração da galeria, e, por coincidência ou não, essa ajuda é você. – explicou com um tom divertido.
Sasuke balançou a cabeça negativamente com descrença.
— Hey, não faça essa cara! – advertiu, arrancando um pedaço de papel do bloco de notas e escrevendo algo. – Aqui está o número da ANBU Gallery. Você pode ligar lá e chamar por Sai Shimura. Ao dizer o seu nome, ele logo vai te reconhecer como o irmão mais novo de Itachi. Vocês não se conhecem, mas eu expliquei que você está fazendo intercâmbio na Califórnia e pretende construir sua vida aqui. – entregou o telefone e instruiu animadamente. – Alguma dúvida? – perguntou por desencargo de consciência, pois sabia que tendia a falar rápido e se atropelar, quando estava ansioso.
O moreno pareceu meio incerto por alguns segundos, antes de se recompor.
— Obrigado. – ele murmurou por fim, erguendo os olhos do papel que segurava para encarar os orbes azuis do Uzumaki.
Naruto sorriu, sentindo-se repentinamente sem graça. Ele coçou a nuca e desviou o olhar para a janela. A noite só estava começando a despontar no horizonte.
— De nada. – respondeu muito mais suave, sentindo a quietude do Uchiha amenizar o seu excesso de energia. – Ah! – exclamou, lembrando-se de algo. – Eu tenho umas fotos da galeria aqui no celular, se você quiser ver.
Antes que o outro pudesse objetar, ele pegou o aparelho móvel em cima da mesa e digitou a senha para desbloqueá-lo. O loiro se levantou para sentar ao lado do mais novo e estendeu o telefone para que Sasuke pudesse ver as imagens. Eles ficaram assim por muito tempo, próximos para verem juntos, enquanto os dedos longos e pálidos se moviam pela tela para mudar as fotografias. Naruto explicava cada uma delas, familiarizado com cada espaço registrado.
— Talvez não agora, mas acho que futuramente Sai deixe você expor alguma de suas próprias peças. – divagou. – Ele mencionou ter planos para reservar um lugar para artistas independentes colocarem suas obras, uma vez que poucos estão dispostos a dar abertura para essas pessoas. – sorriu, erguendo o rosto para encará-lo, e só, então, percebendo que ambos estavam praticamente colados.
Ele olhou para o perfil masculino, bebendo a imagem diante dele como um sedento no deserto. Sasuke era perfeito. A pele branca não tinha nenhuma mácula e era lisa como a de um bebê, se não fossem pela expressão sempre austera e o corpo bem construído, o homem iria parecer que tinha no máximo 19 anos. Pouco mais jovem que realmente era. O cabelo preto-azulado brilhava e parecia sedoso ao toque. E o cheiro singular, refrescante, que parecia existir só nesse homem? Naruto estava se tornando viciado em apenas alguns segundos.
Antes que desse vazão aos seus desejos, de puxá-lo e arrebatar a boca meio aberta em um beijo sôfrego, e o Uchiha perceber a proximidade entre eles, afastou-se. A contenção estava o matando aos poucos, mas o Uzumaki tinha plena noção que se o atacasse agora, ele perderia o pouco de proximidade que conseguiu a muito custo. Levantando-se, ele soltou a respiração que não sabia estar segurando e passou a mão nos cabelos, bagunçando-os ainda mais.
Era muito estranho para ele ser paciente sobre essas coisas e isso era frustrante.
Sasuke o olhou.
— É uma galeria bem moderna e sofisticada para quem construiu tudo sozinho. – o moreno divagou inconsciente dos seus conflitos. – Eu esperava algo mais... – deu de ombros. – Underground? – tentou achar o termo correto.
Naruto riu.
— A galeria era bem simples há alguns anos, bem no começo. – respondeu, voltando a se sentar na cadeira para delimitar certa distância e evitar ser tentando. – Com o passar dos anos, ele foi fazendo algumas adaptações, reformando aqui e ali, e agora está desse jeito que você viu nas fotos. Eu acho que você vai gostar de trabalhar lá.
— Seu amigo é bom, quero dizer, as pinturas dele são muito bonitas e expressivas. – ele elogiou com um pequeno sorriso e o Uzumaki quis congelar aquela imagem no seu cérebro. Ele se sentia tão brega e clichê também.
“Será que a necessidade e a negação estão me fazendo hipersensibilizar as coisas?”, pensou o loiro, enquanto segurava a vontade de passar a mão pelos cabelos mais uma vez em um tique nervoso. Ao invés disso, ele suspirou.
— Só um aviso: Sai pode ser bem chato quando quer, então, não leve a atitude como algo pessoal. Ele não entende o conceito de privacidade e é socialmente inepto.
— Assim como você? – Sasuke perguntou com um toque de humor.
— HÁ HÁ HÁ! – Naruto forçou um riso, antes de fazer uma careta. – Você está muito engraçadinho, Uchiha. – rebateu, empurrando o homem, fazendo-o cair deitado no colchão e se inclinando sobre ele sem tocá-lo. – E também não dê ouvidos às coisas que Sai diz sobre Itachi e vice-versa.
O moreno ergueu uma sobrancelha e Naruto demorou, gravando a forma como os cabelos pretos se espalharam pela colcha macia. Ele definitivamente combinava com a sua cama. Sasuke continuava a olhar para ele com a mesma suavidade, desde a tentativa de jantar que tiveram há alguns dias, e, se isso continuasse por mais um tempo, em breve, não se responsabilizaria pelos seus atos.
— Por quê? – o mais novo perguntou com um timbre rouco, antes de pigarrear.
— Porque eles se detestam, desde quando se conheceram. Eles não me falam direito o porquê, mas sempre se implicaram. Então, ignore qualquer coisa que Sai disser sobre o seu irmão e... – ergueu o indicador em sinal de aviso. – Não fique irritado com as provocações. Você tem um temperamento muito curto às vezes.
Sasuke ergueu uma sobrancelha com desconfiança, e Naruto só torceu os lábios e deu de ombros, enquanto se afastava. Ele entendia o sentimento de suspeita, pois era difícil imaginar Itachi não gostar de alguém sem motivo aparente. Seu melhor amigo era um homem simples, não fazia o feitio dele arranjar inimizades gratuitas.
(***)
— Então, quer dizer que Sasuke vai trabalhar com Sai? – Itachi indagou aos dois com uma sobrancelha erguida. Ele parou de cortar a cebola em fatias para olhá-los.
Naruto tentou segurar a risada, mas não conseguiu. Apesar da expressão neutra, os olhos escuros do primogênito Uchiha estavam afiados e visivelmente contrariados.
— Vocês dois continuam tomando decisões sozinhos, mesmo depois de tanto tempo. – lembrou-os que no passado, Itachi só era informado sobre as coisas, depois que elas já estavam arranjadas; como às vezes em que Naruto chamou Sasuke para sair com seus amigos sem consultar o mais velho, ou o beijo que eles trocaram quando o caçulo era apenas uma criança. – Eu não sei porque ainda me surpreendo.
— Considere isso como uma retaliação sobre não ter me avisado que Sasuke vinha morar aqui com a gente. – rebateu e teve que desviar de um pedaço de cebola que o homem jogou em sua direção. – Olha o desperdício de comida! – advertiu com tom de diversão, assistindo-o fazer uma careta.
Sasuke só olhou o intercâmbio com tédio. O cotovelo direito apoiado na mesa e o queixo apoiado na mão. Nagato olhava a troca com um sorriso esperançoso, talvez, desejando que os adultos começassem uma guerra de comida pra brincar também.
Itachi estalou a língua, voltando a atenção ao que fazia.
— Eu gostaria de poder reclamar, mas trabalhar em uma galeria vai ser ótimo para você, Sasuke. – ergueu o olhar para o irmão, encarando-o brevemente. – Eu teria o indicado para trabalhar com Deidara, mas eu acho que os dois não se dariam muito bem... – pensou em voz alta.
— No mínimo, ele teria tentado investir no seu irmão, uma vez que não conseguiu nada contigo na época de faculdade. – Naruto sorriu, balançando as sobrancelhas sugestivamente, e olhou para o Uchiha mais novo. – O cara simplesmente A-MA-VA Itachi! – explicou com um sorriso satírico. – E, pior, negava com todas as forças. – franziu os lábios. – Eu nunca vou entender o porquê de as pessoas esconderem que gostam de outras, não é mais fácil ser sincero e tentar? Se não rolar, pelo menos, você tem certeza que não vai rolar e segue em frente. – divagou, destampando uma garrafa de água e sorvendo o líquido.
Os dois morenos olharam para ele e Nagato só voltou a pintar seu novo desenho.
— Às vezes, as pessoas só sabem que não vai dar certo. – Sasuke deu de ombros. – E deixam as coisas como estão, porque é melhor que aturar desconforto e a eventual ruptura de amizade, talvez. – levantou para caminhar até a sala, cutucando o ruivo e indicando que ele deveria segui-lo com um movimento de cabeça.
Naruto assistiu os dois e sorriu. Seu afilhado parecia muito menos solitário com a atenção constante do caçulo Uchiha. A forma como agiam um com o outro fazia seu coração se aquecer ao ponto de querer explodir. Era nessas horas que ele cogitava a possibilidade do rapaz não ligar para o fato dele ter um filho.
— Você diria que gosta de alguém, se essa pessoa fosse casada ou estivesse em outro relacionamento, por exemplo? – Sasuke perguntou depois de ter se acomodado no sofá. – Existem casos e casos. – ligou a TV pelo controle remoto.
— Conhecendo Naruto como conheço, ele não diria que gosta de alguém casado ou em um relacionamento, mas deixaria bem claro em atitudes que está interessado. – Itachi respondeu pelo Uzumaki, olhando-o com um sorriso e dando uma piscadela. – Ele é muito sincero com o que sente, sempre foi. Ele até tenta disfarçar, mas não consegue fazê-lo por muito tempo. Em algum momento, ele deixa escapar.
— Me sinto menos prostituta agora, ‘tachi, muito obrigado. – rebateu ironicamente.
O moreno mais velho riu.
— Eu não acho que é algo ruim, sabe? A forma como você se sente não é culpa das outras pessoas, mas a forma como essas pessoas respondem a esses sentimentos é de responsabilidade delas. – sorriu, enquanto começava a misturar os ingredientes do hambúrguer que fazia. Nagato tinha teimado que queria comer lanche ao invés de comida, e como nem ele e Sasuke gostavam de alimentos processados, decidiu fazer tudo com as próprias mãos. – Eu queria ser mais como você.
Naruto o olhou com confusão e Sasuke foi atraído para a declaração. Franzindo as sobrancelhas loiras, o Uzumaki considerou o melhor amigo com seriedade.
— Você nunca pensou em dar uma chance para Deidara? – indagou finalmente. – Eu sei que naquela época estávamos no meio de uma coisa louca, mas não é como se estivéssemos apaixonados ou algo assim. – levantou para caminhar até o homem e ajudá-lo a montar os sanduíches. – Você precisa de intimidade para conseguir se sentir à vontade, mesmo para o sexo casual, ‘tachi, há quanto tempo você não traz alguém para casa? – perguntou com curiosidade.
Ele realmente nunca tinha entendido Itachi e sua constante e forte reticência para relacionamentos amorosos. Ao longo dos anos de amizade, o homem se envolveu com algumas pessoas, mas nada muito sério, exceto com Kisame que durou pouco mais de três anos antes de acabar repentinamente. Naruto entendia que seu amigo era alguém muito reservado, mas lhe incomodava o excesso de segredo... “Ou seria falta de confiança?”, perguntou-se.
— Quando foi que minha vida amorosa entrou em pauta aqui? – o Uchiha perguntou calmamente, formando os bolinhos que seriam os hambúrgueres.
Sasuke estava olhando os dois com interesse indisfarçado agora e o Uzumaki quase riu com a forma como os olhos escuros brilhavam com a possibilidade de uma nova informação sobre o irmão mais velho. Certas coisas não mudavam.
— Quando eu fiquei curioso. – afirmou o loiro. – Sasuke também está curioso, ele só respeita o seu espaço, mas como você diz que não entendo muito esse conceito, eu sou mais intrusivo. – explicou, enquanto gesticulava com descaso.
— Você está muito saidinho hoje. – Itachi murmurou secamente.
— Quando eu não estou saidinho? – Naruto perguntou, passando a mão na curva da bunda do seu melhor amigo. O homem não aguentou segurar a expressão séria e começou a gargalhar, enquanto tentava fugir do ataque.
— Sasuke, segure esse pervertido aqui, fazendo o favor! – pediu, tentando empurrar o Uzumaki em meio aos risos.
O caçulo nem tirou os olhos do celular, enquanto digitava.
— Nós temos uma criança na sala, vocês sabem disso... – ele divagou distraidamente, fazendo Nagato sorrir e voltar a desenhar como se nada estivesse acontecendo.
O ruivo já estava acostumado com as brincadeiras entre os adultos mesmo.
— Eu acho que devemos sair em algum final de semana desses. Deixo Nagato com os meus pais e a gente vai para um clube qualquer e você vai trazer alguém para casa! – Naruto ordenou, entrando em seu modo casamenteiro. – Sasuke vai com a gente, e se você quiser, deixamos a casa só para você!
— Naruto... – Itachi tentou negar com um suspiro.
— Por que não posso ir junto?! – Nagato gritou com indignação, parando de desenhar e olhando ultrajado para o pai por exclui-los dos planos. Era injusto que todos fossem sair, menos ele.
— Porque não é um lugar para crianças! – o Uzumaki explicou.
— Mas, eu não sou mais criança! – o ruivo replicou ainda mais bravo, levantando-se e caminhando até o loiro com as mãos na cintura. – Eu já tenho quatro anos! – e para reforçar a sua declaração, levantou quatro dedos da mão.
— Exatamente, um bebê remelento que ainda precisa de ajuda para limpar a bunda! – o loiro brigou com o dedo em risque. – Não me provoca, não!
Nagato estreitou os olhos violáceos, enquanto encarava o mais velho.
— Você vai ver, quando eu for mais velho, eu também vou sair e não vou te chamar! – deu as costas para o pai e voltou para a mesa de centro da sala, batendo os pés no chão enquanto andava.
Naruto olhou para Itachi, que estava tentando arduamente segurar a risada. Ele viu o canto da boca do outro tremer, enquanto olhava o menino pressionando o lápis no papel com força, a fim de descontar a raiva no desenho.
— Você acredita nisso? – perguntou como se a cena que acabou de presenciar fosse um absurdo. – De onde saiu esse rancor todo? – tornou a indagar. – Moleque...
Nesse ponto, quem não aguentou foi Sasuke, que começou a rir.
— Quando você ficar mais velho, a última coisa que você vai querer é que seu pai te acompanhe nas baladas, Nagato, isso posso te garantir. – disse para o garoto, que o olhou sem entender. – Ele vai ficar mais senil daqui a alguns anos e você vai ficar com medo que ele te envergonhe em frente às outras pessoas.
— Hey – o Uzumaki chamou da cozinha. –, eu ouvi isso, Uchiha! Pare de me chamar de velho, porque eu ainda estou no meu auge! Se quiser, eu te mostro!
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