Dois Mundos: Entre A Magia E O Poder.
13 A última das quatro
Notas iniciais
Assim que abri meus olhos, desejei não o ter feito. A insconsciência era melhor, mais fácil. Já a realidade... dolorosa. Meu corpo inteiro gritava de dor, minha visão estava turva e minha cabeça latejando. Era difícil respirar também. Porém, foi quando me lembrei de tudo que sofri mais.
– Tris?! – eu chamei enquanto tudo ao meu redor rodava. O ar parecia ter trezendo quilos acima de mim e eu sentia que vomitaria a qualquer momento. – TRIS!
Ninguém respondeu. Escutei passos vindos de algum lugar. Onde eu estava? E por que estava tudo tão escuro? Tentei me sentar, mas não consegui.
– Lyss. – escutei a voz de Caio ao meu lado. Olhei e ele estava ali, realmente. – Como você está?
Ponderei se xingar ele na situação em que nos encontrávamos era sensato.
– Onde. Está. Tris? – com dificuldade – por conta da raiva, da angústia e da dor que sentia — perguntei entredentes.
– Lyss... Foi ela quem pediu... E você estava... – Caio baixou os olhos procurando pelas palavras certas.
– NÃO INTERESSA! – eu rugi. Lágrimas começaram a brotar nos cantos dos meus olhos. – NÓS A ABANDONAMOS!
– Lyss... – Caio tentou soar compreensivo, mas eu podia sentir a tristeza em sua voz também.
– Não. Não se abandona as pessoas assim. – eu disse inexpressivamente, a raiva subitamente adormecida.
Inspirei fundo, tentando clarear minha mente, mas foi em vão. Meu cérebro parecia prestes a fundir e minhas costas queimavam feito louca.
– Nós não queríamos deixá-la. – Clarisse de repente se manifestou de algum lugar. Como eu não conseguia me focar e ver aonde estávamos, também não a localizei. Sua voz estava pesada, rancorosa. – Eu nunca deixei ninguém para trás antes. Por mais que houvessem as diferenças. Eu... Eu...
Gostaria de poder olhar nos olhos de Clarisse naquele momento. O que será que eu veria neles? A atmosfera estava se tornando pesada – um misto de culpa, ressentimentos e confusão. Ah, e canela. Por que tudo cheirava a canela?
– Lyss – Caio começou outra vez. – Você estava perdendo sangue... Tanto sangue... Quando te peguei, já não sabia mais o que esperar. Se nós quatro saíssemos, aquela coisa viria atrás de nós. Não conseguiríamos lutar contra aquilo no ar. Muito menos te proteger... E fugir também não era uma opção se já que você... Você...
A voz de Caio falhou. Tudo o que ele disse era verdade. E eu ouvira Tris dizer “Já completei minha missão”. Ela realmente não tinha mais que continuar conosco. Mas tudo o que eu fazia era sentir culpa.
Eu era fraca. E nunca deveriam ter me escolhido para aquela missão.
– Talvez... Talvez ela esteja viva. – Caio falou tão baixo, que demorei alguns segundos para processar suas palavras. – Ela é esperta... Boa guerreira, e tem aquela coisa de encontrar caminhos...
Suspirei, tentando abafar um soluço. O silêncio se tornou quase palpável. Talvez ela esteja viva. Eu não queria que ninguém morresse. Acho que antes disso, eu não tinha me dado conta de quão sério era tudo aquilo. Eu não havia compreendido que era mais que simples brincadeira. Nos últimos dias, eu estava, feito uma idiota, bancando a semideusa. Tentando lutar com espadas, sendo uma “heroína”. Ridículo. Eu tinha me negado a usar minha magia até então – com excessão da bruxa Ametria, é claro. E Tris teve de... Ugh. Só então eu percebi que aquela missão podia significar minha morte. E a morte de meus novos amigos. E que eu não devia medir esforços para impedir que isso acontecesse – não importando mais se eu seria ou não expulsa de Hogwarts, ou se eu teria minha varinha confiscada.
Sentia um gosto metálico na boca. Se eu não fosse tão estúpida, Tris ainda estaria aqui.
– Onde estamos? E por quanto tempo eu dormi? – perguntei finalmente.
– Um armazém qualquer. E você não dormiu tanto, umas seis horas, eu acho. Te demos ambrosia e néctar, acho que funcionou bastante. E Clarisse cuidou do seu ferimento. – respondeu Caio.
– Obrigada. Aos dois. – respondi de maneira seca.
Se eu havia dormido seis horas, já devia ser de manhã – o que tornava a escuridão daquele armazém ainda mais irritante.
– Caio, você pode me ajudar a levantar? – pedi meio de má vontade.
– Hã... Não sei se você deveria fazer isso... Mas sim, eu posso.
Ele se aproximou do local onde eu estava deitada (uma espécie de mesa de madeira), apoiou uma mão em minhas costas – mas não em cima do ferimento – e me deu a outra. Lentamentei, sentei. A dor piorou uma dez vezes e pensei que desmaiaria de novo, mas tentei me manter firme. Agora, meu corpo todo formigava. Eu tremia.
– Isso está bem feio... – Caio disse. – Acho que o melhor que você pode fazer, é voltar a descansar.
– Não. – respondi. – Precisamos pegar logo a última esfera. Chega de enrolar, Caio.
Caio fez menção de protestar, mas Clarisse se adiantou dizendo:
– Ela está certa. Precisamos acabar logo com isso.
A garota se aproximou também.
– Vou te dar mais néctar e ambrosia. É perigoso. Você pode morrer. Mas caso contrário, teremos que esperar por dias – e nem assim vai melhorar muito.
– Ok. – foi minha resposta.
Comi tudo o que Clarisse me empurrou, e deixei que ela trocasse o curativo das minhas costas, o que me fez sentir imediatamente melhor – mas não bem.
Tomamos um café da manhã rápido – composto por pão velho e suco de caixinha – reunimos as coisas que espalhamos, e montamos nos hipogrifos.
Eram, mais ou menos, quatro horas de Washington até Nova Iorque. E eu já estava me acostumando a ficar horas e horas no dorso de uma galinha gigante.
– Sabe... Acho que eu devia te dar um nome. – eu disse para o animal alado em certo ponto da viagem, tentando me distrair. Ele guinghou, mas não tenho certeza se entendeu o que eu disse. – Acho que estamos passando tempo demais juntos... É chato não te chamar de nada especial.
Nas horas seguintes, me concentrei na árdua tarefa de encontrar um nome que não fosse ridículo para o grifo. Me lembrei de Harry Potter ao fazer isso. Não que eu fosse uma daquelas fanáticas... Mas eu realmente o admirava mais do que a qualquer outra pessoa. E se eu não estava enganada, em seu terceiro ano em Hogwarts, Potter salvara seu padrinho com a ajuda de um hipogrifo chamado Bicuço.
– Eu gostaria de ter pensado nesse nome antes dele. – disse para a ave embaixo de mim, sorrindo. – Mas tampouco vou copiá-lo. Vou pensar em alguma coisa, eu prometo.
O céu estava mais escuro do que nos outros dias. Um clima tempestuoso pairava sobre nós. Me perguntei o que aquilo queria dizer – se era algum tipo de presságio.
Mal percebi quando já estávamos sobrevoando Nova Iorque. Estava muito ocupada tentando me segurar, já que meu ferimento ainda doía horrores. Aterrisamos logo em frente ao Empire State Building – a última parada em nosso mapa, antes de chegar ao cetro. Eu ainda não entendia bem como a tal névoa funcionava, mas devia estar agindo naquele momento, já que os trouxas/mortais não ficaram nem um pouco surpresos com a cena bizarra que acabara de se passar ali.
– Falem pouco. – instruiu Clarisse, enquanto passavamos pelas portas polidas.
Chegamos junto ao balcão ao lado do elevador e Clarisse disse ao porteiro:
– Andar seiscentos, por favor.
Olhei para ela como se estivesse louca. Aquele prédio trouxa não poderia ter seiscentos andares. E não tinha, obviamente. Contudo o porteiro nos olhou fixamente e respondeu:
– O Olimpo está fechado.
Ah, Claro. Caio tinha comentado alguma coisa quando vimos o mapa pela primeira vez. A entrada para o Olimpo ficava ali, no Empire State Building.
– Como assim fechado? – perguntei.
– Quer dizer que nem vocês, nem semideus algum pode subir. E o fato de você ser filha dele senhorita, não muda absolutamente nada. Fora vocês! – a última parte, ele disse me encarando, porém não entendi o que ele quis dizer. Filha de quem? Por que nesse mundo, todas as pessoas falam como se estivessem em um programa de charadas?
Clarisse olhou irritada para o rapaz, Caio também. No acampamento, todos murmuraram coisas sobre o fechamento do Olimpo e o silêncio dos deuses. Mas eu pouco me importava. Já havia entendido como as coisas deveriam ser dali para frente. Apontei minha varinha para o porteiro:
– Imperio! – Okay. É agora que todos vão me matar. Uma garota de catorze, quase quinze anos, não deveria saber usar nenhuma das maldições imperdoáveis. Afinal, elas são proibidas para qualquer um. Mas minha mãe me ensinara as três nas últimas férias — eu ainda não as dominava por completo, mas a maldição Imperio era definitivamente menos complicada. E não que minha mãe fosse alguma louca psicopata... Ela disse que eu tinha de estar preparada com todas as armas que eu pudesse ter. Agora, eu entendia – e o engraçado é que talvez eu nem sairia viva dali. E se saísse, iria ter que fugir para Cuba, pois caso contrário, certamente iria para Azkaban. A vida é incrivel.
A maldição atingiu o homem e ele me olhou vazio de expressão.
– Nos leve até o Olimpo. Eu não tô nem aí se não vão nos deixar entrar. – eu disse.
O porteiro se levantou imediatamente e nos acompanhou até o elevador. Ele pressionou um botão e começamos a subir, subir... Tocava uma música ambiente irritante, e Caio e Clarisse me olhavam com discreto pavor. E fora isso, aquela era a primeira vez que eu entrava numa coisa daquelas.
Finalmente, o elevador fez um “tlim” e paramos. Demos de cara com imensas portas douradas – fechadas, é claro.
– Acho que ele não é mais útil, não é? – perguntei apontando para o porteiro.
– Hã... – Clarisse engoliu em seco. – N-não.
O elevador desceu e ficamos ali, esperando. O que se fazer quando deuses não te querem na casa deles?
– Hm, Lyss? E agora? Você tem alguma magia para explodir o Olimpo... ou?
– Mesmo que ela tivesse, Ranbin, ela não faria isso. – Clarisse respondeu de forma dura e tive a impressão que suas palavras estavam mais direcionada a mim do que a Caio.
Então, uma centelha surgiu em frente a porta, no meio do nada, e começou a brilhar, expandindo-se. Conforme aquilo aumentava de tamanho, seu brilho se tornava mais capaz de cegar. Ou vice-versa. Chegou ao ponto em que tudo estava branco e uma silhueta se destacava em meio ao brilho. Era dificil dizer se aquilo estivera ali o tempo todo, ou se acabara de aparecer.
– Hécate. – eu disse, sem saber ao certo como poderia ter certeza de que era ela.
– Lyss. Minha bruxa-semideusa. Fico feliz em ver que conseguiu chegar até aqui. – respondeu a deusa.
Ouvi Caio ganir ao meu lado. Problemas familiares e uma mãe que dá mais atenção a uma garota que acabou de conhecer do que ao próprio filho. É.
– A partir daqui, Lyss, sua missão começa verdadeiramente. E quando começar, estará terminada. Seu tempo é curtissímo e muita coisa está em jogo. Todavia, para sua sorte, hoje não venho até você como a deusa das encruzilhadas. Seu caminho está claro: vá até os limites do mar de monstros e recupere meu cetro.
– Eu entendo tudo que está dizendo. Mas ainda nos falta um esfera, que provavelmente está atrás daquela porta. – respondi cansada de joguinhos. Fora ela quem começara com tudo aquilo, para começar.
– Mas ora, vocês já tem todas as esferas! – a deusa apontou para Caio, pedindo a caixa.
– Olá para você também mãe. – murmurou Caio. Parecia mais que estava praguejando.
Quando Hécate abriu a caixa, vimos que a mais brilhante de todas as esferas ocupava o lugar que deveria estar vazio.
– Lembrem-se: vocês devem ser rápidos e não podem medir esforços. Aconselho-os a saírem imediatamente. E Lyss, suas respostas virão quando você encontrar quem você deve ser.
Ah, claro. Obrigada Hécate!
– E Caio, meu filho. Estou orgulhosa.
Com um baque, tudo voltou a realidade. Não estávamos mais nas portas do Olimpo. Curiosamente, nos encontravamos na frente do Empire State, ao lado dos hipogrifos, como se nunca tivessemos saído dali.
Não troquei palavras com Caio ou Clarisse – eles ainda pareciam horrorizados comigo, e enfrentar a presença de uma deusa não era uma coisa fácil.
Em silêncio, me aproximei do hipogrifo, fazendo uma reverência.
– Ei, amigo. Preciso mesmo achar um nome para você. Logo. Caso contrário, morrerei nesse Mar de Monstros e não saberei como devo te chamar.
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