Dois Pesos e Duas Medidas

10 Capítulo 10 – Contrastes


Notas iniciais
Eu tô ficando tão louca, que eu nem lembro exatamente o que dizer nessas notas. Em primeiro lugar, desculpa pela demora, eu voltei a estudar e a correria está me deixando mais pirada do que eu já sou normalmente. Não estou tendo tempo para sentar e escrever algo que não seja relacionado ao trabalho ou aos estudos. Em segundo lugar, obrigada a SasuNaruSasUKÊ por recomendar a história, fico feliz de ver que as pessoas estão reconhecendo o que faço pelo enredo. Em terceiro lugar, feliz aniversário para a pessoa que mais tem me apoiado com essa trama, a Coeur Pirate (#256714). Esse capítulo é meu ínfimo pra ela. Desejo tudo o que há de melhor nessa vida pra essa guria! Em último lugar (eu acho), obrigada a todos os comentários de amor e incentivo que me mandaram com relação à nota do capítulo anterior. Vocês são lindos. E, acredito que seja só isso, vou indo, porque hoje é segunda-feira, né? É dia de sofrência!

Eu quero mesmo é um mergulho no vinho, quero ouvir nossa canção lá no fundo em contraste aos sussurros em meus ouvidos.
Eu quero sentir teus lábios de sabor agradável a me envenenar.
Eu quero os afagos que só nossa cópula sabe germinar.
Wana Karen Cristine B. de Moraes.

Capítulo 10 – Contrastes

(Naruto – 22 anos)

Naruto gargalhou quando Yahiko tentou, pela milésima vez, convencer Itachi a sair do lado do irmão mais novo e ir até as pedras, no final da costa da Baker Beach, para fumar um baseado. Seu melhor amigo se recusava a fazer aquele tipo de coisa perto de Sasuke e, de certa forma, ele concordava com o homem. O garoto era muito jovem para ser exposto a coisas assim. Ou ambos estavam sendo excessivamente superprotetores sem motivos.

Ele mesmo tinha começado a fumar com 15 e o menino já tinha 12 anos.

Mas, o primogênito Uchiha tinha experimentado maconha a primeira vez com 19 anos, mais de um ano depois de terem se conhecido. No começo, o moreno teimou em manter aquela visão que a educação oriental lhe ofereceu, contudo, conforme o tempo foi passando, ele parou de fazer careta e aceitou, com certa relutância, o cigarro que Naruto lhe estendia.

“Não é nada demais...”, Itachi tinha raciocinado depois de um tempo. As drogas eram frequentemente associadas ao tráfico dos clãs da Yakuza que tomavam conta de Tóquio – uma vez que não eram todos os sindicatos que trabalhavam com a venda proibida de substâncias químicas e entorpecentes –, por isso, não era tão comum encontrar usuários no Japão como acontecia na América. Era visto como algo abominável, culturalmente falando.

Se o mais velho demorou tanto tempo para assimilar algo que para o Uzumaki parecia simples, seria ainda mais difícil tentar explicar o mesmo a Sasuke.

— Vamos lá, Itachi, o que custa me acompanhar numa caminhada? – seu primo tentou novamente, enfiando as mãos nos bolsos da bermuda velha que usava.

— Yahiko... – seu melhor amigo começou, apertando o polegar e o indicador no canto interno dos olhos, impaciente.

Naruto se compadeceu.

— Eu fico aqui, Itachi. – olhou para Sasuke, que olhava a tudo com uma mistura de impaciência e curiosidade, e sorriu. – Sasuke não vai se importar de ficar. – insistiu, vendo o menino dar de ombros como se demitisse o assunto. Ele só voltou sua atenção para um caderno de desenho que sempre carregava.

O moreno mais velho se levantou e caminhou até seu lado, para que pudesse sussurrar em seu ouvido. O peito tocando quase toda a extensão do seu braço. Ele só precisava se inclinar um pouco para capturar a boca na sua.

— Você sabe como eu fico quando estou alto. – rebateu com um rosnado. – Meu irmão pode ser um moleque, mas ele não é ignorante.

O tom de voz grave fez com que os cabelos da nuca eriçassem. Ele quis rir do desespero do outro, mas, quando Itachi viu seu nariz tremer com a gargalhada presa na garganta, ele estreitou os olhos. Ino apertou o abraço em sua cintura.

— Relaxa, Itachi. – ela pediu. – Existe castigo pior que ficar de babá, enquanto seus amigos se divertem? Naruto que aguente as consequências. – sorriu ao mesmo tempo em que cutucava as costelas do loiro, que se encolheu com um sorriso em meio às cócegas.

Itachi apenas o olhou intensamente.

— Eu tenho a sensação que ele parece gostar de ficar como babá do meu irmão. – rebateu com um resmungo, virando-se para o restante dos seus amigos. – Vamos, antes que eu mude de ideia.

Naruto deu de ombros, ele podia lidar com a raiva do Uchiha. Yahiko exclamou animadamente, jogando o braço nos ombros de Konan, que só observava tudo com um sorriso. Ino se soltou, preparando-se para acompanhá-los.

— Eu vou com eles. – ela anunciou desnecessariamente.

Ele fez um gesto de descaso e se mudou para se sentar ao lado de Sasuke na canga que a Yamanaka trouxera. O sol estava se pondo, deixando o céu com o tom alaranjado que ele tanto gostava. O calor tinha amenizado um pouco e um vento morno soprava na costa da praia, relaxando-o.

Ele apreciou o silêncio e a calmaria estranha, antes de olhar o menino.

— Mesmo com todo protetor solar que Ino insistiu em passar em você, seu rosto ficou vermelho. – comentou casualmente, vendo como o tom rosado decorava as maçãs do rosto saliente e a ponta do nariz arrebitado. Os ombros também estavam irritados e ele cutucou a pele com o dedo. – Incomoda?

O garoto demorou um pouco para responder.

— Não. – respondeu, olhando fixamente para as ondas que quebravam na orla.

— Você não está acostumado a sair muito, não é? Mesmo estando há anos em São Francisco, seu tom de pele continua tão pálido como quando chegou. – divagou distraidamente, olhando o mesmo ponto que Sasuke encarava.

Vários minutos de silêncio depois, onde nenhum deles parecia disposto a falar, o Uchiha murmurou tranquilamente:

— Obrigado por ter me convidado.

Naruto sorriu, olhando-o de soslaio.

— Ao menos você se divertiu? – perguntou casualmente. – Espero que ninguém tenha o feito se sentir deslocado. Eu chamei Karin para lhe fazer companhia, mas a mãe dela disse que as duas iriam visitar a avó nesse final de semana.

Ele não precisava explicar que era a avó por parte de mãe da Karin que ambos estavam falando, uma vez que toda a família Uzumaki estava no Japão.

— Foi bom sair de casa. Eu raramente tenho oportunidade de vir para a praia. – comentou tão despretensiosamente quanto pôde. – Mãe e pai não gostam da areia e Itachi nunca me convida, quando vocês decidem vir.

Naruto viu o quanto o menino fez um esforço para não parecer chateado. Ele mordeu o lábio inferior, sentindo o estômago dar uma guinada desagradável. O garoto sempre parecia solitário, mas, naquele momento, o olhar desfocado no rosto infantil só o fez sentir vontade de cercar os braços em torno da estrutura pequena e espantar todo aquele vazio inadequado demais para uma criança.

— Seu irmão só quer te proteger, você sabe? – murmurou, cruzando os braços em cima dos joelhos para se impedir de demonstrar seu protecionismo. – Ele acha que você é novo demais para entender certas coisas, porque o próprio Itachi está tendo dificuldades em se adaptar com a diferença cultural, Sasuke. – explicou, lambendo os lábios e encarando os orbes escuros que o encaravam descaradamente.

Ele sempre se incomodava com a forma como os olhos pretos o perscrutavam, parecendo ciente de algo que Naruto estava longe de compreender. Contudo, daquela vez, ele só se sentiu divertido com o brilho curioso e intenso.

— Itachi finge ser esse homem perfeito para as outras pessoas, mas ele não é. – continuou com um olhar conspiratório. – Não diga a ele que contei o pequeno segredo que ele insiste em manter. – deu uma piscadela, fazendo o mais novo sorrir também. Era sutil, mas era um sorriso de qualquer maneira.

— Sempre achei que meu irmão tinha se adaptado bem. Ele nunca demonstrou ter dificuldade em lidar com absolutamente nada. – murmurou, brincando com algumas rebarbas de papel dentro do espiral que prendia as folhas do caderno.

— As coisas na Califórnia são bem diferentes do Japão, Sasuke. – explicou o óbvio, mesmo sabendo que o menino estava bem ciente de algumas dessas divergências. – As pessoas são abertas a coisas aqui que, no país onde você vivia, são terrivelmente condenadas. – ele não especificou, mas se referia às drogas e a própria sexualidade.

— As pessoas aqui costumam abraçar – o Uchiha comentou com certo humor, como se o fato fosse muito engraçado e estranho ao mesmo tempo. – e beijar na bochecha, quando vão cumprimentar outras. No Japão, as pessoas não têm tanto contato e demonstrações de afeto são muitas vezes tratadas como tabu. – franziu o cenho. – Meus pais não falam “eu te amo”, tanto entre eles como para nós, com a mesma frequência que os ocidentais. – divagou, talvez, por ver razão no que ele estava tentando dizer.

— Sim. – Naruto concordou, brincando com a franja da canga com os pés.

— É por isso que achei estranho, quando Itachi o trouxe para casa a primeira vez. Você é o completo oposto do meu irmão. – murmurou.

Nesse ponto, o Uzumaki voltou a sorrir.

— Confesso que nunca esperei Itachi me dar tanta corda. Seu irmão parecia tão fechado, quando o vi pela primeira vez. – gargalhou. – Fico feliz em saber que me enganei com relação a ele e a sua família. No final, tudo ficou bem, não é? – balançou as sobrancelhas. – Até o seu pai gosta de mim e eu achei que ele ia dizer que não sou uma boa amizade para filho dele.

Sasuke apertou os lábios, como se quisesse segurar o sorriso.

— Eu também achei que ele não ia gostar de você. – respondeu sinceramente.

O loiro deu algumas cotoveladas no braço de menino ansiosamente, querendo pescar alguns elogios.

— E você, Sasuke? – indagou. – Para um garoto de oito anos, naquela época, você também era um protótipo bem carrancudo. Você gostou de mim ou você se aqueceu aos pouco à minha figura brilhante?

Olhos escuros o encararam de cima a baixo, fingindo considerá-lo.

— Eu te suporto até hoje. – brincou, fazendo Naruto gritar de forma indignada.

— Moleque arrogante e abusado. – resmungou sob a respiração, arrancando outro sorriso condescendente do Uchiha. – O que você está desenhando? – indagou para mudar de assunto.

Antes que Sasuke pudesse esconder o caderno e impedi-lo de ver o conteúdo das folhas, o Uzumaki pegou o maço nas mãos e olhou o último desenho feito. Seus olhos se arregalaram com a riqueza de cada detalhe. A imagem recriava o cenário da praia logo que eles chegaram mais cedo. Era quase uma foto em preto e branco, feito apenas com o lápis. Mostrava-o com Yahiko correndo para o mar, segurando suas respectivas pranchas de surf.

O moreno ainda teve o cuidado de delinear um cachorro vadio que vagava na margem, todo molhado, naquele momento. Ele olhou para o lado, a fim de fitar o menino, mas o irmão do seu melhor amigo teimava em manter o rosto virado.

— Sasuke, isso é maravilhoso! – sussurrou impressionado. – É quase como se você tivesse memória fotográfica e quisesse recriar o mundo. Você já pensou em se especializar nisso? – perguntou, vendo-o menear negativamente.

Ele não sabia dizer ao certo se o rubor intenso nas bochechas do garoto era de constrangimento ou o bronzeado daquela tarde parecia mais escuro, devido à iluminação escassa do pôr-do-sol.

— Não que isso seja da sua conta, mas eu estava pensando em fazer o mesmo que o meu pai. – rebateu com rispidez, talvez querendo proteger as emoções conflitantes e pegando o caderno de suas mãos. – Esse é um hobby particular e é falta de educação pegar as coisas dos outros sem permissão, dobe.

Naruto fez um bico mal-humorado.

— Desculpa, eu só estava curioso. – pediu sem estar de fato arrependido. – Eu ainda acho que você deveria considerar sua decisão, pirralho. Você claramente tem talento. – murmurou, abrindo um sorriso largo, quando viu seus amigos se aproximarem. – Se divertiram? – gritou, levantando-se num pulo.



Naruto suspirou, enquanto olhava as duas imagens diante dele. Ele já estava sentado naquele sofá há 30 minutos, na mesma posição: as pernas afastadas e os braços esparramados pelo encosto estofado. As duas gravuras estavam a sua frente na mesa de centro, ignorantes aos seus conflitos internos. Enquanto, em uma delas o vermelho vivo predominava, na outra, um azul pálido vibrava no quadro branco.

— O que você está fazendo? – ouviu uma voz interromper seus devaneios.

O loiro olhou para o lado e viu Itachi se aproximar para se sentar ao seu lado.

— Pensando. – sorriu com cautela e tornou a encarar as pinturas. – Engraçado como o estilo do Sai com o do seu irmão se divergem. – divagou. – Seu irmão é muito mais realista, como se ele quisesse descrever exatamente o que viu. Sai tem um toque meio fantasioso e poético, dá uma interpretação própria de algo que deseja retratar.

— São pessoas diferentes. – o Uchiha respondeu. – Eu não posso falar por Sai, mas Sasuke sempre foi pé no chão. Até demais, se me permite acrescentar. – deu de ombros. – Mas, não é exatamente nisso que você está pensando. – os olhos negros o avaliaram com perspicácia, percorrendo o rosto bronzeado com escrutínio indisfarçado. – Há algo de errado?

Naruto mudou o sorriso incerto por outro mais divertido. Ele fechou as pernas para aumentar o espaço no sofá e bateu no lugar vago, indicando que o outro deveria se aproximar mais. Itachi o encarou de cima a baixo, ponderando sua atitude por um instante, antes de fazer o que lhe foi pedido.

— Eu pedi que Sai convidasse Ino para sair. – murmurou com cuidado.

Ele não estava preocupado que alguém ouvisse, até porque Sasuke e Nagato ainda estavam na escola. Mas, porque não sabia se estava tomando a atitude certa. Era tudo tão confuso em sua cabeça ainda: seus sentimentos em relação a Sasuke, seu relacionamento com a Yamanaka, o passado que não parava de persegui-lo em pensamentos, sua responsabilidade atual como pai e padrinho. Sua mente estava um verdadeiro nó.

— Você fez o quê? – o mais velho perguntou em tom grave. – Naruto, a Ino não vai trocar o que tem com você por qualquer outra pessoa! – rebateu como se a ideia fosse um absurdo. – Vocês estão juntos há mais de uma década, é quase um casamento. Você deveria a conhecer melhor. – balançou a cabeça, como se debochasse da decisão do amigo.

— Esse é o problema, ‘tachi! – esfregou o rosto com as duas mãos. – Quando foi que nosso relacionamento se tornou tão sério? Antigamente, nós transávamos com outras pessoas. Merda, nós dois dormimos juntos um par de vezes e eu já estava com ela naquela época! – deixou os braços caírem para as coxas, a fim de encarar a pintura do lado direito, que Sai lhe enviou por um entregador. – Eu me apeguei a ela. – mordeu o lábio inferior.

O moreno só ficou em silêncio, enquanto o encarava com uma seriedade e profundidade agravantes.

— Eu a amo tanto, que não quero que ela fique sozinha. – dissertou, passando os dedos pelos cabelos. – Nós nos apegamos ao que temos. E isso não é bom para ela e, tampouco é bom para mim. – franziu as sobrancelhas. – Ela precisa conhecer outras pessoas, aprender a amar outras pessoas... Não sei! A única coisa que sei é que ela não vai parar de se martirizar por Shikamaru, enquanto não encontrar alguém que a faça feliz de verdade e, estando presa comigo, ela não vai conseguir!

Naruto se sentia cansado. Sasuke chegou como um caminhão desgovernado em sua vida, destruindo tudo o que ele acreditava, fazendo-o rever conceitos e questionando suas atitudes sem dizer concretamente o que pensava. Ele só olhava os lábios e olhos escuros apertados numa careta de contrariedade e já sabia que tinha feito algo que o caçulo Uchiha não tinha gostado. Era naquele momento que ele se ponderava e começava a repassar todas as suas ações, porque algum lugar dentro dele, o Uzumaki queria reconhecimento do rapaz.

Ele bufou um riso. “Quem é o mais velho?”, perguntou-se com ironia.

— Eu estou tão fodido. – murmurou com um sorriso sem humor. – Eu vou sentir falta do que temos, sabe? – perguntou mais para si mesmo, que para o homem ao seu lado, ao mesmo tempo em que se inclinava para pegar a pintura de um par de olhos azuis pálidos rodeados de várias borboletas também azuis. – Me apeguei tanto, que sinto o remorso e culpa queimar aqui dentro, só de pensar em terminar. – pausa reflexiva. – Será que é assim que as pessoas casadas se sentem, quando precisam colocar fim em algo que um dia foi extremamente valioso? Pesarosos, arrependidos, impotentes...? – suspirou. – Eu ainda vou deixá-la escolher o que quer fazer. Não é como se fosse um final definitivo agora, mas é um passo para a finalidade, entende?

Itachi mordeu a parte interna das bochechas e concordou com a cabeça.

— Engraçado que Sai me disse a mesma coisa que você, que ela não aceitaria me trocar por qualquer pessoa. – ele encarava a parede atrás da TV, mas sem ver realmente. – É incrível como somos cegos e ignorantes, quando o assunto somos nós mesmos. A gente não percebe o que faz. Vivemos conosco a vida inteira, mas não nos conhecemos bem o suficiente até que te façam enxergar.

— Você pensou muito sobre o assunto. – o Uchiha comentou casualmente.

— Nem me fale. – resmungou com impaciência. – Minha cabeça está doendo e sinto que suas piadas sobre danificar meus neurônios realmente se tornaram verdadeiras. – tentou brincar para amenizar o clima tenso que se formou entre os dois. – A vida é tão complicada...

— Ainda acho que você deveria conversar com a Ino, antes de tomar qualquer decisão. Ela precisa saber sobre os seus sentimentos. – o moreno tentou mais uma vez. – Vocês podem dizer que não têm um compromisso real, mas ambos sabem que não é exatamente assim que acontece. – apertou os lábios. – Se os dois não forem sinceros, alguém vai acabar se machucando. – o tom disse bem a qual deles Itachi se referia.

— Nós conversamos sobre Sasuke. – Naruto contou, vendo o outro erguer uma sobrancelha com surpresa. – Assim como você, ela também percebeu que me sinto atraído por ele. – apoiou a cabeça no ombro do outro. – Ino disse que eu deveria tentar. – murmurou cuidadosamente, movendo a mão para brincar com uns fiapos soltos de um rasgo no joelho do jeans velho que seu amigo usava.

Era raro ver o Uchiha usar aquele tipo de roupa descuidada. O homem estava sempre tão impecavelmente vestido e composto. Mesmo para o Uzumaki, que convivia com aquele lado mais informal há mais tempo e já estava um pouco acostumado, às vezes estranhava, quando o via usar peças mais relaxadas.

— Você vai tentar? – o mais velho perguntou com cautela também.

O loiro pensou por um tempo, antes de estalar a língua.

— Eu não sei. – respirou fundo. – Eu não quero magoá-lo. Eu não quero deixar você chateado caso eu o magoe. Eu... – passou a ponta dos dedos pela testa, tentando amenizar a dor de cabeça. – Eu não sei.

Um silêncio pesado cresceu entre eles, até que Itachi decidiu falar:

— O que o meu irmão escolhe fazer não é da minha conta, Naruto. – suspirou. – Você é importante para mim também, você sabe. Assim como me importo com ele, eu me importo com você.

— Eu sei. – concordou com um sorriso, erguendo o rosto para encarar os olhos escuros. – Mas, eu também sei que o seu cuidado para com Sasuke é diferente do cuidado que você sente por mim, ‘tachi. – disse com seriedade. – Quando se trata do seu irmão, você se torna extremamente superprotetor. Eu sei que o beijo que dei em Sasuke há muitos anos te deixou chateado, mesmo que você não tenha dito absolutamente nada. Vocês dois têm a capacidade de fazer com que nos tornemos autoconscientes pelo olhar, deve ser algo de família.

Naruto franziu a testa em pensamento profundo.

— Eu acho que você está dramatizando a situação. – o moreno respondeu. – Ele mudou muito nos últimos anos, Naruto. – explicou. – Sasuke é tão casual com relação ao sexo como eu, você e a Ino. O que te garante que ele ainda sente o que sentia no passado? Nada. – deu de ombros. – Se você tentar pode ser que só aconteça de dormirem juntos algumas vezes e acabou a história. Não quer dizer que precisam casar e construir uma família com um cachorro, entende? Meu irmão não procura por um compromisso agora, se é o que está pensando. Ele nunca teve um envolvimento realmente sério, exceto alguns companheiros sexuais, assim como você e Ino.

O loiro ficou por um tempo em silêncio, ponderando as novas informações.

— Eu não sei, ‘tachi. Às vezes, acho que seu irmão me odeia. – franziu a boca em contrariedade. – Nós sempre brigamos, quando estamos sozinhos e, se ele não me repreende com as palavras, ele lança aquele olhar seco e frio, que... – não completou o resto da sentença, porque não queria admitir em voz alta que ficava inseguro e chateado.

Nesse ponto, o Uchiha riu.

(***)

Naruto colocou os pés em seu apartamento e fechou a porta de entrada com um suspiro de alívio. Ele odiava a burocracia, principalmente quando se tratava de resolver qualquer coisa no DMV. A internet tinha facilitado muita coisa com o decorrer dos anos, mas o órgão governamental ainda continuava um saco; complicavam tarefas simples como renovar uma carteira de habilitação a custo de nada. Ele não tinha paciência.

Jogou as chaves no aparador de madeira no corredor e andou até a cozinha, a fim de tomar um copo com água e relaxar. O dia estava abafado e ele passou horas dirigindo debaixo do sol quente, correndo pra cima e pra baixo. Por não ter nada de importante para entregar, a folga do trabalho fora bem-vinda para desafogar o que estava enrolando para resolver.

Sentindo-se mais calmo, o Uzumaki andou até a sala de estar, colocou o copo ainda cheio em cima da mesa de centro e sentou no sofá. Ele ouviu passos e franziu a testa. Pelos seus cálculos, Itachi estaria no escritório hoje e Sasuke e Nagato ainda estavam na escola. Concluiu que só poderia ser o seu melhor amigo, que voltara para buscar alguma coisa.

— Itachi? – chamou. – Aconteceu alguma coisa? – perguntou, tirando a carteira do bolso traseiro do jeans e a camiseta branca de malha simples para se fazer mais confortável. – Eu odeio o DMV! – gritou como desabafo.

Um longo silêncio seguiu como resposta, deixando-o impaciente e irritado por ser ignorado, até que uma voz profunda quebrou a quietude do apartamento:

— Itachi ainda está trabalhando. – Sasuke informou, surgindo pelo corredor que dava para os quartos, tão composto quanto seu irmão mais velho.

Naruto ergueu uma sobrancelha.

— Você não deveria estar na escola? – indagou com curiosidade.

O moreno só enrugou o nariz, parecendo um pouco contrariado. Com o quê, o Uzumaki não sabia dizer exatamente. Quem sabe, o caçulo Uchiha só estava irritado com a atitude paternalista, visto como ele sempre parecia frustrado toda vez que Itachi agia dessa forma.

— Saí mais cedo. – respondeu vagamente.

Ele queria perguntar o porquê, mas decidiu mudar de assunto, não querendo abusar do temperamento tão ressabiado. Naruto já estava começando a ficar cansado de receber uma patada ou ombro frio para tudo o que dizia ou fazia.

— Eu comprei a moldura para o desenho de Nagato, você viu? – apontou a peça com um olhar significativo para o retrato em cima da mesa de centro. – Melhor, ganhei de um amigo. Ele tem um estúdio em North Beach e arranjou esta com um amigo do seu irmão.

O loiro sabia que estava balbuciando, mas ele queria conversar com Sasuke; ouvir a voz se dirigindo diretamente a ele, dando-lhe atenção.

— É meio difícil não ver. – os olhos negros perscrutaram a sua figura de cima a baixo com um toque de arrogância e humor. – Está bem no núcleo do cômodo. – completou.

Naruto riu de vergonha, coçou a nuca (completamente sem graça) e franziu a testa ao pensar melhor no fora que tinha acabado de receber. Ele rangeu os dentes de raiva. “O que deu na minha cabeça, para decidir que estou atraído por esse cara?”, condenou-se mentalmente.

— Você é tão engraçadinho. – rebateu com mau humor e o rosto tenso. – Enfim, eu preciso conversar com você sobre um assunto sério. – levantou e caminhou até o Uchiha parado ao lado do balcão que separava a sala da cozinha.

Com os olhos treinados e famintos por cada pormenor da figura masculina, ele viu a postura confiante do moreno enrijecer com desconfiança. As íris escuras se mudaram para encará-lo diretamente; intensos e confusos.

Por vários segundos, o Uzumaki só estudou o homem, apreciando com certo sadismo, a miríade de emoções conflitantes nos orbes ansiosos. Sua pequena vingança para todos os dias que Sasuke o fez se martirizar por não saber como agir ou falar; por maltratá-lo psicologicamente e fisicamente com ações neutras e que o afastavam de um corpo que só parecia implorar por sua atenção.

Ele lambeu os lábios, quando o rumo dos seus pensamentos foi para um lugar completamente impróprio e diferente de onde deveriam ir.

O pomo de adão se moveu com dúvida no pescoço pálido e os olhos escuros desceram pelo seu quadro seminu e, como se quebrasse um encantamento estranho, Naruto se tornou autoconsciente e voltou a focar a atenção no que deveria. Ele se aproximou mais, parando em frente ao Uchiha repentinamente retraído. O rapaz parecia pequeno e amedrontado, mesmo que fosse alguns poucos centímetros mais alto.

O loiro se compadeceu – de forma meio confusa, porque não entendia o motivo do homem estar assustado – e suspirou para aliviar a tensão de seus ombros.

— Conversei com o meu amigo que tem o estúdio em North Beach sobre você. – explicou com mais calma, vendo-o ajeitar a postura vagarosamente. – O nome dele é Sai e ele me disse que estava precisando de ajuda para coordenar as vendas na galeria e a parte administrativa. Como você é formado em Arte, eu achei que seria uma ótima oportunidade para fazer seus contatos na área e te indiquei para trabalhar lá.

Sasuke apenas olhou. A expressão em seu rosto indecifrável.

— Você fez o quê? – o Uchiha perguntou suavemente, mas algo no interior de Naruto só dizia que a tranquilidade era uma farsa.

— Eu sei que você está procurando um emprego e achei que trabalhar em algo relacionado à sua profissão é melhor que trabalhar em alguma lanchonete ou loja qualquer. Se você tiver os contatos certos, será mais fácil conseguir uma vaga para alguma pós-graduação boa. – apertou os lábios.

Apesar dos trejeitos incertos, o Uzumaki sabia bem o que estava fazendo. Ele queria que Sasuke conseguisse o que queria e, se pudesse ajudá-lo a seguir o caminho que desejava, o loiro faria sem segundos pensamentos. Sempre enxergou potencial no trabalho do Uchiha, desde quando ele era criança. Vê-lo abraçar o seu próprio talento ao invés de trilhar as mesmas escolhas do pai, fê-lo inchar de orgulho e admiração.

Naruto sabia o quanto o mais novo desejava a atenção de Fugaku, mas saber que ele se desprendeu dessa necessidade para se tornar alguém que toma as próprias decisões era maravilhoso. Quando o conheceu, aos 18 anos de idade, ele pensou que o irmão caçula do seu melhor amigo parecia trancado numa bolha solitária, sempre à sombra da família.

E, agora, o moreno era completamente diferente do passado: uma pessoa que aprendeu o seu próprio valor e fazia questão de destacá-lo para os outros.

— Por que você sempre se mete onde não é chamado? – Sasuke rosnou.

— O quê? – Naruto ficou um pouco surpreso com a pergunta cheia de rancor. Por um tempo, ele ficou completamente sem reação.

— Sei que te incomoda me ter aqui, mas...

O começo da frase arranhou um disco dentro da mente do Uzumaki, fazendo-o interromper as acusações sem sentido do mais novo.

— Do que você está falando? – franziu a testa. – Eu juro que tomei essa decisão com as melhores das intenções, Sasuke. Você não veio pra Califórnia estudar? – balançou a cabeça e agarrou o braço direito do rapaz, querendo chacoalhá-lo, mas segurando o impulso. – Não era seu intuito se especializar e se tornar melhor dentro da sua área? Na galeria desse meu amigo, você terá os contatos certos para conseguir o que deseja!

Sasuke puxou o braço como se tivesse sido queimado.

— Será que é muito difícil para você entender que eu não quero a sua ajuda?! – ele tornou a indagar ainda mais irritado.

Naruto não conseguia entender como algo tão pequeno tinha se tornado algo tão enorme em insignificantes segundos. Era sempre assim com esse homem no final das contas. Não tinha sido assim também, antes de Sasuke voltar para o Japão? De repente, ele estava sendo agredido gratuitamente por algo que não entendia ao certo.

— Eu não sou mais uma criança, pra você sentir que precisa tomar as decisões por mim, Naruto. – se aproximou, a fim de encarar os olhos cerúleos de perto e firmar um ponto. – O fato de eu morar nessa casa, não lhe dá o direito de acreditar que pode se intrometer nas minhas escolhas! Se lhe incomoda tanto me ter aqui, saiba que saí mais cedo da aula hoje para procurar um emprego!

O loiro perdeu a pouca paciência que lhe restava.

— Seja coerente, moleque! – praticamente gritou. – A porra do seu orgulho não vai te servir de nada nesse país, enquanto você for só mais um estrangeiro de merda! – apontou pra janela como se pudesse mostrar o que estava falando. – Eu estou abrindo uma porta pra você, te dando uma oportunidade de fazer as coisas um pouco mais fáceis! – cerrou os punhos para se impedir de socar o rapaz. – Eu faria isso por Itachi, se isso te serve de consolo. E acredite, eu não vejo nada infantil no seu irmão, ao contrário do que vejo em você agora!

O nariz aristocrático do Uchiha se dilatou, enquanto ele tomava uma respiração afiada. Seus olhos ardiam e os orbes negros pareciam vermelhos em sua ira descontrolada. O moreno parecia quase um felino prestes a atacar, mas Naruto não se sentiu intimidado. Não dessa vez. Ele estava tão cansado, tão frustrado de ser tratado como um pária. Pelo menos assim, Sasuke estava o olhando. De fato o vendo e, não, fingindo que ele não existia.

E a noção dessa atenção fê-lo sentir mais animado que esteve em semanas. O sentimento inédito fez seu estômago se remexer de emoção.

— Estou te ajudando, porque eu me importo com você. – abaixou o tom de voz, numa tentativa de amenizar a energia tensa que os rodeava. – Não porque te vejo como uma criança incapaz. – explicou, perscrutando o olhar escuro para dar ênfase ao que estava dizendo. – O agora não tem nada a ver com o fato de eu ter recusado seus sentimentos no passado. – afirmou, aproximando-se mais do rosto pálido. – Não confunda as coisas. – ordenou.

— Morda a língua antes de afirmar o que não sabe! – avisou com um sussurro perigoso. – Você não sabe do que está falando. – rebateu. – E você também não me conhece.

Ambos se encaravam com intensidade, separados por milímetros de distância. Nenhum deles disposto a ceder facilmente à guerra de egos que acontecia silenciosamente por meio de ações que diziam mais que palavras.

— Posso não te conhecer, Sasuke, mas você tem certeza de que não sei o que estou falando? – Naruto perguntou, estreitando os olhos com desconfiança. – Você continua insistindo que te enxergo como uma criança... – deu de ombros, deixando o resto da frase incompleta, porque era autoexplicativa. – E acredite, eu já reparei que você não é mais o garotinho que conheci. – sussurrou rouco.

Os dois estavam tão próximos, que o loiro sentiu o momento em que o Uchiha segurou a respiração. Ele não tinha reparado que estavam tão perto até aquele instante. A boca do homem se abriu, como se o mais novo quisesse retrucá-lo, mas ele só sentiu o suspiro quente, trêmulo e sem fôlego bater em seus lábios. A presença marcante, o cheiro mentolado de creme dental, o odor amadeirado e particular do perfume parecia chamá-lo e ele ergueu os olhos para confrontar as íris escuras.

Uma pergunta entalada em sua garganta.

O rapaz parecia autoconsciente e, mais uma vez, ele viu a mesma expressão conflituosa e confusa. Era como um transe, que o fazia ficar parado e tão sem reação quanto o moreno. Eles sabiam que se cruzassem aquela linha fina que os separava (física e psicologicamente), uma série de eventos irremediáveis se desencadearia. Por um segundo ou dois, ele viu mais de Sasuke que teve em muito tempo. E a ciência desse íntimo detalhe fez seu baixo-ventre vibrar em excitação e expectativa. Algo em seu interior só gritava que era apenas aquela película estreita que o mantinha de descobrir o mistério que o rodeava.

E, mais que nunca, ele se sentiu tentado a atravessar essa fronteira.

Como se pudesse provar um pouco do que o Uchiha seria capaz de lhe dar, sua língua atirou para lamber os próprios lábios ressequidos. Infelizmente, sua atitude inofensiva pareceu dissipar o torpor do momento e Sasuke se afastou bruscamente, estourando a bolha de encantamento que os prendiam. Naruto o viu vacilar com incerteza, enquanto virava as costas e caminhava com pressa para o corredor que dava para os quartos.

— Não me inclua nos seus jogos psicológicos. – a voz profunda soou seca e rouca, antes que o barulho da porta se fechando com um baque estrondoso cortasse qualquer aproximação que ambos já tiveram.

As janelas da sala tremeram com o impacto.

O loiro ficou olhando para onde o Uchiha tinha sumido num misto de desgosto e raiva autodirigida, antes de passar a mão direita pelos cabelos, desalinhando-os. Ele deveria estar aliviado que o mais novo teve o bom senso de se afastar antes que qualquer tivesse acontecido, mas ele se sentia mais frustrado que nunca.