Dois Mundos
4 4-Tomamos um banho de areia.
Quando cheguei no terraço, eu vi uma piscina, uma área coberta e algumas mesas com guarda-sóis, mas o que mais chamou a atenção, foi um grande estabulo, no canto.
–Nossa, que bicho grande deve morar ai... –Não consegui terminar de falar.
–FREEEEAK
Eu cai sentada quando um leão com cabeça de falcão saiu de dentro do protegido, fiquei paralisada de medo, mas Pedro me salvou, ele apenas entrou na frente do monstro e acariciou sua cabeça.
–Que bicho é esse? –perguntou Douglas me puxando para trás dele.
–É o Freak, o grifo de estimação do Carter, ele é inofensivo. –respondeu Pedro.
–Carter é o faraó não é? O cara que está lá no Egito agora, mantendo minha mãe presa.
–Sim, mas ele é gente boa. Vamos, já está na hora. –Pedro saiu caminhando para o outro lado, nós o seguimos.
No outro canto, tinha um obelisco de 3 metros de altura, branco, Pedro parou na frente e começou a cantar alguma coisa em egípcio antigo, enquanto ele cantava, eu e Douglas conseguimos conversar um pouco.
–Você acha que ele está nos traindo? –perguntei.
–Não, Quíron confia nele, e sabe o que está acontecendo, eu só acho que precisamos entender melhor tudo isso.
–Sim, mas é muito confuso, como podemos ser gregos, egípcios e brasileiros ao mesmo tempo?
–Não sei... –disse Douglas balançando a cabeça. –só acho que devemos acreditar nele, a tia não está em perigo, isso já é muito bom, e nós ainda temos que descobrir sobre o que fala a profecia.
Claro, a profecia, já havia me esquecido completamente minha visita ao oráculo, mas alguma coisa começava a fazer sentido: entre magos , isso só poderia significar esse lugar, os magos da Casa da Vida.
–Tudo bem. –eu disse. –vamos confiar nele.
–Está pronto! –Disse Pedro
E nesse momento, um grande funil rodopiante de areia surgiu no ar, sugando tudo.
–Vamos! –gritou Pedro, e segurou minha mão.
Imagine ‘levar um caldo’ na praia, agora troque a água por areia, multiplique a sensação por 10 e você terá uma noção de como é viajar por um portal de areia.
Quando me dei conta, estava atirada em cima de um prédio, jogada em cima de Pedro, foi meio constrangedor me ver ali, em cima dele, mas ele pareceu não se importar, Douglas estava ao meu lado no chão, levantei rapidamente, atrás de mim, um outro obelisco, bem menor, ficava na ponta do edifício.
–Bem vindos á São Paulo, essa é a sede brasileira da Casa da Vida. –disse Pedro enquanto tirava a areia dos lindos cabelos loiros.
–Você vai nos explicar tudo isso de Egito depois, ouviu? –Disse eu para Pedro.
–Sim senhora, mas eu acho que temos problemas, vejam! –ele apontou para a rua.
Lá em baixo, entre os pedestres, um cara alto se projetava na multidão, usava uma bermuda vermelha, e uma camiseta amarela, e estava parado na porta do edifício.
–Um lestrigão. Corrigindo, muitos lestrigões. Estão por toda a parte, ai meus deuses. Isso não é nada bom. –falou Pedro. –vamos, precisamos descer e descobrir por que eles estão aqui.
Nós descemos por um elevador até o térreo, onde havia uma recepção comum, com um porteiro comum, que nos viu e logo nos chamou:
–Como vocês entraram aqui? –disse ele mal-humorado.
Nós não respondemos, simplesmente saímos porta à fora, para o meio da 25 de março. Onde uma multidão de pessoas entrava e saia de milhares de lojas, e lestrigões caminhavam entre eles, empurrando e derrubando lixeiras. Não sei como os mortais não enxergavam aqueles caras enormes e feios.
–O que fazemos agora? –perguntou Douglas.
–Nós temos de nos esconder, se algum deles sentir nosso cheiro, estamos fritos. –Respondeu Pedro, entrando na multidão.
Nós não tínhamos escolha a não ser segui-lo, o plano pareceu funcionar, nos esquivamos entre a população, entramos algumas lojas, saímos e continuamos andando. Até que algo deu errado, um gigante passou do nosso lado, e parou. Meu sangue gelou, Pedro agarrou minha mão e me puxou para uma rua lateral, Douglas conseguiu nos acompanhar, corremos e entramos em várias ruas diferentes, eu nunca tinha estado em São Paulo antes, então fiquei perdida rapidamente. Quando finalmente paramos, eu estava cansada e perdida, Pedro havia nos levado para uma parte menos movimentada, então tinha poucas pessoas por ali, era uma praça, com bancos, então sentei-me no mais próximo.
–Nós estamos longe deles, por enquanto, não vai demorar muito para nos acharem. Vamos sair daqui em pouco tempo. –Disse Pedro. Tomando fôlego.
–Como eles vão nos achar? –Perguntou Douglas.
–Pelo cheiro, um meio-sangue tem um cheiro muito forte para os monstros, então qualquer monstro que esteja em um raio de 1 km, vai nos achar aqui.
–O dia fica cada vez melhor... –resmunguei. –Nós precisamos de um plano. O que nós temos que fazer?
–Isso é o que você deveria nos dizer, já que a líder da missão é você. –respondeu Douglas, levantando a sobrancelha, eu conhecia muito bem aquela expressão, ele sabia o que eu tinha que fazer, mas não queria dizer, porque era a minha missão.
Eu pensei um pouco, lembrei de tudo o que havíamos falado no acampamento, sabia que tínhamos que chegar no Rio, e que aqueles lestrigões estavam por ali, chegando perto e eu não tinha ideia de como chegar no Rio de Janeiro. Nunca fui muito boa em raciocinar.
–Pedro –ele virou pra mim, tinha tirado a flanela, agora a regata mostrava seus braços definidos – aquela era a sede da Casa no Brasil, certo?
–Sim. –Respondeu ele, seus olhos azuis brilhavam no sol.
–É possível que os monstros soubessem de nossa chegada? –perguntei.
–Não, porque não falei o plano para ninguém.
–Mas se Kratos mandou eles para lá, para nos esperar, porque sabia sobre nós? –perguntei.
–Tudo é possível, mas como ele iria saber que nós iriamos para lá? Como ele saberia nossa tripla identidade?! –disse Pedro.
–Ele poderia não saber, e ter mandado os lestrigões para lá por causa de algum outro semideus, que deve estar ali por perto... –comentou Douglas.
–Faz sentido, mas vocês não acham muito estranho, tantos semideuses no Brasil? –perguntei contrariada.
–Não é estranho, só nós, são 3 brasileiros, porque não daria para ter mais alguns? –disse Douglas.
–Não sei, teremos de descobrir o que eles estão fazendo aqui. –respondi. –e precisamos também de um plano para chegar ao Rio. Pedro, você sabe uma maneira rápida de chegar lá?
–De avião, mas não é muito bom para um filho de Poseidon passear pelos domínios de Zeus, de carro demoraria umas horas, mas nós não temos um carro.
–Vamos de ônibus então. –disse Douglas.
–Nós temos dinheiro? –perguntou Pedro.
–Eu tenho alguma coisa. –respondi, enquanto procurava na mochila, e de fato, encontrei uma nota de vinte reais.
–Já é alguma coisa, mas duvido que vai pagar três passagens de ônibus. –comentou Pedro.
–Espera ai, nós estamos esquecendo de algo. –Douglas deu um pulo no banco e levantou rapidamente. –Pedro, você não é de São Paulo?
–Sou sim, porque?
–E a sua família? Porque não pedimos ajuda para sua mãe? Ou sei lá, você deve ter alguém aqui que pode nos ajudar. –Douglas parecia realmente interessado nessa ideia.
–Eu acho que minha mãe não poderia ajudar muito, nós brigamos antes de eu ir para o acampamento, porque ela queria que eu fosse para o Egito. –disse ele, um pouco triste.
–Hum, mas nenhuma chance de ela querer te ajudar? –perguntei esperançosa.
–Podemos tentar, pena que ela não está aqui, ela está no Primeiro Nomo. Mas tem alguém que pode ajudar.
–Ótimo, quem? –falamos eu e Douglas.
–Meu sogro. –Disse ele.
Isso foi como uma pedra caindo no meu estômago, porque eu não pensei que ele teria uma namorada?!
–Podemos ir até ele? –disse Douglas.
–Sim, eu acho que ele vai poder ajudar, ele é rico, tem motorista e tudo.
–Então vamos até ele. –falei pegando minha mochila.
Nós saímos da praça, e caminhamos, caminhamos até eu perceber que já passavam das 14h, e nós ainda não tínhamos almoçado. Paramos em uma padaria, com ar condicionado, com grandes janelas de vidro, de frente para um prédio comercial, com meus vinte reais, conseguimos comer alguns salgados e tomar um refrigerante.
–O que fazemos agora?-perguntou Douglas, enquanto comia seu pastel de carne.
–Esperamos, daqui a pouco ele chega. –respondeu Pedro, apontando com a cabeça o prédio em frente.
Depois de alguns minutos, um carro preto, brilhante, estacionou do outro lado da rua, um cara robusto, desceu e abriu a porta de trás para um homem grisalho, alto, deveria ter uns 50 anos, que desceu com uma pasta na mão. Pedro disse para esperarmos e saiu correndo da padaria.
Ele chegou no carro e chamou o homem, que se virou com uma expressão meio aturdida no rosto. Eles se cumprimentaram, falaram por alguns minutos e então Pedro se despediu do homem e voltou para a padaria.
–Ele deixou o motorista a nossa disposição, ele é um cara legal. –disse ele enquanto atravessávamos a rua.
Entramos no Mercedes e arrancamos. Comecei de volta com o plano. Tentando parecer calma.
–Nós vamos seguir aqueles caras, em algum momento eles terão de conversar com o chefe deles.
–Concordo-disse Douglas.
–Mas e se eles não forem falar com o chefe? –perguntou Pedro.
–Só tem um jeito de descobrir, vamos ter de segui-los de qualquer maneira. –respondeu-lhe Douglas.
Chegamos de volta á 25 de março, mas não havia nem sinal dos lestrigões, o motorista estacionou em uma esquina pouco movimentada e nós descemos, andamos por tudo, e não vimos nada, quando eu avistei um deles caminhando para um beco. Nós o seguimos, e nesse beco, todos os outros monstros estavam reunidos, em volta de um homem de capa preta, o próprio Kratos, supus. Conseguimos nos esgueirar até mais perto sem chamar a atenção, e ouvimos um pedaço da conversa.
–Vocês só tem até esta noite para captura-los, a menina de Apolo, o menino de Hefesto e o menino de Poseidon vão nos ajudar a chegar até a criança que precisamos, então mexam-se. –disse o homem.
Nessa hora, eu parei, não conseguia me mexer tentando raciocinar o que tinha acabado de ouvir. Ele queria nos capturar, e estava atrás de outra criança. Boa hora para gritar ‘corram!’, mas nem isso eu consegui fazer, apenas fiquei e ouvi mais.
–Aqueles garotos não tem ideia de com quem estão lidando! –bradou o homem, e todos os monstros se viraram para sair do beco.
Agora sim, eu gritei ‘corram’, e puxei os dois pelo cangote, nós corremos para a rua, e os monstros nos viram, claro, e vieram atrás de nós, de alguma maneira, chegamos até aquela praça, e os monstros nos seguiram, gritando coisas como ‘frutos do mar’, ‘churrasco’ e outras coisas assim.
Nós atravessamos a praça e assustamos alguns viciados, que fugiram quando ouviram os barulhos atrás deles.
–Nós lutamos? –perguntei.
–Não, eles são muitos, temos que fugir, agora para o Rio. –Pedro pegou o celular e chamou o motorista, que em pouquíssimo tempo nos alcançou na metade do caminho de volta.
–Para aonde senhor? –perguntou o motorista.
–Para o Rio de Janeiro, pisa fundo!-gritou Pedro.
E disparamos pelas ruas, não consigo me lembrar de muita coisa, só sei que dormi um tempo no banco de trás, deitada com a cabeça no ombro de Pedro.
Quando acordei, nós já estávamos chegando, foi uma viagem longa pelo jeito, pois já estava escuro, deveriam ser umas 20 horas já, então resolvi puxar conversa.
–Então, você tem uma namorada. –falei.
–Bem, sim, mais ou menos quero dizer. –sorriu Pedro. — A Rayane que gosta de mim, eu não gosto muito dela, e nós não somos namorados, apenas fiquei com ela algumas vezes, mas ela é muito exagerada, não faz um mês que nos conhecemos, ela se mudou para o meu condomínio e ela meio que pegou no meu pé, então falou pra família que estávamos namorando, eu não estou afim dela, e tenho medo de magoá-la. –terminou ele infeliz.
Uma pontinha de alegria surgiu dentro de mim.
–Então você não está namorando mas mesmo assim consegue esses favores com o pai dela... uau. –comentou Douglas.
–O pai não liga muito para a família, um homem muito ocupado, dono de uma empresa de exportações, a mãe é uma ‘perua’, então ela é carente, e o pai dela ficou feliz quando soube de mim, então me faz esses favores de vez em quando. –respondeu ele.
–Legal. E o que fazemos agora? –perguntei mudando de assunto.
–Vamos atrás do meio-sangue, aposto que ele esta hospedado no Copacabana Palace, pode nos levar até lá, Mario? –perguntou Pedro.
–Sim senhor. –respondeu o motorista.
–O pai de Rayane tem um quarto permanente lá, e emprestou para nós. –explicou Pedro.
A entrada no hotel foi fácil, mostramos apenas nossas identidades e o gerente confirmou nossa reserva, subimos até o quinto andar, acabou que ficamos no mesmo quarto, os três, sem problemas, já que tinham três camas. O quarto era maravilhoso, as camas king size, uma para cada um, de frente para o mar, com frigobar liberado e televisão á cabo.
Aproveitei e tomei um banho, claro, depois pedimos uma pizza, na conta do pai de Rayane, claro, e mais tarde, depois da novela, paramos para conversar, resolvemos o plano, no outro dia de manhã, iriamos para a praia, simplesmente não se pode passar no Rio de Janeiro sem tomar um banho de mar em Copacabana, depois do almoço, iriamos procurar o tal semideus, e tentar nos manter longe dos monstros.
Me arrumei para dormir, deitei e simplesmente apaguei, não vi nem ouvi mais nada, e então meu sonho começou.
Eu estava naquele formato de galinha voadora novamente, mas eu não estava no Egito, eu estava ali, no Rio, mais precisamente, no cristo redentor, cartão postal, e quem estava de pé, ao pés da estatua? Isso mesmo, nosso amigo Kratos! Ele olhava fixamente para a cidade, e tinha alguma coisa nas mãos, uma caixa pequena, de madeira. O vento empurrou seu capuz para trás, e pela primeira vez eu consegui enxergar seu rosto.
Pense na pessoa careca mais feia que você já viu, agora acrescente algumas cicatrizes inflamadas no rosto, cortes e manchas por toda a cara, ponha também algumas berrugas na careca e entorte a boca de modo que pareça atingido com água fervente, fure o olho esquerdo e deixe o sangue secar e coloque uma porção de cicatrizes em cima do direito. Se você conseguiu imaginar isso, você tem uma noção do que era Kratos, eu acho que todo esse tempo sendo torturado e sofrendo no Tártaro, o deformaram.
–Que pena, uma cidade tão linda. –disse ele com uma risada arrastada. –todos esses mortais inferiores vão morrer inocentemente por um erro do passado, é isso mesmo que você quer Atena? –gritou ele para as nuvens e uma mulher surgiu ao lado dele.
Ela vestia uma jaqueta, jeans e camiseta preta, seus olhos cinza tempestade brilhavam atrás dos óculos e seu cabelo loiro estava presos em um coque.
–Você não precisa fazer isto Kratos, sabe que não precisa. –disse ela, sua voz era calma e firme.
–Eu vou fazer, você pediu por isso, depois de todo esse tempo nas profundezas, tenho minha chance de me reerguer, dominar um povo, e não é você que vai me impedir. –respondeu ele trincando os dentes e apertando com mais força a caixa.
–Você passou esse tempo todo, tentando achar os espíritos, e agora você tem a chance de se livrar deles, me entregando a caixa, mas faz questão de acabar estragando essa bela cidade. –Disse Atena.
–Os espíritos estão aqui dentro, não completamente, mas a maior parte, se eu abrir essa caixa, o caos vai invadir o mundo novamente, e esses resquícios que estão por ai, vão ficar cada vez maiores, só piorando. –bradou ele.
–O que você quer para não fazer isso? –perguntou a deusa.
–Você sabe, eu quero sua filha, Annabeth, e seu filho que não foi reclamado ainda, Andrés, ele está aqui, amanhã já vai embora, de volta para a Espanha, e mais uma vez, os deuses não cumpriram com a sua promessa.
–Desculpe Kratos, mas não posso deixar você fazer isso. –e Atena fez um movimento rápido, uma coruja saiu do nada e pegou a caixa com as garras e voou para longe. A deusa se dissipou, deixando Kratos ali, na beira do precipício, gritando.
E então o sonho mudou, agora eu estava em um corredor, me aproximei de uma porta, número 655, o apartamento de cima, eu entrei, lá dentro, dois garotos dormiam, um que não deveria ter mais de 8 anos, e outro mais velho, deveria ter uns 15. O mais velho tinha cabelos escuros, uma cara cheia e seus óculos estavam na mesinha ao lado, de repente, Atena surgiu ao lado dele, acariciou seus cabelos e falou baixinho em seu ouvido, ‘chegou a hora meu filho.’ E sumiu, deixando uma brisa gélida no ar.
Quando acordei, eram 8 horas da manhã, Pedro já estava de pé, vestia uma bermuda verde, e seu boné, só, ele estava de pé na sacada do hotel, e quando me viu, seus olhos azuis estavam brilhando.
–Que bom que acordou, está um ótimo dia para a praia. –disse ele.
–Hum, que bom, mas eu preciso contar uma coisa. Já venho. –e sai correndo para o banheiro.
Quando voltei, encontrei ele no mesmo lugar, mas agora eu já estava arrumada, dentes escovados, bermuda, e por sorte e não sei como, eu tinha colocado um biquíni na mochila, um pouco constrangedor, já que eu não tinha o melhor corpo do mundo.
–O que você queria me contar? –perguntou ele, sorrindo ao me ver.
–E..eu tive um sonho, eu sei aonde está o semideus, mas nós temos que correr. –eu disse, me sentando ao lado dele na cama, e contei todo o sonho.
–Eu tive um sonho também, mas não foi como esse. –disse ele, e deu para perceber que estava um pouco preocupado, ele se endireitou na cama, mas não saiu do meu lado, o que eu gostei. –eu sonhei com meu irmão, assim, eles estavam em um lugar escuro, velho, cheio de teias de aranhas, tinha um navio voando, o Argo II, Leo, Jason e um outro cara tentavam desesperadamente salvar uma estatua estupida, eu sei quem são eles, são os meio-sangues da profecia, eles passaram um tempo no acampamento, mas então algo deu errado, não sei como, mas Annabeth. –aquele nome veio como um tiro, eu tinha esquecido de mencionar ela para Pedro, quando estava contando meu sonho. –caiu no precipício, seu pé estava enrolado em uma teia, ela foi puxada, eu vi Perçy correr para salva-la, mas acabou caindo também, eles ficaram pendurados, mas o peso era muito, Perçy gritou para Nico, o filho de Hades, para que ele leva-se os outros até as Portas da Morte, na Grécia, porque eles iriam chegar do outro lado, e então ele soltou a mão, e os dois caíram no Tártaro, eu tentei ajudar, mas não pude fazer nada. –ele parecia muito triste, quase chorando.
–Escute, seu irmão é um dos maiores semideuses do mundo, nem eu nem você conhecemos ele, mas sabemos sua história, ele vai se sair bem, mas nós temos nossa missão. –eu disse a ele.
–Eu sei, mas o que estamos esperando aqui? Vamos atrás desse cara, se ele está aqui em cima, e vai embora hoje, nós temos que ir atrás dele. –falou ele depressa, se levantando e pegando suas coisas.
Eu entendi o que era pra fazer, não havia percebido como o tempo havia passado, acordei Douglas, tomei um copo de suco, peguei minhas coisas rapidamente e sai porta a fora com um pão entre os dentes, fiquei de encontrar com eles no saguão.
Corri para o elevador, quando a porta se abriu, o garoto estava lá dentro, com seu irmão mais novo e aqueles que deviam ser seu pai e sua madrasta. Eu entrei tentando me recuperar do choque e tentando pensar rápido, e uma ideia me veio na mente, eu tinha que fazer aquele cara ficar dentro do elevador, então me escorei ao lado do painel, e quando o elevador parou, eu cai em cima dos botões, a família toda tinha saído, menos ele, as portas se fecharam e nós voltamos para cima.
–O que está fazendo? –gritou ele em espanhol, agora eu percebia como ele era, tinha olhos pretos quase cinza, uma pele clara, gordo e alto, usava uma bermuda de praia azul-bebê e uma camiseta branca regata.
–Desculpe cara, você tem que vir comigo, para o seu próprio bem. –eu falei apertando o botão do quinto andar.
–O que? Eu nem te conhe... –ele parou de falar quando viu meu rosto. –você, é a menina dos meus sonhos.
Ótimo, agora aquele cara gordo, feio e sem noção nenhuma de moda estava tendo sonhos comigo.
–Que sonhos? –perguntei.
–Você, eu ouvi sua voz, você conversava com alguém, sobre alguma coisa, meio-sangue, acho, um plano, não entendia muito bem.
–Seu nome é Andrés, não é? –perguntei torcendo para o elevador ir mais rápido.
–Sim, como você sabe?
–Sua mãe me disse. –falei e ele parecia que ia ficar mais branco do que já era.
–Como assim minha mãe? Nem eu conheço ela, ela morreu no meu parto. –ele parecia confuso.
–Amigão, desde quando Atena faz partos?! –falei, e isso foi o suficiente, porque o elevador abriu e Pedro e Douglas entraram conosco, em poucas palavras, resumi tudo á eles. Com Andrés ali.
–Então é esse o cara. –Disse Douglas olhando-o de cima até em baixo. –não parece grande coisa.
–Quantos anos você tem? –perguntou Pedro. -15?16?
–15, porque? –o cara parecia ofendido agora.
–Nós temos de leva-lo ao acampamento, rápido. –Disse Pedro. Ignorando o cara.
Quando o elevador chegasse ao térreo, os pais de Andrés estariam esperando ele ali, na saída do elevador, mas nós tínhamos de tira-lo da li, então como um impulso, eu gritei para os três fecharem os olhos, e estiquei minha mão para frente quando o elevador se abriu, e num piscar de olhos, uma luz muito clara explodiu da minha mão, penetrando por todo o saguão, e todos os ali presentes caíram inconscientes.
Pela primeira vez, eu tinha usado um poder que eu não sabia que tinha, e agi por impulso, mas consegui alguns segundos, porque arrastei eles para fora do hotel, atravessei a rua e chegamos na praia, eu não sabia aonde ir, mas algo me chamou a atenção, dois caras altos e feios vinham correndo em nossa direção, dois lestrigões.
–Nós precisamos salvar esses mortais, eles não podem ser feridos. –Disse Douglas sacando alguma coisa.
–Concordo. –e puxei o meu chaveiro-arco do bolso. Eu coloquei minha mão sobre a cabeça de Andrés que não parecia muito bem, não entendia nada, e ele caiu na areia.
–O que você fez com ele? –perguntou-me Pedro, eu não havia reparado, mas ele estava com uma camiseta solta, branca com alguma coisa escrita, e sua espada nas mãos.
–Não sei, mas ele vai ficar bem, só deixei ele em coma, Apolo não é o deus das doenças? Eu consigo salvar ele, mas primeiro vamos derrotar esses caras. –eu gritei e meu arco havia crescido em minhas mãos, os dois pareciam não acreditar.
Eu mirei a primeira flecha na cabeça do primeiro monstro, mas ele estava chegando cada vez mais perto, e atirei, antes que ele atropela-se duas moças. O monstro se desmanchou em areia e evaporou, mas o segundo monstro ainda estava vindo, muito perto para uma flecha, então Douglas entrou na luta, ele segurava uma espada de Bronze celestial modificada, era quase do mesmo tamanho da de Pedro, sua guarda era meio curva, a lamina dupla reluzia e quando ele atacou o monstro, a espada pegou fogo, incendiando o gigante. Pedro resolver entrar na luta também, ele atacou onde ainda não estava com fogo e começou a sangrar areia do pé do monstro.
Douglas avançou, e enfiou a espada na barriga do cara, e o fogo aumentando, até que ele explodiu também, como seu irmão.
–Nossa, aquilo foi de mais! –consegui dizer. –Essa espada é demais! Desde quando você tem ela? –eu estava atônita, não conseguia acreditar no que havia visto.
–Obrigada, eu forjei ela, sabe, nas forjas do acampamento, logo depois que chegamos, resolvi não falar antes, para fazer surpresa. –respondeu Douglas, ele estava envergonhado.
–Ahn gente, nós temos um problema. Aquele cara não é o próprio Kratos? –disse Pedro apontando para o calçadão.
Pareceu que ninguém na praia percebeu que ouve uma luta ali, mas de fato, no calçadão, a uns 10 metros, o próprio Kratos estava vindo em nossa direção, ele vestia apenas uma tanga, como no jogo, mas o corpo dele era ainda pior do que a cara, os braços estavam em carne viva, o peito estava cheio de bolhas e feridas, com muito sangue seco, a barriga estava cheia de cicatrizes profundas, algumas ainda abertas, a pele estava de uma cor avermelhada que não era normal, como se ele tivesse saído do forno.
–Nós fugimos agora? –perguntou Douglas.
–Sim! –gritamos Pedro e eu ao mesmo tempo em que uma das suas espadas, iguais as do jogo, atingiam o chão onde estávamos, abrindo um buraco na areia.
–Vão, eu levo ele! –bradou Pedro, puxando de dentro do ar, uma varinha curta, torta e entalhada de hieróglifos, ele falou alguma coisa, uma imagem brilhou sobre Andrés, que ainda estava caído de cara na areia, e ele começou a flutuar.
Não tive tempo para assimilar muito aquilo, porque nós já estávamos correndo, na direção da rua, mas eu ouvi Pedro gritando em algum lugar atrás de mim:
–Não! Para o mar, corra para o mar.
Então corri, entrando mar a dentro, ouvi um grito ‘N´dah’, uma luz verde-mar brilhou sobre mim e Douglas, e quando olhei para trás, vi Pedro sendo atingido por uma das espadas, ele caiu para a frente, sangue escorria de sua camiseta e ele começou a afundar, em pé, na beirada, Kratos sorria, uma visão horrível, seus dentes eram tortos e podres, sangue brotava de suas gengivas, ele segurou Andrés pela camiseta, levantando-o facilmente, e carregando-o para a praia.
–Nós temos de ir atrás dele! –gritei.
–Não podemos Lú, Pedro precisa da sua ajuda. –Douglas segurou meu braço enquanto eu tentava correr.
Era verdade, se alguém poderia salvar o filho de Poseidon, esse alguém era eu, filha de Apolo, o deus da medicina.
Nós puxamos ele para a beira, Kratos havia desaparecido com Andrés, e quando nós chegamos na areia, algumas pessoas pararam em volta de nós para ver o ferido.
–O que aconteceu com ele? –perguntou um senhor de meia idade.
–Acho que se afogou. –respondeu um garoto.
–Temos de leva-lo ao hospital. –disse uma mulher. –venham, eu tenho carro.
Era incrível que eles viram Pedro ser atingido mas não haviam feito nada. Eu estava muito abalada para falar qualquer coisa, mas sabia o que tinha que fazer. Coloquei a mão na testa dele, ele estava frio, a cor se esvaia de seu rosto, seus lábios estavam de um vermelho fraco.
–Douglas, tire esse pessoal daqui. Por favor. –consegui dizer, as lagrimas escorriam por meu rosto. O sol das 10 horas me deixava mais forte.
Imediatamente, Douglas começou a dispersar os poucos que estavam ali, dizendo que ele ficaria bem, só estava fingindo, por sorte ninguém discutiu.
Eu inclinei minha cabeça sobre a dele, consegui virar seu corpo, e enxerguei a ferida, um grande rasgo nas costas, escorria muito sangue e muita areia já tinha se alojado ali. Passei a mão pela ferida, me concentrei, pedindo a Deus que ele se cura-se, pedi ajuda a meu pai também, senti um formigamento na mão e percebi que a ferida estava se fechando, me lembrei do frasco de néctar na mochila, rapidamente abri-o e pinguei algumas gotas na sua boca, a ferida estava completamente fechada, mas não estava com a aparência muito boa, lembrei do mar, Douglas me ajudou a arrasta-lo de volta para os domínios de seu pai. Quando ele encostou na água, uma fina camada do líquido invadiu sua pele, tirando as impurezas e limpando a ferida, sua cor voltou ao que era aos poucos, logo já estava normal. Eu o soltei na água e ele abriu os olhos, se levantando e sacudindo a areia, suas roupas estavam perfeitamente secas.
–Nossa! Ele estava muito perto da morte. –disse uma voz atrás de mim.
Fale com o autor