Dois Mundos

11 11-O ataque amistoso ao colégio.


-Eu disse que algo estava errado! –gritei para Pedro enquanto corríamos de volta para o prédio de aulas.

Pedro havia invocado seu cajado do Duat e segurava a espada de Bronze na mão direita. Douglas estava com o cajado preso às costas, na mão esquerda estava varinha e na direita, a espada flamejante. Rafaela segurava o cajado com uma mão e a varinha na outra. Adoro essa habilidade deles em invocar as coisas do Duat.

Eu já estava com meu arco pronto.

Nós subimos a rampa que dava acesso à porta principal do edifício. Não tinha ninguém lá, mas havia muita poeira e escombros para todo o lado.

-Nós precisamos proteger os mortais. –falei mirando o arco em uma sombra na parede.

Rafaela correu para fora em direção ao ginásio.

Douglas subiu a escada mais próxima, ele jogou um shabti no ar, que cresceu até virar um pequeno gato, que saiu farejando o corredor.

-Não tem nada aqui. –disse ele vendo que o gato voltava.

-Muito estranho. –falou Pedro e eu concordei com a cabeça.

Outra explosão, agora do lado de fora do prédio. Seguido por um grito agudo.

-Rafa! –eu gritei. Mas quando sai, já era tarde de mais.

Minha amiga estava caída na frente do ginásio, com a testa sangrando, provavelmente desacordada.

Mas não era isso que me preocupava. Atrás dela, o vulto que eu virá antes, lutava com um homem alto.

Roxie lançava feitiços coloridos no homem, eu não podia ver quem era de longe. Mas o cara era forte, usava um colete à prova de balas e corte militar.

Quando cheguei mais perto, vi quem era, o cara era o nosso professor de Física, professor Carlos Souza. Nunca tinha gostado dele.

Mirei uma flecha nele e soltei. A flecha atingiu-o no peito, tirando-o de seu circulo de proteção. Corri até Rafaela, que ainda estava desacordada, mas respirava bem. Passei a mão sobre sua testa e ela melhorou rapidamente.

-Roxie, o que você está fazendo aqui? –Douglas gritou de algum ponto atrás de mim.

-Salvando a vida de vocês, foguinho. –ela disse. –É bom vê-los de novo. Como vai peixinho? Gostando daqui? –ela debochou.

Pedro apenas deu uma risadinha leve. Eu tinha quase certeza que ele não gostava muito dela.

-O que está acontecendo? Porque ele nos atacou? –perguntou Douglas.

-Ele era um mago disfarçado. –ela disse.

-Sério?! Eu não tinha chegado a essa conclusão sozinha. –respondi sarcasticamente.

-Eu não sei o que ele está fazendo aqui, mas isso significa problemas. –respondeu ela.

Rafaela começou a se mexer, mas antes que pudesse sentar-se, o professor atirou uma bola de fogo em nossa direção.

Douglas foi mais rápido do que eu imaginaria. Ele puxou o cajado das costas apontou para a bola de fogo. O cajado simplesmente absorveu as chamas.

-Estamos em um impasse com fogo. –disse ele sorrindo maliciosamente.

Nosso professor de física levantou-se e limpou a poeira da camiseta. Ele nos olhou de cima até em baixo e disse:

-Fujam crianças. Essa guerra não é para vocês.

-Que guerra? –Pedro perguntou.

-A guerra entre os magos e os bruxos. Eu tentei alerta-los. Tentei elimina-los durante o semestre. Mas vocês não entenderam. –ele respondeu.

Minha mente começou a funcionar. Os magos éramos nós, claro, da Casa da Vida. Os bruxos eu já não sabia. Bruna me disse certa vez, que quem estudava em Hogwarts não era considerado um mago, e sim um bruxo. Eu não compreendi, mas uma ideia começou a se formar.

-Você tentou nos alertar? Como? –perguntou Rafaela, que já estava bem.

-Porque vocês acharam que eu sempre colocava aquele menino nojento, o Lucas, perto de vocês? Era pra vocês perceberem que ele era um bruxo disfarçado. –disse o professor.

-O Lucas, um bruxo? Desde quando? –perguntei. –quero dizer, ele é nojento, idiota e estúpido. Mas não acho que ele tenha capacidade para isso.

-Vocês não repararam, não é? –o professor revirou os olhos.

-Reparar no que? –perguntou Douglas.

Eu já estava processando a ideia. Lucas era um colega meu, desde a quarta série. Um menino alto e gordo, que parecia nunca tomar banho, com cabelos louros escuros e ensebados. Ele sempre puxava saco dos professores para conseguir benefícios, e sempre me irritava com piadas sem graça. Ele chegava no colégio incrivelmente cedo, apesar de morar longe. Uma vez, enquanto eu voltava para casa, depois passar a tarde toda no colégio fazendo um trabalho para a professora de história, eu tinha visto ele em um beco. O que só comprovava minhas dúvidas de que ele era drogado. Mas ele não fazia nada de mais, apenas lançava feixes de luz dentro de uma caixa de papelão... Feixes de luz?! Quando dei meia-volta, para confirmar o que tinha visto, ele não estava mais lá.

-Os sinais sempre estiveram ali. De baixo do nosso nariz. –eu disse por fim.

-Isso mesmo. –disse o professor.

-Mas porque nós não podemos lutar na guerra? –perguntou Pedro.

-Porque isso é uma guerra entre apenas dois mundos. Não três. –falou Rafaela.

-Francamente lambari de esgoto, você não pensa? Uma guerra com magos e semideuses de um lado e bruxos de outro, abalaria as fundações do Maat profundamente. –disse Roxie lançando um olhar irritado para Pedro.

Fazia sentido. Se entrássemos na luta, os semideuses iriam nos acompanhar, causando mortes de mais, e muito mais problemas. Uma guerra entre magos e bruxos poderia ser controlada, obviamente, já que os dois lutam com magia. Mas misturar duas mitologias distintas para lutar contra algo que não era bem mitológico, isso poderia causar destruição em massa.

-Você sugere o que? –perguntei.

-Retirem-se. Quando a guerra começar, protejam os mortais e os semideuses. Mas NÂO entrem na luta. Eu queria mata-los, mas é difícil chegar perto de vocês. Assim teríamos menos problemas. –respondeu meu professor guardando a varinha.

-Porque você atacou a escola hoje? –Perguntou Rafaela levantando-se.

-Para vocês serem presos. A policia viria e vocês estariam na cena do crime. Tentariam explicar, mas mesmo assim, iriam para uma casa de detenção. –ele respondeu. –por favor, eu preciso ir.

-Só mais uma pergunta. –eu olhei para meus amigos, eles pareciam entender que o perigo já havia passado. –para quem você trabalha?

O mago riu com desdém e abriu o mesmo sorriso de quando dizia ‘a prova está fácil pessoal. Estudem apenas pelos exercícios. ’ Mas na verdade, a prova tinha dez páginas, sem formulário e com perguntas tão difíceis que até Einstein quebraria a cabeça.

-Eu sou independente. Ninguém manda em mim, lutarei pelos magos, mas eu tenho o dom da profecia, nenhum mago sabe que eu estava aqui. Agi por conta própria. –ele falou. –mas agora eu preciso ir. Adeus.

O mago se desfez em fumaça, deixando para trás um circulo de proteção de energia amarela.

-Será que algum dos mortais ouviu a nossa conversa amigável? –perguntei olhando para o ginásio.

-Não. –Roxie apontou para o portão de ferro na nossa frente.

Um hieróglifo brilhava fraco agora. O símbolo para silêncio. Era melhor do que ter que explicar tudo aquilo.

Depois de reparar a escola, nós seguimos para a minha casa. Eu sabia que minha mãe iria saber o que fazer com as novidades. Eu achei que ligar avisando pra ela, que Rafaela, Pedro e Roxie iriam para o almoço, iria incomoda-la, então nós chegamos de surpresa. Mas surpresa mesmo foi eu quem levou.

Quando eu entrei na sala, tudo estava arrumado, mas o rádio estava desligado. Isso era estranho, o rádio sempre ficava ligado em uma estação que só passava músicas do estilo ‘chitãozinho e xororó’, e eu não gostava. Sempre pedia para ela trocar de estação ao menos. Mas dessa vez, eu só ouvia risadas vindas da cozinha.

Aproximei-me devagar, sem fazer muito barulho. Scooby, nosso cachorrinho que havíamos achado na rua há dois meses, dormia tranquilamente na cadeira de balanço. Ele balançou a cauda quando me viu. Mas não fiz nada.

Quando cheguei na cozinha, meu coração quase parou. Minha mãe conversava com Amós Kane, o Sacerdote-leitor Chefe. Minha mãe estava sentada em uma cadeira, vestindo uma blusa regata (ela não sentia muito frio) sob um casaco vermelho de lã, e uma calça de moletom preta que combinava com as pantufas cor-de-rosa. Seus cabelos estavam presos em um rabo-de-cabelo.

Mas Amós estava elegante. Ele usava um terno azul escuro sob medida, que combinava com o chapéu, que estava sob a caixa da lenha (nós tínhamos um fogão à lenha em casa, porque no inverno, minha casa é MUITO fria), seus cabelos estavam decorados com safiras e a pele de leopardo, símbolo do Sacerdote-leitor Chefe, estava sob seus ombros.

Os dois riam e conversavam felizes. Nem notaram nossa presença.

-Nossa, fazia tempo que eu não me divertia tanto. –disse ele quase sem fôlego.

-É verdade. –concordou minha mãe.

Eu pigarreei.

-Desculpe atrapalhar. –eu disse.

Minha mãe levantou correndo, visivelmente transtornada, quase derrubou o chimarrão que estava tomando. Amós levantou-se pegando o chapéu e colocando rapidamente na cabeça.

-Filha, você chegou cedo hoje, e... trouxe visitas. Porque não avisou? –ela me perguntou dando-me um beijo na bochecha.

-Eu quis fazer uma surpresa, e você também, pelo que parece. Como vai Amós, tudo bem? –eu perguntei estendo minha mão para ele.

Amós apertou-a, mas ele estava constrangido.

-Bem, bem. Depois conversamos mais. Suponho que eu preciso ir agora. –ele disse consultando o relógio de pulso.

-Eu acho que você pode esperar mais um pouco. Temos informações importantes para você. –disse Douglas trancando a porta.

Amós franziu o cenho.

Nós nos sentamo-nos à mesa da sala. Uma grande pedra de mármore com capacidade para seis pessoas. E contamos o incidente no colégio.

Depois de terminada a história, Amós puxou um shabti do bolso. Colocou-o sobre a mesa e falou alguma coisa. O boneco de cera sumiu no ar.

-Isso é muito sério. –disse ele.

-Nós sabemos. –falou Roxie.

-Esse mago de quem me falaram. Qual era o nome dele? –ele perguntou de novo.

-Carlos Souza. –respondemos nós cinco ao mesmo tempo. O que foi um pouco estranho.

-Nunca ouvi falar de algum mago com esse nome. –ele disse.

-Você acha que ele usava um nome falso? –perguntou minha mãe em pé na porta da cozinha.

-É possível. Mas eu preciso levantar mais informações. –ele disse.

-Uma guerra entre dois mundos. –repetiu Douglas meio distante.

-Mãe. –eu chamei. –a Bruna não deu notícias ainda né?

Ela sacudiu a cabeça, parecia prestes a chorar. Mas era verdade. Desde que voltamos, minha irmã não tinha aparecido em casa mais que duas vezes.

Suas aulas na faculdade de química já tinham voltado, mas ela não deu sinal de vida. E isso era estranho, mas também era prova de que algo estava muito errado.

-Eu preciso ir. –Amós levantou-se, deu um beijo rápido em minha mãe, e estava saindo pela porta já. –adeus crianças, darei noticias.

-Hey Amós. –gritei.

Ele voltou dois passos.

-O que?

-Mande um abraço para Sadie e Carter por favor. –eu disse e percebi que ele estava meio nervoso. Mas relaxou quando falei isso.

-Claro, eu digo que você mandou lembranças. –ele deu um sorriso fraco e desceu as escadas da frente.

Minha mãe levou-o até o portão, e quando ela voltou, eu já esperava por ela. Mas decidi que não era hora de assuntos pessoais, até porque, se eu falasse qualquer coisa sobre o caso deles, eu tinha certeza que ela levantaria a questão ‘Pedro’, que sempre me deixava envergonhada.

Nós nos arrumamos na sala. Eu joguei-me no sofá. Pedro sentou-se ao meu lado. Com certeza, ele já havia se acostumado com meu jeito. Douglas estava sentado na poltrona da esquerda, Roxie na da direita e Rafaela sentou-se na cadeira de balanço. Nós esperávamos minha mãe, para ter uma conversa gentil com ela.

Ela sentiu-se acuada quando entrou na sala. Deu um beijo rápido em cada uma das visitas, perguntou como estava o Rio para Roxie e já ia se mandando para a cozinha quando eu chamei-a de volta.

-Você, mais do que ninguém sabe o que está acontecendo, não é? –perguntei forçando-a a dizer.

-Talvez. –ela disse.

-Tia, você é a única pessoa em todo o mundo que vive em quatro mundos diferentes. –disse Douglas.

-Você vive no mundo mortal, como sócia na empresa de investimentos. –eu falei.

-É seguidora de Tot, na Casa da Vida, uma maga no mundo egípcio. –falou Roxie contando o 2 nos dedos.

-Filha de Atena, uma semideusa particularmente poderosa no mundo grego. –completou Pedro.

-Mas você também estudou em Hogwarts quando era jovem, não é? –eu perguntei lançando a bomba final.

Ela me olhou com dor nos olhos. Eu havia descoberto isso quando estava procurando fotos antigas da minha família para um trabalho de filosofia. E quando encontrei uma caixa vermelha escrita ‘NÂO MEXER’ em cima do roupeiro dela, a curiosidade me venceu e eu abri.

Dentro da caixa, uma coleção de coisas pegava poeira. Fotos que magicamente se mexiam, uma gravata azul e prateada com um símbolo de uma escola, uma varinha reta como aquela de Bruna, cartas, jornais antigos, bótons e um uniforme preto, com o mesmo símbolo. Tudo levava para um lugar, Hogwarts.

Fiquei paralisada ao ver aquilo tudo. Mas decidi não comentar nada, até aquele momento.

-Sim, eu estudei em Hogwarts. Poderia ter me tornado uma grande bruxa naquela época, mas não era isso que eu queria. Voltei para cá e me formei em economia, depois em administração. Antes de eu viajar para lá, eu já havia estudado no Egito, no Primeiro Nomo. Iskandar me avisará para não ir, mas eu fui. E não me arrependo. –minha mãe começou a chorar. Eu pensei em abraça-la, mas não conseguia me mover. –eu já era uma maga forte lá. Fazia vários feitiços no primeiro ano, que muitos só conseguiram fazer no terceiro. Durante meu sexto ano, eu tinha 17 anos recém-feitos. Encontrei seu pai. Ele era lindo, um deus grego literalmente. –ela disse e começou a rir do próprio trocadilho, mas ninguém mais riu, todos ali ouviam a história com atenção. -eu estava passeando em Londres, mais precisamente, na frente do Palácio de Buckingham em uma tarde quente e ensolarada. Era um fim de semana livre, e consegui chegar até ali usando um portal egípcio. Quando Apolo começou a conversar comigo. –ela começou a rir.

-Hey mãe. Nós gostaríamos que você terminasse a história agora. –eu falei encorajando-a. Mas ela ainda chorava.

Ela abriu um sorriso leve e respirou fundo.

-Nós conversamos. Ele me contou sobre a história grega, que até hoje existia, me convenceu de quem ele era. Eu acreditei é claro, depois de ele me levar para um passeio no carro solar. Ele me disse que eu era uma filha de Atena, e disse que eu deveria ir ao acampamento, mas eu não fui, nunca fui incomodada por monstros. –ela riu da própria sorte. –ele disse que entre as mortais, eu era uma de suas preferidas, que tinha um futuro interessante pela frente. Depois disso, ele sempre me procurou, nos tornamos grande amigos após minha formação em Hogwarts e em uma escola inglesa. Eu consegui uma bolsa de estudos fora. –ele contou. –quando eu tinha 24 anos e estava terminando a faculdade de economia, Apolo disse que teria que me deixar por um tempo. Mas que seria rápido. Depois de alguns meses, ele voltou, sempre voltava. ‘Problemas no Olimpo’ ele disse. Nós namoramos por um tempo, 6 anos, ele sempre revezava, é claro, ele era um deus, mas sempre voltava para mim e Zeus disse que ele estava virando mortal. Ele deveria tomar seu lugar no Olimpo e me abandonar ou seria banido. Eu mandei ele de volta ao seu trono, onde era seu lugar. Ele nunca quis me deixar. Mas então, meses depois, você nasceu. –ela disse olhando carinhosamente para mim.

Minha cabeça estava confusa com tanta informação.

-E quem é o pai da Bruna? –eu perguntei.

-É um bruxo, um ex-colega de Hogwarts, ele agora dá aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas lá. –ela respondeu como se aquilo fosse algo desprezível.

Mas algo não se encaixava. As pessoas se formavam em Hogwarts com 18 anos no máximo, mas Bruna tinha 19 e estava no ultimo ano. Quando perguntei sobre isso, minha mãe disse que Bruna havia entrado atrasada na escola, por falta de dinheiro.

-Seu pai queria ter lhe visto quando você era bebê. –ela disse. –mas não podia vir. E quando você fez quatro anos, Douglas provocou um incêndio acidental na casa onde moravam. Minha irmã, Jéssica, que também era maga e bruxa, ela não era filha de Atena, erámos irmãs apenas por parte de pai, morreu, e Douglas veio morar com a gente. –ela disse com tristeza. Meu primo parecia prestes a chorar também, ele olhou para o chão e não disse nada.

-Quando Apolo pode, ele veio falar comigo uma vez apenas depois de seu nascimento. Vocês tinham 5 anos, não se lembra? Aqui mesmo, nessa sala. –ela falou, e eu lembrava-me muito pouco, apenas imagens confusas. –Ele disse que algo grande estava em nosso futuro. Algo que juntava os meus três mundos mágicos, e que tinha a ver com vocês.