Dois Lados
3 Apresento a vocês meus amigos!
Notas iniciais
Eileen estava em pé na entrada do Shopping Metrô Santa Cruz, ela havia vindo pela entrada do metrô e agora esperava seus amigos chegarem. Apesar do Ensino Médio ter acabado o grupo ainda gostava de sair junto.
Durante algum tempo Eileen ficou encarando a Casa do Pão de Queijo, ela havia chegado muito cedo e estava com fome, o cheiro e a visão do café e do pão de queijo a estavam matando. Depois de mais alguns minutos a garota viu um grupo vindo em sua direção. Um garoto de cabelos negros e cacheados que estava preso como um rabo de cavalo vinha na frente, logo atrás uma menina de cabelos e olhos castanhos vinha de braços dados com um menino com a mesma descrição exceto pelo cabelo ser bem curto e mais escuro, junto deles estava um garoto gordinho, mas ainda alto, com cabelo preto bem mais curto que do outro, e no fundo estavam os últimos três, duas meninas, uma alta de cabelos loiros e curtos e uma baixinha com o busto largo e cabelos compridos completamente negros e um menino, mais alto que o resto do grupo, de cabelos negros espetados e pele morena. Todos usavam óculos exceto pelo primeiro. Na ordem eles eram Gabe, Sarah, Roger, John, Clara, Ágatha e Fernando. Amigos que passaram três anos convivendo com Eileen, se conheciam mais do que a si mesmos, fatos que os fazia temer o que estava por vir com o próximo ano. Eles ou iam pra faculdade ou iam trabalhar, de um jeito ou de outro se separariam.
“Finalmente!” Disse Eileen se aproximando deles. “Eu estava morrendo de fome, pensei que não chegariam nunca!” Ela disse exagerando em suas frases para dar um tom cômico à conversa.
“Ficamos esperando a Ágatha como sempre.” Disse Gabe com um sorriso já abraçando Eileen que retornou o carinho. Gabe era como um pai para o grupo, ele e sua namorada Tina eram os “pais” de Sarah, Ágatha e Fernando; Sarah era “mãe” de Eileen e de Roger – Apesar dos dois namorarem; John era “irmão” de Gabe e Clara era uma “prima distante”. Todos aceitavam essa brincadeira que sempre os divertia.
“Bem, a ‘atrasilda’ deve manter seu posto até o final.” Comentou Ágatha indo cumprimentar a menina.
Saudações dadas, todos se dirigiram para a praça de alimentação, onde comeram no KFC até não aguentarem mais. Comida gordurosa que pode entupir suas veias e te dar um ataque cardíaco é a fraqueza de todo adolescente.
“Frango frito é a melhor coisa que existe.” Disse Roger com a mão na barriga.
“Mas, diga, Júlia, por que chamou a gente aqui? No face você disse que era importante e que precisava que todo mundo que foi convidado viesse.” Gabe lembrou olhando direto para a menina.
“É, eu nem trouxe a Brenda por que você disse que era só quem você tinha convidado.” Acrescentou John, se referindo a sua namorada.
No momento que Gabe falou aquilo o sorriso da menina desapareceu. Ela se levantou pegou as bandejas e jogou o lixo no lixo. Quando voltou pegou uma pasta preta que estava embaixo da mesa. Ninguém havia visto o objeto antes por isso estavam confusos quando ela o pegou. Pondo em cima da mesa, Eileen abriu a pasta e espalhou diversas fichas entregando cada uma ao seu respectivo dono. Quando os adolescentes abriram as fichas eles se surpreenderam.
“O que está acontecendo aqui?” Perguntou Sarah com os olhos arregalados.
“Nós fazemos parte de um programa criado pela ONU. Sabem os mitos? As histórias que ouvimos por aí? A maior parte deles são tão reais quanto eu e vocês. Sempre houve violência entre eles e os humanos, por isso alguns humanos mais sãos decidiram começar a dizer que aquelas criaturas eram apenas isso, mitos. Há alguns anos as criaturas voltaram a aparecer, culpa delas e dos próprios homens. A ONU decidiu que criaria equipes para diminuir a violência nas regiões mais afetadas, essas equipes são formadas pelo que chamamos de descendentes, humanos que tiveram alguém em sua família que foi uma criatura.” Eileen fez uma pausa, pra que o grupo pudesse engolir e processar a informação. Ela precisava falar mais, mas poderia esperar um pouco.
“Então você está dizendo que a gente, aqui desse grupo somos descendentes de mitos? Criaturas que fomos ensinados a não acreditar que existam, existem e somos descendentes delas? É isso?” Perguntou Gabe sem muita fé no que a menina dizia.
“Leiam as fichas, vejam se eu poderia ter todas essas informações sobre vocês. Se ainda assim não acreditarem em mim eu provarei. Me sigam.” Ela disse já se levantando e indo para a saída que dava na rua. O grupo a seguiu de perto com suas fichas na mão. Eileen tinha feito de tudo para esconder o nervosismo que estava sentindo.
Na saída havia uma limousine esperando por eles, o que realmente surpreendeu o grupo que olhava para o carro como se fosse impossível que aquilo estivesse ali. A menina-dragão foi na frente e abriu a porta pra que todos entrassem; do lado de fora a limousine era completamente preta e não mudava do lado de dentro exceto pelo assento de couro cor de creme. Quando todos se arrumaram eles perceberam que os vidros não eram transparentes, eles não sabiam para onde estavam indo nem quem estava do lado de fora sabia que eles estavam lá dentro. No caminho Eileen se recompôs e continuou a explicação.
“Fui escolhida como capitã do time por que eu não sou uma descendente, eu sou um híbrido, meu pai é um dragão e eu descobri isso há menos de um mês.” Ela disse tentando não gaguejar. “Quando nos conhecemos meu pai me contou que ele e minha mãe escolheram um nome pra mim quando eu finalmente pudesse ser eu mesma. Eles me chamaram de Eileen, que significa luz.”
“Quando... você pudesse ser você mesma?” Perguntou Sarah confusa.
Eileen decidiu que ações valem mais do que palavras, por isso sem pensar duas vezes mesmo que temesse o que viria com a sua ação repentina, ela conjurou sua energia, como seu pai havia ensinado, e desfez a magia que ela usara para se disfarçar. Quando ela terminou estava de volta em seu corpo verdadeiro, observando seus amigos com expectativa e uma sensação de que alguém estava prestes a gritar.
“Me desculpem por esconder isso de vocês, como já falei descobri há pouco tempo sobre isso. Por favor não gritem.” Ela disse abaixando a cabeça e juntando as mãos na frente do corpo como se estivesse implorando – algo que ela realmente estava fazendo.
Eileen levantou a cabeça e viu que estavam todos muito chocados para falar qualquer coisa. Ela começou a tremer por causa da ansiedade e sentiu que um ataque de pânico estava vindo. A menina começou a chorar sem saber porquê e ela se abraçou pra tentar impedir a tremedeira. Mesmo que ela não pudesse notar, naquele mesmo instante seus amigos perceberam que era a mesma amiga de sempre, sendo Júlia ou Eileen e ela estava tendo um ataque de pânico. Sarah, Ágatha e Gabe foram os primeiros a se levantar, os três a abraçaram e começaram a falar palavras de conforto pra que Eileen se acalmasse. Os outros foram abraçá-la logo depois e se arrumaram o máximo que puderam no carro que agora parecia apertado demais.
“E-Eu pensei que vocês...” Começou a menina em meio a soluços. “Vocês me rejeitariam, eu não sei mais quem eu sou, eu to com medo porque agora tenho que liderar um grupo pra proteger um país inteiro. E eu não sei como vou fazer isso.”
“Ta tudo bem.” Disse Roger.
“É, não precisa de tudo isso.” Continuou Clara.
“Sim, amorzinho, a gente ta aqui para o que der e vier.” Lembrou John.
“E quanto a quem você é, você é quem sempre foi, não é por que seu nome ou mesmo sua aparência foram mudados que você se tornou outra pessoa, continua sendo a mesma garotinha que a gente sempre amou e ama.” Disse Gabe com a voz mais reconfortante possível.
“E não se preocupe, dragões são fodas, logo você é foda!” Fernando disse com um sorriso.
“Sempre estaremos aqui pra te ajudar.” Sarah a abraçou de novo enfatizando o que disse.
“Obrigada.” Eileen se recompôs e secou as lágrimas que escorriam pelas suas bochechas. “Mas eu tenho que terminar de explicar o que está acontecendo, me desculpem por isso.” Todos acenaram com a cabeça e retornaram para onde estavam sentados.
“Bem, acho que não vai ser mais necessário.” Uma voz que apenas Eileen reconheceu falou de fora do carro. Quando o grupo saiu eles se viram dentro de um enorme salão com paredes de metal, na frente deles tinha um homem de terno e óculos escuros e atrás do homem estava o motivo do grupo estar de queixo caído. Um dragão branco ocupava metade do salão e olhava diretamente para eles.
“É, apresento a vocês Redhunter.” Disse Eileen que se inflou de orgulho por poder falar o que esperou o dia todo para falar. “Meu pai.”
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