Dois Mundos

4 Nakamura Hiro - A vizinha tímida


Notas iniciais
Bonsai são pequenas árvores típicas do Japão, extremamente difíceis de criar. Quando os japoneses entram em casa, dizem "Estou de volta!"(Tadaima) e quem estiver dentro de casa responde "Bem-vindo de volta"(Okaeri). É uma tradição japonesa e também um forma de educação.

Hiro acabou de beber com o seu colega de trabalho, pagou a sua conta e dirigiu-se para casa. Já era quase meia-noite. Agora vou para casa e deitar-me na minha doce cama, afinal amanhã é sábado e tenho trabalho para fazer.

Quando Hiro chegou ao seu pequeno apartamento a vontade que tinha de dormir desapareceu. Tentou deitar-se no sofá e ficar assim para ver se essa tal vontade acabaria por vir, no entanto, nada aconteceu. Sentou-se no sofá e ligou o computador. Bem, já que não tenho sono, vamos lá corrigir estes testes. Hiro começou a corrigir os testes na esperança de este processo lento e que exigia extrema concentração, servi-se para ficar sonolento, mas mesmo assim nada mudou.

–Já sei! Vou dar uma volta por aí. — Apesar de ser de noite e viver numa grande cidade como Tóquio, Hiro não inha o menor receio de vaguear pelas ruas sozinho e na imensa escuridão da noite. Vestiu um casaco de cabedal e saiu de casa. Parou junto de um parque para crianças, que estava iluminado por um candeeiro de cidade. Aquela luz amarelada dava ao parque a sensação de ser um local quente e agradável, mesmo numa noite fria. Trepou e sentou-se no cimo do escorrega a observar a lua. Como estava nublado, a lua parecia ser demasiado tímida para olhar para Hiro, por isso escondia-se atrás das nuvens.

Mesmo que a lua seja um enorme pedaço esférico de rocha no espaço infinito, quando vista daqui da Terra, preenche os humanos de mistérios, e depois, estes criam mitos. Esses mistérios talvez sejam inspirados pelo facto de a lua mostrar sempre a mesma face. Quem sabe? Por uma razão ou outra, a lua sempre foi a companheira dos seres vivos durante a noite, irradiando uma luz fosca que brilha no meio da escuridão, mostrando aos humanos que não estão sozinhos. Pensando bem a lua é a origem de vários símbolos e enigmas.

Por fim, Hiro decidiu voltar para casa. Desceu do escorrega e caminhou lentamente sempre com os olhos pregados no chão.

Passou pelo bar, onde tinha ido um pouco antes beber uma bebida com o seu colega, e lembrou-se das raparigas nos uniformes incrivelmente curtos e justos. Corou ligeiramente. Espera aí! Eu estou a corar?! Não, não pode ser... Será que sou algum pervertido com interesse em raparigas mais novas que eu?! Se bem que aquele uniforme realmente lhes fica bem... Não! Que estou eu para aqui a dizer, vou mas é parar com estes pensamentos e focar-me no meu caminho de regresso. Isso mesmo! E amanhã tenho que corrig... Hiro ouviu um ruído repentino e virou-se para trás sobressaltado. Ah... Era só um gato vadio...

Entrou em casa, foi tomar um duche rápido e deitou-se na cama.

Quem me dera ser um gato vadio. Eles têm uma vida tão simples e descontraída. Não têm de obedecer a nenhumas regras, são donos da sua própria vida.

E, finalmente, adormeceu.

***

Hiro acodou com a sensação de ter tido um sonho muito estranho, mas, por alguma razão não se conseguia lembrar sobre o que era. Bem, se não me lembro, então significa que não é importante. Tenho que começar a trabalhar.

Foi até ao frigorífico e tirou uma cerveja. Sentou-se no seu sofá e começou a corrigir os testes que os alunos fizeram, mas passado pouco tempo acabou por desistir.

–Está um dia tão bonito lá fora e é sábado! Não tenho que ficar a corrigir estes testes. Além disso já à bastante tempo que não vou até casa dos meus pais. Que tal eu fazer uma visita?

Vestiu umas calças de ganga, uma camisola fina de manga comprida, uns ténis e o seu casaco de cabedal e saiu de casa. A forma como estava vestido fazia lembrar um adolescente rebelde, ou então, uma músico rock.

Apanhou o comboio em direção a Omiya, onde se situava a casa dos seus pais. Hiro cresceu nos subúrbios de Tóquio, na aldeia de Omiya, um dos locais mais famoso pelos bonsai. Quando Hiro tinha sete anos o pai dele saiu de casa e foi-se embora. Nunca mais tinha tido notícias dele, mas também, Hiro não se incomodava muito com esse facto. O seu pai passava muito tempo no trabalho e Hiro não conseguiu estabelecer laços familiares com o seu pai, como quando um filho considera o seu pai o seu herói, se inspira e o respeita. Ele cresceu com a sua mãe, Nakamura Ayumi, uma mulher extremamente gentil e cuidadosa. A sua mãe continuava a viver naquela casa cheia de memórias.

Quando Hiro era pequeno, ele tinha uma vizinha. Uma menina quatro anos mais nova que ele, mas já não se recordava do seu nome, nem de como era o seu rosto, apenas sabia que era extremamente tímida e quando os seus pais discutiam, ela e o seu irmão vinham para sua casa. Ela fora a sua primeira paixão, mas quando ele tinha oito anos, ela foi viver para outro local.

Hmm... Que irónico. Nem me lembro do seu rosto, nem do seu nome, no entanto, lembro-me do quanto a amava. Será porque foi a minha primeira paixão? Será porque foi a primeira vez que experimentei tal sentimento?

***

Uma vez que o comboio chegou à estação, Hiro desembarcou e caminhou até sua casa. Quando chegou, parou durante uns instantes e contemplou-a.

Não tinha mudado nada nos últimos sete meses.

–Estou de volta! — exclamou Hiro quando entrou em casa.

–Hiro! Bem-vindo de volta! Não sabia que vinhas, que surpresa! Nem tenho nada preparado para tu comeres.

–Não te preocupes, mãe! Eu estou aqui numa visita breve, não tenciono ficar durante muito tempo. Apenas te quis visitar para ver como estavas.

–Fico muito feliz, Hiro. Então como tens andado?

A voz dela é doce e calma como sempre. Já estava com saudades desta forma de falar. É tão acolhedora e quente...

–Tenho andado bem, uma vida muito monótona. Sabes, é a vida na cidade. Às vezes sinto falta do silêncio da aldeia.

–Então, nesse caso, deverias vir aqui mais vezes! E eu podia preparar-te uma refeição caseira típica de uma mãe. De certeza que à imenso tempo que não comes uma refeição como deve ser.

–Bem, isso é verdade, devia vir aqui mais vezes. Mas tenho andado muito atarefado com o trabalho... Talvez no ano novo...

–Já agora, não tens nenhuma namorada? Ninguém em quem estejas interessado?

–Não. — Por falar nisso, posso perguntar-lhe como se chamava! -Umm... Mãe, lembras-te daquela rapariga tímida que era nossa vizinha e que vinha aqui com o seu irmão?

–Estás a falar da Murakami Masayo?

–Então é assim que ela se chama! Pelos meus cálculos ela deve ter agora dezanove anos, certo?

–Sim, mas porque perguntas?

–Ah! Nada, deixa estar!

***

–Adeus, Hiro! Vem visitar mais vezes!

–Está bem, mãe. Voltarei em breve!

Hiro caminhou de volta à estação, para apanhar o metro de regresso a Tóquio.

O nome dela é Masayo! Agora já me lembro! Murakami Masayo foi a minha primeira paixão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.