Dois Mundos
1 1-Descobrimos nossa identidade divina...
Notas iniciais
Anos atrás...
Era verão, inicio de janeiro, minha família que parecia normal, estava veraneando em Imbé, uma praia no litoral gaúcho. Nossa casa era boa, 3 quartos grandes, 2 banheiros, 2 andares, 2 quadras do mar. Minha mãe, Julia, que era mediana, gordinha, bonita e tinha profundos olhos castanhos, que combinavam com o cabelo comprido e castanho, preparava nosso almoço, peixe assado com batatas. Eu assistia televisão com meu primo, Douglas, que tinha olhos castanhos como os meus, cabelo curto e bagunçado, da cor de chocolate, era magro e alto, tinha 14 anos e as meninas o achavam bonito e fofo.
Nós estávamos na sala, quando uma reportagem do jornal me chamou a atenção, 2 homens haviam se ferido em uma perseguição, não muito longe de onde estávamos. Eles estavam fugindo de outros 3 homens, que estavam no seu encalce. Os 2 homens se esconderam em um beco, mas um dos outros atirou com uma pistola nas costas de um deles, a bala pegou de raspão, mas ele caiu em cima de seu amigo, que quebrou o braço. Os moradores chamaram a policia, mas os 3 fugiram, e os 2 foram para o hospital mais próximo.
A reportagem disse que os dois estavam fugindo de três assaltantes. A moça da TV disse que um dos feridos se chamava Rodrigo Mattos e o outro se chamava João Bruno Silveira, ao ouvir esse nome, minha mãe deixou cair a panela de arroz ( um ato estranho para ela, que sempre era muito cuidadosa) espalhando arroz pelo chão, eu me virei no sofá e vi minha mãe muito nervosa, limpando a sujeira, mas como era de se esperar depois da minha pergunta de ‘o que aconteceu?’, ela disse apenas que estava tudo bem, típico... Ela continuou fazendo o almoço.
Quando já estávamos almoçando, minha querida irmã, Bruna, de 19 anos, que era muito diferente de mim, chegou da praia, esvoaçando seus cabelos loiros e dizendo algo sobre a água estar maravilhosa. Mas ela nunca entra no mar, então não vejo porque ela vai pra praia. Eu não prestei atenção nela, estava preocupada com nossa mãe, ela não parava de olhar para fora, pela janela, pela porta. Parecia estar esperando algo, mas logo depois do almoço, ela arrumou tudo e nos disse para irmos pra praia. Claro que eu já estava pronta, esperando na porta, mas só fomos eu, minha irmã e o Douglas, achei muito estranho, minha mãe nunca perdia a praia, ela disse que iria resolver uns problemas na cidade...
– O que você acha que aconteceu? –Perguntou-me Douglas enquanto descíamos a rua em direção à praia.
–Não tenho ideia, mas não é normal, ela nunca perde a praia e não fica nervosa assim, por nada... –respondi mirando o chão.
Quando já estávamos na beira, eu entrei no mar. Simplesmente não consigo ficar na areia sem fazer nada. Bruna ficou tomando banho de sol, e Douglas veio comigo.
O dia estava perfeito, sol brilhando, o mar estava lindo, o que é raro aqui no RS, mas algo estava realmente estranho. Tinha muita gente na praia. No horário entre 13h e 14h da tarde, normalmente esta todo mundo em casa...
–Você acha que ela esta assim por causa dos nomes da tv?- perguntei
–Acho que sim, você viu com ela ficou depois da noticia, aqueles caras tem algo a ver com a tia, deu para perceber isso... – ele me disse pensativo
–Mas eu nunca ouvi falar deles, nunca, tenho certeza...
–Eu sei, eu também nunca ouvi aqueles nomes, e eu vivo com vocês desde que nasci...
Depois de um tempo, quando estávamos voltando pra casa, não estava escuro ainda, mas as luzes da rua já estavam acesas. Isso é normal, a iluminação da rua é muito estranha e louca. Chegamos em casa, tudo apagado, muito suspeito. A casa estava com um cheiro esquisito, parecia que o perfume de minha mãe estava espalhado pela casa, um cheiro adocicado, que lembrava jasmim. A casa em si, estava normal, apenas muito silenciosa.
Bruna foi tomar banho, e pareceu nem se importar com o sumiço de nossa mãe, apenas disse algo do tipo: ‘ela deve estar passeando’ e subiu. Enquanto Douglas fazia um lanche na cozinha, eu liguei a televisão. O jornal da tarde estava passando uma noticia, mas não dei bola, pois um pedaço de papel estava preso em um porta-retrato de nossa família sobre a mesinha, estranho, mas a foto era linda, minha mãe estava com os cabelos presos, na frente da casa da praia, Bruna sorria do lado dela, eu e Douglas estávamos no chão, sentados sorrindo para o fotografo, que era o ex-marido de minha mãe, Carlos, a foto foi batida no dia que compramos a casa, há 3 anos.
Eu peguei o papel, que estava dobrado, abri-o e comecei a ler, a carta era de minha mãe, e dizia: Luh, eu sei que você quem vai ler isto, quero que você saiba que amo muito vocês 3, mas tive que deixa-los, não é algo fácil de entender, mas terão que seguir meu legado. Tentarei contar tudo o que for possível aqui, nesta carta, terei que ser rápida, pois aqueles homens que apareceram na tv hoje, estavam vindo me pegar.
Há mais de 15 anos, quando conheci seu pai, soube que ele era especial, eu tive medo de ele descobrir sobre mim, mas ele já sabia, ele sabia que eu era uma maga da Casa da Vida, mas ele gostava de mim, e quando você nasceu, ele me disse que essa criança(você), seria muito especial, mudaria o mundo, porque não seria simplesmente uma maga, mas sim uma semideusa, filha de Apolo, o deus sol, e descendente de um grande faraó egípcio. Sim, você é muito poderosa, e quando você nasceu, o Sacerdote-leitor Chefe, Iskandar, me baniu da Casa, com medo de que você trouxesse o fim para a Casa. Bruna, sua irmã, é uma maga também, muito poderosa, ela apenas esconde isso de vocês(ela explicará depois), e seu primo Douglas, é filho de Hefesto, deus do fogo. Ele é filho de minha irmã, Jéssica, que morreu em um incêndio causado por Douglas, por isso que ele veio morar conosco.
Aqueles magos estão chegando, e vão me levar prisioneira para a Casa da Vida, Primeiro Nomo, no Egito, ficarei bem, vocês terão de encontrar o Acampamento Meio-Sangue, em Long Island, EUA, lá terão mais informações, mostre essa carta para Bruna, ela saberá o que fazer.
Amo vocês, até breve, espero... mamãe Julia Villares.
Depois de ler isso, acho que entrei em choque, porque eu fiquei parada, olhando para o nada, e Douglas me cutucava sem sucesso para chamar a minha atenção. Eu olhei para ele, entreguei a carta e me sentei no sofá, atordoada e confusa, sem saber o que fazer.
Quando Bruna desceu e me xingou por estar cheia de areia no sofá, eu fiquei com muita raiva dela, por saber de tudo e não falar nada (acontece que: ser semideusa é maravilhoso, perigoso, mas maravilhoso, e quando li a carta, meus sonhos se realizaram, pois eu sempre tive uma ligação muito forte com a mitologia grega, desde a escola e tal, eu lia aquelas histórias de Hércules, Perseu, Jasão, e companhia e achava o máximo, por isso acreditei de cara).
–Ah, então vocês já sabem de tudo, suponho. O que é para fazer agora? Ela disse?- Bruna disse descendo a escada e pegou a folha da mão de meu primo.
– Você sabia de tudo!!! Porque não falou nada? Como assim você saberá o que fazer? Porque ela ...- Eu gritei com ela, como era maior que Bruna, eu me levantei, mas ela simplesmente movimentou a mão rapidamente e não saiu mais nada de minha boca.
–Hum, acho melhor vocês irem se arrumar, tomem um banho, façam as malas com tudo dentro e me encontrem aqui em baixo daqui a 1 hora em ponto, teremos de partir o mais rápido possível- Ela disse calmamente, abrindo a geladeira.
Eu não sabia o que fazer, não sabia quem eu era, até achei que fosse uma grande pegadinha delas, mas preferi ‘entrar na brincadeira’. Subi ao meu quarto, peguei minha mala de viagens, uma grande mala azul, com rodinhas, peguei todas as minhas roupas e joguei la dentro, realmente estava atordoada, com a palavras passando em minha mente, peguei meu notebook, meu Play Station 3, o iPad e meus livros, coloquei na mala, arrumei uma trouxa de roupas e fui tomar banho.
Meu quarto era grande até, tinha uma vista para a praia, já que a casa da frente era baixinha, tinha 2 camas, a minha e a de Bruna, um guarda-roupas e uma mesinha de cabeceira. Depois do banho, simplesmente peguei a mala e desci, Douglas já estava esperando, com a cabeça entre as mãos. Bruna estava com uma calça jeans, camiseta branca regata e os cabelos presos. Ela estava bem simples para ‘ela’. Peguei um sanduíche que estava sobre a mesa, e comi inteiro, estava com MUITA fome. Depois que terminei o lanche, minha querida irmã, fez um movimento com um pedaço de madeira, comprido e fino, disse alguma coisa, e nos conduziu para fora da casa, onde a escuridão já estava tomando conta.
A rua estava vazia, nenhum movimento naquela noite de verão, apenas uma brisa suave. Bruna girou aquela varinha e um carro surgiu do nada, uma bela Tucson preta, lustrosa, que parecia que havia passado por uma seção de enceramento.
–Como você fez isso?- perguntei atônita, de boca aberta.
–Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe. –ela me respondeu abrindo o porta malas. –Ponham as malas aqui dentro, Lú, você vai na frente comigo.
Eu me sentei e o carro era muito mais luxuoso por dentro. O painel era com detalhes de alumínio, computador de bordo, uma tela touch no centro do painel, e os assentos eram de couro. Liguei o radio, mas não estava dando coisa boa, apenas musicas chatas de funk ou sertanejo, e assim que arrancamos, Bruna desligou o radio.
–É muito fácil nos acharem se o radio estiver ligado....
–Quem nos achar? Você tem muita coisa para explicar. – Eu disse agressiva.
–De quem estamos fugindo? Porque estamos fugindo? Para onde estamos indo e que história toda é essa? – Perguntou Douglas, do banco de trás, apoiado no meu banco e um pouco bravo.
–Temos muita coisa para conversar, mas só posso dizer o suficiente, não posso contar-lhes tudo que sei, não ainda...- Bruna estava calma no volante, andava costurando o transito intenso para Tramandaí, mas ninguém nos outros carros parecia notar uma camioneta preta, em alta velocidade passando do lado.
O velocímetro marcava 150Km/h e só aumentava, o que era estranho, pois a rua estava cheia, e os outros carros não percebiam.
–Os outros carros, as outras pessoas não percebem que tem um carro em alta velocidade passando por eles? – eu perguntei intrigada.
–Não, estamos invisíveis e imperceptíveis. Nenhum mortal consegue nos enxergar ou perceber que estamos aqui, não podemos causar acidentes...- e nossa camioneta passou pelo meio de um caminhão- nem confusão. Essa Tucson é magica. – ela disse com um sorriso na cara.
–Legal, agora pode começar a contar tudo o que sabe...- Disse Douglas, meio boquiaberto.
–Ok, ok. Respondendo sua pergunta anterior Douglas, estamos fugindo da Casa da Vida, ou Per Ankh no egípcio. Um grupo muito antigo de magos que ensina magia aos descendentes de faraós, vocês sabem, eles estão atrás de nós porque nossa querida mãe quebrou uma regrinha no passado: ‘ não ter qualquer relacionamento com qualquer deus’, claro, isso aconteceu, mas pior, foi com um deus grego. A Casa expulsou ela, mas mesmo assim ela continuava maga. Eu já era uma guriazinha com poderes bem legais, conseguia tornar realidade o que desenhava, mas depois que ela foi expulsa, a Casa começou a pressionar: ela teria que entregar as crianças para os cuidados da Casa, ela recusou, mas começou a viver como mortal, gente comum, e estávamos levando uma vida boa, quando fui convidada para ir à Hogwarts, não preciso explicar o que é né?! Você cresceu- ela apontou para mim, que estava olhando para os borrões de luz que eram os prédios de Imbé- e começou a desenvolver poderes, como cura instantânea. Quando você cortou o braço, simplesmente passou a mão por cima, e o ferimento se fechou, e o Douglas veio morar com a gente depois daquele acidente na casa de vocês, em São Leopoldo.- Ela fez sinal para Douglas- você devia ter uns 4 anos no máximo, durante esse tempo, estávamos em paz, de boa, até hoje, quando aqueles dois magos que apareceram na TV vieram atrás da mãe, não sei o porque, vamos ter que descobrir. Agora a melhor parte da viagem – ela acelerou mais, o ponteiro magicamente já estava nos 220Km/h, e apontou para a ponte sobre o rio Tramandaí.
Ela acelerou, e nos tocou para a ponte, mas ela não passou, ela jogou o carro para o rio, isso mesmo, eu achei que ela queria nos matar, mas quando o carro bateu na água, não víamos água, e sim uma névoa densa, como se estivéssemos flutuando, como eu não sei, mas uma sensação de vomito me atacou.
–Bem vindos ao Duat! –Bruna disse sorridente.
O lugar não parecia muito impressionante, uma névoa negra passava por nós, e consegui ver abaixo, um rio negro. Já havia ouvido falar desse lugar antes, o Mundo Inferior egípcio. Depois de algum tempo, emergimos de novo no mundo mortal, o sol indicava que deveria ser de tarde, não muito cedo, mas o final da tarde, e estávamos em uma estrada rural, dos dois lados haviam mato alto, árvores e umas duas ou três casinhas, eu fiquei feliz por estar de volta á superfície, e acho que Douglas também, porque ele abriu a janela no máximo, respirava como um cachorro com a cabeça para fora.
–Aonde estamos?- Perguntei, baixando o vidro e sentindo o cheiro de campos de morangos.
–Aonde mais? Em Long Island, EUA, em frente da Colina Meio-Sangue!- Ela disse e apontou para um pinheiro enorme, em cima de um morro.
Ela estacionou o carro aos pés da colina, nós descemos no meio do nada quase, estava frio e minha flanela azul não ajudava muito, mas botei meu boné na cabeça, e fui pegar minha mala no porta-malas. Subimos a encosta, que não tinha nada de especial além de muita relva, e chegamos no pinheiro. Douglas parecia com frio, porque estava com um casaco fechado, de touca e batendo os dentes.
–O que estamos esperando? Andem logo, passem por esse pinheiro. – Bruna disse me empurrando para frente, onde só havia arvores e uma vegetação rasteira.
Nós andamos mais um pouco e logo a frente, vi uma depressão, e uma vista magnifica, para um vale lindo. Havia uma praia, um lago de canoagem à direita, campos de morangos no limite da propriedade, no centro havia um pequeno alojamento, com algumas casas estranhas, uma quadra de vôlei, uma fonte e de frente para a praia, uma grande construção branca. Do lado esquerdo, tinha uma outra construção arredondada, um campo com crateras, e a continuação da floresta, mas uma coisa chamava a atenção, uma grande casa de campo, branca e com detalhes azul escuro, e por todo o lugar, haviam pessoas, crianças ou adolescentes, não dava para distinguir daquela distancia, mas na varanda da casa, havia um homem, pelo menos parecia, o cara era metade homem, metade cavalo, isso mesmo, eu pisquei muitas vezes, mas quando cheguei mais perto, o cara era alto, moreno, com barba e cabelos castanhos, mas a parte inferior do corpo, era um lindo cavalo branco, com pelo escovado.
Douglas parecia mais surpreso do que eu, pois seus olhos estavam arregalados, e sua boca um pouco aberta, o centauro percebeu nosso trio chegando, e veio galopando até nós.
–Sejam bem-vindos, ao Acampamento Meio-Sangue. Eu sou Quíron, seu instrutor. –Disse-nos os o cara, que de perto, exibia um sorriso bondoso emoldurado por cabelos castanhos rebeldes.
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