Dois Mundos
9 9-A batalha dos acampamentos.
O lugar era o mesmo, claro, mas algo estava errado, uma atmosfera de tensão pairava sobre todos ali. Pilhas de armamentos estavam sendo polidos e levados para o meio da arena, os Pégasos estavam todos de armaduras, os campistas treinavam intensamente e poucos exibiam sorrisos.
Vi Quíron coordenando uma turma de arco-e-flecha, provavelmente filhos de Ares, porque eles não tinham nenhuma coordenação para atirar.
Andrew, o chefe de meu chalé, foi o primeiro a ver que nós tínhamos voltado, seu arco estava preso por cima de uma camiseta verde, ele veio correndo em nossa direção.
–Que bom que vocês estão aqui! –disse ele arfando.
–O que aconteceu? –perguntou Douglas olhando ao redor.
Eu me lembrei do sonho que tive, sobre uma invasão dos romanos, eu não tinha entendido muito bem, mas aquilo me pareceu bem real.
–Parece que o acampamento romano está vindo atrás de nós, pelo que Perçy nos contou, houve alguns incidentes em São Francisco, e agora os romanos estão com muita, muita raiva de nós, e vindo para cá.
Definitivamente eu não havia entendido. Como assim acampamento romano? E o que ele queria dizer com ‘vindo atrás de nós’? Agora meu sonho começou a fazer sentido, Quíron estava armando as defesas para um ataque, que poderia ser fatal.
–Nós podemos ajudar em alguma coisa? –perguntei.
–Claro, os arqueiros vão fazer uma defesa à distância, vamos ficar nas partes mais altas do vale, estamos preparando os arcos e as flechas especiais. Se você quiser ajudar, os outros estão lá em baixo. –disse ele apontando para a arena e o campo de treinamento, depois se virou para Douglas. –os filhos de Hefesto estão fazendo armas novas e alguns outros brinquedos legais, estão nas forjas.
Meu primo assentiu e desceu correndo para as forjas.
–E você, eu acho que Quíron gostaria de falar com você. –disse Andrew, estava na cara que ele não gostava muito de Pedro.
–Você não sabe o que ele quer comigo? –perguntou Pedro.
–Desculpe, não. –disse Andrew.
–Tudo bem, vejo você depois. –disse Pedro dando-me um abraço e descendo a colina.
Andrew me olhou como se eu fosse uma peça radioativa.
–O que você viu nesse cara? –ele me perguntou.
Eu fiquei meio desconcertada com a pergunta.
–Ele é legal, lindo, brasileiro e acho que ele gosta de mim. –eu respondi.
–Esse cara é estranho, você já viu ele lutando? Às vezes parece que ele faz os outros voarem longe. Eu não fui muito com a cara dele quando ele chegou aqui. –disse meu irmão, enquanto nós descíamos a colina.
Eu nunca tinha conversado muito com Andrew, ele parecia ser um cara legal, do tipo que as meninas gostariam de ter, mas ele bancando o irmão protetor comigo, aquilo foi estranho.
–Eu já vi ele lutar sim, e devo dizer que ele luta muito bem. –respondi.
–Mas você nunca sentiu alguma coisa estranha com ele? Quero dizer, ele tem um jeito meio esquisito, ele tem uma tatuagem muito estranha no braço. –ele disse.
E agora, quando Andrew falou, eu me lembrei da tatuagem, eu não tinha reparado muito bem ainda, mas no antebraço, ele tinha desenhado um tridente de Poseidon (meio óbvio) e uma espécie de olho em baixo:
Parecia alguma coisa que eu já havia visto em algum lugar, e quando eu o visse de novo, eu perguntaria.
–Eu acho o Pedro uma pessoa normal, quero dizer, para os padrões de semideus, claro. –eu falei olhando-o nos olhos. Andrew era um pouco maior do que eu, seus olhos verde mar pareciam me estudar por dentro, eu acho que anos atirando em alvos, fazem você ficar com esse olhar mais fixo.
Ele pareceu entender que eu não me importava com o fato de Pedro ser diferente, até porque, eu sabia qual era a sua diferença, mas não sei se deveria falar isso ali, então fiquei quieta.
Cheguemos aos arqueiros, uma dúzia de filhos de Apolo, reunidos com arcos e flechas de Bronze celestial, mirando e acertando em alvos colocados em diferentes posições.
–Lú. –gritou minha irmã preferida, Carol, quando me viu.
–É bom ver vocês pessoal. –eu disse acenando para todos de uma vez só.
–Estamos treinando, como você já deve saber, alguns romanos estão por ai tentando nos matar. –disse Chris caminhando em minha direção.
Mesmo sendo de manhã, bem cedo, eu não estava com sono, então treinei com eles, já que seria muito estúpido da minha parte, deixar eles treinando enquanto eu ia dormir no chalé.
A hora do almoço chegou e todos nós nos encaminhamos para o pavilhão, a gorda aqui precisava de comida depois de todo aquele esforço, tentando acertar alvos em movimento.
Não fui tão mal como eu imaginei que seria, os alvos estavam colocados em monstros que corriam pela floresta, então no máximo, eu matei alguns deles.
Quíron caminhou até a frente do pavilhão, imediatamente os campistas pararam de falar para ouvi-lo. Ele parecia tenso, mas tentou passar um ar de segurança para nós.
–Eu tenho o prazer de dar as boas vindas aos nossos heróis que retornaram hoje de sua missão, uma missão em que obtiveram sucesso. –disse ele batendo palmas e todos seguiram.
Pedro se levantou, depois Douglas e eu presumi que teria que levantar-me também, então o fiz.
–Derrotaram Kratos, lutaram ao lado de Zeus e voltaram com vida, vocês são bravos e heróis dignos. O acampamento e todo o mundo agradecem a vocês. –ele disse enquanto sentávamos, mais aplausos percorreram. –mas quero também, dar as boas vindas para um outra pessoa, que chegou nessa manhã. Por favor, recebam nossa nova campista, Rafaela Tramontin, filha de Zeus. –completou ele.
Eu engasguei com meu suco de laranja enquanto uma menina magrela, muito menor do que eu, com cabelos curtos e pretos, se levantava da mesa de Zeus. Rafa estava ali, minha melhor amiga, estava ali, eu já sabia que ela era filha de Zeus, mas não tinha pensado que ela poderia chegar ao acampamento. Eu provavelmente estava tão perplexa quanto qualquer um ali, e ela começou a rir quando me viu.
–Você conhece ela? –perguntou-me Andrew, que estava sentado na minha frente.
–É claro, ela é minha melhor amiga. –eu respondi. Agora eu já havia me recuperado do susto, procurei a mesa dela entre as cabeças mas não achei nada.
Passei o resto do almoço pensando, quando já estava saindo do pavilhão, alguém se atirou em cima de mim. Era a Rafa, ela me abraçava forte.
–Eu não consigo acreditar que você está aqui. –eu disse abraçando-a.
–Pois é, que loucura né? –disse ela.
–Melhor assim, seria muito difícil de te explicar a história toda quando voltasse para casa. –eu falei rindo.
–Me diga, como isso tudo é possível? –ela me perguntou olhando em volta.
–É difícil de acreditar no começo, eu sei, passei por isso semana passada, mas parece que é verdade. Como você chegou aqui? –eu perguntei.
–Apareceu um cara na minha casa, dizendo que era meu pai, ele disse que mandaria alguém me buscar, porque eu corria riscos, e no outro dia, aquele monitor do colégio, que era deficiente e andava de muletas, o Martin, me buscou na minha casa e me trouxe para cá, de primeira classe e tudo. –respondeu ela. –Eu tenho um chalé só para mim. –falou ela apontando para a maior construção entre os chalés. Uma casa alta, de mármore branco polido, no estilo grego, muito bonito, com detalhes em ouro. O chalé 1, de Zeus.
Eu poderia ficar muito tempo ali, sentada nos degraus do pavilhão, conversando com ela, mas Carol me chamou, o treinamento não havia terminado. E Rafa teria que arrumar alguma coisa para fazer, por enquanto, ela ficaria com Quíron.
Despedi-me dela e segui para meu treinamento.
No fim do dia, meus dedos doíam, meus braços estavam muito doloridos e eu só queria um chuveiro quente. Acho que evolui muito no tiro com arco, porque não errei um alvo durante o treinamento. Mas eu acho que isso era normal para os filhos de Apolo.
Voltei para o chalé, tomei O banho, eu me sentia uma nova pessoa. Resisti a tentação de me deitar para descansar e sai de novo. O sol já estava se pondo, era incrível como o dia passava rápido ali.
Quando eu estava me encaminhando para o chalé 1, para ver se Rafa estava ali, passei na frente do de Poseidon, que estava com a porta aberta, e lá dentro, vi Pedro olhando para algo em cima de uma mesa. Ele não me viu, mas fiquei tentada em entrar no chalé.
–O que você está fazendo ai? –perguntou-me Rafaela, que havia chegado de mansinho.
Eu tomei um susto.
–Só olhando uma coisa, desculpe. –consegui responder desviando os olhos.
–Sei, e essa coisa seria o garoto ali? –ela perguntou.
Eu olhei para ela sem acreditar, ela não era de falar isso, mas ok, eu não podia esconder muita coisa dela.
–Sim, eu queria descobrir uma coisa... O que estamos fazendo aqui ainda? Vamos ver o acampamento. –eu falei mudando de assunto e virando-me para que ela me seguisse.
Ela veio atrás de mim, o que foi bom, as ela começou a me atolar com perguntas sobre Pedro, e por fim eu disse que contaria tudo para ela. Mas depois.
Quando terminei de mostrar os pontos principais do acampamento para ela, já estava escuro, quase na hora do jantar, e alguns campistas jogavam vôlei com sátiros na quadra. Outros carregavam armas e escudos, mas nós nos sentamos na beira do lago, e contei tudo, sobre a viagem, sobre Pedro, sobre os magos, eu sabia que podia confiar nela. E contar aquilo me fez bem, me senti mais leve.
De vez em quando, ela soltava uma risada, principalmente quando contei da noite no mato, aos pés do Cristo Redentor.
Finalmente, o sinal que o jantar estava pronto, tocou, e nós fomos para o pavilhão.
Aquela noite foi tranquila, durante a fogueira, sentei-me ao lado de Douglas, Pedro e Rafa. O clima entre meu primo e minha amiga ainda era estranho, desde aquela noite no cinema, mas isso não importava, eu estava feliz. O chalé de Apolo conduziu as músicas. Mas antes de sermos dispensados, Quíron caminhou até o centro.
A fogueira brilhava de acordo com a animação dos campistas, e agora, estava de um amarelo forte.
Quíron começou a falar, e todos nós estávamos em silêncio.
–Nossos patrulheiros voltaram agora a noite, e não trazem boas noticias. Nosso inimigos no momento, os romanos, estão chegando perto, muito perto, temos previsão para uma batalha, então preparem-se, quando chegar a hora, saberemos. –disse ele.
Pedro se levantou.
–Eu também não trago boas noticias. Roxie me mandou uma mensagem de Irís, Nico e os outros estão indo para a Grécia neste instante, enfrentar Gaia e os gigantes, eles conseguiram a tal estatua, Atena Partenos, mas Perçy e Annabeth caíram no abismo. –disse ele, e percebi que era isso o que ele estava fazendo antes, conversando com Roxie. Ele fez uma pausa, para que todos assimilassem a noticia, e então, o pavor dominou o grupo.
Nem mesmo Quíron sabia disso, ele ficou perplexo, a fogueira passou para um vermelho vivo, enquanto todos conversavam entre si.
–Continue por favor. –pediu Quíron.
–Nico, Hazel, Frank, Jason, Leo e Piper estão à bordo do Argo II, viajando, para fechar as Porta da Morte pelo lado mortal, na Casa de Hades, um templo que fica na Grécia, mas a porta só pode ser fechada pelos dois lados. O lado do mundo mortal e o lado que fica no Tártaro. –ele disse, e a tensão ficou maior.
Eu estava com dificuldade para pensar, eu sabia que eles tinham caído, Pedro tinha me contado, mas mesmo assim, eu não sabia o porque. Olhei para ele ao meu lado, Pedro parecia com medo e sombrio na luz da fogueira, e vi a tatuagem no antebraço, ela parecia brilhar agora.
–Essas são noticias realmente ruins. –disse o senhor D. –mas eu estou com sono e sem vontade de ficar aqui. –e ele saiu caminhando para a Casa grande.
–Mais um motivo para vocês irem descansar, dormir, aproveitar nossas ultimas horas tranquilas. Façam isso, pelo bem de todos. –disse Quíron impaciente. –uma boa noite para todos. –e ele saiu da arena.
Nós voltamos para os chalés, com as palavras ainda frescas em minha mente, mas antes de eu entrar no meu chalé, Michelle, a conselheira do chalé de Hefesto, me chamou em um canto.
–Eu sei que você está cansada, mas escute, nós precisamos conversar. –ela disse.
–Tudo bem, o que aconteceu? –perguntei.
–Eu sei como poderemos vencer os romanos. –ela falou me arrastando para dentro da floresta.
Mesmo sendo quente dentro dos limites do acampamento, a floresta era fria, eu não havia entrado ali ainda, o que me deixou com receios. Ela me levou para uma parte da floresta onde havia uma clareira, com algumas pedras em torno e o arroio passando por perto, pude ouvir som.
Algumas pessoas estavam ali, esperando, Douglas, Pedro, Rafaela, Roxie, Andrés(parece que haviam chegado não fazia muito tempo.), Nicole e Pierre de la Fuche, dois irmãos filhos de Afrodite que eu já havia visto pelo acampamento mas nunca tinha falado, Caroline Watson, filha de Hermes americana que havia me cumprimentado quando chegamos (e eu acho que estava afim de Douglas), Rachel Toreto, uma filha de Ares inglesa, que poderia se passar por modelo, e deveria ser a única filha legal de Ares e Ricardo Barreto, um filho português de Dionísio.
–O que estamos fazendo aqui? –perguntou Rafaela, e eu me perguntava a mesma coisa.
Eu sentei-me entre ela e Pedro em uma das pedras que formavam um circulo, que não era muito maior do que meu quarto.
–Sejam bem-vindos à primeira reunião dos magos semideuses do Acampamento Meio-Sangue. –disse Michelle no centro.
Eu fiquei boquiaberta.
–Todos aqui são magos? –perguntei o que parecia ser óbvio.
–Sim, nós somos os únicos no mundo que tem essa natureza dupla, metade semideus, metade mago. –disse Ricardo.
–Eu disse que éramos poucos no mundo. –sorriu Pedro para mim.
Eu não podia acreditar.
–Isso é muito legal. –disse Douglas com suas habilidades para formular frases.
–Creio que todos já se conhecem. Então podemos partir para os assuntos a serem tratados. –disse Michelle.
–Todos vocês estudam na Casa do Brooklin? –perguntei sem me conter.
Eles deram uma risadinha leve.
–Não, a Casa da Vida tem filiais em todo o mundo, eu e meu irmão frequentamos a filial de Paris. –disse Nicole, sem querer ser estranho, mas essa menina era linda, tinha olhos azuis e cabelos loiros esvoaçantes, tinha um sorriso lindo e era a típica líder de torcida popular e bonita, só que muito bonita.
–E eu, bem, frequento a de Londres. –disse Rachel, que era igualmente bonita, o que era bem estranho para uma filha de Ares, mas essa era diferente, também era loira, só que um loiro mais escuro, com cabelos cacheados que desciam pelos ombros e olhos castanhos que combinavam com a pele clara. Ela parecia ser uma menina legal.
–Eu vivo na de Lisboa. –disse Ricardo. Esse garoto era muito estranho, tinha cabelos encaracolados e pretos, tinha muita espinha na cara, usava óculos e parecia que tinha tomado uma quantidade de líquido, porque parecia que fosse vomitar em qualquer momento.
Obviamente, Rafaela e Andrés, que não sabiam que eram magos até pouco tempo atrás, não responderam. Pedro ia à Casa do Brooklin, em Nova York, mas então algo me ocorreu, se ele morava em São Paulo, porque não ia ao Nomo paulista?
–Estamos aqui, todo mundo reunido, pelo simples motivo: nós sozinhos não conseguiremos derrotar os romanos. –disse Michelle.
–Como assim? –perguntei. –O que você está sugerindo?
–Teremos de usar nossa magia para conseguir vencer. –respondeu Pedro.
–Somos 12 semideuses fortes, e magos bem treinados. Conseguiremos derrotar eles se colaborarmos um com o outro. –Falou Pierre, esse cara era lindo de mais, tinha cabelos negros bagunçados, olho azul forte, seus lábios eram perfeitos e ele era bem definido. Usando uma camiseta justa como aquela de propósito, fazia os músculos aparecerem sob a camiseta. Comparando com Pedro, os dois ficavam empatados.
–Mas alguns de nós aqui, nunca receberam treinamento. –eu disse apontando levemente com a cabeça para Rafaela.
–É verdade, e nós, eu e Luiza, temos muita pouca experiência em magia. –disse Douglas. Era evidente que ele estava afim de Caroline, porque ele não tirava os olhos dela.
Não posso negar, Caroline era bonita, tinha longos cabelos cor de caramelo, olhos castanhos e sua pele indicava que ela gostava de tomar banho de sol, porque era bem bronzeada.
–Isso é um grande problema, e principalmente se nossa luta for amanhã. –Disse Roxie.
–Porque não fazemos assim: Não temos certeza absoluta de que a batalha será amanhã, então poderíamos nos juntar aqui na floresta, nos fim do dia. Treinaremos alguma coisa com os novatos. –Falou Ricardo, e eu jurei que ele fosse vomitar, mas não aconteceu nada.
–Chamaria muita atenção. Eu acho que alguém notaria alguns sons estranhos vindos da floresta. –Comentou Pierre.
–Concordo com meu irmão. –Disse Nicole. –Vamos ter que lutar sem treinar.
–Mas daí só os que são treinados há algum tempo vão poder lutar. –disse Andrés. Pelo jeito, ele e Roxie já haviam conversado bastante sobre isso.
–Como assim ‘magos’? –perguntou-me Rafaela em um sussurro.
–Mais tarde eu te explico. –prometi.
–E os que já tem alguma experiência com magia aqui são eu, Pedro, Roxie, Ricardo, Caroline, Pierre, Nicole e Rachel. –disse Michelle. -E nós já temos uma boa experiência em lutas.
–Com isso sobra nós, apenas. –falei.
–E dos quatros que sobraram. Eu e Luiza já participamos de uma missão e voltamos vitoriosos. -disse Douglas. –com uma ajuda de Andrés. –completou ele depois de um olhar feroz de Andrés.
–Então sobra dois sem nenhuma experiência, Andrés e Rafaela. – Falou Caroline.
Os dois se olharam nervosos.
–Então vamos morrer nessa batalha? –perguntou Rafa.
–Não! –eu disse.
–Amanhã vocês dois vão ganhar um treinamento intensivo. Vão passar o dia todo treinando. –Falou Michelle.
–Eu acho que devíamos ir. Já ficamos tempo de mais por aqui. –disse Nicole olhando ao redor.
–Concordo. –falou Ricardo levantando-se.
–Tudo bem. Amanhã se tivermos sorte, voltaremos aqui. –disse Michelle nos conduzindo para fora da floresta.
O acampamento estava silencioso. Tudo estava apagado, nenhuma luz além da lua e da fogueira que crepitava longe dali.
Nós nos esgueiramos para os chalés, cada uma para o seu. Consegui entrar no 7 sem problemas. Alguém tinha deixado um tênis todo sujo de lama perto da porta. Um pacote de salgadinhos estava em cima do sofá, espalhando migalhas. A televisão ainda estava ligada na tela do jogo Need for Speed.
Subi as escadas devagar, não queria acordar ninguém. E depois de poucos minutos de preparação, me joguei em cima da cama.
Dormi como uma pedra. Eu estava cansada de mais, e meu ba resolveu ficar no corpo, uma ótima notícia, porque eu precisava descansar física e mentalmente.
No outro dia de manhã, fui acordada com Carol, minha irmã, me sacudindo. O sol já brilhava lá fora e eram sete horas da manhã. Eu realmente sentia falta de acordar tarde nas férias.
Nós tínhamos que ir para os campos de tiro, para mais uma sessão de treinos intermináveis, atirando flechas em alvos colocados em lugares cada vez mais difíceis.
A manhã foi passando com rapidez. Eu não havia falado com ninguém dos magos, mas pude ver eles em várias atividades diferentes pelo acampamento.
Rafa estava treinando esgrima com Robert, eu espero que ela tenha se saído bem. Douglas estava fazendo alguma coisa nas forjas, porque eu consegui vê-lo saindo e entrando de lá umas quatro ou cinco vezes. Pedro estava no lago de canoagem, Pierre e Nicole estavam fazendo alguma coisa no alto da colina e Rachel estava com seus irmãos grandalhões do chalé de Ares, na floresta, fazendo uma atividade de batalha com monstros. Foram os únicos que eu vi.
Durante o almoço, Quíron havia informado que deveríamos nos preparar para um ataque à qualquer momento. Não deveríamos fazer muito barulho significativo ou qualquer coisa que chama-se a atenção para aquele lado do vale.
Os romanos eram meio-sangues como nós, então eles iriam ver algo acontecendo ali. E o pior não era isso, era que Perçy havia informado nossa localização exata, inclusive sobre o pinheiro. Tudo isso foi informado por Quíron, então eu estava esperando um ataque.
As defesas do acampamento foram todas ativadas. Os filhos de Hefesto haviam posto armadilhas muito legais perto da entrada.
Nós, filhos de Apolo, estávamos posicionados em pontos estratégicos, dentro da floresta, atrás de barreiras altamente protegidas espalhadas pelo campo e em torres fortemente armadas, com provisões suficientes para um pequeno grupo se hospedar ali por uma semana, com flechas de todos os estilos, e protegidas, nas quais apenas nós poderíamos subir.
Os filhos de Deméter haviam plantado algumas plantas bem legais por ali, que poderiam ser ativadas para se enroscar nos pés romanos.
Os filhos de Atena estavam no pavilhão, em uma espécie de conselho de guerra, preparando estratégias e planos.
Os filhos de Ares corriam de um lado para outro brandindo espadas e arrumando as armaduras. Rachel estava com uma lança presa nas costas e uma espada na mão direita, na esquerda ela segurava um escudo e toda a sua armadura era vermelho-sangue. Pensei ter visto ela empunhando um cajado, mas ela não seria louca de fazer aquilo ali.
Os filhos de Afrodite estavam passando entre os soldados arrumando as armaduras, mas todos eles estavam vestidos para a batalha. As meninas usavam armadura rosa pink e os meninos uma normal. Mas eles usavam armas poderosas, como maquiagens que faziam sua pele estourar em bolhas e batons que queimavam qualquer coisa.
Os filhos de Dionísio estavam posicionados juntos aos guerreiros de Ares. Eu acho que deveriam ter apenas quatro filhos do deus do vinho.
Os filhos de Hermes estavam prontos para lutar, muitos deles usavam espadas e lanças, e alguns tentavam pegar coisas dos campistas desavisados.
Os outros chalés estavam dispostos em todos os lugares possíveis. Eu estava em cima de uma das cinco torres dispostas pelo acampamento, com Carol, Andrew e Chris. Então conseguia ver tudo de uma altura aproximada de 10 metros.
–Você acha que eles conseguirão nos derrotar? –perguntou-me Carol.
–Eu acho que não. Somos mais de cem, eu acho, e estamos lutando em nosso território. –respondi.
–E nós temos uma linha ofensiva muito forte. Os filhos de Ares são os melhores guerreiros do mundo. –completou Chris.
Eu estava atenta, olhava para todos os lados. Nossa torre tinha vista de 360 graus, o único perigo era se algum arqueiro adversário nos atingisse ali em cima, apesar de estarmos muito bem preparados com a armadura, e a proteção chegava na linha do peito.
Para entrar ou sair dali, nós teríamos que descer por uma escada que ficava no centro da torre, e levava para um quartel-general escondido fortemente protegido dentro da floresta, então teríamos que andar por um bom tempo em baixo da terra.
Os melhores médicos de Apolo foram colocados para lutar nas localidades térreas, para poderem socorrer os feridos. Então algumas das torres estavam vazias, esperando para alguém utiliza-las.
Em uma das torres, na que ficava bem ao meu lado. Estavam Douglas, Pedro, Rafaela e Andrés. Seria melhor para eles ali, ficariam mais protegidos, pois as torres era no momento, o lugar mais seguro do acampamento.
O tempo foi passando e a noite foi chegando. O tédio ali era muito alto. Tentei me divertir um pouco com meu ‘iArco’, já que tinha internet e parecia um celular acoplado ao arco, achei melhor chamar assim.
Enquanto esperava, vi Roxie e Michelle correndo para dentro da floresta, eu não sabia o que elas iriam fazer, mas achei que fosse algo relacionado com magia egípcia. O lado bom era que eu podia conversar com a torre vizinha por um pequeno comunicador que ficava na parte de dentro da torre. Então passamos o tempo conversando. Conseguimos explicar para Rafaela o que eram os magos, e ela aceitou perfeitamente a ideia.
Quando eram sete e meia da noite, o sol já havia se posto e as luzes estavam todas acesas. Tochas iluminavam em todos os lugares. Ninfas e sátiros levavam comida para os guerreiros. Ordens de Quíron para que eles não saíssem da posição. Quanto à nós, presos na torre, campistas de Afrodite nos trouxeram o jantar montados em Pégasos.
De repente, uma flecha cravou-se na parede externa da torre, um pouco acima da cabeça de Carol. Nós nos abaixamos imediatamente, e como estávamos praticamente de sentinela, mandamos o sinal para os outros que estavam lá em baixo. O sinal era basicamente, uma flecha vermelha estourando um balão de água que ficava no centro da colina.
Todos nos posicionamos. Preparei o arco e comecei a vasculhar os limites do acampamento, e então eu vi. Em cima de uma árvore, um menino robusto, vestido de armadura romana com um elmo roxo, usando binóculos. Ao lado dele, uma menina segurando um arco, ela preparava outra flecha. Logo à baixo deles, guerreiros vinham se esgueirando pelo mato.
Eles haviam nos encontrado.
Quando o primeiro romano atravessou os limites do acampamento, uma flecha verde brotou em seu pé e ele saiu pulando. Os outros vieram logo atrás deles. Mas foram caindo nas armadilhas. Dois ficaram presos nas ervas dos filhos de Deméter, cinco foram presos por fios de cobre e pendurados de cabeça para cima, suspensos por fios presos nas torres. Mais alguns caíram em buracos no chão. As armadilhas funcionavam perfeitamente. Quíron deu o sinal e nossas tropas atacaram. Os filhos de Ares saíram devastando as linhas inimigas, mas os romanos só chegavam cada vez mais.
A batalha estava correndo solta lá em baixo. Derrubei alguns arqueiros de cima de suas árvores, vi Douglas jogando bolas de fogo em outros, Pedro convocava água do mar em formato de bolhas de jogava em cima de alguns.
Mas não parecia adiantar muita coisa. Os romanos continuavam chegando, e eles lutavam bem, alguns de nossos campistas estavam caídos, outros sangravam por baixo da armadura, mas ainda era difícil dizer quem ganhava.
–Águia gigante! –gritou Andrew me empurrando para o chão.
Mas não foi o suficiente, quando vi, Andrew estava suspenso. Uma água enorme estava prendendo Andrew e levando-o para cima. Um rapaz de camiseta roxa por baixo da armadura, estava montado na águia.
Andrew se debatia, mas seus braços estavam muito bem presos nas garras. Carol atirou uma flecha que passou raspando as asas da águia.
Eu tentei atirar, mas a flecha acabaria acertando Andrew ou ele acabaria prensado no chão.
Eles já estavam em cima da floresta, totalmente fora do alcance, gritei para Rafaela, e ela me ouviu.
–Você tem que salva-lo!
–Como? –perguntou ela, apavorada.
–Você é filha de Zeus, senhor do céu. Deve saber voar. –falei.
–Claro, é meu hobbie. Eu saio voando por ai. –disse ela rindo sarcasticamente.
–Luiza está certa. Pode dar certo. –disse Andrés.
–Você precisa tentar. –disse Douglas.
Rafaela olhava incrédula para nós. Eu não sabia o que estava passando na cabeça dela.
–Você vão me pagar por isso. –disse ela se virando e subindo na proteção.
Rafaela fez uma oração baixinha e saltou.
O pânico me invadiu. Aonde eu estava com a cabeça em dizer uma coisa dessa? Minha melhor amiga estava caindo em queda livre e a culpada principal era eu.
Mas no último segundo, ela não se espatifou no chão. Pelo contrário, seus gritos pararam e ela começou a flutuar. Um tornado estava em volta de seu corpo e ela chegou na altura dos meus olhos.
–Parece que deu certo. –disse ela saindo em toda velocidade atrás do meu irmão.
Voltei a atenção para a batalha lá em baixo. Os romanos ultrapassaram nossas defesas e atacavam por trás. Michelle usava uma espécie de martelo que derrubava oponentes de longe e ainda soltava fogo.
Rachel lutava como uma demônia. Ela brandia a espada enfurecida, derrubava oponentes e dava saltos mortais muito legais. Ela puxou a varinha de dentro da armadura e fez uma proteção mágica. Um escudo vermelho brilhou na frente dela antes que uma flecha inimiga encostasse nela. Ela guardou a varinha antes que mais alguém visse.
Nicole parava na frente de alguns e fazia-os saírem correndo atrás dela, e de repente, BUM, algum filho de Ares os derrubava.
Pierre era muito perigoso com uma adaga na mão. Ele podia chegar perto dos inimigos e eles não atacavam, quando voltavam a si, estavam ensanguentados e sem armadura.
Mas os romanos lutavam muito bem. Alguns deles atacavam com muita força. Um garoto robusto que tinha a borda da boca manchada de vermelho desferiu um golpe em uma parte sem proteção no corpo de um filho de Hermes.
Douglas pulou em um uma águia gigante que passava por ali, e agarrou-se ao garoto que estava montado. Eles giraram no ar e a águia caiu no meio do lago. Eu acertei um flecha no pescoço do dono da águia, quando ele saiu do lago. O garoto caiu, mas a flecha pegou de raspão.
Eu tentava ver a luta lá em baixo, mas a escuridão não permitia uma visualização melhor. Pensei em descer, mas seria pior. Procurei Andrew e Rafaela, mas não vi nada no céu.
Quando me virei, uma flecha me atingiu, algum desgraçado acertou uma flecha explosiva dentro da torre em que eu estava. Carol foi jogada para o lado e bateu a cabeça. Ela estava bem. Chris foi jogado para o outro lado, mas também estava bem. A azarada ali era eu. A energia liberada pela explosão da flecha, jogou-me para a parte de trás, onde o parapeito era menor e eu cai.
Eu vi toda minha vida passando pelos meus olhos. Mas eu não atingi o chão. Uma rajada de vento me guiou até o chão, amortecendo minha queda. Eu olhei para os lados, procurando o autor da façanha, mas não vi ninguém.
Na orla da floresta, vi Rafaela apoiando Andrew. Eles estavam abraçados e caminhavam lentamente, tentando não chamar a atenção. Eu corri para a frente. Meu arco preparado, e agora, eu estava com bastante raiva. E olhar aquela guerra ali de baixo, não era mais agradável que vendo do alto.
Douglas surgiu ao meu lado. Ele estava encharcado e tinha dificuldades de conjurar fogo.
Antes que uma garota magrela pudesse me atingir com uma espada, Douglas deu um soco nela, e a coitada atingida, voou e bateu em uma árvore.
–Como você fez isso? –perguntei arregalando os olhos para a mão dele.
–Não sei. –respondeu meu primo. Enquanto esfregava a mão direita, percebi que ela estava reluzindo.
Sua mão estava envolta em ferro. Não, não estava envolta, era ferro maciço. Eu estava impressionada com aquilo. Ele pegou uma espada perdida no chão e entortou-a como quem quebra um palito de dentes.
–Isso é muito legal! –eu disse.
–Espero que volte ao normal depois. –ele estava apavorado.
Nós voltamos para a luta. Douglas lançava labaredas de fogo em alguns romanos. Eu atirava flechas, apesar de errar a maioria.
Minhas flechas acabaram cedo demais, desejei estar em cima da torre, mas não era muito possível. Então fiz o que dava, fiz o arco voltar ao tamanho miniatura e pendurei-o no pescoço, como um colar.
Michelle estava acuada por três garotos romanos. Eles tinham lanças na mão, então deduzi serem filhos de Ares (Marte no caso romano). Encontrei o olhar dela, e deduzi o que eu teria que fazer.
Tentei chegar até ela, mas fui impedida por um garoto alto, com cabelos cor de areia e que parecia um espantalho. Ele tentou me acertar com um pilo, mas eu me esquivei por pouco. Eu tentei passar pela esquerda, mas ele me impediu de novo. Eu estava presa, encurralada entre ele e a parede da torre.
O garoto estava vindo para cima, mas uma ideia me veio em mente: eu era mais forte do que ele, pelo menos tinha mais tamanho. Lembrei-me de um amigo que tinha em Porto Alegre, um que jogava rúgbi, e usei uma lembrança daquela. Empurrei o garoto para longe com o ombro antes que ele cravasse o pilo nas minhas costas. Douglas bateu com a mão de ferro na cabeça dele e o garoto desmaiou.
Corri para ajudar Michelle, mas devo dizer, velocidade não é o meu forte. Quando estava chegando mais perto, Douglas empurrou-me para o chão. Um dardo passou onde minha cabeça estava.
Michelle conseguiu fugir dos atacantes, graças a Douglas, que correu até ela agarrou os meninos com a mão e ferro.
Vi alguns gregos correndo para a floresta, mas era difícil saber se estavam sozinhos. A escuridão era muita.
Eu estava lutando contra uma menina baixinha, que eu não podia distinguir muita coisa dela. Mas sabia que ela era forte. A menina deu-me um chute na canela, e posso dizer que doeu muito. Finalmente consegui derrubar a menina e arrancei seu elmo.
Minha armadura era pesada e eu estava suando. Rachel chegou ao meu lado, e sua testa estava sangrando. Ela ofereceu-me sua espada, já que eu não tinha nada além do canivete. Eu obviamente aceitei.
–Estamos ganhando? –perguntei.
–Não, empatados, mas vamos ter muitas baixas se não agirmos agora. –ela disse.
–O que você quer dizer com agirmos... –eu não precisei terminar, já havia entendido. –o que eu preciso fazer?
–Temos que avisar os outros. Você segue qual caminho? –ela me perguntou enquanto batia a lança na cabeça de um romano que estava por ali.
Eu pensei um pouco antes de responder, e eu ainda não havia decidido qual caminho de qual deus seguir.
–Por enquanto, nenhum. –respondi me abaixando de um pilo voador.
–Depois discutimos isso. Agora vá avisar os outros. –ela me empurrou para o chão, para poder bater em um cara que estava ao meu lado e eu não vira.
Eu corri atrás de Douglas. Ele estava espancando um cara maior do que ele, perto da arena. O cara caiu no chão depois de ter seus estomago triturado. Eu avisei-o e pedi para me ajudar a chamar os outros.
Eu avistei Pierre e Nicole fugindo de dois romanos com elmos e espadas. Eles correram para a floresta. Ricardo estava caído no refeitório, ele parecia sangrar, então fui até ele.
–O que aconteceu? –perguntei ajoelhando-me ao lado dele e puxando a camiseta para fora.
–Um idiota cravou um pilo idiota. –disse ele, e sem mentiras, o garoto estava ficando meio roxo.
–Eu posso cuidar disso. –o machucado estava muito feio. Passei a mão sobre a ferida e ela começou a fechar rapidamente.
–Obrigado. –disse ele sentando-se.
Eu contei sobre o plano, ele não pareceu muito feliz com isso. Mas disse que iria avisar o resto.
Quando eu estava voltando para a batalha. O mesmo garoto-espantalho me atacou. Ele devia estar me seguindo.
–Agora você me paga. –disse ele atirando-se contra mim.
Não fui rápida o suficiente. Ele me derrubou e eu bati a cabeça. O espantalho tentou me estrangular, o que não foi muito legal, mas eu consegui puxar o canivete do bolso e cravei-o nas costelas do cara.
O espantalho rugiu, mas apenas soltou um pouco as mãos. Eu conseguia respirar.
–O que eu te fiz? –perguntei.
–Você é uma grega! –ele falou.
Minhas mãos estavam vermelhas por causa do sangue do espantalho. E ele não afrouxava as mãos. Eu já estava ficando sem ar de novo. Quando de repente, eu senti umas gotas de água salgada em meu rosto e ele voou para o chão de mármore do refeitório.
–Tire as suas mãos sujas na minha namorada! –gritou Pedro.
Ele havia descido da torre e estava ali em toda a sua exuberância. Ele ajudou-me a levantar e abraçou-me.
–Obrigada. –eu sussurrei em seu ouvido.
O espantalho já estava de pé. Agora suas costas estavam manchadas de vermelho e sua testa tinha um talho por onde jorrava sangue também. Seus olhos vertiam raiva.
–Para o seu bem, fique ai. –disse Pedro apontando a espada para ele. Uma onde de água flutuava ao redor do espantalho.
–Você acha que é quem? –disse o garoto-espantalho.
–Eu sou Pedro, filho de Poseidon.
–Ótimo, mais um. –disse ele.
Eu já estava bem, e vi pelo canto do olho, dois romanos atrás de nós. Consegui avisar Pedro.
–Octavian, acabe com eles logo. –disse uma menina.
–Estou tentando. –disse Octavian.
Um estalo fez meus ouvidos doerem e eu cai no chão. E pelo que pude perceber, todos caíram.
Acordei logo depois. Ainda era noite, mas os romanos haviam sumido. Apenas nós, os gregos, estávamos no acampamento.
–O que aconteceu? –perguntei para Pedro, que parecia igualmente confuso.
–Eu diminui a pressão do ar. Enquanto vocês dormiam por ai, tiramos os romanos do acampamento. –disse Caroline.
–Como? –perguntei.
–Sou uma elementalista do ar. Seguidora do caminho de Shu, deus do ar. Logo, recorri aos poderes dele e diminui a pressão, e com muito vento em cima dos romanos, levei-os para fora dos limites gregos. –ela explicou, e agora eu podia ver que ela estava muito cansada. Seus olhos pareciam pesar, ela estava inclinada e mas conseguia ficar em pé.
E eu pude perceber também, que apenas os magos estavam em pé. Nós fazíamos uma roda em volta dela.
–E enquanto aos outros? –perguntou Douglas. –eles não vão perceber que algo de errado aconteceu?
–Vão, mas eu acho que nós teremos que contar nossa identidade. –disse Michelle.
–E aonde estão os romanos? –perguntou Rafaela. Graças ao Senhor (sim, mesmo eu sendo filha de um deus, eu continuava sendo Cristã), ela estava bem, nenhum arranhão.
–Estão do outro lado do país. Quase esgotei minhas reservas vitais mandando-os para lá, e eu não acho que eles voltarão aqui tão cedo. –disse ela.
Caroline estalou os dedos e todos em volta começaram a se mexer.
–Desculpem mas eu preciso... –ela não terminou a frase e caiu no sono. Antes que ela caísse no chão, Douglas aparou-a.
Quíron vinha em direção ao nosso grupo. Eu não sabia o que ele pensaria, mas ele surpreendeu a todos.
–Eu vou ter que criar uma explicação muito boa para isso. Vocês, magos, terão que me ajudar. Aja o que houver, não podemos contar a verdade para os outros.
Eu fiquei surpresa, como Quíron sabia que nós erámos magos?
–O que fazemos agora? –perguntou Andrés.
–Todos nós tivemos uma noite pesada. Eu acho melhor dormir. –disse o centauro.
–O que aconteceu? –perguntou Andrew, ele havia desmaiado ao lado de Rafaela, na orla da floresta, e vinha cambaleando com a mão na cabeça.
–Eu ainda não sei. Creio que amanhã terei uma explicação. –Quíron me encarou. –porque você não convence os outros a irem para os chalés? Precisamos descansar.
Andrew parecia confuso, mas concordou.
Os campistas de Ares acordaram com muito mal humor. Outros perguntavam o que havia acontecido e onde estavam os inimigos, com razão. Eu apenas respondia que não sabia, e que as ordens de Quíron eram para irmos dormir. Eles aceitaram sem reclamar. Todos estavam muito cansados.
No outro dia, pude ver as dimensões da batalha. A Casa grande estava com as paredes manchadas, quebradas e com buracos. O gramado estava com crateras, alguns prédios onde as aulas de artes eram aplicadas, estavam estragados e alguns corpos estavam no chão.
Por sorte, tivemos poucos cadáveres. Perdemos apenas 3 campistas. Edward Soft, filho de Atena. Janne Ross, filha de Afrodite e Kurt Stone, filho de Hefesto.
As mortalhas foram queimadas ao meio-dia. O acampamento estava em silêncio, mas todos se perguntavam sobre a estranha noite.
Após o almoço, começamos os reparos. Eu, Roxie e meu meio-irmão Dylan fomos procurar na floresta, se ninguém havia ficado perdido por lá.
Nós caminhamos muito, passamos por várias pedras, clareiras, o riacho e entramos em um lugar mais denso da floresta.
–Foi aqui que aconteceu a batalha do labirinto. –disse Dylan. Meu meio-irmão era ruivo, tinha quase a minha altura, só era um pouco mais alto, era magro e deveria fazer academia, tinha um pouco de sardas e olhos verdes.
–Andrew me contou. –eu disse.
O lugar não passava de um amontoado de pedras quebradas no meio de uma clareira aberta à força, com troncos destruídos e alguns vestígios de batalha, como lanças quebradas e restos de armaduras.
–Hum, podemos sair daqui? Acho que ninguém viria pra cá durante uma batalha. –disse Roxie.
Dylan olhou para ela, eles estavam em cima da mesma pedra, e pude ver uma diferença de altura gritante. Roxie era menor que eu, ela com muito esforço chegava ao meu ombro. Dylan era 5 cm maior que eu.
–Tudo bem. –disse ele ajudando-a a descer da pedra.
Nós estávamos voltando para o acampamento quando Roxie tropeçou em uma raiz e torceu o pé. Ela estava muito distraída, isso não era normal dela. Dylan teve que carrega-la no colo. Andamos mais alguns metros.
–Acho que esqueci meu canivete lá atrás. –eu disse. –vou lá pegar rapidinho e já volto.
–Nós esperamos aqui. –disse ele posicionando Roxie no chão.
A verdade: eu não havia esquecido meu canivete lá, eu já havia percebido que Roxie estava afim dele, mas não admitia. Eu não sabia se ele gostava dela, mas com toda certeza, eu havia visto-a admirando ele de longe algumas vezes.
Voltei alguns passos, até onde eles não poderiam mais me ver e me escondi atrás de uma árvore.
–Você está bem? –disse ele com preocupação.
–Sim, só está doendo muito. –respondeu ela.
–Eu infelizmente não possuo o dom da cura como Luiza, eu sou o melhor arqueiro do acampamento, mas não sei nada de cura.
–Não se preocupe.
Eles estavam com os rostos muito perto, ele estava massageando o tornozelo dela, o que provavelmente não era uma boa ideia.
–Será que ela vai demorar? –perguntou Roxie.
–Tomara que demore bastante. –disse Dylan virando o rosto dela.
Dylan beijou Roxie. Eu não estava enlouquecendo, eu estava certa, afinal.
O beijou demorou alguns minutos para acabar. Roxie com certeza estava gostando, e ele também.
–Você não devia ter feito isso. –disse ela.
–Porque não? –perguntou ele com a respiração ofegante.
–Não sei. –ela respondeu beijando-o de novo.
Eu achei que a situação não podia ficar assim, puxei o canivete do bolso e fiz um encenação digna de Oscar.
–Finalmente encontrei vocês. –eu disse de uma posição em que eles me ouviriam.
Eles se afastaram e eu apareci.
–Achou? –perguntou ela.
–Sim. –eu disse exibindo um sorriso idiota no rosto. –estava no meu bolso o tempo todo. Eu tive que voltar lá só para constatar isso.
–Ótimo, agora podemos ir andando já. –disse Dylan levantando-se depressa.
–Quer que eu de um jeito no seu pé? –perguntei inocentemente.
–Não precisa. –disse Roxie. Eu sabia que ela queria que ele a carrega-se.
–Tudo bem então. Dylan, você pode ir na frente? Eu me perdi aqui antes, e você conhece o lugar melhor do que nós. –pedi.
–Claro. –ele pegou Roxie no colo com delicadeza.
Minutos depois nós saímos de volta no acampamento.
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